{"id":4752,"date":"2024-03-18T10:56:35","date_gmt":"2024-03-18T13:56:35","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4752"},"modified":"2024-03-18T10:56:35","modified_gmt":"2024-03-18T13:56:35","slug":"resenha-livro-lacan-chines","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/resenha-livro-lacan-chines\/","title":{"rendered":"RESENHA LIVRO LACAN CHIN\u00caS"},"content":{"rendered":"<h6>Paula Nocquet<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4741 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/modos_de_usar_005_006.jpg\" alt=\"\" width=\"402\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/modos_de_usar_005_006.jpg 402w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/modos_de_usar_005_006-300x222.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><\/p>\n<p>O livro Lacan Chin\u00eas de Cleyton Andrade surpreende pela sua originalidade ao passo que permite compreender o que possibilita a Jacques Lacan pensar no ato de leitura em uma experi\u00eancia de an\u00e1lise. Sabemos que, dentre as faculdades atribu\u00eddas ao analista, uma delas \u00e9 saber ler. N\u00e3o se trata apenas de saber ouvir, mas de saber ler o inconsciente, estamos portanto em termos de escritura. Mas, como pensar a separa\u00e7\u00e3o entre fala e escrita?<\/p>\n<p>Esse talvez seja o primeiro convite essencial para pensarmos em ler este trabalho que realiza uma imers\u00e3o hist\u00f3rica, cultural e pol\u00edtica da China elegantemente entramada com as considera\u00e7\u00f5es lacanianas. Com transfundo cl\u00ednico, n\u00e3o se prop\u00f5e tomar China como um ideal nem subordin\u00e1-la aos pressupostos psicanal\u00edticos, mas sim, somos convidados a percorrer os caminhos tra\u00e7ados pelo interesse de Lacan pela l\u00edngua e escrita chinesa.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo no in\u00edcio do livro desaparece a sensa\u00e7\u00e3o de que seria dif\u00edcil o aproveitamento da leitura para quem desconhece a cultura e l\u00edngua chinesa. H\u00e1 uma gentileza no livro que permite ao leitor ir navegando pelas \u00e1guas estrangeiras, ponto que considero fundamental no que tange \u00e0 pr\u00f3pria estrutura\u00e7\u00e3o do trabalho que converge com o tema em quest\u00e3o, um convite para o estrangeiro.<\/p>\n<p>A escrita chinesa, sua poesia e caligrafia mostram a rela\u00e7\u00e3o com a interpreta\u00e7\u00e3o e ato anal\u00edtico, interesse germinal do autor. Com isso, nos mostra como se viabiliza o escrito atrav\u00e9s da palavra, a separa\u00e7\u00e3o entra a fala e a escrita, permite elucidar que n\u00e3o h\u00e1 leitura \u00fanica do que se escreve, e de como os jogos de escrita ou a manipula\u00e7\u00e3o dos caracteres chineses permitem articular ou desarticular sentidos, aproximando-os, finalmente, dos n\u00f3s borromeanos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, destaca-se a influ\u00eancia can\u00f4nica de Fran\u00e7oise Cheng para, dentre outras, pensar a escrita e a letra em rela\u00e7\u00e3o com o corpo. Neste per\u00edodo do ensino de Lacan em que a linguagem passa a estar articulada com o gozo, traz a escrita chinesa, tanto o caractere como sua caligrafia, insepar\u00e1veis da dimens\u00e3o do corpo e sua puls\u00e3o. Na utiliza\u00e7\u00e3o do pincel denota-se como, em seu gesto, trata-se sobretudo de uma quest\u00e3o de movimento que implica o corpo e suas resson\u00e2ncias diretamente. O que por sua vez, evidencia a fun\u00e7\u00e3o do tra\u00e7o e da letra.<\/p>\n<p>Assim, al\u00e9m de ser uma ferramenta valiosa que nos permite enriquecer a leitura do semin\u00e1rio 18, h\u00e1 todo um recorrido fundamental para a cl\u00ednica lacaniana. Inclusive a do pensamento chin\u00eas em sua preocupa\u00e7\u00e3o com o vazio e a maneira em que a arte, especialmente a poesia, busca apreend\u00ea-lo em suas obras. O autor aclara: a poesia que Lacan traz no semin\u00e1rio 24 n\u00e3o qualquer poesia.<\/p>\n<p>Para encerrar, gostaria de destacar quando Cleyton descreve um episodio ocorrido em 1970, em que Lacan escreve no quadro caracteres chineses, mas nada faz com eles, nada comenta, sil\u00eancio. E prossegue com seu semin\u00e1rio normalmente. A tradu\u00e7\u00e3o desse escrito seria \u201cpe\u00e7o-te que me recuses o que te ofere\u00e7o porque n\u00e3o \u00e9 isso\u201d. O que isso implica? De alguma forma, est\u00e1 referido ao que n\u00e3o pode ser falado. Por sua vez isso me recordou ao que traz Miller, em o Ultim\u00edssimo Lacan, quando intitula um cap\u00edtulo como o Real n\u00e3o fala. O real n\u00e3o fala, aquilo que n\u00e3o tem marcas de significa\u00e7\u00e3o mas de gozo, est\u00e1 na ordem do escrito. A psican\u00e1lise se orienta para o real, onde as leituras do inconsciente v\u00e3o bordejando e recortando o ileg\u00edvel. Lacan demonstra uma n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o, uma escrita separada da fala e ileg\u00edvel, que incita ao trabalho de uma leitura, uma leitura sempre estrangeira em rela\u00e7\u00e3o ao que se l\u00ea.<\/p>\n<p>Por isto, das diversas preciosidades do livro, uma das que ficam \u00e9 denotar que foi preciso que Lacan recorresse a uma l\u00edngua completamente estrangeira para pensar seu ensino e pr\u00e1tica. Quase como se ficasse no horizonte, um recordat\u00f3rio desse sotaque de fora, desse estrangeiro sempre presente na psican\u00e1lise.\u00a0 Acima disso, \u00e9 o que permite a Lacan, quem sabemos sustentava ser freudiano, a considerar que, talvez por ter estudado chin\u00eas, fosse lacaniano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula Nocquet O livro Lacan Chin\u00eas de Cleyton Andrade surpreende pela sua originalidade ao passo que permite compreender o que possibilita a Jacques Lacan pensar no ato de leitura em uma experi\u00eancia de an\u00e1lise. 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