{"id":5123,"date":"2024-09-18T06:21:24","date_gmt":"2024-09-18T09:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5123"},"modified":"2024-09-18T11:40:11","modified_gmt":"2024-09-18T14:40:11","slug":"o-enigma-e-a-enunciacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/o-enigma-e-a-enunciacao\/","title":{"rendered":"O enigma e a enuncia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\">Eneida M. Santos (EBP\/AMP) \u2013 Cartel Fulgurante<\/span><\/p>\n<p><strong>EIXO 3: O DISCURSO FAZ DO CORPO UM CORPO<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5116\" aria-describedby=\"caption-attachment-5116\" style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5116\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-003-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"980\" height=\"654\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-003-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-003-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-003-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-003-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-003-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5116\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9ditos: Fotografia de Lina Sumizono &#8211; c h \u00e3O &#8211; Festival de Curitiba &#8211; 2023<\/figcaption><\/figure>\n<p>Partirei de um trecho do texto do argumento de C\u00ednthia no qual ela destaca a express\u00e3o \u201cum dizer novo\u201d, como uma interpreta\u00e7\u00e3o que faz emenda entre o simb\u00f3lico e o real, para situar a quest\u00e3o do enigma e da enuncia\u00e7\u00e3o. Uma vez que o ato da enuncia\u00e7\u00e3o reinaugura esse \u201cnovo\u201d, o sujeito do enunciado se v\u00ea transformado e o enigma\u00a0 que o ato cont\u00e9m, daquilo que o causa, pode ser, de certa forma, preservado.<\/p>\n<p>O discurso faz do corpo um corpo, t\u00edtulo dado a esse eixo, marca esse encontro traum\u00e1tico com\u00a0 \u201ca palavra que fere\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, o choque do encontro da l\u00edngua com o corpo. J\u00e1 a enuncia\u00e7\u00e3o refere-se\u00a0 a um processo mais articulado e sofisticado da linguagem, mais tardio, vamos dizer assim, com rela\u00e7\u00e3o a esse choque que o significante produz no corpo. Assim, podemos afirmar que a enuncia\u00e7\u00e3o percorre o caminho inverso desse choque primeiro? Seria a enuncia\u00e7\u00e3o o retorno da palavra, quando esse enunciado consegue resgatar o vivo do trauma do choque da linguagem no corpo, fazendo ouvir uma outra voz no texto, diferente da que se expressou no enunciado?<\/p>\n<p>O que \u00e9 uma enuncia\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 uma modula\u00e7\u00e3o da linguagem, nem o brilhantismo e erudi\u00e7\u00e3o de um enunciado, nem uma simples inflex\u00e3o\u00a0 da fala. N\u00e3o \u00e9 um ato perform\u00e1tico. N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m dizer a verdade, porque com Lacan podemos afirmar que dizer a verdade \u00e9 intencional e elimina por isso a enuncia\u00e7\u00e3o em proveito do enunciado.<\/p>\n<p>Com Lacan, podemos tamb\u00e9m afirmar que existe essa discord\u00e2ncia fundamental entre o enunciado e a enuncia\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio da afirma\u00e7\u00e3o de Beneviste e Jackobson, para quem a\u00a0 enuncia\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato que est\u00e1 em continuidade com o enunciado, para Lacan pode haver enuncia\u00e7\u00e3o sem enunciado e enunciado sem enuncia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan, ao longo de seu percurso, vai\u00a0 se tornando joyceano. Com Joyce, ele constata que alguma coisa que aparece\u00a0 no significante, por meio do dizer,\u00a0 pode produzir um eco no corpo daquele que fala e que esse significante se presta aos avatares dos equ\u00edvocos e homofonias. Com Joyce, pode afirmar que a enuncia\u00e7\u00e3o \u00e9 uma cadeia significante que parasitou a cadeia significante do enunciado e que, mais ainda, toda a dimens\u00e3o da linguagem se torna\u00a0 parasit\u00e1ria para o sujeito. As palavras lhe s\u00e3o impostas! Joyce, escritor\u00a0 por excel\u00eancia do enigma\u00a0 teria feito do enigma uma fun\u00e7\u00e3o reparadora de seu eu<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Em <em>Ulisses<\/em>, na fant\u00e1stica tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas\u00a0 de Caetano Galindo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>,\u00a0 Stephen, o professor Stephen, prop\u00f5e a seus alunos como enigma (um enigma muito conhecido para o leitor de Joyce) uma charada, uma enuncia\u00e7\u00e3o n\u00e3o um enunciado<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<blockquote><p>\u201cO galo cantou,<\/p>\n<p>O c\u00e9u azulou,<\/p>\n<p>E os sinos de bronze<\/p>\n<p>Bateram as onze.<\/p>\n<p>\u00c9 hora do incr\u00e9u<\/p>\n<p>Seguir para o c\u00e9u.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Com a garganta co\u00e7ando, diz Joyce, Stephen d\u00e1 para o enigma a seguinte resposta: \u201cA raposa enterrando a av\u00f3 embaixo de um azevinho\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 uma resposta completamente besta, diz Lacan, \u00e9 o mesmo que nada. Aqui a\u00a0 enuncia\u00e7\u00e3o remete o pouco de sentido a outro pouco de sentido.\u00a0 Ela n\u00e3o encontra o enunciado, s\u00f3 encontra o n\u00f3 da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual e \u00e9 por isso que dizemos que Lacan \u00e9 joyceano, porque seu\u00a0 estilo, tal como em Joyce, \u00e9 enigm\u00e1tico.<\/p>\n<p>Para terminar, acho importante destacar a diferen\u00e7a que podemos tra\u00e7ar entre o enigma e o mist\u00e9rio. Se o significante marca o corpo, fazendo surgir um falasser, isso \u00e9 um mist\u00e9rio, o mist\u00e9rio do falasser (como lembrou Juan em nosso cartel). A experi\u00eancia dos efeitos de enuncia\u00e7\u00e3o que surgem em uma an\u00e1lise, por meio das palavras \u201cchistosas\u201d, mostra que o enigma pode ser uma transforma\u00e7\u00e3o desse mist\u00e9rio do <em>falasser<\/em> em significantes cifrados pelo equ\u00edvoco, verdadeiros chistes. N\u00e3o ser\u00e1 com isso que nos deparamos ao lermos admirados o t\u00edtulo intraduz\u00edvel do semin\u00e1rio 24 de\u00a0 Lacan: <em>L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre ?<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Miller, J.A. A palavra que fere. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 Revista Brasileira Internacional de psican\u00e1lise. <\/em>S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n. 56\/57<em>, <\/em>jul. 2009.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 23, <em>O sinthoma. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 150.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Joyce, J. <em>Ulysses. <\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>. Lacan 2007, p. 69.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> <em>Ibid. <\/em>Joyce 2022,\u00a0 p. 49.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> <em>Ibid. <\/em>Joyce 2022, p. 50<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eneida M. 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