{"id":5268,"date":"2024-12-03T15:27:05","date_gmt":"2024-12-03T18:27:05","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5268"},"modified":"2024-12-13T15:16:28","modified_gmt":"2024-12-13T18:16:28","slug":"quem-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/quem-fala\/","title":{"rendered":"Quem fala?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>S\u00e9rgio de Mattos (AE, EBP\/AMP)<\/strong><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5269\" aria-describedby=\"caption-attachment-5269\" style=\"width: 224px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5269\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/boletim_extra_004-224x300.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/boletim_extra_004-224x300.jpg 224w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/boletim_extra_004.jpg 314w\" sizes=\"auto, (max-width: 224px) 100vw, 224px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5269\" class=\"wp-caption-text\">Artista: Paul Klee<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><span style=\"font-size: 13px;\"><strong><em>Sou no lugar desde onde se vocifera que o universo \u00e9 um defeito na pureza do n\u00e3o ser\u00a0 (Paul Valery &#8211; Escritos)<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong><em>Tudo era vasto, mas ao mesmo tempo \u00edntimo e secreto (Borges &#8211; El sur)<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong>\u00a0Quem<\/strong><\/p>\n<p>Escolhi esse t\u00edtulo em um movimento de precipita\u00e7\u00e3o. Uma precipita\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo dessas jornadas: \u201cDiscursos e corpos: a causa do dizer\u201d. \u201cQuem fala?\u201d foi um modo de me dar um ponto de partida para uma trajet\u00f3ria em que eu pudesse atravessar esse t\u00edtulo. Desse modo, estabeleci tamb\u00e9m um lugar que segue a interroga\u00e7\u00e3o, um lugar vazio onde pretendo escrever: \u201cQuem fala?\u201d<\/p>\n<p>Assim, eu me lancei em fazer aparecer algo que ainda n\u00e3o sabia quando aceitei o convite. Tenho um certo gosto em proceder assim como um analisante, buscando saber, buscando sem saber, o que \u00e9 uma outra maneira de dizer que eu n\u00e3o gosto muito de procurar, porque eu prefiro achar&#8230; e quando acho&#8230;<\/p>\n<p>\u201cQuem fala?\u201d n\u00e3o \u00e9 uma pergunta qualquer. Ela toca o cora\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o sobre quem somos, especialmente quem somos quando falamos. Ela nos leva aos mist\u00e9rios do corpo falante, que \u00e9 a nossa condi\u00e7\u00e3o de animal suportado, atravessado, enredado, transmutado pela linguagem. A pergunta sugere ainda um agente: \u201cQuem\u201d ou algo que esteja em causa quando h\u00e1 um dizer. Assim, quando nos perguntamos: \u201cquem fala?\u201d, outra pergunta se coloca imediatamente: \u201cquem \u00e9 quem?\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, na era das \u201clinhas telef\u00f4nicas\u201d e seus aparelhos exclusivamente sonoros, era comum ouvirmos essa pergunta: \u201cQuem fala?\u201d ao ligarmos para algu\u00e9m ou quando atend\u00edamos a um telefonema. Pod\u00edamos ouvir tamb\u00e9m sua variante important\u00edssima: \u201cde onde est\u00e1 falando?\u201d O antigo telefone parece mais psicanal\u00edtico do que os atuais aplicativos de comunica\u00e7\u00e3o, que nos fornecem imediatamente o nome de quem liga \u2013se est\u00e1 em nossa lista de contatos \u2013 e uma imagem ou fotografia \u2013 <em>selfie \u2013 <\/em>de quem ou de onde estamos sendo chamados. Essa identifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o imediata n\u00e3o deixa de colocar uma quest\u00e3o para o psicanalista, que n\u00e3o pode deixar de se perguntar se, de fato, aquele nome e aquela imagem correspondem a quem est\u00e1 falando; em outras palavras, at\u00e9 que ponto aquele que se identifica como quem fala coincide com ele mesmo?<\/p>\n<p>O interesse por saber quem fala parece crucial nas nossas vidas. E talvez n\u00e3o seja poss\u00edvel um percurso de an\u00e1lise sem que um sujeito esteja metido nessa quest\u00e3o at\u00e9 as suas tripas. O que n\u00e3o quer dizer que devamos levar a s\u00e9rio demais quando algu\u00e9m nos procura dizendo que quer se conhecer melhor. \u00c9 preciso que se desperte um querer saber sobre seu sofrimento; ou seja, seu gozo.<\/p>\n<p>Em 1960, foi criado o famoso \u201cTelefone vermelho\u201d, uma linha de comunica\u00e7\u00e3o direta entre Washington e Moscou, para evitar conflitos entre as duas maiores pot\u00eancias mundiais durante a Guerra Fria logo ap\u00f3s a crise dos m\u00edsseis em Cuba, que quase nos levou a uma guerra nuclear. Parece que n\u00e3o houve nenhuma liga\u00e7\u00e3o, mas se tivesse havido uma chamada, saber\u00edamos exatamente quem estava do outro lado da linha; era a voz da guerra.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o era um telefone, mas uma esp\u00e9cie de fax antigo. As chamadas de voz eram consideradas muito arriscadas, o que mostra a intui\u00e7\u00e3o daqueles governantes de como a linguagem falada produz equ\u00edvocos, sombras, mal-entendidos. H\u00e1, nesse epis\u00f3dio, o que talvez seja um fato de estrutura. \u00c9 que, talvez, seja melhor nunca termos uma resposta evidente para essa pergunta: quem fala ou de onde fala? Ela parece indicar que, quando se sabe com quem se est\u00e1 falando, estamos em guerra.<\/p>\n<p>\u00c9 esclarecedor verificar que isso \u00e9 o contr\u00e1rio do que ocorre com o analisando ou com aquele que procura uma an\u00e1lise. Nesses casos, eles n\u00e3o sabem quem fala quando est\u00e3o falando. Ou, se acham que sabem, cabe ao analista, no caso das neuroses, logo dar-lhes a chance de notar que se enganavam e que falam de outra coisa.<\/p>\n<p><strong>Onde<\/strong><\/p>\n<p>O dispositivo anal\u00edtico \u00e9 feito para socorrer aquele que n\u00e3o sabe quem fala e que descobre que tudo o que diz pode querer dizer outra coisa, que diz do sujeito, mas vindo de um outro lugar em si mesmo. \u00c9 a isso que chamamos enuncia\u00e7\u00e3o. A enuncia\u00e7\u00e3o depende do lugar desde onde se diz alguma coisa e do momento em que foi dito. Por isso, \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, como disse Miller, dizer: digo e repito! Porque, ao dizer, as coisas se modificam e quem disse algo desde um lugar em um outro momento pode dizer outra coisa, e, assim, aquele que disse algo parece desaparecer em seguida de diz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, dessa perspectiva, gira em torno do que desaparece, mas que deixa um tra\u00e7o desse desaparecimento, como o caracol que deixa seu rastro enquanto anda. Tra\u00e7o sempre fugidio e por n\u00f3s sempre procurado. Desse modo, para a psican\u00e1lise, todo ato autodeclarativo \u00e9 suspeito. Devemos tom\u00e1-lo como um esfor\u00e7o de poesia; ou seja, a princ\u00edpio, em uma psican\u00e1lise, considerada em toda sua pot\u00eancia, o psicanalista recusa o simples dito do analisante, n\u00e3o validando simplesmente sua cren\u00e7a no que \u00e9 e no que diz.<\/p>\n<p><strong>Falar do lugar de um samurai ou de um fusquinha<\/strong><\/p>\n<p>Em uma an\u00e1lise, portanto, as coisas caminham em outra dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso localizar quem fala em n\u00f3s, ou, mais precisamente, de onde falamos.<\/p>\n<p>Olhando para o passado, com os instrumentos de leitura que aprendi da experi\u00eancia de minhas an\u00e1lises, posso dizer que as condi\u00e7\u00f5es e acontecimentos que se escreveram em minha exist\u00eancia geraram em mim uma tend\u00eancia ao apagamento<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn1\">[1]<\/a>. Os devaneios, que, como disse em outros textos, eu acalentava, onde eu fantasiava que teria como meu epit\u00e1fio: tornar-me cada vez mais silencioso e apagado, revelam a imagem convincente dessa situa\u00e7\u00e3o. Como contraponto dessa aspira\u00e7\u00e3o em ser ningu\u00e9m, havia em meu fantasma fundamental uma esp\u00e9cie de <em>persona,<\/em> de identidade, um papel privilegiado que guiava minha rela\u00e7\u00e3o com a realidade: ser um salvador, cuja figura paradigm\u00e1tica era a de um samurai, o guerreiro ideal, culto, a servi\u00e7o do Outro, pronto para dar sua vida pelos seus prop\u00f3sitos. Se busquei ser algu\u00e9m em minha vida, foi no lugar do samurai que me inspirei e onde me identifiquei. Esse foi certamente o modelo que condensava atributos, expectativas, anseios, um modo de gozo e uma maneira de montar meu corpo; melhor dizendo, arm\u00e1-lo e am\u00e1-lo. Estar em prontid\u00e3o, alerta, com um corpo \u00e1gil, flex\u00edvel, cheio de energia e mortal. Posso dizer ent\u00e3o que eu falava desde o lugar do samurai.<\/p>\n<p>Mas, ao longo da an\u00e1lise, me descobri tamb\u00e9m em um outro modo de ser, com o qual eu era algu\u00e9m sem d\u00favida menos charmoso para mim mesmo e bem menos ador\u00e1vel aos meus pr\u00f3prios olhos. Em um sonho que fa\u00e7o j\u00e1 me encaminhando para o final de minha an\u00e1lise, apare\u00e7o representado como o objeto que salvaria o Outro de sua incompletude e inconsist\u00eancia na imagem de um Volkswagen. O Fusca era um objeto de consumo extremamente desejado pela minha m\u00e3e e foi o motivo de um desentendimento entre meus pais, que presenciei e que culminou na cena traum\u00e1tica, na origem da minha neurose infantil. Esse sonho revelou, de forma c\u00f4mica, outro lugar desde onde eu falava, efeito c\u00f4mico que teve consequ\u00eancias para que, em seguida, ap\u00f3s uma interpreta\u00e7\u00e3o da analista, eu me afastasse desse lugar de enuncia\u00e7\u00e3o. O c\u00f4mico surge quando o objeto de meu fantasma aparece revestido com a imagem do Volkswagen e me situa como sendo \u201cO Fusca\u201d, fazendo com que esse objeto, at\u00e9 ent\u00e3o revestido de um brilho f\u00e1lico de alto valor sacrificial \u2013 vale lembrar que meu sobrenome de origem materno \u00e9 Cordeiro \u2013, sofre um rebaixamento ao transforma-se em o-fusca, ou seja, nada mais que ser um fusquinha. Fusquinha apagado, ca\u00eddo, que na cena do sonho aparece no fundo de um buraco, obturando-o, buraco no qual, desde sua borda, eu me via duplicado, ao mesmo tempo preso dentro do autom\u00f3vel e fora dele, rindo do rid\u00edculo da situa\u00e7\u00e3o.\u00a0 A interpreta\u00e7\u00e3o da analista \u2013 \u201cum fusca por um filho\u201d \u2013 remetia ao meu lugar de objeto de troca, porque, no momento em que minha m\u00e3e ganha o Fusca de meu av\u00f4, vou morar com meus av\u00f3s.<\/p>\n<p>Reduzo ent\u00e3o, para efeito de transmiss\u00e3o, os lugares de minha enuncia\u00e7\u00e3o a duas vozes principais que davam as condi\u00e7\u00f5es de contorno, o lugar de fundo de meus enunciados, ou seja, do que dizia. Em outras palavras, do ponto de vista do inconsciente, minha identidade, suposta \u00e0quele que falava, se dizia do meu fantasma ou do objeto. De modo que, se algu\u00e9m me perguntasse \u201cQuem fala?\u201d, a resposta mais verdadeira que eu poderia dar seria: um samurai (Ossu!), ou, aqui fala um fusquinha (bi bibi). A enuncia\u00e7\u00e3o e o dizer s\u00e3o, na psican\u00e1lise, o lugar que visamos para recolher no dep\u00f3sito dos efeitos os tra\u00e7os, operando assim uma redu\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio ao fantasma fundamental (esfolia\u00e7\u00e3o) e a redu\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico a um significante sozinho, um tra\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>O que quer dizer um lugar: lugar de fala<\/strong><\/p>\n<p>V\u00ea-se, no fragmento de an\u00e1lise que expus acima, como uma esp\u00e9cie de identidade do sujeito, a localiza\u00e7\u00e3o do lugar de onde fala, foi objeto de um longo trabalho pela via do discurso anal\u00edtico; trabalho de decifra\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o, nomea\u00e7\u00e3o. Perspectiva que se op\u00f5e ao que observamos na atualidade, quando uma certa recusa de subjetivar esse tra\u00e7o faz com que se coloque a cargo dos la\u00e7os sociais a produ\u00e7\u00e3o de uma resposta pela via do chamado lugar de fala: me diga de onde tu falas e te direi quem \u00e9s. Ou, ainda, te direi quem fala e se tens o direito de aqui falar ou n\u00e3o. O lugar de fala, ao inv\u00e9s de ser o enigma que \u00e9 para a psican\u00e1lise a enuncia\u00e7\u00e3o, torna-se a assinatura do sujeito que n\u00e3o permite interpreta\u00e7\u00f5es. Os indiv\u00edduos a\u00ed localizados encontram-se como enclausurados em si mesmos, petrificados em uma identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, em seu ensino, Lacan desloca-se cada vez mais do \u201cquem\u201d para o \u201conde\u201d, mas trata-se de um lugar onde o que se escreve determina um lugar de maneira contingente e para cada um.<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n<p><strong>Quando um tra\u00e7o fala da estranheza<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 neste sentido que caminha uma an\u00e1lise. J\u00e1 avan\u00e7ado em meu percurso, um incidente se chocou com os arranjos que eu vinha fazendo. Esse choque com o real lan\u00e7ou-me em um per\u00edodo de grande desola\u00e7\u00e3o. Sem minha antiga armadura de samurai, e todo meu investimento anal\u00edtico atra\u00eddo por um significante solit\u00e1rio e assem\u00e2ntico, \u201capagar\u201d, fiquei em peda\u00e7os e me senti desconectado do mundo, onde tudo se tornou estranho. Experimentei um bloqueio para associar e uma aus\u00eancia de sonhos que nunca havia me acontecido. Vivi ainda uma experi\u00eancia de despersonaliza\u00e7\u00e3o significativa, incidindo na imagem de meu corpo, o que, digamos assim, aprofundava o desconhecimento de quem eu era.<\/p>\n<p>O mundo n\u00e3o me parecia mais o mesmo. Tinha a impress\u00e3o de ter perdido a forma humana, eu e todo mundo, especialmente as mulheres. Um aspecto dessa estranheza salientava-se no campo visual. Algo que me vinha com um certo desgosto: imaginar as pessoas como um tubo entre a boca e o &#8230; Havia tamb\u00e9m uma particularidade estranhamente marcante nessa imagem: as sobrancelhas. A estranheza devia-se \u00e0 impress\u00e3o de que esse tra\u00e7o peludo estava vivo como um animal alien\u00edgena, desconhecido e com vida pr\u00f3pria. Por que algo t\u00e3o familiar como uma sobrancelha ganha, nesse momento, esse tom perturbador de uma inquietante estranheza?<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo X do Semin\u00e1rio 23<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn3\">[3]<\/a>, Lacan concebe a experi\u00eancia de estranheza do corpo como efeito da separa\u00e7\u00e3o dos registros I e S; ou seja, que eles retornam ao seu estado de independ\u00eancia original no caso de ocorrer uma disjun\u00e7\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito do significante, quando h\u00e1 disjun\u00e7\u00e3o, o corpo, que n\u00e3o passa de um m\u00f3vel que carregamos amarrado ao sujeito com a ajuda do simb\u00f3lico, ganha vida pr\u00f3pria, pois o corpo \u00e9 de outra ordem, da ordem da coes\u00e3o do imagin\u00e1rio. Por isso, ele \u00e9 um estranho ao simb\u00f3lico enquanto sistema de significantes e produ\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00f5es. Esse car\u00e1ter de estranheza, que \u00e9 normalmente velado pelo enodamento borromeano, se mostra ent\u00e3o quando abalado, e o corpo, como imagin\u00e1rio, desligado do simb\u00f3lico, segue seus pr\u00f3prios caminhos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Retorno, ent\u00e3o, \u00e0 pergunta: por que essa curva quase discreta em nossos rostos \u2013 as sobrancelhas \u2013 torna-se nessa ocasi\u00e3o uma inquietante estranheza? Por que \u00e9 que esse tra\u00e7o do corpo incorpora a imagem de uma vida incompreens\u00edvel, alien\u00edgena? Arrisco-me a dizer que \u00e9 porque as sobrancelhas tornam-se a imagem de um tra\u00e7o dessa desconex\u00e3o, do tra\u00e7o que sobra da vida enquanto tal, da vida como real, mas penetrada pelo imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ao olhar para tr\u00e1s, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida familiar enquadrada pelo meu fantasma, posso dizer que eu vivia uma vida sem ver a vida; ou melhor, sem ver que h\u00e1 uma vida que vive de si mesma e da qual participo. Afinal, como diz Lacan, n\u00f3s, enquanto organismos vivos, n\u00e3o passamos de ap\u00eandices da vida incompreens\u00edvel, como seus tubos viventes<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn4\">[4]<\/a>. Hoje, penso que a estranheza se mostra quando o real da vida irrompe e escreve seu tra\u00e7o no tecido imagin\u00e1rio do corpo como um enigma. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que uma das maneiras de o estranho aparecer nos textos de Freud seja justamente quando um objeto inanimado aparece vivo. Penso que, nessas ocasi\u00f5es, somos n\u00f3s mesmos que, estranhamente, nos percebemos como parte dessa imensa estranheza de sermos somente ap\u00eandices dessa grandeza desconhecida do vivo que existe. Hoje, eu me pergunto se, sem essa estranheza, pode haver alguma evid\u00eancia subjetiva para n\u00f3s mesmos de estarmos vivos. Nessa paisagem, parece-me que a estranheza \u00e9 um sinal de que a vida se colocou fora de si e aparece como existente, especialmente naquele que pode tanto apag\u00e1-la, defendendo-se dela como s\u00f3 o neur\u00f3tico sabe fazer, quanto naquele que pode propag\u00e1-la \u2013 talvez o psicanalista.<\/p>\n<p>Podemos dizer que aqui falou esse corpo do lugar do estranho, deixando-me frente a frente com um tra\u00e7o que escrevia o corpo em uma imagem de um outro mundo, tra\u00e7o do fundo enigm\u00e1tico da enuncia\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Balbucios\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Durante esse estranho cen\u00e1rio, intensifiquei minha an\u00e1lise at\u00e9 que surgiu uma \u00fanica imagem em um sonho, o primeiro depois de muitos meses: \u201cCaminho num deserto e topo com um toco\u201d. Durante sess\u00f5es, busco, com muita dificuldade, associar com as palavras \u201cdeserto\u201d e \u201ctoco\u201d, mas n\u00e3o tenho sucesso. O que consigo \u00e9 fazer um ajuntamento que tem conex\u00f5es entre si por asson\u00e2ncia, em uma meton\u00edmia: toco, toca (como esconderijo, buraco), toca (de tocar bateria), tocar de ir adiante, oco, oca, osso, soco (minha pr\u00e1tica do Karat\u00e9), av\u00f4, av\u00f3, (com quem vivi por muitos anos) con\u00f3 (como eu chamava o refrigerante guaran\u00e1, meu \u00fanico alimento na inf\u00e2ncia durante o per\u00edodo de minha anorexia infantil), deserto, d\u00ea certo, des-ser (deixar de ser).<\/p>\n<p>Com o trabalho anal\u00edtico, abrem-se duas perspectivas. Apesar da aridez de associa\u00e7\u00f5es, o toco se faz um marco e uma orienta\u00e7\u00e3o: tocar adiante. Trata-se, portanto, de uma solu\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica: \u00e9 isso, caminhe! Podemos dizer ent\u00e3o que, at\u00e9 esse ponto, respondi ao meu desaparecimento por essas figuras: a do samurai no fantasma, a de um fusca como objeto em jogo no sintoma e com esse toco silencioso, do qual s\u00f3 tenho uma imagem. Talvez, nesse \u00faltimo caso, estejamos diante de uma imagem do real, onde o real n\u00e3o fala a n\u00e3o ser por meio de uma imagem. \u00c9 isso! Ele diz, como sugere Miller, parodiando a prosopopeia lacaniana inspirada em Erasmo, em seu elogio \u00e0 loucura: \u201ceu, o real (silencioso), falo por uma imagem! Tu \u00e9s um toco no deserto do gozo\u201d.<\/p>\n<p><strong>O lugar do mais ningu\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p>O mais ningu\u00e9m, sugere Miller, \u00e9 um novo personagem no <em>casting<\/em> lacaniano. Ele \u00e9 o porta-voz de Lacan<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn5\">[5]<\/a>. De qual voz? Ele \u00e9 o porta-voz da vocifera\u00e7\u00e3o. Miller sugere que Lacan havia se plantado nesse lugar \u00e0 espera de desenvolver suas consequ\u00eancias. Vou precisar me estender um pouco nessa no\u00e7\u00e3o de mais ningu\u00e9m, <em>plus personne<\/em>, em fun\u00e7\u00e3o da sua complexidade. Ela se planta no escrito \u201cA carta roubada\u201d, a partir da palavra \u201cnulilocidade\u201d, criada pelo Bispo Wilkins, e se desenvolve em outras ocasi\u00f5es, especialmente nas observa\u00e7\u00f5es que faz a Daniel Lagache.<\/p>\n<p>Anos depois, Lacan retorna a essa express\u00e3o no Semin\u00e1rio \u201cDe um Outro ao outro\u201d, onde vai situar esse lugar como uma clareira aberta na mata das puls\u00f5es. \u00c9 uma imagem! Imaginem! A mata pegando fogo e tem uma clareira, um vazio de vegeta\u00e7\u00e3o onde o fogo das puls\u00f5es n\u00e3o penetra. Esse \u00e9 um modo de controlar o fogo que usam as brigadas contra inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma imagem po\u00e9tica de Lacan e ao mesmo tempo um \u201cbig bang\u201d lacaniano. Porque a ideia de Lacan \u00e9 situar a\u00ed o lugar do nascimento do sujeito. Temos, ent\u00e3o, uma temporalidade; primeiramente, h\u00e1 um campo de gozo inorganizado, a mata das puls\u00f5es, e, em seguida, o significante incide nessa mata e cria essa clareira: \u201co significante apaga a coisa\u201d, ele barra, esvazia algo desse gozo primordial, (G \u00ba $), e assim, diz Lacan, se produz uma aus\u00eancia de sujeito, mas n\u00e3o que esse sujeito j\u00e1 estivesse l\u00e1, mas porque ele surge depois como uma \u201cpessoa\u201d, como um sujeito represent\u00e1vel por um par de significantes. Verifica-se, <em>a posteriori<\/em>, por uma retroa\u00e7\u00e3o, que na clareira n\u00e3o havia ningu\u00e9m. Esse ningu\u00e9m \u00e9, assim, o sujeito como vazio, o vazio que incita a busca de um outro significante. Assim, o mais ningu\u00e9m \u00e9 o sujeito produzido pela incid\u00eancia da matriz elementar do significante: o binarismo entre o significante e sua aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Lugar que Lacan escreve como uma defesa primordial, que consiste essencialmente em n\u00e3o estar ali. Essa \u00e9 a forma primordial de defesa frente ao gozo: estar l\u00e1 apenas sob a forma de uma aus\u00eancia. \u00c9 nesse espa\u00e7o que se organizar no meio do fogo que poder\u00e3o inscrever-se, em seguida, outros que engendrar\u00e3o o sujeito propriamente dito, aquele representado entre um significante e outro.<\/p>\n<p>O mais ningu\u00e9m \u00e9 uma imagina\u00e7\u00e3o lacaniana importante para pensar a organiza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria do sistema ps\u00edquico. \u00c9 uma suposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para pensar essa origem. \u00c9 uma fic\u00e7\u00e3o no sentido de constituir um artif\u00edcio para captar algo da nossa experi\u00eancia, onde temos a no\u00e7\u00e3o de que algo como um sujeito se autodeclara \u201ceu\u201d, um si mesmo, que emerge de algum estado ou arranjo. \u00c9 uma fic\u00e7\u00e3o importante, se n\u00e3o quisermos apelar para alguma subst\u00e2ncia pensante ou colocar nesse lugar um Ser Supremo Criador, que faz surgir esse sujeito em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Essa \u00e9, portanto, uma express\u00e3o que me parece ir\u00f4nica. O mais ningu\u00e9m \u00e9 designado assim na medida em que n\u00e3o colocamos a\u00ed o Criador, ou seja, onde havia algu\u00e9m criador. Agora, nesse esquema, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 nem mesmo um criador, mas uma cria\u00e7\u00e3o que vem do nada. O mais ningu\u00e9m se refere \u00e0 retirada do criador do lugar da cria\u00e7\u00e3o do sujeito, mas tamb\u00e9m situa nesse vazio o lugar onde instalamos, em uma an\u00e1lise, o sujeito suposto saber. A ironia consiste em fazer esse Outro, o Criador, deixar de existir, mas tamb\u00e9m usar esse lugar como um artif\u00edcio, como propuls\u00e3o para a viagem de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Assim, o mais ningu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m especial, diferente, ele \u00e9 um lugar vazio de pessoa. Nesse vazio h\u00e1, entretanto, um chamado \u00e0 subjetiva\u00e7\u00e3o desse vazio, o que nos remete ao interesse de Lacan pelo Zen e por essa forma de express\u00e3o que ganha uma grande import\u00e2ncia, que \u00e9 a vocifera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O homem verdadeiro sem situa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Depois desse percurso um pouco \u00e1rido, vou dar uma voltinha pelo oriente de Lacan, por algo que tem a ver com o que estamos falando. Vou apresentar a voc\u00eas o chamado homem sem situa\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 certamente mais um dos antecedentes do mais ningu\u00e9m e \u00e9 dele o melhor exemplo da vocifera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos dizer que, se pergunt\u00e1ssemos a esse homem sem situa\u00e7\u00e3o \u201cquem fala?\u201d, ele certamente nos responderia com um grito, um Kh\u00e2t, ou com uma paulada. Lacan e Miller se interessaram por esse tipo de homem um pouco louco<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn6\">[6]<\/a>, porque seu modo de responder, que n\u00e3o \u00e9 um enunciado nem um dito, interessa ao psicanalista. Lacan conheceu esse tipo atrav\u00e9s de um livro traduzido por seu professor de l\u00ednguas orientais, Paul Demieville, \u201cAs entrevistas de Lin-Tzi\u201d <a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn7\">[7]<\/a>. H\u00e1 nele uma passagem assim:<\/p>\n<blockquote><p>Lin-Tzi entra na sala e diz: \u201cSobre seus conglomerados de carne vermelha; h\u00e1 um homem verdadeiro sem situa\u00e7\u00e3o\u201d. Ent\u00e3o um monge se destaca e pergunta: \u201cO que \u00e9 um homem verdadeiro sem situa\u00e7\u00e3o?\u201d. Lin-Tzi agarra o monge o imobiliza e grita: \u201cDiga voc\u00ea mesmo! Diga!\u201d O mestre o larga e diz: \u201cO homem verdadeiro sem situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um n\u00e3o sei que pau de limpar merda!\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa \u00e9 considerada a quintess\u00eancia do pensamento de Lin-Tzi. A resposta quer dizer que a defini\u00e7\u00e3o do homem verdadeiro escapa a toda defini\u00e7\u00e3o. O Buda mesmo, como indefin\u00edvel, \u00e9 chamado no budismo de bast\u00e3o de limpar merda. O homem sem situa\u00e7\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m fora dos lugares determinados, sem caracter\u00edsticas particulares. O \u201cn\u00e3o sei que pau de limpar merda\u201d representa esse resto fora dos t\u00edtulos, predicados, qualifica\u00e7\u00f5es, ou seja, fora de qualquer coisa que possa identific\u00e1-lo no interior de um sistema simb\u00f3lico. Ao n\u00e3o estar identificado com nenhum predicado do sistema simb\u00f3lico, ele fala de lugar nenhum.<\/p>\n<p>Nas entrevistas dos mestres do Zen, comenta Miller<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn8\">[8]<\/a>, mais do que o que voc\u00ea responde, o que importa \u00e9 responder sem hesitar. Se hesitar ganha um golpe de bast\u00e3o na cabe\u00e7a. Golpe do significante sem sentido no corpo, aquele que esvazia a mata do gozo, esvaziando o sujeito do pensamento que produziu sua hesita\u00e7\u00e3o. No Zen, trata-se de suprimir qualquer delibera\u00e7\u00e3o, premedita\u00e7\u00e3o e d\u00favida. O ideal \u00e9 que se responda instantaneamente, como um rel\u00e2mpago, ejetado como um jato s\u00fabito das profundezas do corpo no instante. Nessa aus\u00eancia de pensamentos e instantaneidade, comenta Miller que ocorre ent\u00e3o uma adequa\u00e7\u00e3o de si a si mesmo, fazendo-nos sair de toda identidade.<\/p>\n<p>A vocifera\u00e7\u00e3o, portanto, supera a divis\u00e3o entre o enunciado e a enuncia\u00e7\u00e3o, onde uma parte de quem fala resta separada do que foi dito. A vocifera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se afasta de quem a pronuncia. E essa instantaneidade e condu\u00e7\u00e3o fora dos emaranhados do significante ganham valor em v\u00e1rios aspectos. Por exemplo: um analista deve escutar no que se enuncia, da boca do paciente, o que se vocifera do lugar do mais ningu\u00e9m. Um ensino da psican\u00e1lise parece se fazer a partir tamb\u00e9m desse lugar. \u00c9 ele que inaugura a posi\u00e7\u00e3o do analista, que n\u00e3o consiste em tocar o significante e em interpretar, sen\u00e3o tamb\u00e9m em apontar de entrada e verificar que o sujeito est\u00e1 ligado ao gozo, ao corpo.<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Na quest\u00e3o do corpo, o estabelecimento do mais ningu\u00e9m corresponde a uma valoriza\u00e7\u00e3o da materialidade do corpo.\u00a0 O ser falante passa a ser um <em>bavard<\/em> (falador), de <em>bave<\/em>, o falador que respinga saliva quando fala, que baba, o que presentifica claramente a dimens\u00e3o material do corpo em jogo, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a vibra\u00e7\u00e3o do som que toca o corpo, mas seus l\u00edquidos espergidos ou escorridos.\u00a0 E o analista torna-se um <em>rethor<strong>, <\/strong><\/em>aquele que p\u00f5e na reta certa, que retifica, o ret\u00f3rico, aquele que aponta a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o e o gozo como uma secre\u00e7\u00e3o corporal daquele que fala. Parece-me que esse rethor seja uma vers\u00e3o atualizada do mais ningu\u00e9m, onde para al\u00e9m do peso da voz h\u00e1 algo a mais nessas secre\u00e7\u00f5es de gozo do corpo, que sugerem alguma outra possibilidade de como pegar a coisa com o corpo.<\/p>\n<p>Isso nos leva de volta \u00e0 conclus\u00e3o da minha an\u00e1lise, que n\u00e3o cabe desenvolver aqui e est\u00e1 escrita em outros textos. Mas testemunho que \u00e9 como se tivesse experimentado o que Lacan chamou de uma subjetiva\u00e7\u00e3o do vazio, no meu caso, uma passagem do nada ao vazio. Por isso chamei meu primeiro testemunho de \u201cnada como um vazio\u201d, um vazio que vivificou meu corpo.<\/p>\n<p>Quem fala? Confesso que de certo modo estou procurando quem foi aquele que encontrei no \u00faltimo dia de minha an\u00e1lise, mas como disse no come\u00e7o, o que eu quero mesmo \u00e9 ach\u00e1-lo nas conting\u00eancias. Abro-me para reencontrar aquele que experimentei como uma identidade vazia de mim, como corpo desinflamado de significa\u00e7\u00f5es, como uma presen\u00e7a separada do pensamento, n\u00e3o que n\u00e3o houvesse pensamentos, mas sim que eu n\u00e3o estava aprisionado naquele bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1, n\u00e3o aprisionado em um discurso. Algo, no ato da analista, abriu as portas do meu corpo para um espa\u00e7o que eu n\u00e3o conhecia, como um lugar de satisfa\u00e7\u00e3o e contentamento, que eu tamb\u00e9m n\u00e3o conhecia, mas que at\u00e9 hoje estou tentando falar dele.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o sabemos como dizer usamos, muitas vezes, um poema, algo que nos ajude. Ent\u00e3o recorro agora a uma frase de Jorge Lu\u00eds Borges no poema \u201cO sul\u201d. Talvez seja uma conting\u00eancia. \u00c9 a frase:<\/p>\n<blockquote><p><em>Tudo era vasto, mas ao mesmo tempo \u00edntimo e secreto<br \/>\n<\/em>Posso dizer que vivi, o que deixou em mim marcas profundas, um vazio incorporado, a verifica\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, mas pode haver uma nova rela\u00e7\u00e3o com a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o que consiste em um novo la\u00e7o com o corpo, em uma esp\u00e9cie de er\u00f3tica do espa\u00e7o.<br \/>\nVou terminar com uma pequena hist\u00f3ria justamente sobre o espa\u00e7o:<br \/>\nShigong pergunta ao jovem monge Xitang Zizhang: voc\u00ea sabe como agarrar o espa\u00e7o?<br \/>\nO jovem Zhizang diz: \u201cSim, eu sei\u201d.<br \/>\nShigong perguntou: \u201cComo voc\u00ea agarra o espa\u00e7o\u201d?<br \/>\nZhizang acariciou o ar com sua m\u00e3o.<br \/>\nShigong disse. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe agarrar o espa\u00e7o\u201d.<br \/>\nZhizang perguntou: \u201cComo agarr\u00e1-lo, meu irm\u00e3o mais velho?\u201d<br \/>\nShigong agarrou o nariz de seu irm\u00e3o mais novo e puxou. Devemos entender que ele enfiou o dedo na narina do irm\u00e3o mais novo antes de pux\u00e1-lo.<br \/>\nDe qualquer forma, Zhizang gritou de dor: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 me matando! Voc\u00ea tentou arrancar meu nariz!<br \/>\nShigong disse: \u201cAgora voc\u00ea pode agarrar o espa\u00e7o\u201d. <a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn10\">[10]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Espero que voc\u00eas possam tamb\u00e9m agarrar alguma coisa do analista, que, como se diz, n\u00e3o sabemos quem \u00e9, mas que tem um corpo que envolve um vazio de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nota 1<\/strong><\/p>\n<p>O elemento original dessa categoria \u00e9 o termo nulilocidade<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn11\">[11]<\/a>, criado pelo bispo John Wilkens<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn12\">[12]<\/a>, como a qualidade daquilo que n\u00e3o est\u00e1 em lugar nenhum, e citado pela primeira vez por Lacan em seu escrito sobre o conto de Poe, \u201cA carta roubada\u201d, ao se referir \u00e0 propriedade que teria uma carta que desaparece. Aparece em uma nota de p\u00e9 de p\u00e1gina desse mesmo escrito, quando Lacan se refere a Jorge Lu\u00eds Borges e seu interesse pelo espa\u00e7o. Ele ganha uma vers\u00e3o nova no Semin\u00e1rio VI, ao se referir a M. Klein quando pondera que ela desconheceu o espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre as duas portas de seu consult\u00f3rio no tratamento de \u201cDick\u201d, que Lacan associa \u00e0 fun\u00e7\u00e3o que tem um espa\u00e7o vazio entre a aldeia e a mata, o \u201c<em>no man\u2019s land<\/em>\u201d&#8230; E, tamb\u00e9m, ningu\u00e9m aparece quando se refere a Ulisses em suas ast\u00facias contra o Ciclope Polifeno \u2013 belo nome para o inconsciente, diz Lacan, j\u00e1 que se refere a um ser selvagem fora de qualquer ordenamento simb\u00f3lico. Ele se refere ao epis\u00f3dio em que Ulisses engana Polifeno para se livrar de ser comido por ele equivocando o nome com o qual era conhecido por suas fa\u00e7anhas, \u201cOdisseu\u201d, dizendo ao Ciclope, servindo-se de um equ\u00edvoco da l\u00edngua grega, que se chama \u201c<em>Oudeis<\/em>\u201d-\u00a0 \u201cOdisseu, Oudeis\u201d, que no grego quer dizer: ningu\u00e9m. Santo equ\u00edvoco, diria Batman!<\/p>\n<p><strong>\u00a0Nota 2<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Quer dizer que rectus, a palavra latina (reta?) se equivoca com a retifica\u00e7\u00e3o, e ainda que ao rh\u00e9tifie (retificar) ele rectifie (p\u00f5e na reta), p\u00f5e na reta certa. Nos levando a uma profus\u00e3o de equ\u00edvocos: mestre da ret\u00f3rica, orador, escritor de discursos enf\u00e1ticos, de frases de efeito. Parece-me que podemos extrair desse equ\u00edvoco que o analista se faz de reta infinita, ou seja, que atravessa o vazio (do toro) e mant\u00e9m aberta a alma da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftn13\">[13]<\/a>. Isto \u00e9 colocar na reta certa, na dire\u00e7\u00e3o certa, a dire\u00e7\u00e3o da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. Desde onde podemos sair da realidade emoldurada do fantasma e termos acesso a um pouco mais de real.<\/p>\n<p><strong>Nota 3<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Ent\u00e3o, quem fala? O curso que tomamos nos trouxe, a partir de minha an\u00e1lise, a pensar que o fantasma falava como, ou do lugar de um samurai, que no sintoma falava o fusca (imagem do objeto nada), desde onde falava do lugar da enuncia\u00e7\u00e3o. Falou tamb\u00e9m enquanto imagem um toco silencioso e sozinho no deserto, a fala de um corpo estranho que colocava na base de minha experi\u00eancia uma pergunta: o que \u00e9 isso? Desse modo, n\u00e3o se trata tanto mais de saber quem \u00e9, ou de onde \u00e9, <em>made<\/em> in samurai, <em>made <\/em>in fusca, mas sim: o que \u00e9 isso? Aqui se trata da voz do deserto.<\/p>\n<p><strong>Nota 4<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A vocifera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um enunciado, mas um enunciado est\u00e1 subordinado \u00e0 matriz bin\u00e1ria do enunciado e da enuncia\u00e7\u00e3o, que formam um par. Miller coloca a vocifera\u00e7\u00e3o como um terceiro termo depois da proposi\u00e7\u00e3o e do enunciado. A vocifera\u00e7\u00e3o supera a divis\u00e3o entre o enunciado e a enuncia\u00e7\u00e3o, onde o sujeito fica suspendido, ou dividido, onde uma parte de quem fala resta separada do que foi dito. A vocifera\u00e7\u00e3o n\u00e3o suspende o sujeito, n\u00e3o se afasta de quem a pronuncia, mesmo que n\u00e3o haja algu\u00e9m, n\u00e3o se afasta de onde se pronuncia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Nota 5<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A consequ\u00eancia desta nova situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um enrijecimento identificat\u00f3rio, dif\u00edcil de manejar na cl\u00ednica atual; tais discursividades se transformam em uma chave de leitura dura da realidade, sem abertura para interpreta\u00e7\u00e3o. Creio podermos ver nessas situa\u00e7\u00f5es uma face da manifesta\u00e7\u00e3o das neuroses na atualidade, na medida em que a neurose pode ser entendida como a classe de sujeitos \u201cinfur\u00e1veis\u201d. Cabe ponderar que n\u00e3o se trata de desconsiderar a import\u00e2ncia da experi\u00eancia subjetiva de um sujeito vivida no corpo em um lugar dado, verificamos a import\u00e2ncia da experi\u00eancia no valor que \u00e9 dado para a experi\u00eancia do Passe. O questionamento do uso atual do lugar da fala recai, sobretudo, no empobrecimento da subjetiva\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os singulares, e na cren\u00e7a de que tal chave de leitura do mundo seja toda, absoluta e completamente determinista.<\/p>\n<h6>Revis\u00e3o: Paula Lermen e Val\u00e9ria Beatriz Ara\u00fajo<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref1\">[1]<\/a>Um acontecimento de corpo precoce na causa da minha anorexia infantil \u2013 onde se faz maci\u00e7o uso do vazio como defesa -, o significante do meu sinthoma, a-pagar, e o objeto nada, se destacam nesse contexto.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref2\">[2]<\/a>Um ponto de virada crucial \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o dos discursos onde a rigor n\u00e3o haveria mais sentido perguntarmos quem fala, mas sim, de onde se fala. Se fala como mestre? Como hist\u00e9rica? Como um universit\u00e1rio ou como um analista?\u00a0 \u00c9 no discurso do analista que o lugar permite liberar o sujeito da domina\u00e7\u00e3o de outros modos de la\u00e7o social.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref3\">[3]<\/a>Lacan, J. <em>Semin\u00e1rio 23: O Sinthome.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 130.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref4\">[4]<\/a>Na esteira de Freud, que separa o \u201csoma\u201d dos indiv\u00edduos que o encarnam.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref5\">[5]<\/a>MILLER, J-A. Todo mundo \u00e9 louco. In: <em>Scilicet: Um real para o s\u00e9culo XXI<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2014, p. 332.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref6\">[6]<\/a>MILLER, J-A. <em>Confer\u00eancia de Madrid.<\/em>\u00a0 Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2798&amp;intIdiomaArticulo=9<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref7\">[7]<\/a> DEMI\u00c9VILLE, P. <em>Entretiens de Lin-Tsi<\/em>. Paris: Librairie Fayard, 1972.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref8\">[8]<\/a>MILLER, J-A. <em>La question de Madrid<\/em>. Dispon\u00edvel em : https:\/\/jonathanleroy.be\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/1990-1991-La-question-de-Madrid-JA-Miller.pdf<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref9\">[9]<\/a>MILLER, J-A. Todo mundo \u00e9 louco. In: <em>Scilicet: Um real para o s\u00e9culo XXI<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2014, p. 335.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref10\">[10]<\/a>LEIGHTON, Taigen Dan. Doge\u2019s cosmology of space and the practice of self-fulfillment. In: \u201cPacific World\u201d journal, 2004. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ancientdragon.org\/dogens-cosmology-of-space-and-the-practice-of-self-fulfillment\/<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref11\">[11]<\/a>O idioma anal\u00edtico de John Wilkins. O Bispo John Wilkins apresenta o termo no cap\u00edtulo XVII de sua obra \u201cEssay towards a real character and a philosophical language\u201d, ao abordar a ideia de espa\u00e7o, quando op\u00f5e \u201cubiquity\u201d (onipresen\u00e7a) a NULLIBIEIT. O termo aparece no \u201cRoget\u2019s thesaurus of English words and phrases\u201d. Nesse thesaurus \u201cNullibieity\u201d, no item \u201cexistence in space\u201d, apresenta-se como: 1) aus\u00eancia, inexist\u00eancia, 2) n\u00e3o resid\u00eancia (non residence), \u201cabsenteeism\u201d; \u201cnonattendance\u201d, \u00e1libi, \u201cempitness\u201d, adj: \u201cvoid\u201d, \u201cvacum\u201d, \u201cvacuity\u201d; t\u00e1bula rasa; \u201cexemption\u201d, hiatos, \u201cinterval\u201d; \u201cligotype\u201d, \u201ctruant\u201d, \u201cabsentee\u201d. \u201cNobody\u201d; \u201cnobody presente\u201d; \u201cnot a soul\u201d ; \u201c \u00e2me qui vive\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref12\">[12]<\/a>Ver nota de p\u00e9 de p\u00e1gina dos <em>Escritos<\/em>, em \u201cA carta roubada\u201d, que Lacan volta a mencionar no Semin\u00e1rio XVI.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/9e537339cfb65d81\/Documentos\/QUEM%20FALA%20-%20Sergio%20de%20Mattos-%20FLORIAN%C3%93POLIS.docx#_ftnref13\">[13]<\/a>Que atravessa o vazio da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o e mant\u00e9m esse vazio como verdadeiro furo, e n\u00e3o falso furo, pois a tend\u00eancia do neur\u00f3tico sobretudo \u00e9 tampon\u00e1-lo, obtur\u00e1-lo com o simb\u00f3lico e o sentido.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio de Mattos (AE, EBP\/AMP) \u00a0Sou no lugar desde onde se vocifera que o universo \u00e9 um defeito na pureza do n\u00e3o ser\u00a0 (Paul Valery &#8211; Escritos) Tudo era vasto, mas ao mesmo tempo \u00edntimo e secreto (Borges &#8211; El sur) \u00a0\u00a0Quem Escolhi esse t\u00edtulo em um movimento de precipita\u00e7\u00e3o. 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