{"id":5063,"date":"2024-08-12T06:30:59","date_gmt":"2024-08-12T09:30:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5063"},"modified":"2024-08-12T06:58:42","modified_gmt":"2024-08-12T09:58:42","slug":"um-cabideiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/um-cabideiro\/","title":{"rendered":"Um cabideiro!"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Andr\u00e9a Tochetto<\/strong><\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_5049\" aria-describedby=\"caption-attachment-5049\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5049\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_008-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_008-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_008-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_008-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_008-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_008.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5049\" class=\"wp-caption-text\">[Foto de Humberto Araujo &#8211; Sem Palavras &#8211; Festival de Curitiba, 2022]<\/figcaption><\/figure>Na primeira Preparat\u00f3ria para o XXV EBCF, algo me toca, fisga minha aten\u00e7\u00e3o de tal forma que a rea\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 olhar para meu amigo ao lado e dizer: \u201coi, foi isso mesmo que ouvi?\u201d \u2013 \u201co imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d?<\/p>\n<p>Esse fragmento ecoa. O dito toca o corpo e n\u00e3o encontro aporte para explicar. Eis o que me p\u00f4s a trabalho.<\/p>\n<p>Um corpo tem uma grafia, um desenho, uma forma, um limite entre o dentro fora. Um campo biol\u00f3gico em um mapa exterior. Um corpo que desliza em um mundo com outros corpos, que comp\u00f5em uma coreografia nos la\u00e7os que se estabelecem no decorrer deste deslizamento. Como uma dan\u00e7a, mas que n\u00e3o se dan\u00e7a s\u00f3.<\/p>\n<p>Assim sigo fazendo uso de significantes e, na tentativa de localizar esse dito, me dirijo ao Semin\u00e1rio 19, na Li\u00e7\u00e3o XVI \u2013 Os corpos aprisionados pelo discurso. Desde ali o uso de aprisionados novamente me convoca. O termo tamb\u00e9m \u00e9 discuss\u00e3o no meio e acompanho algumas conversa\u00e7\u00f5es. Aprisionados me parece um uso justo, mas tamb\u00e9m parece uma palavra r\u00edgida. Justo, porque aprisionado cont\u00e9m a descri\u00e7\u00e3o daquele que se aprisionou, que foi cativado pelo discurso. E uma palavra r\u00edgida, porque fisgado pelo discurso me parece tamb\u00e9m a palavra ideal. \u00c9 um dilema? Uma escolha a se fazer?<\/p>\n<p>Fa\u00e7o uma r\u00e1pida elabora\u00e7\u00e3o, uma imaginariza\u00e7\u00e3o, para me ajudar a compreender esse: \u201co imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d. Em minha casa, logo na entrada tenho um desses cabideiros de ch\u00e3o. Nele, os que entram depositam casacos, casaquinhos, blusas, bermudas, bon\u00e9s, chap\u00e9us, bolsas e at\u00e9 peruca&#8230; uma infinidade de trecos que usamos para recobrir o corpo na rela\u00e7\u00e3o com o mundo fora de casa. Volta e meia faz-se necess\u00e1rio uma limpeza, mas algo sempre fica. N\u00e3o me lembro, desde o momento que ele come\u00e7ou a operar nesta casa, de ele ter ficado nu. Sempre um resto das rela\u00e7\u00f5es permanece.<\/p>\n<p>Esse cabideiro \u00e9 um objeto inanimado. No entanto, minha analogia faz-se a partir da subst\u00e2ncia gozante. Essa subst\u00e2ncia que de entrada recebe do Outro significantes, que s\u00e3o nomeados pelo Outro, que formam cadeia, e assim constr\u00f3i\u00a0\u00a0 imagem de si. E ali, entre um significante e outro, uma hi\u00e2ncia, um objeto de constitui\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, de causa do desejo.<\/p>\n<p>Lacan no Sem. 20 me traz uma chave: \u201cesse imagin\u00e1rio, eu o designei expressamente com o <em>I<\/em> aqui isolado do termo<em> imagin\u00e1rio. <\/em>N\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a vestimenta da imagem de si, que vem envolver o objeto causa do desejo, que se sustenta mais frequentemente \u2013 \u00e9 mesmo a articula\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise \u2013 a rela\u00e7\u00e3o objetal.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio que tantas vezes e tantas vezes frequentou os semin\u00e1rios de Lacan, em mais ou menos evid\u00eancia, com menor ou maior credibilidade, esse imagin\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9 imagem, mas como diz Brousse \u201ctrata-se do poder de uma imagem como real&#8230; \u00e9 algo que tem um poder imediatamente eficaz, consequ\u00eancias, no real mais real.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Meu cabideiro funcionou at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Sigo meus deslizamentos e, novamente, me detenho no texto dos Corpos aprisionados, e j\u00e1 na primeira p\u00e1gina est\u00e1 l\u00e1 O aturdito: \u201cQue se diga, como fato, fica esquecido por traz do que \u00e9 dito, no que se ouve\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> e \u00e9 a ele que retorno.<\/p>\n<p>O que fica esquecido em meu cabideiro est\u00e1 do lado da exist\u00eancia, nele destaca-se o que se veste, e por vesti-lo de resto do que \u00e9 dito (usado), uma parafern\u00e1lia de coisas o recobre. N\u00e3o se pode mais v\u00ea-lo como cabideiro, j\u00e1 que est\u00e1 vestido. Sua fun\u00e7\u00e3o est\u00e1 recoberta. Aprisionada ou fisgada?\u00a0 N\u00e3o sei!<\/p>\n<p>O ponto a que chego nesse momento \u00e9 que esse exemplo <em>\u00e9 \u201cassertivo por sua forma\u201d<\/em>, por ora, e pertence ao que \u00e9 prov\u00e1vel ou poss\u00edvel \u201c<em>pelo que emite de exist\u00eancia\u201d, <\/em>e embora muito se possa dizer, pelos penduricalhos, dos que ali decantaram algo, ainda assim ser\u00e1 um meio dito!<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Seria este o trabalho de uma an\u00e1lise? Retirar parte das parafern\u00e1lias que recobrem, para restituir ao cabideiro a fun\u00e7\u00e3o de ser suporte, sem vergar?<\/p>\n<p>E, tirando as hist\u00f3rias de contos de fadas, um cabideiro n\u00e3o dan\u00e7a com outro cabideiro!<\/p>\n<p>Estes foram alguns dos deslizamentos em torno do que permanece como causa: \u201co imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d .<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, Jaques. Semin\u00e1rio, livro 20: mais ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 99.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> BROUSSE, Marie-Helene. Corpos Lacanianos: novidades contempor\u00e2neas sobre o Est\u00e1dio do espelho. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, Ano 5, N\u00famero 5, novembro 2014, ISSN21772673<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0 LACAN, Jaques. Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 213.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Ibid. p. 213.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9a Tochetto Na primeira Preparat\u00f3ria para o XXV EBCF, algo me toca, fisga minha aten\u00e7\u00e3o de tal forma que a rea\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 olhar para meu amigo ao lado e dizer: \u201coi, foi isso mesmo que ouvi?\u201d \u2013 \u201co imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d? Esse fragmento ecoa. O dito toca o corpo e n\u00e3o encontro&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5063","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-corpografias","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5063","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5063"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5063\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5064,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5063\/revisions\/5064"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5063"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}