{"id":5125,"date":"2024-09-18T06:21:24","date_gmt":"2024-09-18T09:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5125"},"modified":"2024-09-18T06:21:24","modified_gmt":"2024-09-18T09:21:24","slug":"um-saber-fazer-que-perturbe-o-discurso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/um-saber-fazer-que-perturbe-o-discurso\/","title":{"rendered":"Um saber-fazer que perturbe o discurso"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\">Juan C. Galigniana \u2013 Cartel Fulgurante<\/span><\/p>\n<p><strong>EIXO 3: O DISCURSO FAZ DO CORPO UM CORPO<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5115\" aria-describedby=\"caption-attachment-5115\" style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5115\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-004-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"980\" height=\"654\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-004-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-004-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-004-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-004-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-004-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5115\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Fotografia de Susan Sena &#8211; E.L.A &#8211; Festival de Curitiba, 2023<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao ler o texto do 3\u00b0 eixo da 5\u00aa Jornada EBP-Sul, detive-me, momentaneamente, sobre um aspecto do primeiro par\u00e1grafo. Ao t\u00edtulo escolhido \u2013<em> O discurso faz do corpo um corpo <\/em>\u2013, Cinthia Busato acrescenta, logo a seguir: <em>\u201c<\/em>um corpo que funciona, se regula, se orienta e se inscreve no la\u00e7o discursivo pelo efeito significante\u201d<em>.<\/em> A pausa se deu sobre o verbo funcionar. Vou me permitir isol\u00e1-lo do resto da frase, um pouco arbitrariamente, pois da\u00ed surgiram minhas perguntas.<\/p>\n<p>Como entender um corpo que funcione? Por um lado, de que corpo estar\u00edamos falando? E, por outro, como o la\u00e7o discursivo faz um corpo funcionar?<\/p>\n<p>N\u00e3o caberia, para abordarmos essas quest\u00f5es, que coloc\u00e1ssemos em tens\u00e3o as no\u00e7\u00f5es de funcionamento e a de fun\u00e7\u00e3o? De uma parte, por exemplo, a fun\u00e7\u00e3o do discurso \u2013 em sua posi\u00e7\u00e3o de \u201cporta girat\u00f3ria\u201d \u2013 afetando os corpos, e; de outra parte, as normas e imperativos de funcionamento dos corpos, estabelecidos pelo discurso da ci\u00eancia e do capitalismo e em incessante multiplica\u00e7\u00e3o. Algo que costuma apresentar efeitos consider\u00e1veis sobre os sujeitos que procuram an\u00e1lise, e cujos corpos pareceriam, em muitas ocasi\u00f5es, n\u00e3o funcionar<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Indo al\u00e9m, se o que se busca \u00e9 tocar esse<em> caro\u00e7o de real<\/em>, isso que resta, parece-me relevante considerar as fun\u00e7\u00f5es de lal\u00edngua, da linguagem e da letra \u2013 enquanto tr\u00eas tempos l\u00f3gicos \u2013 e as do campo do discurso, em seus distintos modos de incid\u00eancia sobre os corpos. N\u00e3o serviriam elas como \u00edndices de orienta\u00e7\u00e3o destas opera\u00e7\u00f5es <em>simult\u00e2neas <\/em>de sutura e de emenda caracter\u00edsticas do trabalho anal\u00edtico?<\/p>\n<p>Assim, \u00e0 quest\u00e3o proposta pelo eixo sobre \u201ccomo podemos pensar o efeito que essas opera\u00e7\u00f5es causam no imagin\u00e1rio em seu [de Lancan] \u00faltimo ensino\u201d, seria poss\u00edvel acrescentar, lado a lado \u00e0 simultaneidade indicada \u2013 e sem exclu\u00ed-la \u2013, a relev\u00e2ncia do aspecto diacr\u00f4nico entre esses tr\u00eas tempos l\u00f3gicos?<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, Miller pontua que:<\/p>\n<blockquote><p>Lacan introduce el concepto de lalengua como anterior al del lenguaje. Considera que el lenguaje es una elucubraci\u00f3n de saber sobre lalengua. En este nivel primordial son solidarios el goce y lalengua, y resultan derivados el deseo, el discurso e incluso el lenguaje<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>As no\u00e7\u00f5es de diacronia e sincronia s\u00e3o \u00fateis, inclusive, a respeito do manejo dos conceitos de imagin\u00e1rio e de corpo ao longo do ensino de Lacan. Nuance que Luis Fernando Carrijo prop\u00f5e ler como: <em>do imagin\u00e1rio do corpo ao corpo \u00e9 o imagin\u00e1rio<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup><strong>[3]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>. Cinthia Busato assinala, de modo certeiro, o corpo pulsional do falasser como aquele que suporta [serve de suporte] todos os discursos. E ressalta, em conson\u00e2ncia com Naparstek, que o ato anal\u00edtico aponta uma \u201chi\u00e2ncia entre o discurso e o corpo\u201d, para da\u00ed poder \u201crecolher a interpreta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio analisante a partir de outra alteridade, o Outro corporal\u201d. Foi essa hi\u00e2ncia que mais me colocou a trabalho.<\/p>\n<p>Veio-me \u00e0 lembran\u00e7a o caso de Amala e Kamala. Duas meninas, de 2 e 8 anos, encontradas na \u00cdndia, em 1920, vivendo no seio de uma alcateia de lobos. Ap\u00f3s \u201cliberadas\u201d e submetidas \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o, definharam em poucos meses. Poder-se-ia dizer que seus corpos, at\u00e9 ent\u00e3o, funcionavam. Tratava-se de um funcionamento outro. Existiam fora do h\u00e1bitat humano da linguagem; fora do que Lacan nomeia como essa \u201csegunda natureza\u201d \u2013 o semblante<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Fora, finalmente, do \u201cmundo como o que ele \u00e9: imagin\u00e1rio\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Dito em outras palavras, corpos que n\u00e3o tinham sido fisgados pelo significante da linguagem e da voz humanas, nem, neste caso talvez mais do que nunca, aprisionados pelos discursos. Estar\u00edamos frente a uma hi\u00e2ncia inexistente entre corpo e discurso, uma vez que a linguagem n\u00e3o se efetiva? Seria poss\u00edvel hipotetizar a presen\u00e7a desse outro simb\u00f3lico, n\u00e3o estrutural, composto por uma sucess\u00e3o de S<sub>1 <\/sub>capazes de s\u00e9rie, por\u00e9m n\u00e3o de cadeias? Uma outra <em>lal\u00edngua <\/em>em cena?<\/p>\n<p>Indaga\u00e7\u00f5es a ficar em aberto. N\u00e3o obstante, permitem destacar que para Lacan: \u201co saber do um se revela n\u00e3o vir do corpo\u201d, sen\u00e3o que \u201cvem do significante Um\u201d. E que ser\u00e1 de <em>lal\u00edngua<\/em>, desse <em>Um-entre-outros<\/em>, que \u201cse levanta um S<sub>1<\/sub>, S<sub>1<\/sub> que soa em franc\u00eas <em>essaim<\/em>, um <em>enxame <\/em>significante, um enxame que zumbe\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.\u00a0 Esse S<sub>1 <\/sub>que <em>se levanta<\/em> \u00e9 o significante Um, que \u201cresta indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, mesmo todo o pensamento\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Importante frisar que esse <em>Um<\/em> se escreve como uma letra.<\/p>\n<p>Apontar a hi\u00e2ncia entre o discurso e o corpo, junto ao convite do eixo a \u201cseguir lal\u00edngua nas pegadas obscuras inscritas no corpo\u201d, resultam-me, ent\u00e3o, uma boa maneira de lembrar-nos que o corpo do <em>falasser <\/em>\u2013 o corpo-falante \u2013, seguindo Miller, \u201cno habla sino que goza en silencio [&#8230;]; pero sin embargo es con ese cuerpo con el que se habla, a partir de ese goce fijado de una vez por todas\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Um corpo, portanto, que, como Cinthia t\u00e3o bem precisa: \u201cresta nos convoc\u00e1-lo a tentar diz\u00ea-lo\u201d.<\/p>\n<p>Concluo, assim, que as quest\u00f5es lan\u00e7adas pelo eixo remetem ao cerne de indaga\u00e7\u00f5es das mais desafiadoras para nossa 5\u00b0 Jornada da EBP-Sul.\u00a0 Dentre elas, a da rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre as fun\u00e7\u00f5es de lal\u00edngua, da linguagem e da equivocidade de a letra; e de como, via sua an\u00e1lise, <em>um <\/em>parl\u00eatre possa alcan\u00e7ar um <em>bem-dizer<\/em> e um <em>saber-fazer<\/em> capazes de perturbar o que, do discurso, aprisiona seu corpo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Ver ao respeito: ALVARENGA, E.: \u201cAs normas e os Corpos: Quando isso n\u00e3o funciona\u201d, Almanaque On-line n\u00b0 11, Revista Eletr\u00f4nica do IPSM-MG, 2012.\u00a0 Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Trilhamento-As-normas-e-os-corpos-Elisa-Alvarenga.pdf\">https:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Trilhamento-As-normas-e-os-corpos-Elisa-Alvarenga.pdf<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">\u00a0Acesso em: 02\/09\/2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. Los signos del goce, Buenos Aires, Paid\u00f3s, 1998, p.340.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> CARRIJO, L.F. Eixo 1 &#8211; <em>Capturas imagin\u00e1rias e o real do corpo<\/em>. In: <a href=\"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/boletim\/boletim-coda-03\/\">BOLETIM CODA #03 &#8211; XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano (encontrobrasileiroebp2024.com.br)<\/a> Acesso em: 02\/09\/2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> LACAN, J. Do ser ao semblante. In: A terceira; Tradu\u00e7\u00e3o de Teresinha N. Meirelles do Prado. Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p. 22.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Idem, p.23.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> LACAN, J. Semin\u00e1rio, livro 20: mais ainda, (1972-1973) \u2013 Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 154.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. Hablar con el cuerpo &#8211; Conclusi\u00f3n de PIPOL V. Textos del VI ENAPOL, 2013, p.10. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Volumen-Preparatorio.pdf\">https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Volumen-Preparatorio.pdf<\/a>. Acesso em: 02\/09\/2024.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juan C. Galigniana \u2013 Cartel Fulgurante EIXO 3: O DISCURSO FAZ DO CORPO UM CORPO Ao ler o texto do 3\u00b0 eixo da 5\u00aa Jornada EBP-Sul, detive-me, momentaneamente, sobre um aspecto do primeiro par\u00e1grafo. 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