{"id":5061,"date":"2024-08-12T06:29:45","date_gmt":"2024-08-12T09:29:45","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5061"},"modified":"2024-08-12T06:29:45","modified_gmt":"2024-08-12T09:29:45","slug":"sobre-a-identificacao-ao-falo-morto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/sobre-a-identificacao-ao-falo-morto\/","title":{"rendered":"Sobre a identifica\u00e7\u00e3o ao falo morto"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Rafael Marques Longo<br \/>\n<\/strong>Joinville\/SC<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_5043\" aria-describedby=\"caption-attachment-5043\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5043\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_009.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_009.jpg 2048w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_009-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_009-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_009-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Boletim_003_009-1536x1025.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5043\" class=\"wp-caption-text\">[Foto de Lina Sumizono &#8211; Cura &#8211; Festival de Curitiba, 2022]<\/figcaption><\/figure>H\u00e1 algum tempo tenho sido capturado pela problem\u00e1tica do corpo, na vida e no ensino de Lacan. Tento tom\u00e1-lo como uma b\u00fassola, uma chave de leitura desse ensino, sustentando que, pela via do conceito de corpo, \u00e9 poss\u00edvel acompanhar e verificar a incid\u00eancia das reviravoltas que a singularidade desse ensino provoca. Para este breve trabalho, inicialmente, pretendia tratar da vida na sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo, tal qual encontramos nos textos de Lacan da d\u00e9cada de 70. No entanto, algo insistiu na cl\u00ednica, me fazendo resgatar uma refer\u00eancia e urgenciando sua leitura.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia \u00e9 o livro de Herv\u00e9 Castanet, intitulado <em>Homoanalysants: Des homosexuels en analyse<\/em>. Trata-se de um compilado de oito casos, dos quais sete analisantes e o do renomado escritor e dramaturgo franc\u00eas Jean Genet, sobre homossexualidade masculina. Castanet apresenta uma leitura dos casos orientada pelo \u00faltimo ensino de Lacan, podendo mostrar como \u201cCada um desses analisantes pode, modestamente, construir seu sinthome no seu tratamento\u201d (Castanet, 2013, p. 15)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Para tanto, h\u00e1 um percurso implicado, que parte de uma refer\u00eancia pouco discutida nos dias de hoje, ao menos nesses termos: a identifica\u00e7\u00e3o ao falo morto.<\/p>\n<p>Breves apontamentos hist\u00f3ricos:<\/p>\n<p>A homossexualidade foi inclu\u00edda no Psychopathia Sexualis, o primeiro manual de diagn\u00f3stico de pervers\u00f5es sexuais, publicado em 1886 por Richard von Kraff-Ebing. Estava ela entre as parestesias, uma das quatro categorias de \u201cdesvios sexuais\u201d, nas quais o desejo sexual se apresentaria sobre um objeto err\u00f4neo. Na mesma categoria estavam: homossexualidade, fetichismo, sadismo e masoquismo. Na \u00e9poca, o que eram consideradas pervers\u00f5es? O que estava fora da norma, do \u201cprop\u00f3sito natural\u201d. O que a norma n\u00e3o contemplava, era considerado pervers\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, de certa forma herdeira da tradi\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica alem\u00e3, vai com Freud seguir, de algum modo, essa concep\u00e7\u00e3o. A ponto de, no in\u00edcio da obra de Freud, ele tratar o tema como os invertidos<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Uma invers\u00e3o do objeto sexual em rela\u00e7\u00e3o ao Complexo de \u00c9dipo \u201cnormal\u201d. Ser\u00e1 com Lacan que a suposta biologia freudiana pode ser abandonada e, concomitantemente, a confus\u00e3o epist\u00eamica entre as ci\u00eancias m\u00e9dicas \u2013 incluindo as tradi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas \u2013 e a teoria psicanal\u00edtica pode ser esclarecida, ao estruturar a singularidade de seu campo. Desse modo, \u00e9 um erro equivaler o termo pervers\u00e3o nos diferentes discursos; tal qual \u00e9 um erro supor que o termo homossexualidade na Orienta\u00e7\u00e3o lacaniana tenha qualquer univocidade com o que se discute em teorias sociais, pol\u00edticas ou psicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Circunscrever as diferen\u00e7as epist\u00eamicas n\u00e3o \u00e9 o objetivo deste texto, basta a advert\u00eancia sobre a singularidade da Orienta\u00e7\u00e3o lacaniana que pode ser resumida na seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201cOs homossexuais n\u00e3o formam um conjunto fechado. N\u00e3o h\u00e1 uma, mas homossexualidades.\u201d (Castanet, 2013, p. 138)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, precisamente porque a homossexualidade masculina n\u00e3o \u00e9, em psican\u00e1lise, uma entidade psicopatol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o ao falo morto:<\/p>\n<p>Para situar a quest\u00e3o sobre o falo morto, \u00e9 necess\u00e1rio recorrer \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre falo simb\u00f3lico e falo imagin\u00e1rio apresentada por Lacan no texto <em>Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano<\/em>. O falo simb\u00f3lico \u00e9 o que n\u00e3o pode ser negativizado<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, enquanto o falo imagin\u00e1rio \u00e9 a parte exclu\u00edda da imagem especular ou, como afirma Lacan em <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder<\/em>, \u00e9 \u201ca libra de carne paga pela vida (&#8230;), como tal imposs\u00edvel de restituir ao corpo imagin\u00e1rio\u201d (Lacan, 1998, p. 636).<\/p>\n<p>Nesse momento do ensino, Lacan constr\u00f3i, segundo Castanet (p. 142), a homossexualidade masculina na sua rela\u00e7\u00e3o com esses dois conceitos. A tese lan\u00e7ada no Semin\u00e1rio, livro V \u00e9 a de que a m\u00e3e ocuparia um lugar determinante na homossexualidade masculina por ser aquela que estabelece a lei para o pai<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, tendo como consequ\u00eancia o bloqueio da sa\u00edda do \u00c9dipo pelo excesso de sua presen\u00e7a<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. E \u00e9 dessa consequ\u00eancia que deriva a hip\u00f3tese do autor, nos seguintes termos: \u201cpor essa identifica\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e, o falo imagin\u00e1rio se encontra positivado por uma dupla nega\u00e7\u00e3o \u2013 o que se escreve [-(-\u03c6)].\u201d (Castanet, 2013, p. 144)<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> O falo imagin\u00e1rio positivado, nesse caso, \u00e9 precisamente o v\u00e9u pelo qual o fetiche faz figurar o que falta para-al\u00e9m do objeto, que Lacan aponta no Semin\u00e1rio, livro 4.<\/p>\n<p>Enfim, e o falo morto? \u00c9 o falo da m\u00e3e: \u03c60, visto que, vale lembrar, na doutrina freudiana quem \u00e9 portador do falo \u00e9 o pai. O \u03c60 \u00e9 distinto do \ud835\udebd0 de certas psicoses. A identifica\u00e7\u00e3o do sujeito ao falo morto conduz, segundo Castanet (2013, p. 145), \u201ca uma desconex\u00e3o com aquilo que \u00e9 vivo\u201d, ou seja, \u201c\u03c60 \u00e9 mortifica\u00e7\u00e3o do vivo\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Como indicamos no in\u00edcio do texto, trata-se de um percurso, que se inicia na identifica\u00e7\u00e3o ao falo morto. Localizar tal identifica\u00e7\u00e3o seria um primeiro momento do tratamento, ao construir um sintoma anal\u00edtico. O percurso se encaminharia exatamente do sintoma ao sinthome, passando pelas inven\u00e7\u00f5es e bricolagens poss\u00edveis de cada Um. No caso de cada Um, incluindo os casos de homossexualidade masculina, passando necessariamente da ordem f\u00e1lica, do lado masculino da sexua\u00e7\u00e3o, ao feminino. Se a hip\u00f3tese de Herv\u00e9 Castanet serve a tratamentos de homossexuais masculinos, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 por uma suposta faliciza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica, ao definir uma identifica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica que poderia ter valor de generaliza\u00e7\u00e3o; \u00e9 precisamente por orientar uma cl\u00ednica pelo \u00faltimo ensino de Lacan, tomando a defesa frente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o h\u00e1, seja ela qual for, como in\u00edcio de percurso rumo \u00e0 vivifica\u00e7\u00e3o do ser falante.<\/p>\n<hr \/>\n<h5><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u201cChacun de ces analysants a pu, modestement, construire son sinthome dans sa cure.\u201d<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Kraff-Ebing, 1892, p. 56: \u201cWith opportunity for the natural satisfaction of the sexual instinct, every expression of it that does not correspond with the purpose of nature, &#8221; i.e.,propagation, &#8221; must be regarded as perverse.\u201d<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Freud, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> \u201cLes homosexuels ne forment pas un ensemble ferm\u00e9. Il n\u2019y a pas <em>une<\/em>, mais <em>des <\/em>homosexualit\u00e9s. [e continua] Autrement dit, le coix inconscient de jouissance, lorsqu\u2019il prend la forme de l\u2019homosexualit\u00e9 masculine, est \u00e0 construire non comme le sympt\u00f4me particulier d\u2019une classe g\u00e9n\u00e9rale, mais toujours au cas par cas. Il y a des homosexuels qui sont n\u00e9vros\u00e9s, d\u2019autres pervers, d\u2019autres psychotiques, pour reprendre la clinique structurale freudienne.\u201d<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Lacan, 1998, p. 838: \u201cPor mais que seja suporte do (-1), ali ele [phi min\u00fasculo] se transforma em \ud835\udebd (phi mai\u00fasculo), o falo simb\u00f3lico imposs\u00edvel de negativizar, o significante do gozo.\u201d<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Castanet, 2013, p. 143: \u201cSi la m\u00e8re occupe une place d\u00e9terminante dans l\u2019homosexualit\u00e9 masculine (&#8230;) c\u2019est parce qu\u2019elle est celle qui fait la loi au p\u00e8re.\u201d<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Castanet, 2013, p. 143: \u201cLa cons\u00e9quence pour l\u2019enfant est la suivante: la sortie de l\u2019\u0152dipe n\u2019est pas possible, car bloqu\u00e9e par ce <em>trop de pr\u00e9sence<\/em> de la m\u00e8re.\u201d<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> \u201cUne cons\u00e9quence clinique s\u2019en d\u00e9duit: par cette identification \u00e0 la m\u00e8re, le phallus imaginaire se trouve positiv\u00e9 par une double n\u00e9gation &#8211; ce qui s\u2019\u00e9crit [-(-\u03c6)]. Il y a une \u201cr\u00e9cuperation du \u03c6\u201d, dira Lacan.\u201d<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> \u201cY \u00eatre identifi\u00e9 conduit \u00e0 une d\u00e9connexion d\u2019avec ce qui est vivant. (&#8230;) \u03c60 est mortification du vivant (\u03c6).\u201d<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Marques Longo Joinville\/SC H\u00e1 algum tempo tenho sido capturado pela problem\u00e1tica do corpo, na vida e no ensino de Lacan. 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