{"id":5188,"date":"2024-09-24T07:25:10","date_gmt":"2024-09-24T10:25:10","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5188"},"modified":"2024-09-24T07:25:10","modified_gmt":"2024-09-24T10:25:10","slug":"comentarios-de-membros-da-ebp-amp-atualidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/comentarios-de-membros-da-ebp-amp-atualidades\/","title":{"rendered":"COMENT\u00c1RIOS DE MEMBROS DA EBP\/AMP &#038; ATUALIDADES"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>O pai tornado vapor<\/em><\/strong><strong> e a eros\u00e3o do Outro<\/strong><\/p>\n<h6>Niraldo de Oliveira Santos (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5190\" aria-describedby=\"caption-attachment-5190\" style=\"width: 385px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5190\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/modos_de_usar_005_011-231x300.jpg\" alt=\"\" width=\"385\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/modos_de_usar_005_011-231x300.jpg 231w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/modos_de_usar_005_011.jpg 318w\" sizes=\"auto, (max-width: 385px) 100vw, 385px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5190\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Jaider Esbell<\/figcaption><\/figure>\n<p>No texto \u201cO pai tornado vapor\u201d[1], Jacques-Alain Miller refere que, em nossos tempos, o dinheiro vem no lugar do pai e que o capitalismo foi um dos fatores respons\u00e1veis para o decl\u00ednio do patriarcado. Nesta vertente, podemos nos questionar tamb\u00e9m quais as consequ\u00eancias desses fatores para os la\u00e7os contempor\u00e2neos, principalmente no que diz respeito ao amor.<\/p>\n<p>Byung Chul Han, fil\u00f3sofo sul coreano radicado na Alemanha, no livro intitulado \u201cA agonia do eros\u201d, afirma que as consequ\u00eancias da uni\u00e3o do discurso capitalista com as tecnoci\u00eancias podem ser verificadas no fen\u00f4meno de recha\u00e7o ao Outro, interferindo diretamente nisto que ele chama de agonia do eros.<\/p>\n<p>Para Han, est\u00e1 em curso algo que sufoca essencialmente o amor, que ele chama de a eros\u00e3o do Outro, caminhando \u201ccada vez mais de m\u00e3os dadas com a narcisifica\u00e7\u00e3o do si-mesmo\u201d[2]. Para ele, tudo \u00e9 nivelado e se transforma em objeto de consumo e o corpo \u00e9 equiparado a uma mercadoria: \u201cN\u00e3o se pode amar o outro, a quem se privou de sua alteridade; s\u00f3 se poder\u00e1 consumi-lo\u201d[3].<\/p>\n<p>O autor tamb\u00e9m adiciona como um fator complicador no mundo contempor\u00e2neo o fato de cada vez mais os sujeitos serem empreendedores de si mesmos. O sujeito de desempenho, como ele chama, seria supostamente livre na medida em que n\u00e3o est\u00e1 submisso a outras pessoas que lhe d\u00e3o ordens e o exploram. Por\u00e9m, o paradoxo apontado por Han \u00e9 que o sujeito empreendedor de si mesmo acaba por explorar a si mesmo; o explorado \u00e9 o mesmo explorador, v\u00edtima e algoz ao mesmo tempo: \u201cA autoexplora\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais eficiente do que a explora\u00e7\u00e3o alheia, pois caminha de m\u00e3os dadas com o (suposto) sentimento de liberdade\u201d[4]. Na vis\u00e3o do autor, trata-se aqui de um mero viver: \u201cPor isso, o escravo, que se apega ao mero viver e trabalho, n\u00e3o \u00e9 capaz de experi\u00eancia er\u00f3tica, de cupidez er\u00f3tica\u201d[5].<\/p>\n<p>Vivemos, hoje, de acordo com Han, no est\u00e1gio hist\u00f3rico no qual senhor e escravo formam uma unidade: ser\u00edamos senhores-escravos ou escravos-senhores, \u201conde o neoliberalismo, com seus impulsos do eu e de desempenho desenfreados, \u00e9 uma ordem social da qual eros desapareceu totalmente\u201d[6]. Aqui, Han nos fala de sujeitos que simplesmente sobrevivem e que se parecem com mortos-vivos, que s\u00e3o por demais mortos para viver e por demais vivos para poder morrer.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o lembrar do que Lacan nos apresentou em sua palestra na capela de Sainte-Anne? Vejamos: \u201cO que distingue o discurso do capitalismo \u00e9 isto: a <em>Verwerfung<\/em>, a rejei\u00e7\u00e3o para fora de todos os campos do simb\u00f3lico, com as consequ\u00eancias de que j\u00e1 falei \u2013 rejei\u00e7\u00e3o de qu\u00ea? Da castra\u00e7\u00e3o. Toda ordem, todo discurso aparentado com o capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, de coisas do amor, meus bons amigos. Como voc\u00eas veem, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, certo?\u201d[7].<\/p>\n<p>Encerro com a quest\u00e3o, que me parece oportuna: como o discurso psicanal\u00edtico, com sua aposta no amor de transfer\u00eancia, pode interpelar os sujeitos que portam sintomas contempor\u00e2neos decorrentes da evapora\u00e7\u00e3o do pai e da eros\u00e3o do Outro?<\/p>\n<hr \/>\n<h6>[1] Miller, J-A. \u201cO pai tornado vapor\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n. 88, abril de 2024.<\/h6>\n<h6>[2] Han, B-C. \u201cAgonia do eros\u201d. Petr\u00f3polis: Vozes, 2017, p. 8.<\/h6>\n<h6>[3] Han, B-C. \u201cAgonia do eros\u201d, p. 27.<\/h6>\n<h6>[4] Han, B-C. \u201cAgonia do eros\u201d, p. 22.<\/h6>\n<h6>[5] Han, B-C. \u201cAgonia do eros\u201d, p. 43.<\/h6>\n<h6>[6] Han, B-C. \u201cAgonia do eros\u201d, p. 52.<\/h6>\n<h6>[7] Lacan, J. \u201cEstou falando com as paredes: conversas na Capela de Sainte-Anne\u201d. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 88.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai tornado vapor e a eros\u00e3o do Outro Niraldo de Oliveira Santos (EBP\/AMP) No texto \u201cO pai tornado vapor\u201d[1], Jacques-Alain Miller refere que, em nossos tempos, o dinheiro vem no lugar do pai e que o capitalismo foi um dos fatores respons\u00e1veis para o decl\u00ednio do patriarcado. Nesta vertente, podemos nos questionar tamb\u00e9m quais&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5188","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-modos-de-usar","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5188","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5188"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5188\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5201,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5188\/revisions\/5201"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5188"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5188"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5188"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5188"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}