{"id":5144,"date":"2024-09-18T06:21:24","date_gmt":"2024-09-18T09:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5144"},"modified":"2024-09-18T06:21:24","modified_gmt":"2024-09-18T09:21:24","slug":"arrancar-o-obsessivo-do-dominio-do-olhar1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/arrancar-o-obsessivo-do-dominio-do-olhar1\/","title":{"rendered":"ARRANCAR O OBSESSIVO DO DOM\u00cdNIO DO OLHAR<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>J\u00e9sus Santiago<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">Analista Membro da Escola (AME)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><em>E-mail<\/em>: <a href=\"mailto:jesussan.bhe@terra.com.br\">jesussan.bhe@terra.com.br<\/a><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5145\" aria-describedby=\"caption-attachment-5145\" style=\"width: 683px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5145\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-013-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"683\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-013-683x1024.jpg 683w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-013-200x300.jpg 200w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-013-768x1152.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-013-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-013-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-013-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5145\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia de Dayana Jacqueline &#8211; A culpa &#8211; Festival de Teatro de Curitiba &#8211; 2023<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nada seguro que a neurose hist\u00e9rica exista, mas h\u00e1 certamente uma neurose que existe, \u00e9 o que se denomina neurose obsessiva (LACAN, 1979). Lacan p\u00f4de fazer esta declara\u00e7\u00e3o, em 1978, durante o Congresso da Escola Freudiana de Paris, sobre a quest\u00e3o da <em>transmiss\u00e3o<\/em> em psican\u00e1lise. \u00c9 certo que essa quest\u00e3o remete \u00e0 concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica dos discursos; visto que sob esse ponto vista, n\u00e3o somos filhos dos pais, tampouco de Deus, \u201csomos filhos dos discursos\u201d (LACAN, 1971-72\/2012, p. 226). Se a histeria deixa de existir como neurose, ela torna-se discurso. A histeria deixa de ser neurose desde o momento em que perde o que outrora lhe era inerente, isto \u00e9, esse verdadeiro salto do mental no som\u00e1tico pr\u00f3prio do sintoma conversivo. A obsess\u00e3o, por sua vez, existe enquanto neurose, pois o pensamento lhe \u00e9 suficiente. O sintoma obsessivo \u2013 afirma Lacan (1973\/2003, p. 511), em \u201cTelevis\u00e3o\u201d \u2013 \u00e9 \u201cpensamento com o que a alma fica embara\u00e7ada e n\u00e3o sabe o que fazer\u201d. A neurose obsessiva existe porque \u00e9 a neurose ideal. \u00c9 ideal porque \u00e9 feita de ideias que, frequentemente, aparecem sob o modo de sacril\u00e9gios, inj\u00farias, inclusive ideias escatol\u00f3gicas,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> assassinas, que, no fundo, embara\u00e7am o obsessivo e amea\u00e7am apodrecer sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Delenda<\/em><\/strong><strong>, a estrat\u00e9gia obsessiva<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O que domina o obsessivo, com essa sufici\u00eancia do pensamento, \u00e9 a sua depend\u00eancia do Outro que, no limite, ele visa destruir, ao mesmo tempo em que se dedica a lhe dar sustenta\u00e7\u00e3o, na medida em que o Outro \u00e9 o suporte mesmo de seu desejo de destrui\u00e7\u00e3o. Assim, no tocante ao desejo, a pol\u00edtica do sintoma no obsessivo \u2013 considerando que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica \u2013 \u00e9 colocar <em>delenda<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> no seu horizonte, ainda que seu desejo de destrui\u00e7\u00e3o se veja interditado pelo Outro. Falar da pol\u00edtica do sintoma, nesse caso, \u00e9 conceb\u00ea-lo como uma \u201cestrat\u00e9gia\u201d (LACAN, 1957\/1998, p. 454) inerente \u00e0 neurose obsessiva, aquela que inspira o combate do pensamento para lidar com o enigma da origem, do destino, podendo responder \u00e0 sua quest\u00e3o subjetiva por excel\u00eancia, a saber: a quest\u00e3o da exist\u00eancia (GAZZOLA, 2002, p. 174).<\/p>\n<p>Como constatamos com o fragmento cl\u00ednico relatado durante o Parlamento de Montpellier (MILLER , 2011) pelo psicanalista franc\u00eas Augustin M\u00e9nard (2020, p. 87), o obsessivo acredita ingenuamente nos objetos da realidade que o cercam e acredita ainda que, atrav\u00e9s desse Outro, poder\u00e1 encontrar uma resposta para o enigma da exist\u00eancia. Por meio do pensamento, considerado como mat\u00e9ria-prima de seu sintoma, sua estrat\u00e9gia \u00e9 levar adiante o programa de gozo, com o qual sup\u00f5e lidar melhor com os objetos\u00a0 de sua realidade que acredita perceber. Por\u00e9m, ele desconhece que o olhar com o qual capta esses elementos de sua realidade que comp\u00f5em o campo do Outro apenas se faz atrav\u00e9s da janela do fantasma. Ou seja, as consequ\u00eancias que pode retirar desses dados e fatos de sua realidade s\u00e3o vistas e guiadas pela configura\u00e7\u00e3o de sua janela fantasm\u00e1tica. \u00c9 por meio da configura\u00e7\u00e3o particular do fantasma que se pode demonstrar de que modo a economia libidinal do obsessivo se apresenta sob o imp\u00e9rio do objeto <em>a <\/em>olhar.<\/p>\n<p>Passemos agora ao relato do caso que foi objeto de discuss\u00e3o em Montpellier, com o intuito de esclarecer esse ponto capital de aplica\u00e7\u00e3o da <em>cl\u00ednica do sinthoma <\/em>\u00e0 neurose obsessiva<em>: <\/em>\u201c\u00e9 particularmente dif\u00edcil arrancar o obsessivo dessa ascend\u00eancia do olhar\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 19). De in\u00edcio, a demanda do tratamento anal\u00edtico se justifica por uma ang\u00fastia que inquieta e paralisa o paciente, ang\u00fastia concernente \u00e0 sua vida profissional. De fato, ele \u201cteme ser punido por seus superiores por uma falha no trabalho\u201d ainda que, no tocante ao seu desempenho, \u201cele se sobressai muito bem\u201d (MENARD, 2020, p. 87). Como disse antes, a neurose obsessiva se caracteriza pela pot\u00eancia do gozo do pensamento em gerar embara\u00e7o, a ponto de o sujeito ficar sem saber o que fazer. A esse respeito, circunscreve-se um aspecto crucial para a elucida\u00e7\u00e3o do caso, pois ele testemunha que \u201cvive constantemente sob o olhar de um Outro que o julga, e que sempre age conforme o ideal que lhe serve de guia na vida e que lhe foi transmitido pelo pai\u201d (MENARD, 2020, p. 87). Como \u00e9 t\u00edpico das obsess\u00f5es, \u201cseus pensamentos se imp\u00f5em contra a sua vontade e o levam a fazer esfor\u00e7os constantes para afast\u00e1-los e retir\u00e1-los por meio de um di\u00e1logo interior exaustivo\u201d (MENARD, 2020, p. 88). Nesses momentos, \u201co dom\u00ednio habitual sobre as coisas por meio do pensamento se encontra bastante enfraquecido\u201d (MENARD, 2020, p. 88).<\/p>\n<p>Outro aspecto importante para a discuss\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o do olhar na neurose obsessiva se refere a quando o sujeito em quest\u00e3o busca em sua mem\u00f3ria um evento incestuoso da primeira inf\u00e2ncia, no qual impera a satisfa\u00e7\u00e3o do puls\u00e3o do olhar. Apesar de n\u00e3o se mostrar afetado pelo relato desse momento de sua inf\u00e2ncia, \u201cele o isola muito bem, inclusive, destacando os seus sentimentos agressivos\u201d (MENARD, 2020, p. 88). Freud (1909\/2022, p. 425), no caso sobre o Homem dos Ratos diz ser \u201cquase regular\u201d na vida dos obsessivos a \u201cemerg\u00eancia precoce da puls\u00e3o sexual do olhar [<em>Schautrieb<\/em>]\u201d associada \u00e0 \u201cpuls\u00e3o de saber [<em>Wi\u03b2trieb<\/em>]\u201d. Segundo ele, o surgimento da neurose obsessiva implica sempre a presen\u00e7a da <em>satisfa\u00e7\u00e3o do olhar<\/em> como fator que favorece \u201ca regress\u00e3o do agir para o pensar\u201d (FREUD, 1909\/2022, p. 425). Com efeito, o componente esc\u00f3pico da puls\u00e3o \u00e9 fundamental n\u00e3o apenas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do sintoma, mas, tamb\u00e9m, com o que frequentemente se deduz de seus impasses transferenciais que remetem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o particular do fantasma na neurose obsessiva.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Como se frisou antes, \u201csua demanda de tratamento \u00e9 fazer desaparecer a ang\u00fastia e sua esperan\u00e7a \u00e9 recuperar sua capacidade em manter as coisas sob seu controle\u201d, mesmo porque \u2013 diz o paciente \u2013 \u201ctudo [no pensamento] pode ser explicado\u201d. Em face dessa esperan\u00e7a de recuperar sua condi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio, sobrev\u00e9m o falicismo do sujeito obsessivo expresso pelas fantasias de onipot\u00eancia e ubiquidade que tamb\u00e9m podem se exprimir em seus sonhos\u201d. (MENARD, 2020, p. 89).<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do fantasma nesse sujeito obsessivo, chama a aten\u00e7\u00e3o o emprego, por parte de seu analista, da figura da <em>jaula<\/em> que, como se sabe, \u00e9 algumas vezes referida, no ensino de Lacan (LACAN, 1957\/1998, p. 454), relacionada ao \u201cgozo de um espet\u00e1culo\u201d oferecido pelo personagem do \u201cdomador\u201d que, nela, se encontra aprisionado. Seu intuito \u00e9 mostrar a estrat\u00e9gia do obsessivo para manter-se \u00e0 dist\u00e2ncia do desejo que, em seu fantasma, se traduz por domar as <em>feras do real<\/em> (LACAN, 1957\/1998, p. 453). Assim, o obsessivo vive trancado na \u201cjaula de seu narcisismo\u201d \u2013 diz M\u00e9nard \u2013, tentando a todo custo dar conta das feras do real e, por essa via, aceita ser \u201cprisioneiro de seu sonho de unidade sustentado por seu ideal\u201d (MENARD, 2020, p. 89).<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Desalojar a ascend\u00eancia do olhar <\/strong><\/p>\n<p>Em sua concep\u00e7\u00e3o de um mundo sem falhas \u00e9 o que permanentemente pressiona o obsessivo a confrontar-se consigo pr\u00f3prio, sob o olhar do Outro \u2013 p\u00fablico \u2013 como testemunho, ao qual ele endere\u00e7a suas performances f\u00e1licas, sem, com isso, obter a menor satisfa\u00e7\u00e3o. Importa observar de que o sujeito \u201cafasta de sua vida sexual tudo aquilo que amea\u00e7a colocar em risco sua bolha narc\u00edsica, deixando de lado o seu encontro precoce com o sexo e seu excesso de gozo\u201d. Somente a ang\u00fastia, signo da for\u00e7a incontrol\u00e1vel de suas obsess\u00f5es e do sofrimento ocasionado pelo isolamento, \u00e9 capaz de minar suas defesas f\u00e1licas e, assim, obrigar a buscar um tratamento. \u00c9 o que provoca a tenta\u00e7\u00e3o de interromper a an\u00e1lise quando o efeito terap\u00eautico se faz presente.<\/p>\n<p>Seu analista considera que o tratamento lhe trouxe diversos efeitos terap\u00eauticos \u2013 a ang\u00fastia despareceu, os ideais e as identifica\u00e7\u00f5es se afrouxaram e, finalmente, a agressividade reconhecida \u2013 e isso lhe foi suficiente. No entanto, para que a experi\u00eancia do inconsciente possa ir mais longe, se faz necess\u00e1rio tocar no ponto em que o dom\u00ednio da puls\u00e3o esc\u00f3pica sobrepuja as outras experi\u00eancias pulsionais: anal, oral, vocal e f\u00e1lica. Ou seja, permitir ao sujeito passar pelos diversos objetos pulsionais, de maneira a opor essa diversidade dos objetos \u00e0 pregn\u00e2ncia do objeto olhar. Ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o freudiana da neurose obsessiva, n\u00e3o \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o ao objeto anal que se corre o risco do gozo se fixar. Assim, para enfrentar essa dif\u00edcil tarefa que \u00e9 arrancar o obsessivo da ascend\u00eancia do olhar, o analista n\u00e3o pode vis\u00e1-lo diretamente. Para M\u00e9nard, o meio indicado \u00e9 contar com o <em>equ\u00edvoco, <\/em>considerando que a palavra <em>equ\u00edvoco<\/em> (MENARD, 2020, p. 91)<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> cont\u00e9m a voz e nos indica que \u00e9 esse objeto que deve desalojar o olhar, arrancando-lhe. Arrancar sup\u00f5e uma a\u00e7\u00e3o violenta que surpreende. Suas modalidades s\u00e3o m\u00faltiplas, mas sempre singulares. Isso pode acontecer pela press\u00e3o, tal como Lacan p\u00f4de exerc\u00ea-la por meio das sess\u00f5es, frequentemente curtas; seja pela forte entona\u00e7\u00e3o apoiando um significante; ou, ainda, por uma simples jacula\u00e7\u00e3o vindo percutir o corpo.<\/p>\n<p><strong>Impor o impasse no Outro<\/strong><\/p>\n<p>Pergunto-me se a solu\u00e7\u00e3o proposta, por M\u00e9nard, de que \u00e9 preciso fazer o sujeito passar pelas experi\u00eancias com os diversos objetos pulsionais, ou mesmo desalojar o objeto olhar pelo objeto voz, \u00e9 suficiente. Melhor dizendo, penso que ele enfoca mais o <em>como fazer<\/em> e menos as raz\u00f5es que explicam <em>por que<\/em> o olhar ocupa esse lugar preponderante na economia libidinal do obsessivo. Chama-me a aten\u00e7\u00e3o a interpreta\u00e7\u00e3o que faz Miller (2011), durante o Parlamento de Montpellier, \u00a0por meio de um <em>enigma <\/em>que repercute no que me parece ser o fator o essencial desse dom\u00ednio do olhar, no obsessivo, que \u00e9 a coalesc\u00eancia entre o ideal (S1) e o objeto (a). A esse prop\u00f3sito, ele agrega um breve epis\u00f3dio que Derrida faz chegar at\u00e9 o psicanalista Lacan, no transcurso de um jantar, na casa de seu concunhado Jean Piel. Segundo a vers\u00e3o de Derrida, relatada em sua pr\u00f3pria biografia:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c0 noite, quando Pierre, seu filho, come\u00e7ava a dormir na presen\u00e7a de sua m\u00e3e Marguerite, o filho pergunta ao pai porque estava olhando para ele.<br \/>\n\u2013 Porque voc\u00ea \u00e9 lindo.<br \/>\nA crian\u00e7a reagiu imediatamente, afirmando que o elogio lhe dava vontade de morrer.<br \/>\nUm pouco preocupado, Derrida procurou desvendar aquela hist\u00f3ria:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o gosto de mim, diz a crian\u00e7a.<br \/>\n\u2013 E desde quando?<br \/>\nMarguerite, ent\u00e3o, o pegou no colo, e disse-lhe:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o se preocupe, n\u00f3s te amamos muito.<br \/>\nEm seguida, Pierre caiu na risada:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, nada disso \u00e9 verdade, sou um trapaceiro de vida. (BENO\u00ceT, 2013, p. 215)<\/p><\/blockquote>\n<p>Ap\u00f3s o relato do epis\u00f3dio, Lacan n\u00e3o se mexe. Passado um tempo, Derrida fica estupefato ao encontrar o epis\u00f3dio pela pena de seu interlocutor numa confer\u00eancia pronunciada na It\u00e1lia, em dezembro de 1967. Eis a interpreta\u00e7\u00e3o que faz Lacan (1967\/2003, p. 334):<\/p>\n<blockquote><p>Eu sou um trapaceiro de vida, diz um garoto de quatro anos, enroscando-se no colo de sua genitora, diante do pai que acabara de responder: \u201cVoc\u00ea \u00e9 lindo\u201d \u00e0 sua pergunta: \u201cPor que voc\u00ea est\u00e1 me olhando?\u201d. E o pai n\u00e3o enxerga nisso (apesar de o menino, no intervalo, o haver tapeado com a ideia de ter perdido o gosto por si mesmo desde o dia que falou) <em>o impasse que ele mesmo tenta impor no Outro<\/em>, ao se fazer de morto. Cabe ao pai que me contou isso ouvir-me aqui, ou n\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 bem prov\u00e1vel que esse epis\u00f3dio em que o pai olha fascinado para a beleza da crian\u00e7a seja uma via em condi\u00e7\u00f5es de esclarecer o que vem a ser a fixa\u00e7\u00e3o do obsessivo com a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional do olhar. Antes de tudo, \u00e9 preciso considerar que o fantasma do obsessivo, com seus dois flancos fundamentais, se alicer\u00e7a no <em>fazer-se de morto<\/em> frente ao desejo do Outro que, no fundo, \u00e9 seu pr\u00f3prio desejo. Com efeito, o fantasma obsessivo comp\u00f5e-se, de um lado, pelo sujeito enquanto o Outro barrado que, de alguma forma, coincide com os dados e fatos da realidade imediata do sujeito; e, de outro, o objeto que se apresenta sob o modo de uma s\u00e9rie de objetos falicizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A\/ &lt;&gt; \u03d5 (a\u2019, a\u2019\u2019, a\u2019\u2019\u2019 \u2026)<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Quando o pai, fascinado pela beleza do filho, \u00e9 surpreendido pela rea\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a de ter perdido o gosto pela vida, ele se angustia e se faz de morto. A m\u00e3e, por sua vez, tenta apaziguar a situa\u00e7\u00e3o, manifestando-se: \u201cmas, n\u00f3s te amamos tanto, meu filho\u201d. A interpreta\u00e7\u00e3o de Lacan \u00e9 que o objeto olhar \u00e9 uma via preferencial do obsessivo para impor o impasse no Outro, ou seja, \u00e9 com o olhar do pai falicizando o objeto que o obsessivo tenta a todo custo fazer valer uma realidade que n\u00e3o seja falha. Trata-se de impor o impasse no Outro, na medida em que este n\u00e3o pode estar, de modo algum, dividido, isto \u00e9, atravessado pelo desejo e pelo gozo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BARRETO, C. S. <em>A neurose obsessiva e o olhar<\/em>: quando olhar serve para n\u00e3o ver. Mestrado (Estudos Psicanal\u00edticos), Departamento de Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BENO\u00ceT, P. <em>Derrida, biografia,<\/em> Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro, 2013GAZZOLA, L. R. <em>Estrat\u00e9gias na neurose obsessiva, <\/em>Zahar, Rio de Janeiro, 2002, p. 174.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva (Homem dos Ratos). In: <em>Hist\u00f3rias cl\u00ednicas<\/em>: cinco casos paradigm\u00e1ticos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2022. (Trabalho original publicado em 1909).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. Lettres de l\u2019\u00c9cole freudienne de Paris n\u00ba 25, p. 219, junho, 1979.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. A psican\u00e1lise e seu ensino. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 734-745. (Trabalho original publicado em 1957).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. O engano do sujeito-suposto-saber. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 329-335. (Trabalho original proferido em 1967)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. Televis\u00e3o. In: <em>Outros Escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 508-543. (Trabalho original publicado em 1973).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MENARD, A. <em>Les promesses de <\/em>l\u2019impossible. N\u00eemes, Fran\u00e7a: Champ Social, 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, J.-A. Autour du S\u00e9minaire XXIII\/Le Sinthome. In: <em>Conversation Parlement de l\u2019UFORCA<\/em>, Montpellier, 2011. (Texto in\u00e9dito).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">SANTIAGO, J. A religi\u00e3o \u00e9 sintoma. In: <em>Zadig Doces e B\u00e1rbaros<\/em>, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/medium.com\/@zadigdocesebarbaros\/a-religi%C3%A3o-%C3%A9-sintoma-76cded813155. Acesso em: 03 set. 2024.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este texto ser\u00e1 publicado na pr\u00f3xima revista Almanaque do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver, a esse respeito, o quanto o sintoma obsessivo se aproxima da religi\u00e3o. Cf.: SANTIAGO, 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u201c<em>Carthago delenda est<\/em>\u201d: era com essa frase que o senador romano Cat\u00e3o terminava seus discursos no Senado. Significa, simplesmente: \u201cCartago [inimiga de Roma] deve ser destru\u00edda\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver, a esse respeito: BARRETO, C. S. <em>A neurose obsessiva e o olhar<\/em>: quando olhar serve para n\u00e3o ver. Mestrado (Estudos Psicanal\u00edticos), Departamento de Psicologia, UFMG, Belo Horizonte, Minas Gerais, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Etimologia da palavra \u201cequ\u00edvoco\u201d, que vem do latim \u201c<em>aequivocus<\/em>\u201d, composta de \u201c<em>aequus<\/em>\u201d (\u201cigual\u201d) e \u201c<em>vox<\/em>\u201d (\u201cvoz\u201d).\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9sus Santiago Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: jesussan.bhe@terra.com.br N\u00e3o \u00e9 nada seguro que a neurose hist\u00e9rica exista, mas h\u00e1 certamente uma neurose que existe, \u00e9 o que se denomina neurose obsessiva (LACAN, 1979). Lacan p\u00f4de fazer esta declara\u00e7\u00e3o, em 1978, durante o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5144","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-corpografias","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5144"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5144\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5146,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5144\/revisions\/5146"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5144"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}