{"id":4958,"date":"2024-06-24T18:12:01","date_gmt":"2024-06-24T21:12:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4958"},"modified":"2024-06-26T06:43:55","modified_gmt":"2024-06-26T09:43:55","slug":"a-duracao-do-ato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/a-duracao-do-ato\/","title":{"rendered":"A dura\u00e7\u00e3o do ato"},"content":{"rendered":"<h6><em>Cauana Mestre<\/em><\/h6>\n<figure id=\"attachment_4959\" aria-describedby=\"caption-attachment-4959\" style=\"width: 316px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4959\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/corpografias002-007-647x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"316\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/corpografias002-007-647x1024.jpg 647w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/corpografias002-007-190x300.jpg 190w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/corpografias002-007-768x1216.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/corpografias002-007-970x1536.jpg 970w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/corpografias002-007-1294x2048.jpg 1294w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/corpografias002-007-scaled.jpg 1617w\" sizes=\"auto, (max-width: 316px) 100vw, 316px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4959\" class=\"wp-caption-text\">Lygia Clark, \u201cComposi\u00e7\u00e3o\u201d (1953)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cS\u00f3 h\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o: a do ato\u201d. Encontrei esta frase em um dos escritos de Lygia Clark, expostos na mostra da Pinacoteca que reuniu v\u00e1rios momentos da extensa obra da artista. No texto escrito \u00e0 m\u00e3o, Lygia comenta uma de suas obras da d\u00e9cada de sessenta, <em>Caminhando,<\/em> momento em que ela decide romper com a ideia de uma separa\u00e7\u00e3o total entre sujeito e objeto, recusando a r\u00edgida no\u00e7\u00e3o de \u201cobjeto arte\u201d.\u00a0 A artista constr\u00f3i uma fita de Moebius e vai cortando-a recorrentemente, no sentido do comprimento, at\u00e9 que o atalho chegue ao fim. A import\u00e2ncia reside, absoluta, no ato: a arte \u00e9 o movimento de cortar e n\u00e3o a fita como objeto em si. \u201cSe eu utilizo uma fita de Moebius para essa experi\u00eancia \u00e9 porque ela quebra os nossos h\u00e1bitos espaciais: direita\u2013esquerda, anverso-reverso etc. Ela nos faz viver a experi\u00eancia de um tempo sem limite e de um espa\u00e7o cont\u00ednuo\u201d, explica Lygia, em 1964.<\/p>\n<p>\u00c0 mesma \u00e9poca, em outro continente, Lacan tamb\u00e9m se serve da fita de Moebius \u2014 que se torna, ent\u00e3o, o primeiro marco da rela\u00e7\u00e3o consistente da psican\u00e1lise lacaniana com a topologia. A fita subverte a representa\u00e7\u00e3o comum do espa\u00e7o e anuncia o aceno de Lacan \u00e0 matem\u00e1tica, terreno onde o limite \u00e9 o ilimitado, campo do infinito. N\u00e3o h\u00e1 avesso nem direito, o dentro se confunde com o fora, o Outro \u00e9 pr\u00f3prio e \u00e9 sempre numa exterioridade \u201cque se identifica esse algo pelo qual o que me \u00e9 mais \u00edntimo \u00e9, justamente, aquilo que sou obrigado a s\u00f3 poder reconhecer do lado de fora\u201d (LACAN, 2008, p. 219).<\/p>\n<p>Quando Lygia constru\u00eda suas esculturas neoconcretas da s\u00e9rie <em>Bichos <\/em>para tensionar <em>O dentro \u00e9 o fora<\/em> e <em>O antes \u00e9 o depois<\/em>, Lacan j\u00e1 havia proposto o termo <em>extimidade, <\/em>deslizando do <em>infamiliar<\/em> freudiano. Como dizer que o mais \u00edntimo \u00e9 <em>\u00eaxtimo<\/em> sem coloc\u00e1-los em compara\u00e7\u00e3o direta? Como esclarecer que n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos ao mesmo tempo em que n\u00e3o s\u00e3o excludentes? As perguntas dialogam com aquelas com as quais Lacan esteve \u00e0s voltas ao longo de todo seu ensino, sobretudo nos \u00faltimos anos: como inserir, na experi\u00eancia de an\u00e1lise, aquilo que a palavra n\u00e3o alcan\u00e7a? Como circunscrever o imposs\u00edvel? Volto \u00e0 frase de Lygia Clark: \u201cs\u00f3 h\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o: a do ato\u201d. Neste ponto do caminho se encontram a artista e o psicanalista \u2013 e ent\u00e3o a pr\u00f3pria arte e a pr\u00f3pria psican\u00e1lise, como dois territ\u00f3rios litor\u00e2neos que, como escreve Lacan em <em>Lituraterra <\/em>(1965), s\u00e3o heterog\u00eaneos e um funciona de fronteira para o outro, ainda que se interpenetrem. O ato do analista \u00e9 a \u00fanica dura\u00e7\u00e3o que se escreve da experi\u00eancia anal\u00edtica justamente por ressoar na \u00fanica verdadeira subst\u00e2ncia que a psican\u00e1lise reconhece, o gozo.<\/p>\n<p>Miller, na confer\u00eancia <em>Ler um sintoma,<\/em> apresentada no Congresso da NSL em 2011, nos lembra de que Lacan vai al\u00e9m dos restos anal\u00edticos freudianos; a\u00ed onde Freud se detinha, Lacan nos convida a avan\u00e7ar, pois o resto que insiste \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 o que, no sintoma, \u00e9 fora de sentido \u2014 o real por excel\u00eancia. Ler um sintoma, portanto, \u00e9 priv\u00e1-lo de sentido, equivoc\u00e1-lo. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o como saber ler visa reduzir o sintoma \u00e0 sua f\u00f3rmula inicial, quer dizer, ao encontro material de um significante e do corpo, ao choque puro da linguagem sobre o corpo\u201d. O ato do analista, como aquilo que ressoa no corpo que goza, toca o resto enquanto isso que ele \u00e9: a origem do <em>falasser.<\/em> O ato \u00e9 a aposta radical na <em>experi\u00eancia<\/em> da an\u00e1lise; essa que, ao n\u00e3o recusar a conting\u00eancia e ensinar que dela \u00e9 poss\u00edvel fazer bom uso, pode <em>desaprisionar<\/em> os corpos.<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 fruto da experi\u00eancia de habitar a Comiss\u00e3o de Acolhimento da 5\u00aa Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul, Discursos e Corpos: a causa do dizer, coordenada por Juliana Silva e composta tamb\u00e9m pelas colegas Andrea Tochetto, Maria Luiza Rovaris\u00a0Cidade e Mariana Queiroz. Nossa comiss\u00e3o pensa o espa\u00e7o-jornada como um espa\u00e7o-est\u00e9tico que inclui os corpos e os la\u00e7os de trabalho \u2013 e que inclui tamb\u00e9m o ressoar da m\u00fasica no corpo, contemplado na segunda playlist constru\u00edda por Maria Luiza, dispon\u00edvel no Spotify pelo link: <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/0TukyUhDrHxcS8EsrPw6yC?si=6lUzcWXZT7WFoNhjhtqanw&amp;pt=937bdbf975b8dd58651224958c37ab3b\">https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/0TukyUhDrHxcS8EsrPw6yC?si=6lUzcWXZT7WFoNhjhtqanw&amp;pt=937bdbf975b8dd58651224958c37ab3b<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6>LACAN, Jacques. Lituraterra. In: <strong>Outros<\/strong> <strong>escritos<\/strong><em>. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., [1965] 2003. 15-29.<\/h6>\n<h6><strong>______. O semin\u00e1rio, livro 7: A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., [1959-60] 2008.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques Alain. Ler um sintoma. Londres, 2011. Texto estabelecido por Dominique Helvoet, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ler-um-sintoma\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ler-um-sintoma\/<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cauana Mestre \u201cS\u00f3 h\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o: a do ato\u201d. Encontrei esta frase em um dos escritos de Lygia Clark, expostos na mostra da Pinacoteca que reuniu v\u00e1rios momentos da extensa obra da artista. No texto escrito \u00e0 m\u00e3o, Lygia comenta uma de suas obras da d\u00e9cada de sessenta, Caminhando, momento em que ela decide romper&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4958","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-corpografias","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4958"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4958\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5011,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4958\/revisions\/5011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4958"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}