{"id":5265,"date":"2024-12-03T15:23:36","date_gmt":"2024-12-03T18:23:36","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5265"},"modified":"2024-12-13T15:20:56","modified_gmt":"2024-12-13T18:20:56","slug":"o-suporte-corporal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/o-suporte-corporal\/","title":{"rendered":"O SUPORTE CORPORAL"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\">Graciela Brodsky (AME, EOL\/AMP)<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5266\" aria-describedby=\"caption-attachment-5266\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5266\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/boletim_extra_005-300x246.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/boletim_extra_005-300x246.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/boletim_extra_005.jpg 393w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5266\" class=\"wp-caption-text\">Artista: Paul Klee<\/figcaption><\/figure>\n<p>Obrigada pelo convite, obrigada por estarem aqui. Ontem soube que a \u00faltima vez que estive em Florian\u00f3polis tomando a palavra foi no ano de 2007. Passaram-se muitos anos, mas aqui estamos. Vamos falar do discurso e dos corpos, que \u00e9 o tema que voc\u00eas escolheram para esta quinta jornada da nova Se\u00e7\u00e3o Sul da EBP.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 quatro discursos\u201d. Lacan escreve isso em um panfleto, onde defendia o departamento de psican\u00e1lise que ele havia criado na Universidade de Paris VIII. Esse departamento estava prestes a fechar. Lacan escreve um panfleto e, nele, figura a famosa frase \u201ch\u00e1 quatro discursos\u201d. Contudo, h\u00e1 somente um que n\u00e3o tem pretens\u00e3o de dom\u00ednio, ele diz ali mesmo &#8211; \u00e9 o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Para seguir a inspira\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, que toma como eixo indubitavelmente o \u00faltimo cap\u00edtulo do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, os corpos aprisionados pelos discursos, poder\u00edamos nos perguntar o que \u00e9 que cada discurso pretende dominar. Para come\u00e7ar, poder\u00edamos dar uma resposta r\u00e1pida, que nos orienta no que se segue. Se h\u00e1 discursos, \u00e9 para dominar o corpo e seu gozo, dado que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem disso, se calcularam isso, mas a \u00faltima aula do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> abre a perspectiva do que vai ser o tema do Congresso da AMP em 2026 em Paris, que tem por t\u00edtulo o aforismo lacaniano \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. Portanto, pelo tema que voc\u00eas trazem, os corpos aprisionados pelos discursos, seria poss\u00edvel considerar que esta conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro andar que vai em dire\u00e7\u00e3o ao Congresso do AMP sob o aforismo \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. Se houvesse rela\u00e7\u00e3o sexual\u2026 sabem, que a tradu\u00e7\u00e3o ao espanhol da f\u00f3rmula francesa \u00e9 ruim, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma melhor, n\u00e3o sei como \u00e9 em portugu\u00eas, tamb\u00e9m d\u00e1 confus\u00e3o? Ah, sim. Em franc\u00eas, que \u00e9 como o formulou Lacan, j\u00e1 que falava franc\u00eas, \u00e9 <em>il n\u2019ya pas du rapport sexuel<\/em>, a palavra que ele utiliza \u00e9 <em>rapport<\/em>, poderia ter dito <em>il n\u2019ya pas du relation sexuel<\/em>, mas n\u00e3o usou isso. Ele utilizou especialmente a palavra <em>rapport<\/em>, que sup\u00f5e propor\u00e7\u00e3o. Quer dizer que entre os gozos masculinos e femininos n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 propor\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existam rela\u00e7\u00f5es sexuais &#8211; que \u00e9 claro que existem e todo mundo sabe. Na rela\u00e7\u00e3o sexual mesma n\u00e3o h\u00e1 propor\u00e7\u00e3o entre os gozos; s\u00e3o gozos que n\u00e3o se acomodam, n\u00e3o h\u00e1 melhor maneira para diz\u00ea-lo em espanhol, porque dizer \u201cn\u00e3o h\u00e1 propor\u00e7\u00e3o sexual\u201d n\u00e3o quer dizer nada para ningu\u00e9m. \u00c9 preciso fazer toda uma aclara\u00e7\u00e3o como a que estou fazendo agora. Ent\u00e3o, n\u00e3o serve.<\/p>\n<p>Se houvesse propor\u00e7\u00e3o entre os sexos, se houvesse rela\u00e7\u00e3o sexual, os corpos saberiam como se orientar no mundo. Lacan diz isso muito sutilmente nessa \u00faltima aula do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> fazendo, ao mesmo tempo, uma refer\u00eancia ao termo <em>Umwelt<\/em>, que \u00e9 o entorno no qual vivemos, nosso meio ambiente, dizendo que precisamente os corpos n\u00e3o sabem como se orientar no mundo em que vivem. N\u00e3o sabem como se cuidar e a\u00ed faz uma cr\u00edtica contundente a Foucault, porque introduz a quest\u00e3o do higienismo. Quer dizer que coloca de entrada uma dificuldade que os corpos humanos t\u00eam para se virar com seu entorno e com seu pr\u00f3prio corpo, algo que as teorias da adapta\u00e7\u00e3o,<em> Umwelt<\/em>, e as teorias do higienismo, o cuidado de si de Foucault, colocavam em primeiro plano.<\/p>\n<p>Nessa aula, Lacan rejeita essas duas ideias para colocar em evid\u00eancia que o homem \u00e9 um inadaptado, que n\u00e3o sabe se adaptar ao mundo em que vive e que n\u00e3o sabe cuidar de seu corpo, n\u00e3o sabe nem como se cuidar nem como acasalar. O gozo dos seres humanos \u00e9 um gozo alterado, desviado de sua satisfa\u00e7\u00e3o natural. Com seu corpo, o homem n\u00e3o sabe o que fazer e muito menos o que fazer com o corpo do outro. Se fosse um animal, esse problema estaria resolvido, \u00e9 o que o instinto resolve, que permite saber onde est\u00e1 o perigo e, ent\u00e3o, ir na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, e saber qual \u00e9 o <em>partenaire<\/em> adequado e qual \u00e9 o inadequado. Mas isso n\u00e3o funciona no humano. A consequ\u00eancia para a qual Lacan aponta \u00e9 que, ao n\u00e3o haver rela\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 preciso haver um discurso que estabele\u00e7a um la\u00e7o. Isso porque o que \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d coloca em acento a falta de la\u00e7o, a falta de rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um discurso, qualquer dos quatro, estabelece um la\u00e7o ali onde n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7o. Essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o essencial do discurso. Por isso, o discurso \u00e9 um la\u00e7o social. Seria poss\u00edvel dizer que o discurso estabelece um la\u00e7o social ali onde n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7o sexual. O problema \u00e9 que h\u00e1 gozo e n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7o. Esse \u00e9 o impasse fundamental em que nos encontramos. Esta \u00e9 a estrutura e, ao mesmo tempo, o impasse de nossa cl\u00ednica: h\u00e1 gozo e n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7o.<\/p>\n<p>Muitas vezes, falamos do que h\u00e1 de novo, que para n\u00f3s implica a cl\u00ednica contempor\u00e2nea. Entretanto, tenho a suspeita de que aquilo que a cl\u00ednica contempor\u00e2nea faz \u00e9 colocar em evid\u00eancia um impasse que sempre existiu. N\u00e3o temos um novo impasse, os impasses n\u00e3o s\u00e3o novos. Agora, a ordem simb\u00f3lica \u00e9 reconhecida como um sistema de semblantes. N\u00e3o \u00e9 apenas que os semblantes vacilam, sen\u00e3o que s\u00e3o reconhecidos como semblantes. Isso faz com que os grandes significantes que organizavam o la\u00e7o em outra \u00e9poca &#8211; Lacan sempre menciona a igreja, o ex\u00e9rcito, a fam\u00edlia, poder\u00edamos dizer &#8211; esses grandes significantes se revelam como semblantes. Isso n\u00e3o quer dizer que, antes, eles n\u00e3o fossem semblantes, mas simplesmente que, antes, se acreditava neles e agora j\u00e1 n\u00e3o se acredita mais. A contemporaneidade n\u00e3o \u00e9 uma nova ordem simb\u00f3lica, mas a quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se acredita na ordem simb\u00f3lica como antes. \u00c9 um pouco como quando falamos da queda do Nome do Pai: o que caiu \u00e9 a cren\u00e7a. Nunca existiu, sempre foi uma cria\u00e7\u00e3o, mas se acreditava nisso e essa cren\u00e7a regulava os la\u00e7os. A falta de cren\u00e7a \u00e9 o que dizemos que, da fun\u00e7\u00e3o do Nome do Pai, deixou de funcionar. O que deixou de funcionar \u00e9 nossa cren\u00e7a, porque nunca funcionou de fato.<\/p>\n<p>Em qualquer dos discursos h\u00e1 um real, e esse real \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. Isso vale para os quatro discursos. Esse impasse, que percebemos em nossa cl\u00ednica, Freud o resolveu, acreditou resolv\u00ea-lo, e como acreditamos em Freud, a coisa andou durante muito tempo. Freud o resolveu com o \u00c9dipo e o Nome-do-Pai. Lembro-me de uma f\u00f3rmula que J-A Miller usou uma vez, que sempre me pareceu muito bonita ao dizer que o Nome-do-Pai tinha, para Freud, o manual que regulava as rela\u00e7\u00f5es sociais: com quem era permitido casar-se, com quem n\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es proibidas. O \u00c9dipo finalmente \u00e9 isso, um aparelho que regula o la\u00e7o, o manual do permitido e do proibido. Dessa forma, uma vez que se estabelecia esse manual, gra\u00e7as ao \u00c9dipo, abria-se o espa\u00e7o dos la\u00e7os poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Os quatro discursos de Lacan s\u00e3o uma maneira, mais al\u00e9m do \u00c9dipo, de fundar um la\u00e7o e suas impossibilidades. Impossibilidades que v\u00eam no lugar das proibi\u00e7\u00f5es freudianas, mas, \u00e9 poss\u00edvel dizer que, ali onde Freud estabeleceu esse sistema de la\u00e7os permitidos e proibidos atrav\u00e9s do \u00c9dipo, Lacan colocou nesse mesmo lugar os quatro discursos. S\u00e3o uma maneira de substituir a proibi\u00e7\u00e3o pela impossibilidade. Cada discurso, se olharem bem, inscreve um la\u00e7o poss\u00edvel e um la\u00e7o imposs\u00edvel. \u00c9 uma maneira de apresentar, no andar de cima, o la\u00e7o poss\u00edvel entre um significante e outro significante, entre S1 e S2, o la\u00e7o poss\u00edvel que funda o discurso do mestre e do inconsciente. O la\u00e7o poss\u00edvel entre o saber e o objeto <em>a<\/em>, o la\u00e7o poss\u00edvel entre o objeto <em>a<\/em> e o $<em>, <\/em>o la\u00e7o poss\u00edvel entre o $ e o significante mestre. No piso superior, cada discurso escreve um la\u00e7o, e o escrevemos fazendo uma seta quer dizer que estabelecemos a rela\u00e7\u00e3o entre esses significantes. Enquanto isso, no andar de baixo, ao passo que escreve dois significantes, no meio h\u00e1 uma barra para dizer que esse la\u00e7o \u00e9 imposs\u00edvel. Dessa maneira, cada discurso, a seu modo, escreve um la\u00e7o poss\u00edvel e um la\u00e7o imposs\u00edvel. Os quatro discursos recuperam o la\u00e7o imposs\u00edvel, escrevem no piso inferior o que posteriormente ter\u00e1 a forma radical de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter presente que quando Lacan diz que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 uma das formas de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o. O importante n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, o importante \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o. A bomba que Lacan p\u00f5e em sua pr\u00f3pria teoria \u00e9 a f\u00f3rmula <em>n\u00e3o h\u00e1.<\/em> O <em>n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o<\/em> penetra toda a sua confian\u00e7a no simb\u00f3lico, toda sua confian\u00e7a na cadeia significante, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamentalmente n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre S1 e S2. O esc\u00e2ndalo que Lacan produz com isso reformula sua teoria do sintoma, do inconsciente e da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel dizer que cada discurso escreve a rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, a rela\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel, e que a rela\u00e7\u00e3o na parte de cima \u00e9 sempre uma rela\u00e7\u00e3o de semblantes. \u00c9 poss\u00edvel dizer tamb\u00e9m que h\u00e1 um la\u00e7o que n\u00e3o existe, e porque h\u00e1 um gozo inapreens\u00edvel, todo discurso \u00e9 do semblante, porque nenhum discurso consegue aprisionar esse gozo inapreens\u00edvel. Isso faz com que todas as maneiras com as quais pensamos tratar o gozo, domin\u00e1-lo, refut\u00e1-lo &#8211; e cada discurso o faz \u00e0 sua maneira -, todas essas s\u00e3o formas de semblante. Isso \u00e9 efetivamente um gozo que n\u00e3o entra no circuito do discurso. Entre o la\u00e7o que n\u00e3o existe e o gozo que h\u00e1, inapreens\u00edvel, abre-se toda a dimens\u00e3o de nossa cl\u00ednica.<\/p>\n<p>E o corpo? Que lugar ocupa o corpo no discurso? Onde est\u00e1? O que n\u00f3s analistas sabemos do corpo? Se olharmos os quatro discursos, h\u00e1 quatro lugares: o agente, o Outro, a verdade e o produto. Ou, segundo o <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, n\u00e3o sei se viram, Lacan muda o nome dos quatro lugares, e passam a se chamar: o semblante, o gozo, a verdade e o mais-de-gozar. Outro dia \u00e9 poss\u00edvel se dedicar a pensar nisto, o que o levou a abandonar esses nomes. Olhem os significantes que circulam nesses quatro lugares: o S1, S2, $ e o objeto <em>a<\/em>. Onde Lacan situou o corpo?\u00a0 Primeiramente, o que se pode dizer \u00e9 que o corpo n\u00e3o figura nos quatro discursos. Entretanto, se pensarmos um pouco mais, para falar, \u00e9 preciso de um corpo.<\/p>\n<p>Estamos acostumados a dizer que \u00e9 preciso de um corpo para gozar. Repetimos nossas f\u00f3rmulas como se fossem evidentes, mas h\u00e1 f\u00f3rmulas mais evidentes ainda que n\u00e3o levamos em conta, que \u00e9 que para falar \u00e9 preciso de um corpo. N\u00e3o apenas para gozar \u00e9 preciso de um corpo, mas para falar tamb\u00e9m. Ao paciente, n\u00e3o apenas lhe \u00e9 solicitado que fale, mas que venha. Ainda que, \u00e0s vezes, como ouvimos agora, tamb\u00e9m podemos consentir que n\u00e3o venha, mas isso, quando n\u00e3o faz parte da pandemia, faz parte da estrat\u00e9gia do analista. Se quer que o paciente venha de corpo presente, como se diz, \u00e9 porque o corpo faz parte de nossa pr\u00e1tica, o corpo pr\u00f3prio e o do analista. Quando nos resignamos ao Zoom tudo isso se perde. Um espirro, um bocejo, o barulhinho dos papeis, uma aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Tudo faz entrar em jogo o corpo do analista. E se a psican\u00e1lise segue sendo praticada na presen\u00e7a de ambos os atores, \u00e9 preciso considerar que a palavra n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o independente do corpo, e que a palavra no telefone e a palavra na tela n\u00e3o t\u00eam a mesma fun\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a corporal n\u00e3o \u00e9 contingente, assim como n\u00e3o \u00e9 contingente que voc\u00eas estejam aqui de corpo presente e que eu n\u00e3o esteja falando para uma tela.<\/p>\n<p>Escutem seus pacientes. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escutar os analisantes sem notar que o corpo n\u00e3o tem um lugar circunstancial. Alguns pacientes falam do corpo? N\u00e3o, todos falam do corpo. O corpo parece concentrar uma libido, um interesse, um motivo de preocupa\u00e7\u00e3o, de queixa, de satisfa\u00e7\u00e3o, de sofrimento que nos faz falar. O corpo nos faz falar. Inclusive quando vamos ao m\u00e9dico queremos falar e nos incomodam muito as novas pr\u00e1ticas da medicina que n\u00e3o nos deixam falar, que nos passam diretamente \u00e0 m\u00e1quina. Queremos falar do corpo, porque h\u00e1 algo do corpo que n\u00e3o conseguimos representar.<\/p>\n<p>Numa an\u00e1lise, traz-se o corpo, fala-se do corpo, do corpo pr\u00f3prio, do corpo do outro, com o qual normalmente n\u00e3o se sabe o que fazer. O corpo, longe de ser uma vari\u00e1vel interveniente que ter\u00edamos que neutralizar para dar lugar \u00e0 palavra, o corpo parece ser, na realidade, o referente dos ditos do analisante. Se na an\u00e1lise falamos do corpo, do nosso corpo, do corpo do outro, \u00e9 porque o corpo sempre \u00e9 Outro.<\/p>\n<p>No fim do seu ensino Lacan dir\u00e1: o \u00fanico Outro \u00e9 o corpo. Sempre inc\u00f4modo, sempre inadaptado. Quando falamos do corpo, entendemos que se trata de um corpo afetado. Afetado por algo que, por defeito ou por excesso, por muito ou por pouco, localizamos em nosso vocabul\u00e1rio como gozo. Um gozo em excesso ou um gozo que falta. Quando falamos do gozo, quando falamos do corpo, falamos do gozo do corpo. Esse \u00e9 o corpo que levamos para a an\u00e1lise, do qual n\u00e3o podemos nos desprender.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ler a \u00faltima aula do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, \u00e9 o que voc\u00eas est\u00e3o fazendo: o gozo existe, diz Lacan, ent\u00e3o, devemos poder falar dele, est\u00e1 em todo lugar nos ditos do analisante. O dito \u00e9 o que se escuta, mas o discurso somente aprisiona esses ditos como mais-de-gozar. \u00c9 isso o que permite falar do gozo. Esse par\u00e1grafo \u00e9 fundamental. \u00c9 poss\u00edvel falar do gozo? Pareceria que n\u00e3o falamos de outra coisa, mas Lacan precisa: esse \u00e9 o gozo do qual se fala. E o gozo que se fala \u00e9 o gozo que ele escreve como mais-de-gozar, quer dizer, objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>O corpo est\u00e1 aprisionado nos discursos, a partir do objeto <em>a<\/em>. \u00c9 assim que o corpo est\u00e1 presente nos discursos, mas o que \u00e9 o corpo presente como objeto <em>a<\/em>? \u00c9 um corpo fragmentado. \u00c9 um corpo fendido, desenhado pela linguagem. \u00c9 o que fica do corpo, uma vez passado pela m\u00e1quina trituradora do significante. \u00c9 o que fica do corpo, uma vez que a puls\u00e3o desenha seu percurso. O objeto <em>a<\/em> n\u00e3o \u00e9 o corpo, mas \u00e9 o que fica do corpo, \u00e9 o resto de corpo, uma vez que o corpo foi capturado pelo significante.<\/p>\n<p>Do corpo, em seu sentido radical, n\u00e3o do objeto <em>a<\/em>, mas do corpo, em seu sentido radical, n\u00e3o h\u00e1 capta\u00e7\u00e3o nenhuma, diz Lacan nessa \u00faltima aula do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>.\u00a0 Somente pode se articular algo desse suporte do corpo que \u00e9 o discurso, e ali o encontramos como um corpo cujo gozo foi talhado, recortado pela puls\u00e3o, seja anal, oral, esc\u00f3pica, invocante. Isso \u00e9 o que o discurso aprisiona, e o escreve como <em>a<\/em>. Por isso, no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, apenas depois do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, Lacan poder\u00e1 dizer este par\u00e1grafo que nos deu voltas na cabe\u00e7a em seu momento: o objeto <em>a<\/em> \u00e9 um semblante. Nos quatro discursos, n\u00e3o h\u00e1 outra coisa sen\u00e3o semblantes. Sab\u00edamos isso a respeito do S1, do S2, do $, mas do <em>a<\/em>, foi preciso chegar ao <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, para ler esta frase: todos os significantes n\u00e3o s\u00e3o mais do que semblantes incapazes de nos dar um acesso ao real.<\/p>\n<p>Entre o gozo que h\u00e1 e a rela\u00e7\u00e3o que falta, o n\u00facleo elabor\u00e1vel do gozo \u00e9 o objeto <em>a<\/em>, diz Lacan em <em>A Terceira<\/em>. O n\u00facleo elabor\u00e1vel do gozo \u00e9 o \u00fanico do gozo do qual podemos falar. O objeto <em>a<\/em>, diz Miller, \u00e9 a face d\u00f3cil do gozo. \u00c9 o gozo enquanto seu lugar que lhe \u00e9 assignado pelo significante, ali onde deve estar. Trata-se de um gozo localizado, o objeto <em>a<\/em> \u00e9 a domestica\u00e7\u00e3o do gozo, \u00e9 a domestica\u00e7\u00e3o da libido. Da\u00ed a import\u00e2ncia que tem, em nossa cl\u00ednica, poder distinguir em nossos casos quando o gozo est\u00e1 localizado como objeto <em>a<\/em> e ent\u00e3o entra a funcionar no fantasma como objeto oral, anal, olhar, voz, a despeito do que se produz no n\u00edvel da cl\u00ednica quando o gozo n\u00e3o est\u00e1 localizado. Quando o gozo \u00e9 errante e toma o corpo de uma maneira que n\u00e3o chega a se circunscrever em um objeto, ali temos uma percep\u00e7\u00e3o de um gozo fora do discurso, de um gozo que n\u00e3o foi aprisionado pelo discurso.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dar um passo a mais e nos perguntar: de que maneira cada discurso pretende aprisionar o corpo? Mais precisamente: como cada discurso acredita aprisionar o corpo? Sendo que apenas aprisiona esse gozo em menos, ainda que se chame mais-de-gozar, \u00e9 um gozo em menos que \u00e9 o objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>Discurso do mestre<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O discurso do mestre, est\u00e1 escrito, \u00e9 o grande produtor de mais-de-gozar, \u00e9 a m\u00e1quina. Ele nos faz digerir esse resto em um excesso do objeto olhar, com a prolifera\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo e da tela, nos faz digerir os bons alimentos, os que s\u00e3o saud\u00e1veis, que n\u00e3o engordam, que s\u00e3o <em>light<\/em>, que s\u00e3o para aumentar a expectativa de vida. Ele nos faz ingerir uma prolifera\u00e7\u00e3o de objetos <em>a<\/em>, em cada mesa que servimos tem o p\u00e3o de fermenta\u00e7\u00e3o natural, tem o iogurte desnatado e o ado\u00e7ante natural, porque \u00e9 de stevia. Tudo isso \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o de mais-de-gozar; passamos a vida nisso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m com nossos <em>gadgets<\/em> a analidade \u00e9 colocada no lugar da produ\u00e7\u00e3o do discurso do mestre. O que isso quer dizer? Bem, diferente do caso que ouvimos, do caso que a paciente tinha em sua analista a tia do coc\u00f4, isso \u00e9, o objeto <em>a<\/em> no consult\u00f3rio anal\u00edtico. Entretanto, n\u00f3s estamos o dia todo com isso na m\u00e3o, ainda que pare\u00e7a feio, mas quanto dura hoje em dia o Iphone 15 antes de que saia o 16? Um suspiro e j\u00e1 estamos prontos para o novo.<\/p>\n<p>Vivemos num mundo em que o discurso do mestre est\u00e1 se apropriando completamente de nossas vidas, somos os consumidores desse objeto <em>a<\/em> que est\u00e1 no lugar da produ\u00e7\u00e3o do discurso do mestre. Somos seus consumidores e se pode dizer que somos seus consumidos. Assim como Lacan diz, que, finalmente, a imagem que vemos na tela nos olha, n\u00f3s, que acreditamos ser os agentes do discurso, acabamos sendo os escravos do discurso.<\/p>\n<p><strong><em>O discurso universit\u00e1rio<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O discurso do mestre pretende capturar o gozo no objeto <em>a<\/em>, em sua produ\u00e7\u00e3o com suas quatro varia\u00e7\u00f5es. Como o discurso universit\u00e1rio pretende capturar o gozo? Ontem falamos disso com alguns de voc\u00eas, \u00e9 fazendo do saber uma domestica\u00e7\u00e3o do gozo. O discurso universit\u00e1rio, quando Lacan o distingue do discurso do mestre, traz sempre como exemplo S\u00f3crates, como o mestre antigo. O mestre antigo caminhava e interrogava a cidade sobre o bem, o belo, a verdade e todo o resto, e as pessoas o seguiam. Ningu\u00e9m pensava que, depois, S\u00f3crates diria: tirem uma folha e escrevam o que aprenderam sobre o bem, sobre o belo, e vamos fazer uma prova. Isso era um saber que circulava pela cidade e que tinha adeptos; era a ideia que Lacan tinha de como deveria ser sua escola. O discurso universit\u00e1rio ensina sobre a verdade, o bem e o belo, e, depois, avalia, coloca um n\u00famero, uma nota, uma letra, ao que sabemos. N\u00f3s colocamos uma nota ao professor tamb\u00e9m. Isso \u00e9 algo novo. N\u00e3o sei se voc\u00eas t\u00eam isso tamb\u00e9m. Como ir\u00edamos imaginar que o professor que avalia os alunos iria ser, por sua vez, avaliado pelos alunos e que dessa avalia\u00e7\u00e3o iria depender seu futuro? Isso \u00e9 uma novidade do discurso universit\u00e1rio que permite ver de que maneira o saber pretendendo dominar o gozo resulta totalmente in\u00fatil.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo do gozo que \u00e9 indom\u00e1vel, h\u00e1 algo da aprendizagem que resiste. O discurso universit\u00e1rio \u00e9 especialmente interessante. O que ele tem no lugar da produ\u00e7\u00e3o? Ele tem o $<em>, <\/em>o discurso universit\u00e1rio produz sujeitos barrados. Bom, isso n\u00e3o soa mal! No entanto, produz sujeitos barrados com uma dupla barreira a respeito do S1, ou seja, sujeitos barrados que n\u00e3o t\u00eam nenhum significante que os represente. Essa \u00e9 a melhor defini\u00e7\u00e3o da err\u00e2ncia que encontramos na cl\u00ednica: esses sujeitos que n\u00e3o t\u00eam um significante que os represente.<\/p>\n<p>Hoje escutamos um caso que colocava em evid\u00eancia isso, algu\u00e9m que poderia querer ser m\u00e9dico, estudante, mas n\u00e3o tinha um documento de identidade. O discurso universit\u00e1rio produz sujeitos desidentificados de uma m\u00e1 maneira, porque n\u00e3o tem um significante que os represente. Uma boa parte da cl\u00ednica contempor\u00e2nea \u00e9 uma maneira de ler as consequ\u00eancias do que \u00e9 o discurso universit\u00e1rio, entendendo que o discurso universit\u00e1rio \u00e9 o discurso da burocracia. \u00c9 o discurso do qual Lacan fala no <em>Semin\u00e1rio 21<\/em> quando fala do <em>ser nomeado para<\/em>, a lei de ferro de <em>\u00eatre nomm\u00e9 \u00e0<\/em>, <em>ser nomeado para<\/em> produz sujeitos sem um significante que os represente.<\/p>\n<p>Os quatro discursos mostram, cada um \u00e0 sua maneira, uma tentativa de capturar esse gozo e, ao mesmo tempo, um fracasso. \u00c9 interessante ler os discursos desde a perspectiva do que conseguem e do que implicam de fracasso. O fracasso, se colocarmos no horizonte do que se trata, \u00e9 de capturar o gozo <em>que h\u00e1<\/em> com uma <em>rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1<\/em>. Esse \u00e9 o paradoxo que os quatro discursos n\u00e3o resolvem.<\/p>\n<p>Poderia me deter aqui. Talvez possamos conversar um pouquinho. Retomaremos com o discurso da histeria, do qual hoje tivemos exemplos maravilhosos, um pequeno plano para amanh\u00e3: ver de que maneira a histeria pretende domesticar o gozo, como a histeria se vira com isso. E, depois, de que maneira os quatro discursos n\u00e3o servem a Lacan para seu prop\u00f3sito de dar conta desse gozo do corpo que n\u00e3o consegue se inscrever nos discursos para al\u00e9m do objeto <em>a<\/em>. H\u00e1 um limite dos quatro discursos. Tentaremos avan\u00e7ar nisso amanh\u00e3.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><em>Interven\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>Nohem\u00ed Brown<\/strong> &#8211; Quero agradecer a Graciela, pelos pontos trazidos. Voc\u00ea trouxe precis\u00f5es muito interessantes. Uma das coisas que fiquei pensando, a partir da sua fala, foi o lugar do que faz sintoma. Voc\u00ea coloca que em todos os discursos h\u00e1 um la\u00e7o poss\u00edvel e um la\u00e7o imposs\u00edvel. De alguma maneira, posso dizer, os discursos fazem sintoma. Pensava nesse la\u00e7o imposs\u00edvel, no que se decanta disso, pois \u00e9 algo que j\u00e1 nos orienta para ler qual o sintoma que se produz, a cada vez e em cada \u00e9poca, a partir dos diferentes discursos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aproveito que S\u00e9rgio j\u00e1 introduziu a ideia de acontecimento de corpo. Vou deixar minha pergunta, mesmo que voc\u00ea a retome s\u00f3 amanh\u00e3: o que me perguntava era sobre o sintoma como suporte do corpo e como acontecimento de corpo, como pens\u00e1-los? Pois n\u00e3o s\u00e3o da mesma ordem.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, quando voc\u00ea trazia a quest\u00e3o de que os discursos nos permitem localizar o objeto <em>a<\/em>, o gozo a partir do objeto <em>a<\/em>. Ali, de alguma maneira, nos ajuda a pensar como a psicose est\u00e1 a linguagem, mas n\u00e3o no discurso, pois n\u00e3o tem a localiza\u00e7\u00e3o do gozo, a extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em>. Pensava que por isso foi importante a introdu\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica borromeana, que nos permite outra maneira para localizar o gozo fora do discurso e trat\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; Efetivamente, quando digo que os discursos t\u00eam o limite de que somente podem capturar o gozo e o corpo atrav\u00e9s do objeto <em>a<\/em> e que, a partir do <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, para Lacan, o objeto<em> a<\/em> \u00e9 semblante, se abre para Lacan a possibilidade, a necessidade de pensar uma nova forma de capturar o gozo. Isso porque n\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica sem isso. Poder\u00edamos dizer que &#8211; e o digo brevemente porque o retomarei amanh\u00e3 &#8211;\u00a0 Lacan sempre pensou de que maneira fazer entrar o corpo e seu gozo no aparelho simb\u00f3lico. O primeiro exemplo disso \u00e9 o est\u00e1dio do espelho, que enquadra o corpo e o gozo, e quando percebe que n\u00e3o alcan\u00e7a, vai um pouco mais al\u00e9m, e temos os quatro discursos. Podemos ver tudo que h\u00e1 no meio, mas fortemente temos o est\u00e1dio do espelho, os quatro discursos, a insufici\u00eancia deles, e a \u00faltima tentativa de Lacan que dura muito pouco, porque os n\u00f3s surgem no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, est\u00e3o no <em>Semin\u00e1rio 21<\/em>, no <em>22<\/em>, no <em>Semin\u00e1rio 23<\/em> j\u00e1 n\u00e3o tem a mesma l\u00f3gica que no <em>22<\/em>, e no <em>Semin\u00e1rio 24<\/em> j\u00e1 desapareceram para sempre. N\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia aos n\u00f3s no <em>Semin\u00e1rio 24<\/em> nem no <em>Semin\u00e1rio 25<\/em>. Ent\u00e3o, encontramos ali um Lacan que procura, mas n\u00e3o \u00e9 isso que nos interessa, o que nos interessa \u00e9 ver de que maneira em nossa pr\u00e1tica temos que resolver o problema do gozo que n\u00e3o est\u00e1 aprisionado pelo discurso. Porque nossa pr\u00e1tica est\u00e1 regrada pelo discurso anal\u00edtico, e ao mesmo tempo que dizemos isso, dizemos que n\u00e3o todo gozo, que o radical do gozo e do corpo n\u00e3o est\u00e1 aprisionado em nenhum dos quatro, n\u00e3o mais do que como esse gozo domesticado e d\u00e9bil que \u00e9 o objeto <em>a<\/em>. Do acontecimento de corpo falarei amanh\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Leonardo Scofield<\/strong> &#8211; Agrade\u00e7o muito, Graciela, quando voc\u00ea faz essa constru\u00e7\u00e3o, porque voc\u00ea toca o t\u00edtulo de nosso Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Voc\u00ea aborda atrav\u00e9s de nossa Jornada o t\u00edtulo do Encontro, \u201cOs Corpos Aprisionados Pelos Discursos\u201d, e a comiss\u00e3o cient\u00edfica introduz \u201c&#8230; e seus restos\u201d. No entanto, me parece muito esclarecedor que voc\u00ea trate dos restos enquanto objeto, que ainda est\u00e1 no discurso. A sua pergunta inicial, onde est\u00e1 o corpo nos discursos, \u00e9 respondida pelos restos, e at\u00e9 ent\u00e3o eu localizava o resto como aquilo que estava fora dos discursos. Ent\u00e3o, essa pergunta que voc\u00ea faz ao final, como dar um tratamento ao corpo outro que n\u00e3o \u00e9 o corpo pr\u00f3prio tampouco \u00e9 o corpo do outro? Me leva a interrogar:\u00a0 como dar um tratamento \u00e0quilo que goza no sujeito sem que ele possa se apropriar disso?<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> \u2013 \u00c9 isso que faz com que toda a doutrina da interpreta\u00e7\u00e3o se transforme. Se fizermos um percurso da doutrina da interpreta\u00e7\u00e3o de Lacan, ele vai desembocar em suas especula\u00e7\u00f5es sobre a poesia chinesa, no <em>haikai<\/em>, na jacula\u00e7\u00e3o, no famoso exemplo que temos de <em>geste \u00e0 peau<\/em> e Gestapo. O <em>geste \u00e0 peau<\/em> \u00e9 um exemplo que utilizamos e que tenho que dizer que \u00e9 impressionante. Por que Lacan n\u00e3o disse simplesmente <em>geste \u00e0 peau<\/em>? E teria se ouvido Gestapo com seu equ\u00edvoco entre um gesto da pele e a Gestapo. Por que ele teve que ir e fazer uma car\u00edcia? Por que teve que tocar o corpo? Por que n\u00e3o alcan\u00e7ou com o equ\u00edvoco significante que estava ali? \u00c9 impressionante. Vemos o limite a que chega Lacan em sua tentativa de tocar o gozo mais al\u00e9m do objeto <em>a<\/em>. O problema de que maneira o significante toca o corpo \u00e9 o que Lacan n\u00e3o deixa de pensar em todo seu \u00faltimo ensino. Que n\u00e3o seja magia &#8211; como com a palavra se toca os corpos? Voc\u00ea diz \u201cabre-te, s\u00e9samo\u201d e a porta se abre. Sim, mas como se consegue isso sem ser magia? Esse \u00e9 o problema do \u00faltimo ensino de Lacan, n\u00e3o \u00e9 um problema resolvido. \u00c9 nosso problema, \u00e9 o nosso problema da interpreta\u00e7\u00e3o. Falar do gozo est\u00e1 muito bem, mas nosso problema \u00e9 a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise. Quando Lacan finaliza com um<em> saber se virar com <\/em>\u00e9 porque chega \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 modo de tocar isso que n\u00e3o se pode tocar e que, com isso, tem que se virar. Quando diz, finalmente, ao real \u00e9 preciso se acostumar. \u00c9 preciso se acostumar, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma expectativa de redu\u00e7\u00e3o, de supera\u00e7\u00e3o, de sublima\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os limites de nosso ensino. Mas, para chegar a isso, \u00e9 preciso ir passo a passo, sen\u00e3o nos entusiasmamos com os limites e \u00e9 melhor ir aos poucos.<\/p>\n<p><strong>Li\u00e8ge Goulart<\/strong> &#8211; Graciela, eu ia perguntar justamente qual o estatuto da interpreta\u00e7\u00e3o a partir do n\u00e3o h\u00e1 e do gozo que h\u00e1 e voc\u00ea j\u00e1 colocou bastante agora sobre isso. O outro ponto que ia articular a partir dessa pergunta da interpreta\u00e7\u00e3o, sobre essa observa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea fez, que n\u00e3o tenho t\u00e3o claro assim, que no<em> Semin\u00e1rio 24 <\/em>e <em>25<\/em> Lacan n\u00e3o fala mais da topologia dos n\u00f3s, mas topologia dos cortes, mas acho que a topologia do corte vem a partir de quando ele trabalha a quest\u00e3o dos toros com os cortes, com a banda de Moebius. Eu acho que esse ponto da topologia dos cortes diz um pouco do estatuto da interpreta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tudo, tem a quest\u00e3o da equivoca\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o consigo pensar ainda como separar esse ponto, esse estatuto de interpreta\u00e7\u00e3o como corte, como pontua\u00e7\u00e3o, equivoca\u00e7\u00e3o, como jacula\u00e7\u00e3o, enfim, separar isso da topologia dos n\u00f3s, me parece que \u00e9 uma consequ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; \u00c9 poss\u00edvel ir fazendo a cada momento. O equ\u00edvoco aparece muito antes dos n\u00f3s no ensino de Lacan. O problema da interpreta\u00e7\u00e3o, bom, efetivamente \u00e9 o limite. N\u00e3o tenho um gosto pessoal por chegar demasiado r\u00e1pido ao impasse. A pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o que se desprende do ultim\u00edssimo ensino de Lacan \u00e9 mais precisamente uma constata\u00e7\u00e3o e sequer um corte, a constata\u00e7\u00e3o do h\u00e1. \u00c9 preciso localizar os momentos da an\u00e1lise, uma an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa quando come\u00e7a e quando acaba.<\/p>\n<p><strong>Cleudes Slongo<\/strong> &#8211; Algo que fiquei pensando a partir de algo que voc\u00ea falou sobre se tornar ref\u00e9m, fiquei pensando como\u2026 considerando que n\u00f3s enquanto analistas ocupamos esse lugar de semblantes de objeto <em>a<\/em>, parece que h\u00e1 ali uma tenta\u00e7\u00e3o\u2026 n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil escorregar para o lugar de mais um dos objetos mais de gozar, objeto de consumo de nossos analisantes. Claro que talvez voc\u00ea n\u00e3o tenha a f\u00f3rmula e talvez nem a resposta, mas algo para pensarmos juntos, como n\u00e3o encarnar esse lugar de objeto mais-de-gozar, de mais um objeto de consumo para os analisantes?<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; Isso depende da an\u00e1lise do analista, mas recordo uma interven\u00e7\u00e3o muito bonita de Miller, em um antigo congresso da AMP, em 1984, onde havia muita cr\u00edtica grande da forma\u00e7\u00e3o da Escola, um momento muito odioso. Miller se levanta e diz: \u201cme mordam, mas docemente\u201d.<\/p>\n<p><strong>Luis Francisco Camargo<\/strong> &#8211; Graciela, gostaria de te agradecer por essa confer\u00eancia. Gostei muito da maneira como voc\u00ea construiu o argumento que me parece muito interessante: a leitura de que Lacan sempre buscou uma forma de capturar o Real. Eu lhe pergunto se isso n\u00e3o \u00e9 um paradoxo pr\u00f3prio da afirma\u00e7\u00e3o de que o discurso anal\u00edtico n\u00e3o tem pretens\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o. Por um lado, voc\u00ea apresenta um Lacan na busca de uma aplica\u00e7\u00e3o da teoria dos quatro discursos, dos n\u00f3s e da topologia para capturar o gozo, mas,. Por outro, um fracasso da psican\u00e1lise e, por que n\u00e3o, de Lacan, na medida em que nunca consegue capturar totalmente esse gozo, somente uma parcela. \u00c9 interessante porque isso me parece um paradoxo do \u00faltimo ensino de Lacan.<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; Em certo sentido, contudo, se se sabe que esse gozo n\u00e3o vai ser capturado, para que perder tempo tentando faz\u00ea-lo? Efetivamente, \u00e9 algo que orienta a pr\u00e1tica. N\u00e3o vamos pretender curar, que \u00e9 uma forma de capturar o gozo, de faz\u00ea-lo entrar no bom caminho. Simplesmente n\u00e3o tem pretens\u00f5es de dom\u00ednio, porque sabe que n\u00e3o vai poder domin\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Luis Francisco Camargo<\/strong> &#8211; Complemento com a seguinte pergunta: Lacan apontou um limite \u00e0 pr\u00e1tica de Freud, aqui n\u00e3o ter\u00edamos um limite \u00e0 pr\u00e1tica lacaniana?<\/p>\n<p><strong>Graciela<\/strong> &#8211; Certamente sim. Eu penso que o limite, vou dar apenas um exemplo, e apenas um exemplo, n\u00e3o vou entrar nesse assunto. Mas vou dar um exemplo: o desafio que apresenta na atualidade o problema da redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e o mundo trans n\u00e3o tem resposta no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>. As f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o s\u00e3o bin\u00e1rias, basta olh\u00e1-las. Temos dois gozos, um gozo f\u00e1lico e um gozo mais al\u00e9m do falo. Ambos regulados pelo falo, um porque h\u00e1 e o outro porque o excede, mas para exced\u00ea-lo \u00e9 preciso localiz\u00e1-lo, n\u00e3o \u00e9 sem, \u00e9 um suplemento. A f\u00f3rmula da sexua\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica completamente o fen\u00f4meno que os psicanalistas hoje em dia t\u00eam que encarar. E, quando pretendemos responder \u00e0s cr\u00edticas que nos s\u00e3o feitas com o <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, fracassamos. O <em>Semin\u00e1rio 20<\/em> pertence ao ano de 1972 e estamos em 2024. Lacan n\u00e3o imaginou outra possibilidade que associar o transexualismo \u00e0 psicose. A pr\u00e1tica atual n\u00e3o \u00e9 a pr\u00e1tica de Lacan. Os sintomas atuais n\u00e3o s\u00e3o os sintomas com os quais Lacan se viu confrontado. Portanto, temos que fazer um grande esfor\u00e7o para poder pensar as novidades que, no plano da sexua\u00e7\u00e3o, se nos apresentam, com recursos que datam de outro momento. \u00c9 melhor escutar muito, antes de tentar responder com o saber j\u00e1 sabido. Estamos em um verdadeiro \u201cn\u00e3o se sabe\u201d e \u00e9 melhor saber que n\u00e3o se sabe do que dizer \u201cLacan disse\u201d, \u201cLacan disse\u201d, \u201cLacan disse\u201d. \u00c9 melhor saber que Lacan n\u00e3o poderia ter dito nada sobre isso, porque isso \u00e9 muito novo, e podemos usar o que Lacan nos d\u00e1 para pensar um pouco mais. N\u00e3o sem Lacan, mas n\u00e3o somente com um pensamento fechado de Lacan.<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio de Mattos<\/strong> &#8211; Fiquei pensando numa quest\u00e3o sobre como agarrar o real pelo simb\u00f3lico: como \u00e9 poss\u00edvel? E que, portanto, parece que uma certa resposta a isso \u00e9 uma certa f\u00f3rmula de que com o real \u00e9 preciso se acostumar. Fiquei pensando, gostaria se pudesse comentar alguma coisa sobre isso, se a ideia que Lacan coloca no <em>Semin\u00e1rio 25 <\/em>de que temos que aprender a lidar com o modo com o que as coisas sabem como se comportar, se n\u00e3o tem algo a\u00ed desse se acostumar, mas algo tamb\u00e9m um pouco mais ativo. Quer dizer, saber como se comportar, saber lidar com como as coisas se comportam por si mesmas, n\u00e3o \u00e9 simplesmente se acostumar, mas aprender a fazer alguma coisa com esse comportamento pr\u00f3prio do real. E, nesse sentido, \u00e9 uma certa indica\u00e7\u00e3o para n\u00e3o depor nossas armas diante do real, apesar de todas as dificuldades.<\/p>\n<p>Graciela Brodsky &#8211; Estou de acordo, \u00e9 assim. Obrigada.<\/p>\n<p>04 de outubro de 2024<\/p>\n<h3><strong><span style=\"color: #993300;\">SEGUNDA PARTE<\/span><\/strong><\/h3>\n<p>Aprisionar algo de gozo. Se h\u00e1 uma experi\u00eancia dentro da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise onde o corpo falou, foi na cl\u00ednica da histeria. Ali, o corpo falou e se fez escutar por esse destinat\u00e1rio privilegiado que foi Freud. O que \u00e9 que Freud aprendeu, tarde? Tarde como sempre, aprendemos tarde. Freud aprendeu, gra\u00e7as ao destino de Dora e suas notas nos rodap\u00e9s de p\u00e1gina, com o caso da famosa jovem homossexual, que o corpo da hist\u00e9rica recusa obedecer ao significante-mestre. Isso foi apresentado a Freud de diversas maneiras e precisamente a Freud chegavam pacientes diante das quais o discurso m\u00e9dico n\u00e3o podia entender porque o corpo n\u00e3o respondia aos significantes-mestres. Os \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o estavam em seu lugar, n\u00e3o funcionavam como deveriam funcionar, as dores n\u00e3o tinham uma localiza\u00e7\u00e3o, os tratamentos n\u00e3o serviam para nada e, sem mais nenhum rem\u00e9dio, eles as mandavam ao bruxo, ao mago, ao charlat\u00e3o, que era Freud. Freud tinha um m\u00e9todo novo que os colocava para falar em vez de dirigi-los aos banhos termais e localizava a hipocondria como uma libido que se desloca, que n\u00e3o tem lugar. Ontem, escutamos um caso, acredito que foi de Paula, o caso da jovem que tem que fazer a cirurgia no rim. \u00c9 isso, esse caso apresentado por Paula, que a paciente tem dor, tem um tratamento que lhe \u00e9 proposto, nega, finalmente consente a esse tratamento, \u00eaxito total, e depois come\u00e7am a aparecer dores por todo lugar. A primeira dor concentrava algo, depois come\u00e7am a fazer um percurso diversos sintomas que v\u00e3o se deslocando pelo corpo. \u00c9 um caso extremamente ilustrativo do que \u00e9 o corpo na histeria. \u00c9 um corpo inexistente para a medicina, para o discurso m\u00e9dico.<\/p>\n<p>O que Freud n\u00e3o compreendia \u00e9 que o recha\u00e7o da hist\u00e9rica ao dom\u00ednio m\u00e9dico era o pr\u00f3prio dom\u00ednio da histeria. Recha\u00e7ar o significante-mestre \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio. Por isso, no discurso da histeria, o sujeito barrado est\u00e1 no lugar do agente, tem a capacidade de dizer n\u00e3o. Recha\u00e7ar a demanda do Outro, desobedecer ao discurso do Outro.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lacan formaliza isso e diz que a histeria \u00e9 um sujeito que est\u00e1 em rebeli\u00e3o. Freud formula isso e Lacan o purifica com o termo \u201cdefesa\u201d. A defesa como um <em>n\u00e3o <\/em>radical do sujeito, o sujeito hist\u00e9rico diz <em>n\u00e3o<\/em> e isso \u00e9 uma defesa. Aqui, \u00e9 preciso fazer uma pequena distin\u00e7\u00e3o: diz <em>n\u00e3o <\/em>ao significante-mestre, ao discurso m\u00e9dico, mas o <em>n\u00e3o<\/em> mais profundo, esse que Freud chama de defesa, \u00e9 um <em>n\u00e3o<\/em> ao gozo. Um <em>n\u00e3o<\/em> radical do sujeito e isso deixa o sujeito como sujeito esvaziado de ser, \u00e9 o que escrevemos como <em>$<\/em>, um sujeito esvaziado de gozo. Enquanto isso, por onde passa o gozo? \u00c9 a\u00ed que Lacan entra para escrever o discurso. O gozo passa por baixo do sujeito. Se pensam no discurso da hist\u00e9rica, no lugar do agente, est\u00e1 o <em>$, <\/em>o sujeito esvaziado de gozo; por isso, o sujeito lacaniano \u00e9 um sujeito vazio, mas vazio do qu\u00ea? Lacan assinala: \u00e9 um sujeito vazio de gozo. E onde est\u00e1 o gozo no discurso da hist\u00e9rica? Abaixo da barra, sob a letra <em>a<\/em>. Trata-se de um sujeito, que Lacan escreve no discurso da hist\u00e9rica, um sujeito esvaziado de gozo, que se constitui como sujeito no ato mesmo da defesa.<\/p>\n<p>\u00c9 sumamente interessante esse momento de Lacan, porque estamos acostumados a pensar o sujeito barrado como o efeito da cadeia significante &#8211; S1 e S2 e, como efeito, o <em>$<\/em>. Mas aqui \u00e9 outra leitura de como se constitui o sujeito como vazio, e \u00e9 o momento em que Lacan recupera a ideia de defesa em Freud e formula que o sujeito se constitui como sujeito na defesa a respeito do gozo. Ent\u00e3o, o <em>$ <\/em>passa a ser o sujeito vazio de gozo. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 um gozo totalmente eliminado. Esse \u00e9 o paradoxo, porque se trata de um gozo que opera. Trata-se de um gozo eficaz, que tem consequ\u00eancias, e inclusive \u00e9 poss\u00edvel dizer que todo o campo das neuroses, com o qual nos encontramos frequentemente em nossos consult\u00f3rios, est\u00e1 determinado pelo retorno desse gozo recha\u00e7ado. Por isso, Lacan n\u00e3o escreve o discurso da histeria, da obsess\u00e3o, da fobia, sen\u00e3o que considera que a estrutura \u00e9 a histeria, a estrutura \u00e9 efetivamente a de um sujeito que recha\u00e7a o gozo. Esse \u00e9 o sujeito que vem ao nosso consult\u00f3rio, com seus sintomas.<\/p>\n<p>Vale a pena ler no <em>Semin\u00e1rio 5<\/em> de Lacan, o cap\u00edtulo dos sonhos de \u201c\u00e1gua parada\u201d. Uma jovem inteligente, fina, reservada, do tipo \u201c\u00e1gua parada\u201d, relata um sonho a Freud. Ele pede detalhes e a jovem diz que ia ao mercado com sua cozinheira &#8211; eram essas \u00e9pocas &#8211; e a cozinheira levava uma cesta. O a\u00e7ougueiro lhe dizia, depois de ela lhe pedir alguma coisa, <em>que isso j\u00e1 n\u00e3o se podia mais ter, <\/em>quis dar-lhe outra coisa, dizendo <em>isso \u00e9 bom, <\/em>entretanto ela o recusava. Ia ent\u00e3o comprar legumes, a vendedora de legumes queria vender legumes de uma classe singular amarrada em pequenos pacotes e de cor preta, mas ela dizia: <em>n\u00e3o conhe\u00e7o, n\u00e3o vou levar<\/em>. E assim retorna a sua casa, com as m\u00e3os vazias. Certamente, comenta ali Lacan, nada pode ser mais prazeroso para uma hist\u00e9rica do que retornar com as m\u00e3os vazias. E se com isso deixa tamb\u00e9m ao Outro com as m\u00e3os vazias, \u00e9 um dano colateral que est\u00e1 disposta a suportar.<\/p>\n<p>Se olharmos a estrutura do discurso da histeria, \u00e9 poss\u00edvel entender do que se trata o discurso anal\u00edtico. Falo do discurso anal\u00edtico, n\u00e3o do que se fala em uma an\u00e1lise, falo da estrutura mesma do discurso anal\u00edtico. Por qu\u00ea? No discurso anal\u00edtico, o objeto <em>a<\/em>, esse resto de gozo do qual a histeria n\u00e3o quer saber nada e \u00e9 o que recusa do a\u00e7ougueiro, da vendedora de legumes, do encontro amoroso, esse gozo recusado \u00e9 o que vem no lugar do agente no discurso m\u00e9dico. O analista encarna em si mesmo o retorno do gozo recha\u00e7ado da histeria. E se pensam no andar superior do discurso anal\u00edtico, esse objeto <em>a<\/em> que o analista encarna se dirige ao sujeito barrado. Quer dizer que a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica tal como a escreve Lacan com os quatro discursos tem por objetivo reintroduzir no sujeito barrado esse gozo enviado ao andar inferior no discurso da histeria.<\/p>\n<p>Isso que a hist\u00e9rica enviou ao subsolo, abaixo da barra, o analista o coloca no lugar do agente e reintroduz o objeto <em>a<\/em> no sujeito barrado. Por isso, podemos falar de analista trauma, por exemplo, e podemos dizer, ainda que pulando \u00e9pocas do ensino de Lacan, mas se entende perfeitamente, j\u00e1 aqui, a maneira que a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica vai contra a defesa, perturbando as defesas. Se entendemos qual \u00e9 a defesa, essa defesa radical onde se constitui o sujeito, diz Lacan, se entende melhor o que \u00e9 perturbar a defesa, e entendemos bem como no pr\u00f3prio discurso anal\u00edtico est\u00e1 escrito no andar superior o que implica perturbar a defesa: reintroduzir no sujeito vazio de gozo, o gozo recha\u00e7ado. Por isso, podemos dizer que na opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica do que se trata \u00e9 de orientar-se pelo gozo.<\/p>\n<p>Enfim, cada discurso aprisiona, \u00e0 sua maneira, esse mais-de-gozar que fica como resto &#8211; dando um passo a mais &#8211; que fica como resto pela incid\u00eancia do trauma da l\u00edngua sobre o corpo. Mas irei aos poucos, prefiro. Cada discurso gira ao redor desse suporte que n\u00e3o est\u00e1 aprisionado e que Lacan chama, em sua \u00faltima aula do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, esse <em>ground<\/em>, esse suporte, fora do discurso. Vejam bem que disse isso ontem um pouco por cima em nossa conversa, que finalmente quando Lacan, em seus in\u00edcios, prop\u00f5e o est\u00e1dio do espelho, o esquema dos dois espelhos permite ver bem como para Lacan est\u00e1 o corpo, que o representa com um vaso e umas flores, mas as flores est\u00e3o abaixo do vaso, soltas. E tenta representar assim um corpo que n\u00e3o est\u00e1 em seu lugar, as coisas n\u00e3o est\u00e3o no seu lugar. \u00c9 um corpo que se define pela agita\u00e7\u00e3o, \u00e9 um corpo agitado, \u00e9 um corpo que se retorce. \u00c9 o corpo da crian\u00e7a que move seus p\u00e9s e bra\u00e7os, um corpo movido pelo gozo do movimento, o gozo da pr\u00f3pria agita\u00e7\u00e3o. Posteriormente, vem todo o aparelho do espelho, que \u00e9 um instrumento simb\u00f3lico sustentado em certa posi\u00e7\u00e3o pelo Outro, porque n\u00e3o \u00e9 em qualquer posi\u00e7\u00e3o que se produz. E, assim, o corpo desmontado se reflete no espelho como um vaso com suas florzinhas dentro, como corresponde. O corpo dominado pelo simb\u00f3lico, bom, na realidade, estou dizendo isso um pouco r\u00e1pido, \u00e9 um corpo montado pelo imagin\u00e1rio mediante a condi\u00e7\u00e3o do aparelho simb\u00f3lico. Mas, a ideia de Lacan no est\u00e1dio do espelho \u00e9 que \u00e9 preciso uma opera\u00e7\u00e3o para dominar algo desse corpo que se contorce.<\/p>\n<p>Quando Lacan fala do j\u00fabilo no est\u00e1dio do espelho, n\u00e3o \u00e9 para confundi-lo com o gozo do corpo desse primeiro momento, do corpo que se contorce. O j\u00fabilo \u00e9 pela imagem, \u00e9 o j\u00fabilo pela boa forma, pela <em>Gestalt<\/em>, ali \u00e9 onde se constitui o eu: <em>que belo sou,<\/em> <em>esse sou eu<\/em>. Contudo, o que estava antes, essa agita\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, \u00e9 o gozo do corpo. \u00c9 poss\u00edvel ver isso muito cedo em Lacan, o esfor\u00e7o que faz por representar o dom\u00ednio do gozo do corpo atrav\u00e9s da imagem e o j\u00fabilo que isso produz. \u00c9 interessante &#8211; se tiverem vontade &#8211; fazer o grande marco que conecta este momento com a ideia do escabelo, do <em>Semin\u00e1rio 23<\/em>. O homem ama a sua imagem e n\u00e3o ama mais que isso, o<em> escabeau<\/em>. \u00c9 interessante fazer a curva que une o escabelo com essa opera\u00e7\u00e3o que Lacan localiza como o j\u00fabilo da boa forma e que faz esquecer esse gozo desorganizado do corpo vivo.<\/p>\n<p>Com efeito, para pensar o estatuto do corpo por fora do corpo talhado pela puls\u00e3o, para pensar o estatuto do corpo quando a puls\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 articulada com o objeto <em>a<\/em>, Lacan teve que deixar de lado os quatro discursos. Mudar de paradigma e colocar a lupa sobre aquilo que os discursos n\u00e3o aprisionam. Fizemos uma primeira volta sobre aquilo que os discursos aprisionam, depois sobre aquilo que os discursos acreditam aprisionar e o que os discursos deixam por fora. Isso leva Lacan a mudar a \u00f3tica, n\u00e3o porque o anterior n\u00e3o exista, pois n\u00e3o estar\u00edamos aqui se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos praticando os discursos, mas, no seu interesse por aquilo que a pr\u00e1tica n\u00e3o resolve, por aquilo que resiste a sua pr\u00e1tica. Lacan muda a \u00f3tica e o paradigma. J\u00e1 n\u00e3o se interessa tanto por aquilo que os discursos aprisionam, mas se dirige para aquilo que os discursos n\u00e3o aprisionam e, a partir desse momento, sua reflex\u00e3o \u00e9 outra.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica anal\u00edtica, a partir disso, passou a estar orientada, por exemplo, pela forma de tocar com a interpreta\u00e7\u00e3o esse gozo que h\u00e1. O final de uma an\u00e1lise passou a estar orientado por um saber se virar com esse gozo que h\u00e1, imposs\u00edvel de imaginarizar, imposs\u00edvel de significantizar. Esse gozo imposs\u00edvel est\u00e1 do lado do real, fora do discurso, esse gozo do corpo vivo, n\u00e3o do corpo mortificado pelo significante, tampouco do corpo remontado pelo est\u00e1dio do espelho, nem do corpo recortado em seus orif\u00edcios pela puls\u00e3o. Agora \u00e9 o corpo vivo, esse que n\u00e3o est\u00e1 aprisionado pelos discursos. Esse corpo \u00e9 o que se apresenta como acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um corpo que fala. Esse \u00e9 o corpo que falou a Freud. Freud transpassou esse corpo em significantes, um corpo aprisionado pelo significante, portanto, interpret\u00e1vel. \u00c9 o que chamamos de significantiza\u00e7\u00e3o do corpo. Um exemplo fundamental da significantiza\u00e7\u00e3o do corpo \u00e9 o falo, \u00e9 a maneira que um \u00f3rg\u00e3o passa a ser um significante. O que dizemos quando ensinamos, <em>o falo n\u00e3o \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o<\/em>, cada vez que dizemos isso estamos precisamente falando de um corpo que pode ser transposto em significantes. \u00c9 uma desmaterializa\u00e7\u00e3o do corpo. Com esse corpo se inventou a psican\u00e1lise e com esse corpo nos deparamos toda vez no consult\u00f3rio. Mas e o corpo que n\u00e3o fala? Do corpo que n\u00e3o diz nada interpret\u00e1vel, nada que possa ser transposto em significantes? Trata-se de um corpo, diz Lacan, que goza de si mesmo &#8211; e formula a express\u00e3o: \u00e9 um corpo que se goza. Goza de si mesmo, ou seja, n\u00e3o goza do objeto oral, n\u00e3o goza do objeto anal, n\u00e3o goza do olhar, n\u00e3o goza da voz; desses objetos se goza no fantasma. Lacan, ao ter se interessado por essa outra parte, j\u00e1 n\u00e3o se interessou tanto, a partir de certo momento, pelo atravessamento do fantasma.<\/p>\n<p>H\u00e1 um gozo da palavra, que inclui o sentido, e h\u00e1 um gozo opaco do corpo, insensato, ou seja, refrat\u00e1rio ao sentido. Desse gozo, \u00e9 o que na \u00faltima aula do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> Lacan pode dizer, desse gozo n\u00e3o se sabe nada, exceto quando se transforma em acontecimento. Quer dizer, quando irrompe e deixa marcas, fazendo do corpo uma superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o, um sem sentido encarnado &#8211; gosto muito dessa express\u00e3o de Miller. Ao que chamamos um acontecimento de corpo? Uma doen\u00e7a \u00e9 um acontecimento de corpo? Uma queda na rua, \u00e9 um acontecimento de corpo? Um vaso que cai em cima da cabe\u00e7a enquanto se est\u00e1 caminhando, \u00e9 um acontecimento de corpo? De fato, ao corpo sucedem coisas, imprevistas, muitas vezes, e que n\u00e3o entendemos. Vale a pena recordar este pequeno detalhe: a f\u00f3rmula \u201cacontecimento de corpo\u201d Lacan a utilizou apenas uma ou duas vezes. Acredito que apenas uma, para falar do sintoma, em um pequeno texto que acompanha a \u00e9poca do <em>Semin\u00e1rio 23<\/em>. \u00c9 ali onde usa pela primeira vez, e acredito que pela \u00faltima, a express\u00e3o \u201cacontecimento de corpo\u201d. N\u00e3o a pensou para a histeria, nem para as doen\u00e7as, tampouco para as quedas ou os vasos que caem em cima de nossas cabe\u00e7as. Ele pensou isso em rela\u00e7\u00e3o a algo muito preciso em seu ensino: em rela\u00e7\u00e3o ao sintoma.<\/p>\n<p>Em determinado momento, o sintoma passou de ser uma met\u00e1fora a decifrar para ser um acontecimento de corpo. Quer dizer, tomar o sintoma n\u00e3o sob seu aspecto de significa\u00e7\u00e3o, do que quer dizer, sen\u00e3o sob o aspecto de satisfa\u00e7\u00e3o. Finalmente n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o distante da ideia freudiana de que no sintoma se satisfaz um desejo. Se o sintoma implica uma satisfa\u00e7\u00e3o, vamos lhe dar o nome lacaniano, se o sintoma implica um gozo e o corpo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o gozo &#8211; somente h\u00e1 gozo do corpo, o corpo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de gozo -, portanto, se o sintoma implica um gozo e o corpo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de gozo, \u00e9 preciso de um corpo para gozar. Ent\u00e3o, o sintoma \u00e9 relativo n\u00e3o apenas ao jogo significante-significado, sen\u00e3o que o sintoma \u00e9 relativo ao corpo. O sintoma \u00e9 o efeito de um corpo afetado. Efeito de afeto, diz Lacan no <em>Semin\u00e1rio 23<\/em>. \u00c9 nessa articula\u00e7\u00e3o entre o sintoma como gozo, o gozo como relativo ao corpo, que Lacan pode fechar a f\u00f3rmula de que o sintoma \u00e9 um acontecimento de corpo. Vamos dar um passo a mais.<\/p>\n<p>Desse acontecimento de corpo, eu n\u00e3o sei como soa em portugu\u00eas, mas em espanhol soa mal. A f\u00f3rmula \u201cacontecimento <em>de<\/em> corpo\u201d est\u00e1 mal formulada, n\u00e3o existe, j\u00e1 que \u00e9 uma preposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o funciona. Seria preciso dizer que \u00e9 um acontecimento <em>no<\/em> corpo, \u00e9 um acontecimento <em>do<\/em> corpo ou um acontecimento corporal. Acontecimento <em>de<\/em> corpo n\u00e3o soa bem, mas n\u00f3s entendemos. H\u00e1 um aspecto do acontecimento de corpo que \u00e9 para todos, tem a f\u00f3rmula do universal, para todo x, phi de x. Se a linguagem \u00e9 trauma &#8211; Lacan vai purificar isso, a linguagem quando \u00e9 trauma se chama<em> lal\u00edngua<\/em> -, n\u00e3o se trata da linguagem que se escreve S1-S2, n\u00e3o \u00e9 a linguagem com o par met\u00e1fora-meton\u00edmia. Se falo de uma linguagem que traumatiza o corpo, eu a chamo de outra forma, eu a chamo de <em>lal\u00edngua<\/em>. Se <em>lal\u00edngua<\/em> \u00e9 trauma, se o primeiro trauma do corpo vivo \u00e9 o impacto de <em>lal\u00edngua<\/em> &#8211; o impacto do murm\u00fario de <em>lal\u00edngua,<\/em> como dizia Schreber, porque efetivamente \u00e9 uma l\u00edngua que n\u00e3o tem sentido -, \u00e9 preciso entender que esse corpo vivo fica marcado. \u00c9 como quando nas fazendas os animais s\u00e3o marcados a ferro e fogo, o corpo vivo fica marcado.<\/p>\n<p>Entretanto, o que quer dizer <em>marcado<\/em>? Porque n\u00e3o marcamos nossos beb\u00eas e, quando os marcamos, n\u00f3s os marcamos de uma maneira simb\u00f3lica, como, por exemplo, a circuncis\u00e3o. \u00c9 uma maneira de marcar o corpo para que ele passe a estar inscrito em uma comunidade, mas isso n\u00e3o \u00e9 para todos. H\u00e1 um texto precioso de Miller que se chama <em>Ler um sintoma<\/em>, que seguramente conhecem, em que explica de uma maneira singular o que chama o <em>clinamem<\/em> do gozo. Quer dizer, o ponto no qual o gozo do corpo vivo fica desviado e isso faz com que sejamos todos animais desviados, perdidos a respeito da orienta\u00e7\u00e3o e cuidados de si. \u00c9 o ponto no qual o corpo fica afetado por esse trauma de <em>lal\u00edngua, <\/em>e no que consiste esse trauma, essa marca? Lacan o chama de <em>troumatisme<\/em>, fazendo um jogo de palavras em franc\u00eas entre traumatismo e furo,<em> trou<\/em>, entre <em>troumatisme<\/em> e traumatismo. O que se fura? N\u00e3o se furam as orelhas das meninas para colocar brincos; isso \u00e9 uma maneira de corporizar essa opera\u00e7\u00e3o. O que se fura \u00e9 o simb\u00f3lico, o trauma de <em>lal\u00edngua <\/em>cava um furo no simb\u00f3lico. O simb\u00f3lico \u00e9 incapaz de significantizar esse golpe; portanto, o simb\u00f3lico fica furado, inconsistente, incapaz de significar esse murm\u00fario, esse impacto. Mas tamb\u00e9m essa marca introduz um mais, \u00e9 um menos a respeito do simb\u00f3lico, uma impot\u00eancia do simb\u00f3lico para significar esse impacto, mas um mais que se introduz no corpo e o converte em um corpo desnaturalizado. O mesmo impacto tem um efeito sobre o simb\u00f3lico, sobre o imagin\u00e1rio e sobre o real do corpo, sobre o gozo do corpo vivo, que passa a ser um gozo do corpo humano, vivo, mas humano, que se chama <em>parl\u00eatre<\/em>.<\/p>\n<p>Esse impacto faz do corpo vivo um <em>parl\u00eatre<\/em>, desorientado a respeito de sua sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o. O que Lacan chamou de <em>sinthome<\/em> \u00e9, de certa forma, a pegada, a marca, para cada um, desse acontecimento primeiro. Ok, isso \u00e9 o <em>para todos.<\/em> H\u00e1 tamb\u00e9m irrup\u00e7\u00f5es posteriores. S\u00e3o acontecimentos, podem ser banais, que em certo sentido evocam, replicam, voltam a fazer presente esse impacto inicial que o fantasma dotou de sentido. A esse impacto inicial o fantasma lhe d\u00e1 sentido e, com isso, se constr\u00f3i a neurose.<\/p>\n<p>H\u00e1 irrup\u00e7\u00f5es posteriores que voltam a fazer presente esse impacto inicial e, ent\u00e3o, vacila a tela do fantasma, rompe-se a articula\u00e7\u00e3o significante e temos o que se chama acontecimento de corpo. Entretanto, esse fen\u00f4meno, que se produz contingentemente na vida de algu\u00e9m, responde a uma l\u00f3gica, n\u00e3o \u00e9 o vaso que cai\u00a0 em cima da cabe\u00e7a e, nesse sentido, \u00e9 apenas a partir da psican\u00e1lise, da pr\u00e1tica da an\u00e1lise, do dispositivo anal\u00edtico, que podemos localizar um fen\u00f4meno que tem lugar no corpo como um acontecimento. \u00c0s vezes, pode ser moment\u00e2neo e, \u00e0s vezes, acaba por ordenar a vida do sujeito.<\/p>\n<p>Na conversa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica que se chama <em>Embrollos del cuerpo<\/em>, tem uma discuss\u00e3o muito linda sobre o acontecimento de corpo, onde Miller distingue o que chama de\u00a0 acontecimento de corpo em eclipse, quer dizer que \u00e9 algo que toma o corpo e desaparece, um fen\u00f4meno pontual, e o coloca em rela\u00e7\u00e3o ao que chama de acontecimento de corpo constante, que organiza a vida do sujeito. A vida de um sujeito passa a estar ordenada pelo acontecimento e a\u00ed se entende o parentesco com o <em>sinthoma<\/em>, que ordena a vida do sujeito.<\/p>\n<p>Escutei outro dia &#8211; e com isso vou encerrando para conversarmos &#8211; um caso de um controle de uma jovem anor\u00e9xica. Na an\u00e1lise, foi poss\u00edvel reconstruir a origem do transtorno: aos seus doze anos ela tem a menarca, sem nenhuma orienta\u00e7\u00e3o nem explica\u00e7\u00e3o por parte de sua m\u00e3e, fam\u00edlia, irm\u00e3 ou amigas, nada. Ela se encontra, ent\u00e3o, com um sangramento que prov\u00e9m de seu pr\u00f3prio corpo, que lhe resulta completamente insensato. N\u00e3o consegue significar, n\u00e3o pode dar-lhe um nome e desmaia, se apaga. Esse desmaio \u00e9 um acontecimento de corpo? Nesse momento, foi um desmaio, se podemos considerar isso um acontecimento de corpo \u00e9 porque a partir dali se instala uma anorexia, que a leva \u00e0 beira da interna\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Assim \u00e9 como chega na an\u00e1lise, como uma anor\u00e9xica. \u00c9 na an\u00e1lise que, depois de muito tempo, se pode ler o desmaio como um acontecimento, porque marcou um antes e um depois em sua vida. Isso porque a anorexia foi a maneira &#8211; e isto me pareceu impressionante &#8211; em que desapareceu para sempre a menstrua\u00e7\u00e3o. Esse acontecimento ordenou sua vida. E uma vez elucidada a anorexia como solu\u00e7\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o de seu tratamento j\u00e1 n\u00e3o pretendeu mais eliminar a anorexia, sen\u00e3o mant\u00ea-la em um equil\u00edbrio que n\u00e3o a condenasse \u00e0 morte. Uma vida ordenada ao redor de um acontecimento de corpo, sempre presente, atrav\u00e9s da solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em todos os casos, um acontecimento de corpo se produz em um corpo, n\u00e3o em um organismo. Quer dizer, em um corpo atravessado pelos ecos de um dizer. Enquanto analistas buscamos inserir o acontecimento na linha do tempo, localizar o momento anterior ao qual se inscreve esse fen\u00f4meno aberrante, amarr\u00e1-lo com o simb\u00f3lico, quer dizer, orden\u00e1-lo no tempo. Amarr\u00e1-lo ao imagin\u00e1rio, ajudar a dar-lhe um sentido, quando poss\u00edvel. Ou inventar, junto com o paciente, uma melhor maneira de se virar com isso. \u00c9 isso. Obrigada.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><em>Interven\u00e7\u00f5es<\/em><\/span><\/h3>\n<p><strong>Gresiela Nunes da Rosa<\/strong> \u2013 Obrigada por esse presente. A ideia \u00e9 que a gente possa conversar. Enquanto isso, tenho duas quest\u00f5es, uma que toca exatamente nesse ponto que voc\u00ea est\u00e1 dizendo e outro um pouco mais gen\u00e9rico, mas \u00e9 sobre o que diria sua posi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica em rela\u00e7\u00e3o a isso. Sobre o acontecimento de corpo, isso que regula o funcionamento de um corpo, a gente poderia pensar que o trabalho anal\u00edtico \u00e9 capaz de produzir um acontecimento de corpo, nesse aspecto de que uma an\u00e1lise \u00e9 capaz de produzir um novo arranjo na rela\u00e7\u00e3o com o corpo? A gente pode dizer que a an\u00e1lise produz um acontecimento de corpo? E uma pergunta que tenho para voc\u00ea e toca esse ponto que me parece que eu interpretaria como uma posi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sua, que, pelo menos no congresso, me pareceu um elemento importante, em rela\u00e7\u00e3o a tudo isso que estamos dizendo, tem uma maneira que a gente articula teoricamente que faz quase elogio ao <em>trou<\/em>, ao furo. Enquanto me parece que sua posi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 fazer um certo elogio ao semblante f\u00e1lico como tratamento dessas coisas. Bom, se puder dizer algo sobre isso.<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; Bom, uma an\u00e1lise pode produzir um acontecimento de corpo? Como se insere isso em nossa pr\u00e1tica? A ambi\u00e7\u00e3o de Lacan era que a interpreta\u00e7\u00e3o produzisse um acontecimento de corpo. Essa \u00e9 a \u00faltima virada que temos em Lacan a respeito da interpreta\u00e7\u00e3o, de que maneira a interpreta\u00e7\u00e3o produz um efeito de corpo. Somente produz um efeito de corpo se de alguma maneira est\u00e1 enla\u00e7ada a esse efeito de corpo inicial. Por isso, a interpreta\u00e7\u00e3o tem cada vez mais o formato de murm\u00fario, a forma de <em>lal\u00edngua<\/em>. N\u00e3o a forma de um significante equ\u00edvoco, sen\u00e3o de que maneira a interpreta\u00e7\u00e3o pode se mimetizar, se assemelhar, se parecer ao impacto de <em>lal\u00edngua<\/em> sobre o corpo. E, ent\u00e3o, assim s\u00e3o suas ideias da resson\u00e2ncia, de que maneira tocar o corpo com a palavra. Isso porque sua doutrina passa a ser que o <em>parl\u00eatre<\/em> est\u00e1 constitu\u00eddo sobre o impacto da <em>lal\u00edngua <\/em>sobre o corpo, e ent\u00e3o a interpreta\u00e7\u00e3o deveria reduplicar isso, para enfrentar o sem sentido que h\u00e1 nisso, e n\u00e3o para lhe dar sentido.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a interpreta\u00e7\u00e3o tem como meta abolir o sentido, mas n\u00e3o apenas abolir o sentido pelo jogo de palavras, n\u00e3o apenas com o jogo significante, porque finalmente isso sempre dar\u00e1 lugar a outra nova significa\u00e7\u00e3o. Todo equ\u00edvoco lan\u00e7a uma nova interpreta\u00e7\u00e3o e uma nova significantiza\u00e7\u00e3o. A ideia de Lacan da interpreta\u00e7\u00e3o como <em>r\u00e9son<\/em>, como resson\u00e2ncia, acompanha aquilo que Miller chamou como forma de interpreta\u00e7\u00e3o, a constata\u00e7\u00e3o, que \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio do equ\u00edvoco. O equ\u00edvoco \u00e9 duas palavras que soam parecido e remetem a outra coisa, quer dizer que o equ\u00edvoco sempre tem como sustenta\u00e7\u00e3o a f\u00f3rmula \u201c<em>n\u00e3o \u00e9 isso<\/em>\u201d, \u201cquis dizer isto, mas, na verdade, quis dizer isto\u201d, que remete a isto e aquilo, e ali tem o jogo de palavras que pode se estender ao infinito. A constata\u00e7\u00e3o tem outra forma de jogo de palavras que \u00e9 \u201c<em>\u00e9 assim<\/em>\u201d. <em>\u00c9 isso<\/em>. \u00c9 a constata\u00e7\u00e3o de que \u00e9 isso. No equ\u00edvoco, estamos na dimens\u00e3o de <em>n\u00e3o h\u00e1<\/em>, at\u00e9 imaginar chegar a um n\u00e3o h\u00e1 absoluto, n\u00e3o h\u00e1 sentido \u00faltimo. Mas a constata\u00e7\u00e3o \u00e9 um <em>\u00e9 assim<\/em>, isso \u00e9 assim. Uma maneira de indicar, de fazer signo do que h\u00e1. \u00c9 diferente da interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e9 um <em>plus<\/em> que Miller agrega \u00e0s modalidades da interpreta\u00e7\u00e3o que vai na dire\u00e7\u00e3o de <em>h\u00e1.<\/em> Uma vez que formula o \u201ch\u00e1-Um\u201d, em seu \u00faltimo curso, a interpreta\u00e7\u00e3o passa a ter essa modalidade de <em>\u00e9 isso<\/em>. Enquanto no equ\u00edvoco a ideia de base \u00e9 <em>n\u00e3o \u00e9 isso<\/em>. \u00c9 interessante ver como se complexifica a pr\u00e1tica a partir dessa nova perspectiva de Lacan que toma como referente o corpo vivo e n\u00e3o o objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 outra maneira, com a qual n\u00e3o implica que numa an\u00e1lise n\u00e3o se tenha que localizar o objeto, atravessar o fantasma e fazer tudo o que \u00e9 preciso fazer. Mas, com isso, n\u00e3o se chega a tocar esse gozo que h\u00e1 e que se nidifica no sintoma. O sintoma pode ser interpretado mas h\u00e1 um n\u00facleo ininterpret\u00e1vel no sintoma.<\/p>\n<p>Sobre o tratamento f\u00e1lico, n\u00e3o sei o que possa ter dito, mas n\u00e3o me parece que minha ideia se trate de um tratamento f\u00e1lico.<\/p>\n<p><strong>Gresiela Nunes<\/strong> \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o um tratamento f\u00e1lico, mas uma certa sustenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica em rela\u00e7\u00e3o ao semblante. O tratamento dirigido a poder sustentar um semblante diante disso.<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; Semblante de objeto, n\u00e3o um semblante f\u00e1lico. Em nossa comunidade, quando escutamos os testemunhos de passe, h\u00e1 testemunhos que se inclinam em dire\u00e7\u00e3o ao <em>trou<\/em>, a demonstrar o furo, o vazio. E h\u00e1 testemunhos que se inclinam a colocar em evid\u00eancia o <em>trop<\/em>, o excesso. Como as duas quest\u00f5es est\u00e3o presentes, tem mais a ver com o estilo da transmiss\u00e3o e com o que foi mais relevante na an\u00e1lise. H\u00e1 an\u00e1lises onde efetivamente o <em>trou <\/em>\u00e9 resolutivo e h\u00e1 an\u00e1lises onde \u00e9 o <em>trop<\/em>, o excesso, o que est\u00e1 em jogo. \u00c9 poss\u00edvel escutar perfeitamente em nossa comunidade testemunhos de passe que v\u00e3o em uma ou outra dire\u00e7\u00e3o e momentos da an\u00e1lise que v\u00e3o em uma ou na outra. N\u00e3o \u00e9 a dimens\u00e3o f\u00e1lica, \u00e9 a dimens\u00e3o de tomar a via do furo no simb\u00f3lico ou a via do excesso no corpo. Mas isso tem rela\u00e7\u00e3o com o que se passou na an\u00e1lise, n\u00e3o h\u00e1 uma generalidade nisso.<\/p>\n<p><strong>Li\u00e8ge Goulart<\/strong> &#8211; Muito obrigada. A pergunta que queria fazer \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao analista trauma, esse que perturba a defesa como voc\u00ea trouxe. Mais para o final da sua exposi\u00e7\u00e3o, voc\u00ea esclarece falando do analista que encarna <em>lal\u00edngua<\/em>, esse primeiro acontecimento de corpo que traumatiza. O analista trauma n\u00e3o \u00e9 o analista que retraumatiza, certamente, acho que depende do momento da an\u00e1lise, enfim, mas agora um pouco acho que voc\u00ea respondeu, da interpreta\u00e7\u00e3o, desse encarnar algo desse acontecimento primeiro, mas que \u00e9 para constatar o sem-sentido dele. A constata\u00e7\u00e3o do sem sentido que parece que o fantasma carregava, \u00e9 isso?<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; \u00c9 isso.<\/p>\n<p><strong>Laureci Nunes<\/strong> &#8211; Graciela, na constru\u00e7\u00e3o do teu percurso hoje, bem ao in\u00edcio tu falas da passagem do sintoma para o acontecimento de corpo no ensino de Lacan e, nesse momento, me pareceu que n\u00e3o teria mais um trabalho de an\u00e1lise sobre o que \u00e9 poss\u00edvel decifrar. Agora ao responder para a Gresiela voc\u00ea retoma e fala do n\u00facleo ininterpret\u00e1vel do sintoma, uma parte da quest\u00e3o que queria retomar acabaste dizendo. Bem no final, nas \u00faltimas frases tuas, tu falas, se eu entendi bem, que n\u00f3s tentamos localizar o acontecimento anterior para barrar com um imagin\u00e1rio e dar um sentido. Isso me surpreendeu um pouco, porque eu supunha que dev\u00edamos seguir sempre por um caminho de retirada do sentido, por\u00e9m, agora, na retomada da quest\u00e3o, tu falas da constata\u00e7\u00e3o. Um caminho que n\u00e3o o equ\u00edvoco, a constata\u00e7\u00e3o. Isso torna um pouco mais claro o in\u00edcio quando falavas em localizar o que h\u00e1,\u00a0 por aqui consigo acompanhar e localizar bem o <em>\u00e9 isso<\/em>, como ato anal\u00edtico. E a isso, a gente chamaria um nomear?<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; Penso que no transcurso da an\u00e1lise n\u00e3o se pode prescindir do enodamento necess\u00e1rio, que \u00e9 necess\u00e1rio. Quando se pode encontrar a rela\u00e7\u00e3o entre a anorexia e o acontecimento de corpo, \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel tomar uma decis\u00e3o sobre como intervir. Mas isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma vez que se percorreu todas as cadeias necess\u00e1rias at\u00e9 localizar o acontecimento nessa hist\u00f3ria familiar onde ningu\u00e9m disse nada. Onde a menstrua\u00e7\u00e3o se apresenta como um verdadeiro acontecimento insensato encarnado, como algo que lhe ocorre ao corpo. A rela\u00e7\u00e3o entre isso e a anorexia, que se apresenta como sintoma na jovem, se constr\u00f3i na an\u00e1lise. Num princ\u00edpio est\u00e1 tudo separado, ningu\u00e9m viu a rela\u00e7\u00e3o entre o desmaio inicial e a anorexia. Sempre se interpretou a anorexia em outra dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 quando foi poss\u00edvel fazer a localiza\u00e7\u00e3o desse acontecimento em rela\u00e7\u00e3o a uma hist\u00f3ria e ver como o sintoma incorporava o acontecimento, como o sintoma era um tratamento para o acontecimento, que foi poss\u00edvel tomar a decis\u00e3o do que fazer com isso. Mas primeiro \u00e9 preciso encontrar o sentido para ir em dire\u00e7\u00e3o ao sem sentido, isso \u00e9 o final da an\u00e1lise. Intervir de primeira desse modo seria muito dif\u00edcil, ter\u00edamos perdido o analisante mas ter\u00edamos nos perdido tamb\u00e9m, sem poder localizar o que \u00e9 essa anorexia. Essa anorexia obteve um sentido para n\u00f3s, em alguns casos que s\u00e3o um pouco mais delirantes \u00e9 o pr\u00f3prio analisante que come\u00e7a a dar sentido, como o caso de Schreber, ele come\u00e7a a dar sentido. O corpo come\u00e7a a estar agitado sem se saber porque e n\u00e3o recorre a um analista para ver o que lhe ocorre, ele mesmo interpreta isso como uma vontade de Deus de gozar numa posi\u00e7\u00e3o feminina. Constr\u00f3i a partir disso uma significa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 muito dif\u00edcil pensar o acontecimento de corpo que se produz na vida de um sujeito, se esse sujeito est\u00e1 na an\u00e1lise, e n\u00e3o inseri-lo na l\u00f3gica de uma vida, sen\u00e3o seria o vaso que cai na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio de Mattos<\/strong> &#8211; Quero fazer duas perguntas r\u00e1pidas. Uma \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o que Laureci lembrou, quando voc\u00ea diz que uma coisa que n\u00e3o se pode fazer \u00e9 ajudar a\u00a0 amarrar ao acontecimento de corpo uma imagem. Gostaria que pudesse falar mais disso. Outra coisa \u00e9 essa interpreta\u00e7\u00e3o que mimetiza o impacto da<em> lal\u00edngua<\/em>, se pudesse dizer como que mimetizar esse murm\u00fario trata ou cura? Em que essa mimetiza\u00e7\u00e3o produz esse efeito sobre o gozo de <em>lal\u00edngua<\/em>? Como isso se d\u00e1?<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; A amarra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. Finalmente, o sentido \u00e9 uma amarra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. O sentido \u00e9 imagin\u00e1rio. No n\u00f3, o gozo do sentido est\u00e1 na intersec\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e do simb\u00f3lico, \u00e9 assim. Quer dizer que, quando falamos de inserir o acontecimento em uma linha de tempo, \u00e9 para localizar simbolicamente o que aconteceu antes e o que aconteceu depois, essa forma de localizar S1 e S2 e, ao mesmo tempo, a doa\u00e7\u00e3o de sentido, que est\u00e1 na intersec\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e do simb\u00f3lico. H\u00e1 uma dupla dimens\u00e3o, tratar dos n\u00f3s \u00e9 complexo, mas prefiro me manter no mais elementar, de que maneira o n\u00f3 de tr\u00eas aprisiona gozos; um deles \u00e9 o gozo do sentido, que est\u00e1 entre o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Como o murm\u00fario cura? Enquanto n\u00e3o fa\u00e7a rir, n\u00e3o cura&#8230; se pudermos falar de cura. A interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica que pode conduzir para o final dos finais, n\u00e3o \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica com a qual recebemos o paciente. \u00c9 quando todos os sentidos j\u00e1 foram percorridos, o que fica? O que fica do equ\u00edvoco, do enigma, da cita\u00e7\u00e3o? Fica o sil\u00eancio, a constata\u00e7\u00e3o, e a jacula\u00e7\u00e3o. Modos de fazer eco no corpo, como podemos. Se \u00e9 que isso existe, se \u00e9 que isso funciona. Os AEs contam isso, algo disso nos transmitem os AEs. \u00c9 para isso que existe a Escola, existe em boa parte para isso, para ver se isso que diz Lacan e que podemos citar com maior ou menor dificuldade recorrendo a estudos complementares de topologia, matem\u00e1tica, antropologia etc., se isso que diz Lacan se verifica nas curas. Para isso, escutamos os AEs, para ver se podemos captar algo de como o murm\u00fario de <em>lal\u00edngua<\/em> lhes permitiu sair da an\u00e1lise. Quando, para muitos casos, o murm\u00fario de <em>lal\u00edngua<\/em> os conduz ao manic\u00f4mio, mas, em alguns casos, o murm\u00fario de <em>lal\u00edngua<\/em> permite reconhecer o sem sentido e deixar de buscar, se acostumar ao real. Nunca li isso como uma resigna\u00e7\u00e3o; li como <em>\u00e9 isso<\/em>, e com isso \u00e9 preciso se virar. Isso n\u00e3o se cura. Com isso se pratica e, quando digo \u201cisso\u201d, penso que com isso se pratica uma vida al\u00e9m disso, uma psican\u00e1lise. N\u00e3o h\u00e1 modo de praticar a psican\u00e1lise se n\u00e3o \u00e9 com isso, com uma intui\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um ponto irrepresent\u00e1vel, n\u00e3o signific\u00e1vel e o que nos resta \u00e9 nos virarmos com isso e, se \u00e9 poss\u00edvel, nos divertirmos com isso. Sim, Lacan pensou que o final da an\u00e1lise tinha a estrutura do chiste, quando diz que o passe \u00e9 a \u00faltima boa hist\u00f3ria que nos contamos. \u00c9 impressionante essa frase, dizer a \u00faltima boa hist\u00f3ria que nos contamos. Diz que o passe \u00e9 uma hist\u00f3ria. \u00c9 a hist\u00f3ria que podemos montar de nossa vida com um pouco de com\u00e9dia.<\/p>\n<p>Tem um par\u00e1grafo maravilhoso onde Miller diz que, para o passe, o que \u00e9 preciso fazer \u00e9 o que fez Cyrano de Bergerac com seu nariz: fazer toda uma hist\u00f3ria. E que enquanto n\u00f3s sofrermos com isso \u00e9 melhor voltar \u00e0 an\u00e1lise e diz aos AEs: nos divirtam, contem-nos a boa hist\u00f3ria, fa\u00e7am do seu sofrimento uma com\u00e9dia. Quando se faz do sofrimento uma com\u00e9dia, \u00e9 quando se desprendeu verdadeiramente do fantasma e sabe fazer disso um la\u00e7o social. Simplesmente porque tem gra\u00e7a, bom, \u00e9 isso. \u00c9 isso!<\/p>\n<p><strong>Luis Francisco Camarg<\/strong>o &#8211; Uma pergunta que tem a ver com uma frase que voc\u00ea disse e que gostei muito. Que o campo das neuroses \u00e9 caracterizado pelo retorno do gozo recha\u00e7ado, n\u00e3o o retorno do recalcado, mas o retorno do gozo recha\u00e7ado. Isso me fez pensar sobre a teoria das puls\u00f5es em Freud, as puls\u00f5es de vida e de morte. As puls\u00f5es de vida estariam ao lado das puls\u00f5es parciais, capturadas pelo significante, parcialmente. Por\u00e9m, h\u00e1 um gozo que n\u00e3o se deixa capturar. A pergunta \u00e9 a seguinte. Hoje pela manh\u00e3 assistimos a confer\u00eancia do AE, e ele nos trouxe uma ilustra\u00e7\u00e3o muito interessante, a de que no final de sua an\u00e1lise ele foi \u00e0 farm\u00e1cia e estava tudo muito lindo, qualquer lugar que ele ia tudo estava bem. Isso n\u00e3o seria um exemplo de uma reintegra\u00e7\u00e3o de um gozo mort\u00edfero ao gozo da vida? Algo da morte que se reintroduz na dimens\u00e3o da vida e que me parece ser um esvaziamento do gozo mort\u00edfero, a liberta\u00e7\u00e3o desse gozo, outrora capturado pelo significante. Ou seja, a liberta\u00e7\u00e3o de um gozo que pode circular n\u00e3o s\u00f3 parcialmente, mas circular por outra satisfa\u00e7\u00e3o. No depoimento de S\u00e9rgio de Mattos me deu a impress\u00e3o de ser um gozo cont\u00ednuo.<\/p>\n<p><strong>Graciela Brodsky<\/strong> &#8211; A express\u00e3o um gozo cont\u00ednuo daria para uma confer\u00eancia inteira. Porque o que ningu\u00e9m me perguntou ainda, e n\u00e3o v\u00e3o me perguntar agora porque n\u00e3o temos tempo, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o gozo opaco, imposs\u00edvel de capturar, do que n\u00e3o se pode falar, do que n\u00e3o se sabe nada, com o que Lacan chamou de gozo feminino. Efetivamente, isso que descrevia hoje S\u00e9rgio de Mattos era isso que Lacan chamou alguma vez de o gozo da vida, n\u00e3o o gozo do objeto <em>a<\/em>, n\u00e3o \u00e9 o gozo fantasm\u00e1tico, mas o gozo da vida. \u00c9 muito interessante: no curso <em>Donc<\/em>, de Miller, ele formula muito bem como a transfer\u00eancia, a transfer\u00eancia que \u00e9 amor, \u00e9 a transfer\u00eancia do gozo ao lado do analista. Quer dizer que o analista passa a encarnar o gozo e o sujeito passa a encarnar o sujeito barrado e, no final da an\u00e1lise, o que se produz \u00e9 uma recupera\u00e7\u00e3o desse gozo que se transferiu na transfer\u00eancia. E ent\u00e3o isso explica o estado man\u00edaco, \u00e0s vezes, que caracteriza o final da an\u00e1lise, porque o final da an\u00e1lise est\u00e1 dado pela recupera\u00e7\u00e3o de gozo que no trabalho anal\u00edtico se cedeu ao campo do Outro. Ent\u00e3o, na medida que o gozo \u00e9 retirado do campo do Outro e volta a animar o corpo, o Outro perde consist\u00eancia, porque o \u00fanico que lhe dava consist\u00eancia era esse gozo que n\u00f3s lhe hav\u00edamos transferido. \u00c9 preciosa essa ideia de qual \u00e9 o fundamento libidinal da transfer\u00eancia e de como a queda do Sujeito Suposto Saber \u00e9 finalmente a recupera\u00e7\u00e3o da libido que hav\u00edamos depositado no campo do Outro e isso vivifica o corpo, reintroduz o gozo no corpo.<\/p>\n<p>Luis Francisco Camargo &#8211; Por isso, essa substitui\u00e7\u00e3o significante n\u00e3o proporciona isso.<\/p>\n<p>Graciela Brodsky &#8211; Efetivamente, a substitui\u00e7\u00e3o significante n\u00e3o proporciona isso. \u00c9 um mais e mais e mais ao infinito. Ok! H\u00e1 algo mais?<\/p>\n<p>05 de outubro de 2024<\/p>\n<h6>Transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o: Paula Nathalie Nocquet<br \/>\nRevis\u00e3o: Diego Cervelin e Paula Lermen<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graciela Brodsky (AME, EOL\/AMP) Obrigada pelo convite, obrigada por estarem aqui. Ontem soube que a \u00faltima vez que estive em Florian\u00f3polis tomando a palavra foi no ano de 2007. Passaram-se muitos anos, mas aqui estamos. 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