{"id":5156,"date":"2024-09-18T06:21:24","date_gmt":"2024-09-18T09:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5156"},"modified":"2024-09-18T06:21:24","modified_gmt":"2024-09-18T09:21:24","slug":"a-paisagem-e-seus-misterios-uma-conversa-com-francisco-faria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/a-paisagem-e-seus-misterios-uma-conversa-com-francisco-faria\/","title":{"rendered":"A paisagem e seus mist\u00e9rios: uma conversa com Francisco Faria"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_5157\" aria-describedby=\"caption-attachment-5157\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5157 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-012-1-300x289.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-012-1-300x289.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-012-1-1024x987.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-012-1-768x741.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-012-1.jpg 1120w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5157\" class=\"wp-caption-text\">FARIA, Francisco. os poros fl\u00f3ridos II &#8211; T\u00e9cnica Mista 120&#215;120 cm &#8211; 1992. IN: Baptista, J.V &amp; Faria, F. Corpografias: Aut\u00f3psia po\u00e9tica das passagens. S\u00e3o Paulo, Ed. Iluminuras, 1992, p.53<\/figcaption><\/figure>\n<p>Bianca Dias* entrevista o artista Francisco Faria, que se destaca por seus desenhos feitos com l\u00e1pis grafite sobre papel, instala\u00e7\u00f5es e projetos de arte visual com a participa\u00e7\u00e3o de poetas. Os desenhos, frequentemente em grandes dimens\u00f5es, versam sobre estrat\u00e9gias gr\u00e1ficas e pict\u00f3ricas do g\u00eanero da paisagem, notadamente a brasileira e a da Am\u00e9rica Meridional.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Bianca Dias: Francisco, sua rela\u00e7\u00e3o com o desenho, t\u00e3o precisa e minuciosa, come\u00e7ou quando? Conte um pouco de seu percurso at\u00e9 se autorizar artista. Fico pensando nesse gesto de autoriza\u00e7\u00e3o que passa pela radicalidade de um percurso, estudo e dedica\u00e7\u00e3o. Assim como um analista se autoriza, um artista, antes de mais nada, precisa se autorizar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Francisco Faria: Sempre tive com o desenho uma rela\u00e7\u00e3o natural de minha comunica\u00e7\u00e3o com o mundo. Minha necessidade e facilidade de me expressar com desenho era t\u00e3o evidente que t\u00e3o cedo como nos meus 4 anos de idade minha m\u00e3e j\u00e1 me inscrevera em cursos. Nunca deixei de desenhar. Quando chegou a hora de escolher um curso universit\u00e1rio, optei pela arquitetura por sua rela\u00e7\u00e3o com o desenho.<\/p>\n<p>J\u00e1 um arquiteto formado, no in\u00edcio dos 1980, inscrevi pela primeira vez desenhos meus em sal\u00f5es de arte: em pouco tempo fui premiado em concursos estaduais e nacionais, e isso abriu uma janela de oportunidade para eu largar a arquitetura e me dedicar integralmente \u00e0 vida art\u00edstica.\u00a0 Mais precisamente, ao desenho. Foi uma decis\u00e3o extremamente arriscada, mas eu tinha uma convic\u00e7\u00e3o de que poderia desenvolver um trabalho consistente. Depois disso levou mais uns 3 anos para que eu chegasse \u00e0 minha primeira exposi\u00e7\u00e3o individual em uma galeria de mercado, que Bruno Musatti tinha na capital paulista, a Arco. Eu a admirava pela tremenda qualidade das exposi\u00e7\u00f5es que exibia. Isso me deu uma base sobre a qual pude me erguer com relativa solidez, para al\u00e9m das d\u00favidas e inseguran\u00e7as que normalmente afligem um jovem artista. Acho que algo que preciso dizer \u00e9 que desde o primeiro instante eu soube que meu trabalho sempre teria de ter qualidade para se apresentar sozinho, e que meu percurso n\u00e3o seria f\u00e1cil: o desenho teria de ser bom, com consist\u00eancia e significado suficientes para prescindir de outra apresenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a do pr\u00f3prio trabalho realizado. Isso porque eu percebi haver muita informa\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica, codificada nas linguagens art\u00edsticas, que derivava da quest\u00e3o da paisagem; por isso, tive de me assenhorear de uma t\u00e9cnica com a qual eu pudesse articular essas linguagens sem ter de fazer contornos ret\u00f3ricos, sem invencionice, sem ficar socorrendo a precariedade de express\u00e3o com gestos desnecess\u00e1rios e at\u00e9 rid\u00edculos. Eu precisava chegar, no desenho, a uma resolu\u00e7\u00e3o que me permitisse continuar explorando essas correla\u00e7\u00f5es. Essa rela\u00e7\u00e3o precisa e minuciosa, como voc\u00ea diz, para mim sempre foi uma quest\u00e3o de capacidade de manejo de linguagem. Havia e h\u00e1 uma necessidade de se jogar com recursos t\u00e9cnicos muito variados para se chegar a um trabalho que dialogue com a s\u00e9rie hist\u00f3rica, e a modifique, em certo sentido. Ent\u00e3o temos esse problema: se a constru\u00e7\u00e3o que almejamos n\u00e3o depende de nenhuma rever\u00eancia \u00e0 cronologia da hist\u00f3ria da arte, ela nos abre um universo extraordinariamente amplo de abordagens, todas igualmente v\u00e1lidas e atuais (no sentido de atuantes); por outro lado, essa liberdade implica um conhecimento que muita gente deve julgar extravagante. No fundo a quest\u00e3o \u00e9: como artista voc\u00ea se p\u00f5e perante uma s\u00e9rie de problemas que a tua escolha acarreta. Esse \u00e9 um momento de liberdade. O que adv\u00e9m disso \u00e9 um \u00e2mbito de responsabilidade, de enfrentar as quest\u00f5es que a constru\u00e7\u00e3o da linguagem te prop\u00f5e, n\u00e3o tentar fugir disso. N\u00e3o existe contorno, n\u00e3o existe caminho f\u00e1cil. Nessas quest\u00f5es reside o cerne e o futuro daquilo que o teu trabalho pode significar. \u00c9 uma dimens\u00e3o irrecus\u00e1vel do trabalho art\u00edstico.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua rela\u00e7\u00e3o com o entorno e a paisagem onde vive? E como isso influencia seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Isso talvez tenha vindo de uma inf\u00e2ncia rica e peculiar, em que ainda crian\u00e7a eu passava as f\u00e9rias escolares com meus av\u00f3s maternos em Caxambu, Minas Gerais. L\u00e1 eu tinha um cavalo, o Estrelo: sozinho com ele, fazia longos passeios pelo entorno rural da cidade, com suas est\u00e2ncias e estradinhas de terra batida, e passava horas admirando a beleza da paisagem rural mineira. Eram passeios que duravam todas as manh\u00e3s, mas com graus de liberdade e satisfa\u00e7\u00e3o dif\u00edceis de serem avaliados ou mesmo entendidos no mundo de hoje (pense na quantidade de horas que uma crian\u00e7a pode estar passeando sozinha, hoje em dia). Mais tarde, j\u00e1 um adolescente, ia acampar em lugares remotos na Serra do Mar, longe de qualquer civiliza\u00e7\u00e3o, por 4 ou 5 dias. Aprendi a olhar a paisagem com um v\u00ednculo de afeto, de liberdade e sem prem\u00eancias de tempo envolvidas na experi\u00eancia. Isso teve um impacto duradouro em minha forma\u00e7\u00e3o.\u00a0 J\u00e1 no in\u00edcio da aventura art\u00edstica, estudando em Nova York, descobri, com certa surpresa naquela \u00e9poca, como a natureza brasileira era valorizada no exterior (n\u00e3o era s\u00f3 o pa\u00eds do carnaval e do futebol). E pude descobrir a imensa riqueza do g\u00eanero da paisagem na arte universal, por um conjunto excepcional de exposi\u00e7\u00f5es retrospectivas de escolas paisag\u00edsticas e de outros artistas correlatos em museus e institui\u00e7\u00f5es norte-americanas. Quando voltei ao Brasil j\u00e1 sabia que come\u00e7aria a construir um trabalho sobre paisagem e, ao mesmo tempo, tive no\u00e7\u00e3o da imensa complexidade envolvida nesse projeto: tudo me demandaria muito estudo, muita viagem e muita dedica\u00e7\u00e3o por muitos e muitos anos. Isso que poderia ter sido uma dificuldade, para mim foi um est\u00edmulo fundamental.<\/p>\n<p>Eu soube desde o in\u00edcio que o problema se encontrava em enfrentar o vis\u00edvel num campo onde ele havia se tornado ralo, banal, um clich\u00ea. Ou seja, num campo onde ele aparentemente n\u00e3o dava a um artista contempor\u00e2neo quase nenhum recurso criativo imediatamente dispon\u00edvel (em inven\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica e reflex\u00e3o). Eu tinha a consci\u00eancia de que n\u00e3o estava procurando trabalhar com o vis\u00edvel como um pretexto ou um degrau para um outro discurso, nem querendo encontrar nele possibilidades &#8220;geniais&#8221; de express\u00e3o, mas removidas de todo seu significado hist\u00f3rico. Seria necess\u00e1rio trabalhar quase contra ele, encontrando o vis\u00edvel ali onde seu significado estava de tal forma reconhecido, e triunfalmente calcificado, que quase havia deixado de existir. Portanto, meu trabalho era o de vir\u00e1-lo pelo avesso. Ressemantiz\u00e1-lo. Isso se imp\u00f4s ao trabalho que eu quis fazer. Porque a paisagem tem um passado riqu\u00edssimo na hist\u00f3ria da arte, e, simultaneamente, uma falta de apre\u00e7o gigante pela satura\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o figurativa e naturalista, pela vizinhan\u00e7a com as t\u00e9cnicas acad\u00eamicas, pelo desgaste com quest\u00f5es <em>midcult<\/em> de vi\u00e9s ecol\u00f3gico, pela perigosa proximidade com recusas do ambiente progressivo urbano (o que, no Brasil, podia significar uma filia\u00e7\u00e3o meio xen\u00f3foba e fascista) e por a\u00ed afora. Enfim, era, para um artista, quase um tabu. Eu sabia que n\u00e3o podia ignorar isso, ent\u00e3o o jeito foi enfrentar. As escolhas de um artista n\u00e3o s\u00e3o razo\u00e1veis. De toda uma linguagem art\u00edstica com uma hist\u00f3ria fascinante, mas em v\u00e1rios aspectos problem\u00e1tica, extra\u00ed um m\u00e9todo de trabalho que se revelou aparentemente obsessivo. Provavelmente porque l\u00e1 no in\u00edcio a quest\u00e3o era abrir um di\u00e1logo: n\u00e3o tinha muito espa\u00e7o nem para improvisar nem para me esbaldar.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um aspecto crom\u00e1tico em seu trabalho que me interessa muito. Sinto que o preto ganha textura e espessura em seus <\/strong><strong>desenhos, assim como Pierre Soulages, que buscava a cor a partir do preto. Parece que o jogo de luz e sombra \u00e9 fundamental para seu trabalho e vejo a\u00ed uma articula\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise, que est\u00e1 sempre \u201c jogando luz\u201d em quest\u00f5es diversas do sujeito, mas tamb\u00e9m preserva a centelha de opacidade e enigma. <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Acho que meus desenhos t\u00eam efetivamente essa dimens\u00e3o t\u00e1til, costumo desenhar com preto sobre preto marcando o papel com o tra\u00e7o. O grafite tem um brilho, algo met\u00e1lico, que me permite revelar o tra\u00e7o no interior de uma superf\u00edcie aparentemente monocrom\u00e1tica.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie mais recente de desenhos, os <em>Florescimentos Atl\u00e2nticos<\/em>, \u00e9 basicamente uma reflex\u00e3o sobre a luz, como fazer com que a luz alcance as partes sombrias do desenho sem ilumin\u00e1-las. No primeiro desenho, consegui isso por reverbera\u00e7\u00f5es da luz em folhas, imaginando-as com uma superf\u00edcie \u00famida do vapor oriundo de uma queda d&#8217;\u00e1gua. Num desenho anterior, posicionei meu ponto de vista nas sombras, mirando as regi\u00f5es de luz em um jogo de profundidades meio di\u00e1fanas. S\u00e3o as sombras que cercam de riqueza e profundidade os momentos de luz. Ocorre que h\u00e1 uma dimens\u00e3o temporal na constru\u00e7\u00e3o do trabalho que n\u00e3o pode ser tergiversada. Eu vou aos locais, eu os vejo, eu os estudo, e mais que isso, quero entender o que demanda seu percurso. H\u00e1 um sem n\u00famero de quest\u00f5es que dependem de uma representa\u00e7\u00e3o desse tempo de percurso do olhar, dessa intelig\u00eancia, e muitas vezes os contrastes excessivos pulverizam a capacidade de se utilizar isso como um recurso.\u00a0 Trabalhar com a densidade, com a intensidade, com o ritmo que est\u00e1 se revelando ali, e encontrar os recursos expressivos para enriquecer essas percep\u00e7\u00f5es: isso \u00e9 enfrentar o di\u00e1logo proposto.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as linguagens e suportes que utiliza em seu trabalho? E qual a quest\u00e3o que voc\u00ea considera decisiva no pensamento que articula a partir de seu gesto de artista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Eu desenho com grafites sobre pap\u00e9is brancos. O desenho \u00e9, basicamente, o meio cl\u00e1ssico de reflex\u00e3o pl\u00e1stica, de investiga\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de linguagem. Ele se presta a isso com muita agilidade e simplicidade. Talvez por isso seja muito exigente. Sempre necessitei de mobilidade, de poder trabalhar em diferentes lugares e situa\u00e7\u00f5es, e a agilidade do material me ajudou nisso. No g\u00eanero da paisagem, meu trabalho passou por momentos distintos: come\u00e7ou preocupado com a quest\u00e3o da mem\u00f3ria. Mem\u00f3ria visual, mem\u00f3ria da hist\u00f3ria da paisagem na Hist\u00f3ria da Arte, mem\u00f3ria geogr\u00e1fica, inclusive; procurando estrat\u00e9gias gr\u00e1ficas de articula\u00e7\u00e3o desses aspectos em linguagens pl\u00e1sticas. Depois sobreveio um per\u00edodo dedicado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e flexibiliza\u00e7\u00e3o dessas estrat\u00e9gias, procurando criar uma linguagem que comunicasse aspectos caracter\u00edsticos dos percursos realizados por essas paisagens, dando, assim, \u00eanfase a um momento mais din\u00e2mico de apreens\u00e3o sens\u00edvel desses locais.<\/p>\n<p>Atualmente, meu trabalho migrou para um momento que considero mais essencial. Acho que minha quest\u00e3o sempre foi dar \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o um conte\u00fado de mem\u00f3ria, de pertencimento, algo com o qual eu visse e pudesse me relacionar de maneira quase f\u00edsica (quero dizer: que qualquer pessoa pudesse olhar a imagem desenhada e ter com ela uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o familiar que quase pudesse dizer que talvez j\u00e1 tivesse estado ali). Ou seja&#8230; as pessoas normalmente transportam lugares e situa\u00e7\u00f5es reais da natureza a um espa\u00e7o paradis\u00edaco e id\u00edlico&#8230; se n\u00e3o francamente on\u00edrico. Essa \u00e9 a puls\u00e3o do exotismo, do \u00e9den, do mundo fora do trabalho, do lugar sem tempo. A ind\u00fastria do turismo martela nisso incessantemente. Acho que estou interessado na opera\u00e7\u00e3o inversa. Trazer as imagens desses lugares remotos, mesmo que inventadas, que todos reconhecem num contexto de consumo quase ex\u00f3tico\u00a0 (ou que se prestam a narrativas ex\u00f3ticas) a um momento de presen\u00e7a e reconhecimento, remov\u00ea-los desse conte\u00fado normalmente id\u00edlico ou ed\u00eanico. Por isso n\u00e3o h\u00e1 nesses desenhos grandes composi\u00e7\u00f5es, arranjos evocativos ou pitorescos. O trabalho \u00e9 estar nesse ponto indeterminado situado entre mem\u00f3ria evocativa, imagina\u00e7\u00e3o construtiva e presen\u00e7a transcendente. Sentir-se presente, e deixar a imagem aparecer livre, como um florescimento lento, tal como a observa\u00e7\u00e3o cuidadosa, atenta, quase afetiva, quando estou presente nesses momentos na natureza. Fazer o trabalho \u00e9 um signo dessa presen\u00e7a: \u00e9 a pr\u00f3pria presen\u00e7a se manifestando agora como desenho, quando antes se constru\u00eda como observa\u00e7\u00e3o. Eu poderia me estender muito mais acerca do significado disso. Mas acho que posso dizer que a s\u00edntese \u00e9 apreender o mundo com cuidado, ou seja, destitu\u00eddo de interesses e outros prop\u00f3sitos utilit\u00e1rios, ou de outras inten\u00e7\u00f5es removidas daquele contexto:\u00a0 aprender a olhar com aten\u00e7\u00e3o, mas sem estar dominado por vontades. Com isso, aprender a se comunicar com liberdade, dialogando com o mundo, e obtendo da pr\u00f3pria natureza indica\u00e7\u00f5es para onde fluir e para onde construir novo di\u00e1logo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem uma rela\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise? Como pensa a rela\u00e7\u00e3o subjetiva em seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que as respostas anteriores podem dar elementos para entender isso e fazer as conex\u00f5es. Eu n\u00e3o penso mais em correla\u00e7\u00f5es diretas, no trabalho, com nenhum outro campo do conhecimento: o que aflora a\u00ed passa pelo meu corpo e pela presen\u00e7a dele no mundo, e fazer do meu trabalho um signo dessa presen\u00e7a no mundo. E nisso pode estar tudo, porque nada, nem a filosofia, nem a metaf\u00edsica, prescindem desse v\u00ednculo com a realidade e com o reconhecimento de nossa presen\u00e7a, em algum momento.\u00a0 Eu me interesso muito por aprender e ouvir sobre as rela\u00e7\u00f5es que possam ser estabelecidas. O mundo como uma oportunidade de di\u00e1logo. Essa foi a grande forma\u00e7\u00e3o que tive ao percorrer lugares remotos da natureza brasileira.<\/p>\n<p><strong>A s\u00e9rie \u201c Corpografia\u201d parece enodar paisagem, corpo e poesia. Como voc\u00ea pensa essas quest\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>&#8220;Corpografia&#8221; nasceu da conflu\u00eancia do meu trabalho de desenho com a poesia de Josely Vianna Baptista quando, em 1991, ela me mostrou os manuscritos (datilografados por ela) do que viria a ser &#8220;AR&#8221;, seu primeiro livro, publicado naquele mesmo ano. Encontrei naqueles poemas uma extraordin\u00e1ria conex\u00e3o com o trabalho que eu desenvolvia havia alguns anos para encontrar um olhar, um novo significado \u00e0 quest\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o da natureza brasileira. Primeiramente, Josely trabalhava sempre no sentido da concre\u00e7\u00e3o de uma imagem, como se as palavras pudessem nos sugerir algo palp\u00e1vel, vis\u00edvel, e isso era conseguido por uma proximidade, um afeto mesmo, dedicado \u00e0s palavras do poema. Mas tamb\u00e9m havia um cuidado, que era como um desdobramento po\u00e9tico do olhar que eu estava procurando construir ou descobrir. E digo &#8220;cuidado&#8221; porque havia ali a procura de um hiato, de um espa\u00e7o de tempo, para dar aos sentidos uma outra dimens\u00e3o de apreens\u00e3o dessas imagens. Ela procurava isso em alguns poemas, que chamava de &#8220;poemas aerados&#8221;, configurando-os com espa\u00e7os vazios entre as letras e as palavras, e que, segundo ela, foram feitos para dar uma outra respira\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura, normalmente cursiva e imediata. Era uma dificuldade, mas tamb\u00e9m uma oportunidade, uma porta de entrada a um sentido s\u00f3 alcan\u00e7\u00e1vel pela escans\u00e3o do tempo.<\/p>\n<p>Eu entendia isso perfeitamente nos desenhos de paisagem da natureza brasileira que estava procurando fazer.\u00a0 Eu procurava me afastar de \u00eanfases majoritariamente ou idealistas ou naturalistas dessa tradi\u00e7\u00e3o, porque ora refor\u00e7avam um olhar ed\u00eanico ou paradis\u00edaco sobre a natureza, ora outro demasiado pitoresco, id\u00edlico, arc\u00e1dico e distanciado. Eu estava interessado nas margens, naquilo que era predominante, sempre presente, mas sistematicamente despercebido, negligenciado. As margens cuja beleza e impon\u00eancia se impunham pelo tempo, pela extens\u00e3o colossal de sua presen\u00e7a, que s\u00f3 podia ser apreendida pelo tempo de um percurso.<\/p>\n<p>Talvez eu deva me estender um pouco mais sobre isso. Nas Am\u00e9ricas, lato sensu, a representa\u00e7\u00e3o da natureza refor\u00e7ou muito o car\u00e1ter ed\u00eanico da paisagem, muito pelo vi\u00e9s puritano de um olhar que procurava retratar o Novo Mundo como o lugar onde a civiliza\u00e7\u00e3o poderia recome\u00e7ar do zero. Isso era claro na escola do paisagismo norte-americano da Hudson River School e das muitas incurs\u00f5es desses pintores na natureza sul-americana, que procuraram refor\u00e7ar a narrativa de um novo-\u00c9den \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do homem, a terra da segunda chance. Por outro lado, havia tamb\u00e9m o olhar majoritariamente colonial, derivado de uma empresa de evangeliza\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica que constru\u00eda sua narrativa her\u00f3ica no interior de um &#8220;inferno verde&#8221;, o qual era preciso &#8220;abrir, limpar e cultivar&#8221; para dar lugar a uma oportunidade de progresso e de &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;. Nada disso me parecia verdadeiro.<\/p>\n<p>A paisagem que eu via s\u00f3 era apreens\u00edvel com um grau de aten\u00e7\u00e3o diligente, uma certa afei\u00e7\u00e3o, e, ao mesmo tempo, de uma expans\u00e3o temporal dessa experi\u00eancia, que se configurava ao olhar somente ao longo de um percurso.\u00a0 Tudo isso era claro para mim tamb\u00e9m na leitura daquele manuscrito da Josely. &#8220;Corpografia&#8221; foi concebido nesse quadro.<\/p>\n<p>Numa ep\u00edgrafe de &#8220;Corpografia&#8221; est\u00e1 um texto de Lezama Lima, no qual ele compara a poesia (que ele via quase como um rito \u00f3rfico) ao duplo crescimento de um sabugueiro, como num espelhamento de seu enraizamento (ao centro da terra) e de sua busca pelo vazio do ar (em busca do estelar).\u00a0 Esse espelhamento, entre texto e imagem, entre a margem e o seu reflexo, entre a imagem e a miragem, est\u00e1 presente o tempo inteiro no trabalho. &#8220;Um trabalho espelha o outro&#8221; como &#8220;um jogo de reflexos, sendo precisamente o espa\u00e7o, o hiato, a espera que existe entre um reflexo e outro reflexo, entre uma letra e outra letra, um ritmo respirat\u00f3rio da leitura e do olhar&#8221;.\u00a0 Em outro ponto de nossa apresenta\u00e7\u00e3o, ressaltamos que &#8220;essa met\u00e1fora visual foi o ponto de partida para ver nessas massas-paisagem-corpo o princ\u00edpio formador de um organismo \u2013 esp\u00e9cie de bl\u00e1stula \u2013 corpo submerso em si mesmo que se desdobra em pal\u00edndromo e se oferece, como um livro&#8221;. Eugenio Vald\u00e9s Figueroa, curador e cr\u00edtico de arte cubano, em um texto de apresenta\u00e7\u00e3o de uma exposi\u00e7\u00e3o de &#8220;Corpografia&#8221;, ressaltou o car\u00e1ter &#8220;eucar\u00edstico&#8221; do trabalho, em que a paisagem se transubstancia em corpo e em texto. O trabalho, como um todo, concebe mais &#8220;uma paisagem como um corpo, um corpo como paisagem&#8221; do que &#8220;paisagens para (e corpos para) um outro discurso&#8221;. Discursos que transformam esses corpos em simbolismos da &#8220;avidez do consumo mercantil&#8221; como outros tantos sintomas de uma linguagem coletiva colonizadora do corpo e de seus significados, na apreens\u00e3o seminal que Eduardo Subirats expressa no livro. E nesse momento, nesse hiato,\u00a0 acontece todo o trabalho: n\u00e3o mais a natureza em seu papel de dep\u00f3sito das puls\u00f5es de conquista e apropria\u00e7\u00e3o mercantil humanas, nem os corpos em seu papel de territ\u00f3rio simb\u00f3lico colonizado, pela publicidade, num extremo, at\u00e9 o extremo oposto, pela cl\u00ednica. Em &#8220;Corpografia&#8221; a reflex\u00e3o \u00e9 alternativa: o afeto reflete o cuidado er\u00f3tico (o longo deslizamento) do corpo dos amantes (homem-natureza) e o cuidado simb\u00f3lico e expressivo (essa presen\u00e7a que se alonga) do corpo po\u00e9tico (texto-paisagem).<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">*<em>Psicanalista, escritora e autora do livro N\u00e9voa e assobio, ensa\u00edsta com textos publicados em revistas e outras publica\u00e7\u00f5es de arte, cinema e literatura e cr\u00edtica de arte. Atua no territ\u00f3rio multidisciplinar da psican\u00e1lise, literatura, filosofia, teoria e pr\u00e1tica art\u00edstica. Mestre em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes pela Universidade Federal Fluminense. Tem por of\u00edcio acompanhar artistas, escutar processos, produzir textos oriundos desses encontros.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bianca Dias* entrevista o artista Francisco Faria, que se destaca por seus desenhos feitos com l\u00e1pis grafite sobre papel, instala\u00e7\u00f5es e projetos de arte visual com a participa\u00e7\u00e3o de poetas. Os desenhos, frequentemente em grandes dimens\u00f5es, versam sobre estrat\u00e9gias gr\u00e1ficas e pict\u00f3ricas do g\u00eanero da paisagem, notadamente a brasileira e a da Am\u00e9rica Meridional. \u00a0Bianca&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5156","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-corpografias","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5156"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5158,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5156\/revisions\/5158"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5156"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}