{"id":4765,"date":"2024-03-18T11:02:57","date_gmt":"2024-03-18T14:02:57","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4765"},"modified":"2024-03-19T08:19:11","modified_gmt":"2024-03-19T11:19:11","slug":"incuravel-da-estrutura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/incuravel-da-estrutura\/","title":{"rendered":"Incur\u00e1vel da estrutura"},"content":{"rendered":"<h6>C\u00e9lia Ferreira Carta Winter (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4745\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/modos_de_usar_005_002.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/modos_de_usar_005_002.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/modos_de_usar_005_002-228x300.jpg 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>No final do Congresso da AMP, \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d, Cristiane Alberti faz refer\u00eancia a estrutura tripartite, que serve de b\u00fassola e orienta a escolha do pr\u00f3ximo Congresso em 2026, assim como ocorreu nos Congressos anteriores. Seguindo essa l\u00f3gica de tr\u00eas, os aforismos de Lacan nos convocam ao trabalho: o primeiro, em 2022, \u201cA Mulher n\u00e3o existe\u201d; seguido em 2024, por \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d. Este, pin\u00e7ado por Miller, em um momento que era fundamental defender o Departamento de Psican\u00e1lise de Vincennes, cuja exist\u00eancia, no \u00e2mago da Universidade de Paris 8, estava amea\u00e7ada. Ali\u00e1s, afirma Miller, \u201ca psican\u00e1lise \u00e9 amea\u00e7ada, todos os anos \u2013 por raz\u00f5es conjunturais e por uma raz\u00e3o de estrutura\u201d.<\/p>\n<p>Mantendo a tradi\u00e7\u00e3o, no final do Congresso, o novo tema de trabalho \u00e9 apresentado.\u00a0 A proposi\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d orientar\u00e1 o trabalho das sete Escolas de Psican\u00e1lise. Com \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d, Miller chama a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da cl\u00ednica em um momento em que o discurso da despatologiza\u00e7\u00e3o a banaliza. N\u00e3o haver\u00e1 mais patologias, haver\u00e1, j\u00e1 h\u00e1, em vez disso, estilos de vida, livremente escolhidos \u2013 uma liberdade imprescrit\u00edvel, porque ela \u00e9 a dos sujeitos de direito (droit). Digamos que o reto (droit) leva a melhor sobre o torto[1].\u00a0 Com o tema: \u201cRela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d, nos convida, como sempre, a debater a cl\u00ednica, o epist\u00eamico e o pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A atualidade e a impossibilidade de escrever tal rela\u00e7\u00e3o que caracteriza a sexualidade do ser falante, est\u00e1 intimamente ligada ao tema proposto pelo Encontro do Campo Freudiano: \u201cCorpos aprisionados pelos discursos&#8230; e seus restos!\u201d.\u00a0 Diante dos limites impostos pela preval\u00eancia do simb\u00f3lico, que determinava a forma como a psican\u00e1lise se inseria no campo da fala e da linguagem, no primeiro ensino, Lacan inclui o saber fazer com a opacidade do gozo, e na concep\u00e7\u00e3o de corpo, na vibra\u00e7\u00e3o do vivo, uma no\u00e7\u00e3o de inconsciente que n\u00e3o se resume ao recalcado, o inconsciente Real.<\/p>\n<p>O \u201cMal-entendido\u201d, proposto por Patr\u00edcia Badari, na abertura das atividades da nossa Se\u00e7\u00e3o, aponta para esse \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d indicado por Lacan. O mal-entendido n\u00e3o diz respeito a algo que se prestaria a um bem entender, que n\u00e3o teria sido bem entendido \u00e9, antes, um mais-ou-menos, uma <em>bafouillage<\/em> (barafunda) dos antecedentes, que constitui o campo do <em>falasser<\/em>.<\/p>\n<p>Lacan aborda a m\u00e1 compreens\u00e3o do corpo, como uma caracter\u00edstica decorrente do encontro entre o significante e a carne, resultando em um evento corporal que fixa um gozo refrat\u00e1rio ao sentido e estabelece o campo do humano e do <em>falasser.<\/em> Esse mal-entendido n\u00e3o se refere a uma falta de compreens\u00e3o que poderia ser esclarecida, mas, sim, uma complexidade inerente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre corpo, linguagem e gozo. Como aponta Bassols: \u201cUm\u201d sem Outro, sem alteridade poss\u00edvel, no \u201cUm\u201d sozinho do gozo, que faz do seio familiar a (im)possibilidade de cada ser falante dar uma resposta, uma vers\u00e3o sintom\u00e1tica, nos melhores casos, a esse gozo do Um sozinho, que aparece como Outro estranho e se encarna ali, onde n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual entre um homem e uma mulher[2].<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, a quest\u00e3o \u00e9 encontrar formas de abordar esse Real, sem deixar de levar em conta os limites do simb\u00f3lico, o vazio de sentido e o incur\u00e1vel da estrutura.<\/p>\n<p>Tarefa cada vez mais desafiadora, em tempos de cren\u00e7a em atalhos que nos poupe do mal-estar do existir. O analista, na contram\u00e3o dessa corrente, suporta a exist\u00eancia do Real, e n\u00e3o ocupa o lugar de tudo saber, mas n\u00e3o basta, \u00e9 preciso que tamb\u00e9m o analisante consinta com o n\u00e3o saber. Ao sustentar isso que \u00e9 da ordem do imposs\u00edvel de se escrever, que o analista pode atuar como aquele que implica o sujeito \u201cna sombra que se renova frente a qualquer avan\u00e7o tecnocient\u00edfico\u201d. Aqui nos valemos da m\u00fasica, da palavra po\u00e9tica, de Chico Buarque e Milton Nascimento que tamb\u00e9m apontam para aquilo do humano que n\u00e3o se escreve: \u201cQue ser\u00e1 que me d\u00e1? [..] Que me bole por dentro [..] Que d\u00e1 dentro da gente [..] Que n\u00e3o t\u00eam rem\u00e9dio, nem nunca ter\u00e1. O que n\u00e3o t\u00eam receita\u201d, o que n\u00e3o tem palavra. A Intelig\u00eancia Artificial poderia capturar o \u201cque n\u00e3o tem nome nem nunca ter\u00e1\u201d?[3]\n<p>A intelig\u00eancia artificial se apresenta como resposta a toda demanda, ela n\u00e3o cessa de escrever, enquanto a psican\u00e1lise n\u00e3o responde, porque lida com aquilo que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. O analista se oferece como suporte para a demanda, mas n\u00e3o responde a nenhuma, j\u00e1 que respond\u00ea-la \u00e9 fazer calar o desejo.<\/p>\n<p>O tema proposto por Patr\u00edcia Badari, \u201cMal-Entendido\u201d, e o tema do XXV Encontro do Campo Freudiano: \u201cCorpos aprisionados pelo discurso&#8230;. e seus restos, nos servir\u00e1 em 2024, de orienta\u00e7\u00e3o epist\u00eamica, cl\u00ednica e pol\u00edtica, nas atividades da Se\u00e7\u00e3o Sul.<\/p>\n<p>Em tempos de ChatGPT e da Intelig\u00eancia Artificial, a quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial, marcada pela converg\u00eancia de tecnologias digitais, f\u00edsicas e biol\u00f3gicas, tem como limite o Real, e o que nos torna humanos: <em>lal\u00edngua<\/em>. Linguagem que comporta a face do grande Outro, e que levou Lacan dizer: \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, tudo o que for rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 um conjunto vazio&#8230;..e, h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual entre tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, como aqueles que nos ensinaram a l\u00edngua, mais o Supereu que, por meio dela, eles nos veicularam\u201d.[4] \u00c9 no furo causado pelo mal-entendido que brota algo vivo, que pode ser transmitido e escutado, ao romper com o conformismo e a homogeneidade do discurso, ponto que nenhuma IA pode acessar.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>[1] Esta f\u00f3rmula, que aponta o lugar do \u201creto\u201d em nossa \u00e9poca, \u00e9 o inverso daquela proposta por J.-A. Miller para especificar a orienta\u00e7\u00e3o tra\u00e7ada por Lacan: \u201co torto prevalece sobre o reto\u201d (Cf. Miller, J.-A. (2007). \u201cNota passo a passo\u201d. In Lacan, J. (2007). O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: JZE, p. 209).<\/h6>\n<h6>[2] BASSOLS, M. O b\u00e1rbaro: transtornos da linguagem e segrega\u00e7\u00e3o. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, ano 9, n. 25 e 26, mar.-jul. 2018.<\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. A l\u00edngua familiar. Op\u00e7\u00e3o lacaniana, n. 79. Confer\u00eancia apresentada no VIII Enapol, em Buenos Aires, em setembro de 2017.<\/h6>\n<h6>[3] Forbes, J. Efeitos das Tecnoci\u00eancias nas Fam\u00edlias. Instituto da Psican\u00e1lise Lacaniana. 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/ipla.com.br\/conteudos\/artigos\/efeitos-das-tecnociencias-nas-familias\/\">https:\/\/ipla.com.br\/conteudos\/artigos\/efeitos-das-tecnociencias-nas-familias\/<\/a>&gt; Acesso em novembro de 2023.<\/h6>\n<h6>[4] Miller, Jacques Alan. Perspectivas do Semin\u00e1rio 23: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p. 193.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9lia Ferreira Carta Winter (EBP\/AMP) No final do Congresso da AMP, \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d, Cristiane Alberti faz refer\u00eancia a estrutura tripartite, que serve de b\u00fassola e orienta a escolha do pr\u00f3ximo Congresso em 2026, assim como ocorreu nos Congressos anteriores. 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