{"id":5141,"date":"2024-09-18T06:21:24","date_gmt":"2024-09-18T09:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5141"},"modified":"2024-09-18T06:21:24","modified_gmt":"2024-09-18T09:21:24","slug":"ensinar-a-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/ensinar-a-dizer\/","title":{"rendered":"Ensinar <em>a<\/em> dizer?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\">Fernanda N. Baptista<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5142\" aria-describedby=\"caption-attachment-5142\" style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5142\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-008-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"980\" height=\"654\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-008-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-008-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-008-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-008-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-008-1-2048x1366.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5142\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia de Lina Sumizono &#8211; Eufonia &#8211; Festival de Teatro de Curitiba &#8211; 2018<\/figcaption><\/figure>\n<p>No seu universo particular, acompanho em sil\u00eancio a narrativa do brincar da pequena cozinheira: &#8220;Prontinho, agora est\u00e1 indo para o forno. Vou fazer o pr\u00f3ximo macarr\u00e3o. Aperta um pouquinho, vou tirar com cuidado. Mais um macarr\u00e3ozinho. Agora vai para o forno. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac. Mais um macarr\u00e3o. Enrola, enrola, enrola. Corta, corta, corta.&#8221; Ao final da s\u00e9rie de fornadas feitas, decide empanturrar a sua boneca com todo o macarr\u00e3o que produziu na dura\u00e7\u00e3o do tempo transcorrido, e a analista interrompe: <em>para que tudo isso?<\/em> Ao que ela responde: <em>Mas como eu vou parar, se ela est\u00e1 pedindo?<\/em><\/p>\n<p>Como nos lembra Ana Lydia Santiago sobre os infind\u00e1veis desejos das crian\u00e7as na hora de dormir para justamente se evitar a adormecer, a crian\u00e7a &#8221; quer continuar brincando, pede mais um beijo, deseja ver mais alguma coisa ou escutar a leitura de um livro, a m\u00e3e deve satisfazer alguns desses desejos e adiar outros para o dia seguinte&#8221;<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, criando uma cad\u00eancia de aus\u00eancia e presen\u00e7a, condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para que o desejo se mantenha vivo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma cad\u00eancia no percurso de uma an\u00e1lise, em que significantes mestres se destacam, sentidos se produzem, o fora do sentido faz perturbar, voltas e voltas, cortes -tamb\u00e9m- para n\u00e3o se empanturrar. No recorte da sess\u00e3o, a pergunta da analista surge com o tom de espanto, e faz aparecer a pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o do sujeito e seu impasse frente ao desejo materno, ao qual o sintoma da crian\u00e7a est\u00e1 enla\u00e7ado.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do seu ensino, no Semin\u00e1rio Livro II, Lacan localiza um ponto que ainda me parece orientador na cl\u00ednica contempor\u00e2nea:<\/p>\n<blockquote><p>o analista resiste quando n\u00e3o entende com o que ele tem de lidar. [&#8230;] quando cr\u00ea que interpretar \u00e9 mostrar ao sujeito que, o que ele deseja, \u00e9 tal objeto sexual. Engana-se. [&#8230;] trata-se pelo contr\u00e1rio, de <em>ensinar o sujeito<\/em> a nomear, a articular, a fazer passar para a exist\u00eancia, este desejo que est\u00e1, literalmente para aqu\u00e9m da exist\u00eancia, e por isto insiste<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o passa despercebido o uso do verbo <em>ensinar <\/em>aqui contido<em>, <\/em>que ao menos na tradu\u00e7\u00e3o do texto comparece. Ensinar pode nos remeter primeiramente a um mestre e seu aluno, mas sabemos que numa an\u00e1lise o saber que est\u00e1 em jogo trata-se de um saber suposto (quando ainda comparece), e, do outro lado, o saber do analista, que reside em fazer existir o discurso do analista, para que a enuncia\u00e7\u00e3o apare\u00e7a e tome o seu valor. Recolho tamb\u00e9m do Eixo 2 a pontua\u00e7\u00e3o feita por Fl\u00e1via C\u00eara em que p\u00f5e o acento que \u00e9 tarefa do analista fazer do inconsciente um acontecimento<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. S\u00e3o duas orienta\u00e7\u00f5es muito interessantes que, me parece, dizem respeito ao desejo do analista e sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan, continua, &#8220;[&#8230;] n\u00e3o se trata de reconhecer algo que estaria a\u00ed, j\u00e1 dado, pronto para ser coaptado. Ao nome\u00e1-lo, o sujeito cria, faz surgir uma nova presen\u00e7a no mundo. [&#8230;] \u00c9 apenas nesse n\u00edvel que a a\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&#8221;<\/p>\n<p>Penso, com isso, que, por estarem mais pr\u00f3ximas do pulsional, do gozo inintepret\u00e1vel \u00e9 que as crian\u00e7as pequenas, como a pequena cozinheira, podem ensinar algo sobre a cl\u00ednica contempor\u00e2nea. Do espanto do analista ao endere\u00e7amento de uma quest\u00e3o a partir do seu ponto de ang\u00fastia.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Santiago, Ana Lydia. O pesadelo da crian\u00e7a e sua interpreta\u00e7\u00e3o: fazer surgir a falha no sentido do sonho. Dispons\u00edvel \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 em: <a href=\"http:\/\/www.revistarayuela.com\/pt\/010\/template.php?file=notas\/la-pesadilla-de-un-nino-y-su-interpretacion.html\">www.revistarayuela.com\/pt\/010\/template.php?file=notas\/la-pesadilla-de-un-nino-y-su-interpretacion.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan. Jacques. Semin\u00e1rio Livro 2. o eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. 2ed. &#8211; Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 309.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> C\u00eara, F. Estar \u00e0 altura do acontecimento imprevisto.\u00a0<em>Site<\/em>\u00a0da 5\u00aa Jornada da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/eventos\/jornadas\/5a-jornada-da-ebp-secao-sul-discursos-e-corpos-a-causa-do-dizer\/5a-jornada-da-ebp-secao-sul-discursos-e-corpos-a-causa-do-dizer-eixos-tematicos\/5a-jornada-da-ebp-secao-sul-discursos-e-corpos-a-causa-do-dizer-eixos-tematicos-eixo-2-estar-a-altura-do-acontecimento-imprevisto\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sul\/eventos\/jornadas\/5a-jornada-da-ebp-secao-sul-discursos-e-corpos-a-causa-do-dizer\/5a-jornada-da-ebp-secao-sul-discursos-e-corpos-a-causa-do-dizer-eixos-tematicos\/5a-jornada-da-ebp-secao-sul-discursos-e-corpos-a-causa-do-dizer-eixos-tematicos-eixo-2-estar-a-altura-do-acontecimento-imprevisto\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan. Jacques. Semin\u00e1rio Livro 2. o eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. 2ed. &#8211; Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 309.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda N. Baptista No seu universo particular, acompanho em sil\u00eancio a narrativa do brincar da pequena cozinheira: &#8220;Prontinho, agora est\u00e1 indo para o forno. Vou fazer o pr\u00f3ximo macarr\u00e3o. Aperta um pouquinho, vou tirar com cuidado. Mais um macarr\u00e3ozinho. Agora vai para o forno. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac. Mais um macarr\u00e3o. Enrola, enrola, enrola. 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