{"id":5212,"date":"2024-09-24T07:31:12","date_gmt":"2024-09-24T10:31:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5212"},"modified":"2024-09-24T07:31:12","modified_gmt":"2024-09-24T10:31:12","slug":"uma-demanda-ou-um-dizer-sobre-o-enderecamento-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/uma-demanda-ou-um-dizer-sobre-o-enderecamento-a-escola\/","title":{"rendered":"Uma demanda ou um dizer? Sobre o endere\u00e7amento \u00e0 Escola"},"content":{"rendered":"<h6>Rafael Marques Longo<br \/>\nJoinville\/SC<br \/>\nNova Pol\u00edtica da Juventude &#8211; Se\u00e7\u00e3o Sul<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5196\" aria-describedby=\"caption-attachment-5196\" style=\"width: 485px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5196\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/modos_de_usar_005_005-291x300.jpg\" alt=\"\" width=\"485\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/modos_de_usar_005_005-291x300.jpg 291w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/modos_de_usar_005_005.jpg 431w\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5196\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Jaider Esbell<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estamos aqui no primeiro evento da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise destinado a fazer saber sobre a Nova Pol\u00edtica da Juventude. De que se trata essa nova pol\u00edtica? Um movimento que partiu de jovens argentinos, endere\u00e7ando quest\u00f5es a Jacques-Alain Miller. Dessa demanda, JAM fez um ato: a NPJ, acolhido e endossado pela Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. A proposta parte de uma constata\u00e7\u00e3o, como aponta a \u00faltima carta do Conselho da Nueva Escuela Lacaniana &#8211; NEL: \u201caus\u00eancia de jovens na lista de candidatos apresentados pelas Escolas para a homologa\u00e7\u00e3o\u201d. E indica a quest\u00e3o em jogo: \u201cque a psican\u00e1lise siga sendo causa de desejo para as novas gera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Foram 5 jovens da regi\u00e3o sul que se endere\u00e7aram ao Conselho da EBP demandando a participa\u00e7\u00e3o nessa nova pol\u00edtica. O que demandam os jovens? O que demandam os jovens ao Campo freudiano? O que demandamos n\u00f3s, cada Um? E nessa \u00faltima quest\u00e3o, valem os dois tempos do verbo: o que estamos demandando e o que demandamos no \u201cato\u201d de endere\u00e7amento \u00e0 Escola.<\/p>\n<p>Ao associar livremente, ainda que pelos dedos, escrevo \u201cnomea\u00e7\u00e3o\u201d. Seria uma nomea\u00e7\u00e3o o que n\u00f3s jovens demandamos? Ou se trata de uma interpreta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos? Duas perspectivas n\u00e3o necessariamente excludentes.<\/p>\n<p>Na primeira os jovens teriam na escola um l\u00f3cus ao qual sua ader\u00eancia poderia ser nomeada e com isso transformada em um certo lugar, elemento simb\u00f3lico, que sugere pertencimento. Aproveitando o termo \u201cjovem\u201d para aludir ao <em>infans <\/em>que tem sua necessidade nomeada no campo do Outro, o que permite, ao traduzir necessidade em demanda, ascender \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de sujeito. \u00c9 o que nos mostra o primeiro andar do grafo do desejo. (Lacan, 1998\/1960, p. 828)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A segunda p\u00f5e em cena os movimentos n\u00e3o apenas dos jovens demandantes, inclui tamb\u00e9m a institui\u00e7\u00e3o, cujo primeiro \u201cato\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 NPJ foi o recuo sobre a nomea\u00e7\u00e3o. Dessa a\u00e7\u00e3o podemos extrair um elemento que nos interessa, seu efeito enquanto pot\u00eancia desidealizadora, t\u00e3o necess\u00e1ria aos praticantes, dado que o caminho de uma an\u00e1lise \u00e9 precisamente a queda da suposi\u00e7\u00e3o de saber. (Lacan, 1967-8, p. 139)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Bom, demandar pode ser demandar amor, mas \u00e9 o \u00fanico meio para se localizar o desejo. Como bem nos mostra a dimens\u00e3o topol\u00f3gica da demanda apontada no semin\u00e1rio, livro 9, pela qual o toro se constitui numa primeira volta da demanda e, ao final dessa primeira volta e nas subsequentes, o desejo se torna cern\u00edvel, por n\u00e3o se tratar de mat\u00e9ria topograficamente localiz\u00e1vel. Ou nos mostra a experi\u00eancia, que verifica nesse caso, pela demanda, o desejo de trabalho nos jovens praticantes.<\/p>\n<p>Enfim, c\u00e1 estamos. Trabalhando. Buscando transmitir algo de nossa rela\u00e7\u00e3o com a causa anal\u00edtica. Afinal, \u00e9 o que pretende p\u00f4r em cena uma experi\u00eancia de Escola.<\/p>\n<p>Inspirado pela publica\u00e7\u00e3o recente do Semin\u00e1rio XV, ponho em quest\u00e3o esse endere\u00e7amento \u00e0 escola. A discuss\u00e3o desse Semin\u00e1rio gira em torno do fazer do psicanalista. Do que deriva a seguinte quest\u00e3o: O que faz um psicanalista? Interpreta, pontua, gesticula, sublinha, escuta, interv\u00e9m? Mais do que isso, um analista membro de Escola tamb\u00e9m escreve, produz, transmite, entre tantos outros fazeres que a pessoa do psicanalista assume.<\/p>\n<p>Lacan apresenta uma distin\u00e7\u00e3o que pode nos nortear: \u201cFaz-se qualquer coisa, e \u00e9 bem desta diferen\u00e7a entre um fazer e um ato que se trata\u201d (Lacan, 1967-8, p. 57). O que seria, ent\u00e3o, um ato, que n\u00e3o \u00e9 qualquer fazer? Condensando alguns trechos, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que \u00e9 um dizer<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> &#8211; o que n\u00e3o quer dizer exatamente uma fala, como bem sabemos -, que produz uma ruptura com a ordem significante, em cujo instante n\u00e3o h\u00e1 sujeito<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Um evento hist\u00f3rico ilustra o que se pode chamar de ato: o passo de C\u00e9sar ao atravessar o Rubic\u00e3o. N\u00e3o foi um passo, uma a\u00e7\u00e3o qualquer. Mas uma travessia que declarou guerra contra Pompeu. Desse passo, n\u00e3o havia como voltar atr\u00e1s, pois incidia numa ruptura com a ordem significante, com a lei. Esse c\u00e9lebre evento marcou o curso da hist\u00f3ria. Um ato mudou o curso da hist\u00f3ria. O que \u00e9 sua \u201cmarca registrada\u201d. Um ato, sempre, muda o curso da hist\u00f3ria. Muda a hist\u00f3ria do sujeito. Marca um antes e um depois.<\/p>\n<p>Na contracapa do semin\u00e1rio, Miller comenta o percurso de uma an\u00e1lise:<\/p>\n<blockquote><p>No seu in\u00edcio, h\u00e1 um desejo in\u00e9dito, que sup\u00f5e uma travessia, quer dizer, um ato, como o C\u00e9sar passando o Rubic\u00e3o. Esse ato \u00e9 aquele do analisante, mas o ato psicanal\u00edtico propriamente dito, \u00e9 o psicanalista que o realiza abrindo a esse analisante o campo dito do \u201csujeito suposto saber\u201d onde se decifra o inconsciente. No final, o s.s.s. se esvanece, enquanto o analista, seu suporte, \u00e9 evacuado como o dejeto da opera\u00e7\u00e3o, tal qual \u00c9dipo acabando sua vida a olhos perfurados.<\/p><\/blockquote>\n<p>Logo, temos atos do lado do analisante e ato psicanal\u00edtico realizado pelo analista. No entanto, esse semin\u00e1rio marca uma virada, ao definir o psicanalista como \u201cum analisante (palavra que Lacan substitui \u00e0quela de analisado) que levou a seu termo a experi\u00eancia anal\u00edtica.\u201d (Ibidem) O que elucida o ato psicanal\u00edtico ser tomado como a passagem de analisante a analista.<\/p>\n<p>Mas o que isso tem a ver com o endere\u00e7amento \u00e0 Escola? Um sujeito n\u00e3o sabe o que demanda, mas algo o mobiliza a um endere\u00e7amento, a dar um passo. Um passo sem saber o que vir\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 psicanalista que n\u00e3o tenha demandado uma an\u00e1lise. N\u00e3o h\u00e1 psicanalista que n\u00e3o tenha dado passos. N\u00e3o h\u00e1 psicanalista que n\u00e3o tenha suportado um ato. Aqui, cinco passos foram dados. Talvez seja cedo para interpret\u00e1-los, talvez estejamos ainda no instante de ver. N\u00e3o sabemos se esses pedidos de participa\u00e7\u00e3o nessa experi\u00eancia de Escola foram atos ou se desses passos atos se realizar\u00e3o. O que pode ser lido &#8211; e dever\u00e1 ser interpretado &#8211; \u00e9 que, embora o sujeito n\u00e3o saiba o que demanda, um para-al\u00e9m se deslinda no passo dado. E hoje aqui apostamos em extrair, do endere\u00e7amento, um dizer.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>Carta del Consejo 2023-2025 &#8211; N\u00b0 1 Puntos Vivos &#8211; Nueva Pol\u00edtica de Juventud. Mayo de 2024.<\/p>\n<p>LACAN, Jacques. (1967-8\/2024) <em>Le S\u00e9minaire XV<\/em> L\u00b4acte psychanalytique. Paris: Seuil &amp; Le Champ Freudien.<\/p>\n<p>______________.(1960\/1998). <em>Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano.<\/em> In: Escritos. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques (1998\/1960, p. 828): \u201cO desejo se esbo\u00e7a na margem em que a demanda se rasga da necessidade: essa margem \u00e9 a que a demanda, cujo apelo n\u00e3o pode ser incondicional sen\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao Outro, abre sob a forma da poss\u00edvel falha que a necessidade pode a\u00ed introduzir, por n\u00e3o haver satisfa\u00e7\u00e3o universal (o que \u00e9 chamado de ang\u00fastia).\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques (1967-8\/2024, p. 139): \u201cO analista n\u00e3o sabe que h\u00e1 um sujeito suposto saber, e sabe mesmo que tudo de que se trata na psican\u00e1lise a partir da exist\u00eancia do inconsciente, consiste justamente em riscar do mapa essa fun\u00e7\u00e3o de sujeito suposto saber.\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Ou Lacan, Jacques (1967-8\/2024, p.57): \u201cOra, o que quer dizer a an\u00e1lise da transfer\u00eancia? Se ela quer dizer alguma coisa, n\u00e3o pode ser sen\u00e3o isto: a elimina\u00e7\u00e3o deste sujeito suposto saber.\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques (1967-8\/2024, p. 93):\u00a0 \u201cO ato psicanal\u00edtico, se \u00e9 um ato, e foi precisamente da\u00ed que partimos desde o ano passado, \u00e9 algo que nos levanta a quest\u00e3o de articul\u00e1-lo, de diz\u00ea-lo, o que \u00e9 leg\u00edtimo e, mais ainda, o que implica consequ\u00eancia de ato, na medida em que o ato \u00e9, por sua pr\u00f3pria dimens\u00e3o, um dizer. O ato diz algo. Foi da\u00ed que partimos.\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques (1967-8\/2024, p. 58): \u201c(&#8230;) uma dimens\u00e3o comum do ato \u00e9 a de n\u00e3o comportar, no seu instante, a presen\u00e7a do sujeito.\u201d<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Marques Longo Joinville\/SC Nova Pol\u00edtica da Juventude &#8211; Se\u00e7\u00e3o Sul &nbsp; Estamos aqui no primeiro evento da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise destinado a fazer saber sobre a Nova Pol\u00edtica da Juventude. De que se trata essa nova pol\u00edtica? Um movimento que partiu de jovens argentinos, endere\u00e7ando quest\u00f5es a Jacques-Alain Miller. 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