{"id":5121,"date":"2024-09-18T06:21:24","date_gmt":"2024-09-18T09:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5121"},"modified":"2024-09-18T06:21:24","modified_gmt":"2024-09-18T09:21:24","slug":"eixo-3-o-discurso-faz-do-corpo-um-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/eixo-3-o-discurso-faz-do-corpo-um-corpo\/","title":{"rendered":"EIXO 3: O DISCURSO FAZ DO CORPO UM CORPO"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Cinthia Busato (EBP\/AMP)<\/strong><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5117\" aria-describedby=\"caption-attachment-5117\" style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5117 size-large\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-002-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"980\" height=\"654\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-002-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-002-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-002-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-002-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/corpografias-004-002-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5117\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Fotografia de Susan Sena &#8211; E.L.A &#8211; Festival de Curitiba, 2023<\/figcaption><\/figure>\n<p>No Semin\u00e1rio 19, <em>&#8230;ou pior<\/em>, Lacan aponta que foi a partir da fala das hist\u00e9ricas que Freud fez surgir \u201ca constata\u00e7\u00e3o de que o que se produzia no n\u00edvel do suporte tinha a ver com o que se articulava pelo discurso. O suporte \u00e9 o corpo\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. O discurso faz do corpo um corpo que funciona, se regula, se orienta e se inscreve no la\u00e7o discursivo pelo efeito significante. Mas, h\u00e1 um resto que Lacan j\u00e1 definiu como uma marca, um estigma do real que n\u00e3o se liga a nada<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Esse real que n\u00e3o se liga a nada ser\u00e1 o ponto de opacidade do gozo, que poder\u00e1 ser acolhido no sintoma. Ent\u00e3o, como pode ser tocado esse caro\u00e7o de real?<\/p>\n<p>Lacan indica uma diferen\u00e7a entre o gozo sentido e o real parasita de gozo do sintoma. \u00c9 ao redor desse real que o inconsciente bordeja, sendo afetado por ele. Mauricio Tarrab, a partir desta fala de Lacan \u2013 \u201c\u00e9 de suturas e emendas que se trata na an\u00e1lise\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> \u2013, faz uma leitura interessante. Ele esclarece que o trabalho do analista ocorre em duas frentes simultaneamente: na primeira, sugere que a interpreta\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica freudiana permite uma sutura entre imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico; sobre o saber inconsciente que aparece no exposto pelo analisante, o analista atua e a\u00ed obt\u00e9m outro sentido. Essa sutura seria entre imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico, e Tarrab prop\u00f5e cham\u00e1-la de <em>sutura freudiana<\/em>. A outra opera\u00e7\u00e3o, que incidiria no real parasita de gozo, seria da ordem de uma emenda entre este e o sinthoma. O resultado dessa opera\u00e7\u00e3o produz outra coisa; ela tenta tornar esse gozo opaco um gozo poss\u00edvel, uma nova inscri\u00e7\u00e3o recolhida pelo discurso em um dizer novo: \u201ctornar esse jouissance um joui-sens\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Essa <em>emenda lacaniana<\/em> estaria entre real e simb\u00f3lico. Assim, como podemos pensar o efeito que essas opera\u00e7\u00f5es causam no imagin\u00e1rio em seu \u00faltimo ensino?<\/p>\n<p>Lacan afirma que \u00e9 no n\u00edvel do corpo que surge todo sentido, mas n\u00e3o como um sentido j\u00e1 constitu\u00eddo, como uma significa\u00e7\u00e3o; seria mais a base, o ch\u00e3o, \u201ccom seus sentidos radicais, sobre os quais n\u00e3o h\u00e1 influ\u00eancia alguma\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Podemos pensar que o corpo que suporta os discursos \u00e9 o corpo pulsional do falasser, onde est\u00e3o conjugados significante e suas derivas de gozo, aquele corpo que <em>se<\/em> goza. \u00c9 o corpo que escapa do efeito da negativiza\u00e7\u00e3o significante e que resta nos convocando a tentar diz\u00ea-lo. Esse corpo suporta todos os discursos, mas em cada um tem um destino diferente, petrificado e recalcado no discurso do mestre, por exemplo. Apenas no discurso anal\u00edtico ele \u00e9 tomado como base de trabalho sobre suas \u201cmarcas radicais\u201d, pois pela via do sintoma podemos seguir o tra\u00e7o da causa do dizer e produzir novas inscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em uma an\u00e1lise s\u00f3 h\u00e1 um sujeito, o analisante. Sabemos que o desejo do analista \u00e9 um desejo impuro, pois restam marcas de gozo, restos de sua pr\u00f3pria an\u00e1lise. Do que goza o analista na an\u00e1lise? Certamente, n\u00e3o do gozo contido em seu fantasma, mas ele \u00e9 um corpo vivo presente na cena. Ele goza de seu ato, nos diz Lacan, e Clotilde Leguil esclarece: \u201cO analista, segundo o \u00faltimo Lacan, o dos anos 1970, \u00e9 aquele que faz ressoar de seu pr\u00f3prio corpo o efeito de gozo produzido pelo significante. \u00c9 ent\u00e3o como Outro do sentido que ele deve ausentar-se para estar presente como parceiro do corpo do analisante\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Freud j\u00e1 havia percebido o efeito da presen\u00e7a do analista dizendo que essa presen\u00e7a det\u00e9m a associa\u00e7\u00e3o livre. Fabi\u00e1n Naparstek<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> esclarece que nesse momento em que o analisante se d\u00e1 conta da presen\u00e7a do analista algo no fantasma do analisante se desestrutura. Freud a\u00ed apontava que o analisante estava pensando algo sobre ele, Freud. Fabi\u00e1n pontua que com isso Freud relan\u00e7ava o discurso do analisante novamente na fic\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica, chamava o Outro. No que pude ler, Fabi\u00e1n indica apontar a hi\u00e2ncia entre o discurso e o corpo, para da\u00ed recolher a interpreta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio analisante a partir de outra alteridade, o Outro corporal.<\/p>\n<p>Esthela Solano<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> traz um testemunho do que foi sua an\u00e1lise com Lacan, e nos mostra tanto a for\u00e7a da presen\u00e7a viva de Lacan, quanto sua capacidade de \u201cfurar uma frase, triturar a sintaxe, descarrilhar a linguagem, deslocar totalmente o exerc\u00edcio da palavra do eixo do sentido at\u00e9 o sem-sentido\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. Lacan fazia uso de seu corpo como um instrumento de sua pr\u00e1tica, como diz Solano: \u201c[&#8230;] sua presen\u00e7a era imponente, j\u00e1 que ele fazia valer um estar ali, completamente ali e s\u00f3 ali nesse momento. Sem pronunciar palavra, me dirige um olhar examinador, intenso, no qual o assombro se conjugava com a interroga\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. Solano segue dizendo que Lacan minava sem piedade o corpo da imagem especular, seu eu e seu narcisismo, mas por outro lado \u201cmirava no corpo a corpo para mover as resson\u00e2ncias deixadas por lal\u00edngua no corpo, operando ele mesmo como agente do impacto\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Ao analista presente na an\u00e1lise do <em>falasser<\/em>, disposto a seguir <em>lal\u00edngua <\/em>nas pegadas obscuras inscritas no corpo, cabe a interpreta\u00e7\u00e3o como corte, a equivoca\u00e7\u00e3o, fazendo ressoar essas marcas; ao analisante, \u201ccabe bem diz\u00ea-lo [&#8230;] como possa, o que \u00e9 uma forma de responsabilizar-se por isso e \u00e9 tamb\u00e9m um ato, desta vez o seu pr\u00f3prio\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>. \u00c9 claro que nesse ato do analisante est\u00e1 inclu\u00eddo o vivo de seu pr\u00f3prio corpo, mas no ato do analista, o vivo tamb\u00e9m est\u00e1 inclu\u00eddo?<\/p>\n<p>Esperamos, a partir do trabalho de cada um, poder continuar conversando em torno destes e de outros pontos. Ser\u00e1 interessante averiguar como continua operando a indica\u00e7\u00e3o de Lacan para que fa\u00e7amos como ele, por\u00e9m sem o imitar!<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LA<span style=\"font-size: 13px;\">CAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 19: <em>&#8230;ou pior<\/em>. (1971-1972) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Ed. Grama, 2012. p. 217.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Ed. Grama, 2007. p. 119.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 71.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> TARRAB, M. O ato anal\u00edtico: ler e escrever. Blog Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, 27 out. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-ato-analitico-ler-e-escrever\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-ato-analitico-ler-e-escrever\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> LACAN, 1971-1972\/2012, <em>op. cit.<\/em>, p. 219.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> LEGUIL, C. Presen\u00e7a do psicanalista como testemunha da perda. <em>Punctum &#8211; Extra<\/em>. XXIV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano 2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/presenca-do-psicanalista-como-testemunha-da-perda\/<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> NAPARSTEK, F. <em>El fantasma a\u00fan<\/em>. Buenos Aires: Ed Grama, 2024. p. 65.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> SOLANO, E. Hagan como yo, no me imiten. In: GLAZE, A.; MILLER, J.-A. (dirs.). <em>Lacan Hispano<\/em>. Olivos: Grama Ed., 2021. p. 171-176.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 173. Tradu\u00e7\u00e3o minha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 172. Tradu\u00e7\u00e3o da autora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 173. Tradu\u00e7\u00e3o da autora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> TARR<\/span>AB, 2021, <em>op. cit<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cinthia Busato (EBP\/AMP) No Semin\u00e1rio 19, &#8230;ou pior, Lacan aponta que foi a partir da fala das hist\u00e9ricas que Freud fez surgir \u201ca constata\u00e7\u00e3o de que o que se produzia no n\u00edvel do suporte tinha a ver com o que se articulava pelo discurso. O suporte \u00e9 o corpo\u201d[1]. 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