{"id":4671,"date":"2023-10-11T09:07:49","date_gmt":"2023-10-11T12:07:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4671"},"modified":"2023-10-11T09:07:49","modified_gmt":"2023-10-11T12:07:49","slug":"as-loucuras-dos-discursos-e-a-experiencia-do-singular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/as-loucuras-dos-discursos-e-a-experiencia-do-singular\/","title":{"rendered":"As Loucuras dos discursos e a experi\u00eancia do singular"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4672 alignright\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/003-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/003-300x225.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/003-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/003-768x576.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/003-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/003-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Teresa Pavone (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Inicialmente agrade\u00e7o ao Leonardo pelo convite para estar na \u00faltima preparat\u00f3ria para nossa IV Jornada da EBP- Se\u00e7\u00e3o Sul, que est\u00e1 pr\u00f3xima de acontecer nos dias 13 e 14 de outubro. Quando recebi o convite, conversando com o Leonardo a respeito do que ele estava pensando sobre o tema dessa preparat\u00f3ria ele me falou da ideia de faz\u00ea-la a partir de um testemunho. Ele havia lido dois livros neste sentido, e pensava tamb\u00e9m de como cada um se arranja com o seu real, com o singular na cultura.\u00a0 E ent\u00e3o ele agregou que estava pensando nas constru\u00e7\u00f5es, nos discursos como del\u00edrios. Os discursos seriam todos \u201cdel\u00edrios\u201d? Logo me ocorreu pensar no livro de Catherine Cl\u00e9ment: A louca e o Santo.<\/p>\n<p>Catherine Cl\u00e9ment \u00e9 uma escritora, fil\u00f3sofa, cr\u00edtica liter\u00e1ria e ensa\u00edsta francesa. Autora de mais de trinta livros, publicou uma vasta obra pautada em sua forma\u00e7\u00e3o de fil\u00f3sofa, historiadora, com conhecimentos em antropologia e em estudos aprofundados tamb\u00e9m em psican\u00e1lise, ela assistiu \u00e0s apresenta\u00e7\u00f5es de casos de Lacan no Hospital Sant Anne e frequentou todos os seus semin\u00e1rios. Consagrou-se, com grande sucesso, como romancista e com ensaios e romances no estilo de fic\u00e7\u00e3o, tendo hoje suas obras traduzidas para 24 l\u00ednguas.\u00a0 Atualmente, aos 85 anos, continua vivendo em Paris. Sua obra \u00e9 reconhecida no mundo todo.<\/p>\n<p>Sudhir Kakar, parceiro de Catherine nesta obra, \u00e9 um psicanalista indiano que resolveu trabalhar junto a ela para tra\u00e7ar um paralelo entre a vida e o tratamento de uma louca internada em Paris no hospital psiqui\u00e1trico Salp\u00e9tri\u00e8re, aos cuidados do psiquiatra Pierre Janet durante anos, e a vida e o del\u00edrio do grande m\u00edstico indiano, o Ramakrishna.<\/p>\n<p>Kakar e Catherine costumavam se encontrar em alguns congressos cient\u00edficos e em uma ocasi\u00e3o, Kakar contou para Catherine a hist\u00f3ria de Hamakrishna, um grande m\u00edstico bengali do final do s\u00e9culo XIX. Ela escutava atenciosamente seu amigo indiano, e reconheceu os mesmos sintomas do m\u00edstico em Madeleine, a famosa paciente do psiquiatra Pierre Janet. Os dois personagens viveram, praticamente, na mesma \u00e9poca.<\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa associou \u00e0s duas hist\u00f3rias, os mesmos tipos cl\u00ednicos de del\u00edrios m\u00edsticos, de catatonia, de estados de \u00eaxtase e observou que para a personagem central de uma das hist\u00f3rias vigorou como destino, a exclus\u00e3o entre os muros de um famoso hospital psiqui\u00e1trico, pelo fato de ela amea\u00e7ar a ordem p\u00fablica, por violar as normas da sociedade em que vivia e ser considerada louca. Sendo que para o personagem da outra hist\u00f3ria, o destino n\u00e3o menos delirante e sofrido, foi o de ser livre e gozar da notoriedade de ser um grande Guru indiano e idolatrado em seu meio cultural. As duas hist\u00f3rias se entrela\u00e7avam na semelhan\u00e7a do sofrimento, o de como um corpo pode ser afetado, em ambos os casos, corpos tratados pelo del\u00edrio m\u00edstico com um discurso religioso constitu\u00eddo, estruturados de uma maneira muito semelhante. O que os diferenciava \u00e9 que ele fora considerado um m\u00edstico bengali e vivia em Calcut\u00e1 como um santo, enquanto ela considerada louca fora internada durante muitos anos.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de documentos que foram feitos pelos disc\u00edpulos de Ramakrishna e de dois grandes volumes dos registros do tratamento e das sess\u00f5es de Madaleine publicados por Pierre Janet; o psicanalista e a fil\u00f3sofa fizeram de seu encontro, de sua amizade, de suas aut\u00eanticas preocupa\u00e7\u00f5es intelectuais e de suas diferen\u00e7as culturais, um romance de duas hist\u00f3rias reais, um paralelo entre a vida de um Santo e a de uma mulher louca.<\/p>\n<p>Coloca-se desde o princ\u00edpio, ao longo do primeiro cap\u00edtulo, a ideia da canoniza\u00e7\u00e3o de Madeleine como uma santa, se ela tivesse vivido em outra \u00e9poca, e que, caso Hamakrishna n\u00e3o vivesse em uma sociedade onde tudo se explica pelo m\u00edstico, sua loucura poderia ser alvo de outro tipo de interven\u00e7\u00f5es e ser investigada a partir de outros par\u00e2metros, o que provavelmente lhe daria outro destino.<\/p>\n<p>Os dois acometidos de del\u00edrios m\u00edsticos imaginavam ser personagens b\u00edblicos. Ela pensava ser a Virgem Maria e ele se disfar\u00e7ava de mulher, identifica-se com o deus-macaco (Hanuman) e com Krishna. Os dois falavam de si mesmo empregando os mesmos termos, seus corpos foram afetados da mesma maneira, mesmas contraturas, mesma tipo de catatonia, mesmas interrup\u00e7\u00f5es da respira\u00e7\u00e3o&#8230; At\u00e9 a mudan\u00e7a de sexo em seus del\u00edrios lhes era comum, com frequ\u00eancia ele se identifica com Radha, a amante de Krishna e ela com o Menino Jesus.<\/p>\n<p><strong>Breve hist\u00f3rico sobre Madeleine<\/strong><\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Madeleine era cat\u00f3lica praticante, Madeleine apresentava v\u00e1rios sintomas ditos psicossom\u00e1ticos e at\u00e9 os nove, dez anos, sofria de fraqueza nas pernas que a fazia cair frequentemente, mas nenhuma anomalia muscular ou correspond\u00eancia neurol\u00f3gica justificava aqueles sintomas. Ela tamb\u00e9m era acometida de v\u00e1rios outros sintomas como: tosse, v\u00f4mitos, constipa\u00e7\u00f5es e diarreias, e sempre mantinha alimenta\u00e7\u00e3o restritiva. A catalepsia tamb\u00e9m lhe atingia quando ouvia barulhos que a assustavam.<\/p>\n<p>Ela tinha muitas dificuldades nos la\u00e7os sociais, e quase n\u00e3o brincava com outras crian\u00e7as. Aos cinco anos, ela come\u00e7ou a julgar que tinha como miss\u00e3o sofrer todas as dores das outras pessoas. Aos onze anos, quando tentam faz\u00ea-la dan\u00e7ar para ajud\u00e1-la a sair da retra\u00e7\u00e3o social, ela sente muito prazer no movimento da dan\u00e7a e a partir desse epis\u00f3dio Madeleine relaciona o prazer com o mal, todos os prazeres lhe causavam medo e com isso ela se privava de guloseimas, de beber \u00e1gua, de comer p\u00e3o e nunca mais ouviu m\u00fasica.<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia de Madaleine n\u00e3o foi menos perturbadora, chegando ao ponto de ela\u00a0\u00a0 decidir sair de casa e viver na rua como uma miser\u00e1vel. Sentia-se guiada por uma \u201cfor\u00e7a superior\u201d e numa noite em que dormiu em um banco de rua, foi presa. No interrogat\u00f3rio, ao ser perguntada sobre seu nome, ela denominou-se \u201cO Bode\u201d, a amante de Cristo, isto no sentido de ser o bode expiat\u00f3rio dos pecados do mundo. Depois desse epis\u00f3dio, ela ainda foi presa por fraude, vadiagem, prostitui\u00e7\u00e3o, mendic\u00e2ncia e ruptura de ex\u00edlio. Um dos policiais a escutou profetizar um compl\u00f4 das trevas, ela escrevia a deputados para preveni-los contra traidores.<\/p>\n<p>Finalmente, depois de toda esta trajet\u00f3ria de err\u00e2ncia, de pris\u00f5es e perturba\u00e7\u00f5es, conseguem intern\u00e1-la em Salp\u00eatriere aos cuidados de Janet.<\/p>\n<p><strong>Dos sintomas de Madeleine internada em Salp\u00eatri\u00e8re<\/strong><\/p>\n<p>Madeleine sente-se atra\u00edda pela morte, visita e vasculha o cemit\u00e9rio para desenterrar dentes de cad\u00e1ver. Como um renunciante, ou uma carmelita, ela celebrava seus ritos funer\u00e1rios, e declarava-se como morta.<\/p>\n<p>Ela andava nas pontas dos dedos, e as c\u00e3ibras a faziam sofrer, imposs\u00edvel faz\u00ea-la andar normalmente. Ela sentia-se puxada para cima como Maria, e acreditava que se o Papa a visse elevada ficaria convencido de seus sacrif\u00edcios para santific\u00e1-la. Ela planejava ir at\u00e9 Roma andando nas pontas dos p\u00e9s, acreditava que os anjos a alimentariam durante o caminho. Uma vez na Cidade Santa, seria recebida pelo Papa, faria milagres, e se elevaria \u00e0s nuvens.<\/p>\n<p>Janet tenta convenc\u00ea-la de que ela n\u00e3o estava suspensa pelas axilas como pensava, ele a pesa em uma balan\u00e7a e explica a ela que se estivesse suspensa seu peso diminuiria. Logicamente o peso de Madeleine n\u00e3o alterava na medi\u00e7\u00e3o da balan\u00e7a, mas ela insistia que era o diabo que se opunha a Deus e devia estar alterando a medi\u00e7\u00e3o da balan\u00e7a. Os dois p\u00e9s de Madeleine eram lesionados e ela dizia que Deus era quem designava suas prova\u00e7\u00f5es. Para Janet os ferimentos eram provocados por Madeleine inconscientemente ou voluntariamente, assim como as grandes cruzes que ela desenhava a fogo no peito.<\/p>\n<p>Segundo Janet o del\u00edrio de Madeleine lhe causava todo o leque de seus sintomas e sofrimento. Madeleine era de uma magreza alarmante, pois quase n\u00e3o se alimentava, ingeria apenas um litro de leite por dia ou duzentos gramas de p\u00e3o, sendo que os per\u00edodos que antecediam os \u00eaxtases ela n\u00e3o ingeria nada. Ela julgava que n\u00e3o era necess\u00e1rio comer porque os \u201cbeijos\u201d que experimentava eram doces como mel, como licor doce e superava tudo. Sua respira\u00e7\u00e3o sempre muito lenta, lhe causava ainda maior sofrimento.<\/p>\n<p>Em alguns momentos mantinha-se ext\u00e1tica, em posi\u00e7\u00e3o de crucifica\u00e7\u00e3o, e mesmo que abaixassem seus bra\u00e7os, eles voltavam novamente \u00e0 posi\u00e7\u00e3o anterior em estado de catatonia. Durante o \u00eaxtase Madeleine tinha alucina\u00e7\u00f5es olfativas, sentia perfumes desconhecidos e inebriava-se. Tudo que ela fazia era por conta de ser serva do senhor, atendia aos comandos da vontade de Deus. Ela pintava quadros que eram ordenados por Deus e dizia querer cumprir apenas a vontade de seu Deus seu Senhor e de Janet que fora inclu\u00eddo em seu del\u00edrio, no lugar de Deus, ela tamb\u00e9m o obedecia como fazia ao Senhor.<\/p>\n<p>Em um determinado tempo, Madeleine passou a viver v\u00e1rios personagens b\u00edblicos, ora ela era Maria, pronta para trazer ao mundo Jesus, depois chegando ao nascimento de Jesus, ela se tornava a crian\u00e7a que havia nascido, ela simulava que dormia e que mamava. Dizia que Deus a colocou em um lugar singular e que viveria para fazer as vontades de Deus e de Janet. Neste tempo Janet \u00e9 colocado por ela no lugar de S\u00e3o Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um de seus \u00eaxtases ela disse \u00e0 Janet que morreria em breve, isso aconteceria devido ao fato de que Deus a beijou por toda a parte e lhe p\u00f4s um lacre, impedindo que ela urinasse.<\/p>\n<p>Em outro tempo, Madeleine se considerou o pr\u00f3prio Deus, atravessava espa\u00e7os imagin\u00e1rios como a rapidez do vento, cruzava precip\u00edcios num instante e se colocava no centro de tudo. O pecado se tornou imposs\u00edvel de ser cometido por ela, at\u00e9 mesmo o prazer do sexo de que tinha tanto medo passou a n\u00e3o ser mais pecado porque ela era um ser de \u201cpureza\u201d absoluta.<\/p>\n<p>Madeleine chega em um tempo em que perdeu totalmente sua f\u00e9. Quando\u00a0\u00a0 n\u00e3o acreditava mais em suas cren\u00e7as religiosas, ela tirou de Janet o lugar de ser seu mestre e senhor.\u00a0 Janet, durante um bom tempo, de certa forma, incentivara Madeleine aos estados de \u00eaxtases, pelo fasc\u00ednio que sentia pela situa\u00e7\u00e3o, pois evocava suas pr\u00f3prias experi\u00eancias religiosas vividas na inf\u00e2ncia. O del\u00edrio que habitava todo ser e o corpo de Madeleine fora nesse momento substitu\u00eddo por del\u00edrios paranoicos, ela queria a qualquer custo denunciar um compl\u00f4 sobre o assassinato do presidente da Rep\u00fablica, dizia prever um atentado a Bolsa, ou a trai\u00e7\u00e3o dos deputados. Os del\u00edrios olfativos a invadiram abruptamente e o cheiro de sangue de humano de pessoas assassinadas a atormentavam e a fazia acreditar que estava acontecendo com\u00e9rcio de carne humana em Paris. Pensava que estava sendo perseguida pelo diabo, e pesadelos terr\u00edveis a assombravam a noite.<\/p>\n<p>Madeleine declarava sentir vol\u00fapia ao sofrer, ao ser humilhada e ser apontada como uma louca: <em>Sim, sinto vol\u00fapia ao saborear a humilha\u00e7\u00e3o, eu nunca teria acreditado que fosse t\u00e3o doce sentir-se considerada como uma louca.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> <\/em><\/p>\n<p><strong>Sobre Ramakrishna<\/strong><\/p>\n<p>Ramakrishna nascido em 1836 era de uma fam\u00edlia br\u00e2mane do povoado de Kamarpukur, em Bengala. Seus pais eram muito pobres e devotos. Ramakrishna era um excelente aluno na escola e motivo de orgulho para seu pai, seu grande prazer era pintar quadros e estar com os oleiros do povoado aprendendo a fazer imagens de argila dos deuses e deusas, e a ficar em uma casa de peregrina\u00e7\u00e3o onde ascetas errantes pernoitavam por alguns dias.<\/p>\n<p>Aos oito anos ele perde o pai que j\u00e1 era um idoso. Um efeito de recolhimento, solid\u00e3o e retra\u00e7\u00e3o, produziu-se no pequeno menino que passou a interessar-se por assuntos espirituais e a se ligar fortemente \u00e0 sua humilde e sofrida m\u00e3e, Chanda, de \u201calma simples\u201d, como a ela se referia. Tamb\u00e9m foi gradativamente se desinteressando pela escola. Sua fam\u00edlia passou por condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas da miserabilidade por v\u00e1rias ocasi\u00f5es, Ramakrishna tinha v\u00e1rios irm\u00e3os al\u00e9m de Khudiram, seu irm\u00e3o mais velho que assumiu para ele o lugar de um pai.<\/p>\n<p>Um tempo depois, em sua adolesc\u00eancia, seu irm\u00e3o mais velho tamb\u00e9m morre e Ramakrishna, sem o pai e sem o irm\u00e3o como refer\u00eancia para encaminh\u00e1-lo para a vida, come\u00e7ou a dedicar-se exclusivamente \u00e0 vida religiosa e a ajudar a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Seu primeiro \u00eaxtase aconteceu quando ainda crian\u00e7a passeando pelo arrozal, Ele mesmo o descreve:<\/p>\n<p><em>\u201cEu estava passeando por um caminho estreito entre dois arrozais. Mascando\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 meu arroz, ergui os olhos para o c\u00e9u. Vi uma grande nuvem negra expandindo-se rapidamente at\u00e9 cobri-lo inteiramente. Subitamente, da borda da nuvem uma revoada de gar\u00e7as brancas como a neve passou sobre minha cabe\u00e7a.\u00a0 O contraste foi t\u00e3o bonito que meu esp\u00edrito perdeu-se em regi\u00f5es distantes. Perdi a consci\u00eancia e ca\u00ed no ch\u00e3o; o arroz expelido espalhou-se. Algu\u00e9m pegou-me e levou-me nos bra\u00e7os at\u00e9 em casa. Um acesso de alegria e de emo\u00e7\u00e3o dominou-me. Esta foi a primeira vez que fui tomado pelo \u00eaxtase.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>A fam\u00edlia e sua comunidade muitas vezes suspeitavam que Ramakrishan sofria de alguma doen\u00e7a e come\u00e7aram a suspeitar de sua sanidade, devido aos seus comportamentos considerados estranhos, mesmo que inclu\u00eddos, de certa forma, na cultura m\u00edstica onde \u00e9 comum a pr\u00e1tica de rituais, as dan\u00e7as, as indu\u00e7\u00f5es aos estados de \u00eaxtases e as vis\u00f5es. Ramakrishna chegou a referir-se a ele mesmo como <em>unmada<\/em> (loucura).<\/p>\n<p><strong>Dos Sintomas de Ramakrishna<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Ele gostava de usar roupas e joias de mulheres, e sentia-se orgulhoso quando os homens n\u00e3o percebiam que ele estava disfar\u00e7ado. Nesse per\u00edodo Ramakrishna teve a fantasia persistente onde ele imaginava que se tivesse que renascer seria uma \u201ccrian\u00e7a vi\u00fava\u201d, que s\u00f3 aceitaria como esposo o Senhor Krishna.<\/p>\n<p>Ramakrishna \u00e9 nomeado sacerdote do templo que frequentava, l\u00e1 seguia todo um ritual de adora\u00e7\u00e3o a Deusa M\u00e3e: tinha que aliment\u00e1-la, dar banho, enfeit\u00e1-la e vesti-la. Para ele isto era motivo de tanto prazer que passou a dedicar todo o seu tempo a essa adora\u00e7\u00e3o. A adora\u00e7\u00e3o era t\u00e3o grande que em um certo dia em que n\u00e3o conseguiu ter a vis\u00e3o da deusa m\u00e3e, tomou a decis\u00e3o de tirar a pr\u00f3pria vida, mas ao pegar a espada que se encontrava no templo, teve a vis\u00e3o da Deusa, e caiu inconsciente ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Ramakrishna arranjou a noiva com quem ele se casou, mas desde o come\u00e7o ele comportou-se em seu casamento como uma mulher ou, em seus estados ext\u00e1ticos, como uma crian\u00e7a. No primeiro caso, marido e mulher eram ambos namorados da M\u00e3e Divina, ao passo que no segundo, a esposa era encarada como a pr\u00f3pria Deusa.<\/p>\n<p>Ramakrishna ao final de sua vida n\u00e3o podia comer quase nada devido a um c\u00e2ncer de garganta. Sua explica\u00e7\u00e3o para esse fato foi que ao pedir para a M\u00e3e que pudesse comer ela disse que ele j\u00e1 estava comendo atrav\u00e9s da boca de seus disc\u00edpulos. A explica\u00e7\u00e3o para suas vis\u00f5es era que Deus s\u00f3 poderia ser visto com olhos de amor e ser escutado com ouvidos de amor. Seus afetos manifestavam-se prevalentemente no corpo, \u00e0s vezes tinha arrepios enquanto l\u00e1grimas de alegria escorriam sobre sua face. Em outras ocasi\u00f5es, seus olhos ficavam semicerrados e desfocados, um sorriso t\u00eanue nos l\u00e1bios enquanto seu corpo se enrijecia completamente e tinha que ser apoiado por um disc\u00edpulo.<\/p>\n<p>Ramakrishna dizia que ao chegar perto ou tocar em uma mulher ele ficava doente, suas m\u00e3os ficavam dormentes, insens\u00edveis e do\u00edam. Ele renunciou ao desejo sexual masculino e afirmou nunca ter sonhado com rela\u00e7\u00f5es com uma mulher, ele comportava-se como uma mulher. Seus estados de \u00eaxtase eram frequentes e provocados, acometidos por v\u00e1rias perturba\u00e7\u00f5es corporais, vis\u00f5es, desmaios, perturba\u00e7\u00f5es alimentares etc.<\/p>\n<p><strong>Das similitudes dos sintomas entre Madeleine e Ramakrishna e dos estados de \u00eaxtases<\/strong><\/p>\n<p>Ramakrishna e Madeleine passaram por sintomas que lhe atingiam o corpo desde a inf\u00e2ncia precoce e na adolesc\u00eancia, ambos marcados por uma grande religiosidade advinda de refer\u00eancias diferentes e por perdas e lutos significativos. Tinham grandes dificuldades nos la\u00e7os sociais e foram se distanciando, cada vez mais, da realidade objetiva do mundo cotidiano. Ambos passavam por constantes estados de \u00eaxtase e agiam da mesma maneira ap\u00f3s as passagens por esses estados, comiam exageradamente, dando prefer\u00eancia aos doces, e \u00e0s vezes comiam seus pr\u00f3prios excrementos. Os \u00eaxtases concerniam tamb\u00e9m \u00e0s estranhas, acreditavam que o que ingeriam por cima deveria ser expelido na sua totalidade, por baixo.<\/p>\n<p>Os dois foram acometidos de desmaios frequentes, Madeleine achava \u201cdeliciosos\u201d seus desmaios, e ambos n\u00e3o temiam a perda de consci\u00eancia, ao contr\u00e1rio, sentiam prazer.<\/p>\n<p>Outro ponto de similitude \u00e9 o fato de ambos exercerem uma certa sedu\u00e7\u00e3o, mesmo sem a inten\u00e7\u00e3o de seduzirem, provocavam interesse e fasc\u00ednio sobre eles, ele em seu povoado, junto aos seus fi\u00e9is, sobretudo as mulheres. Ela na Salp\u00eatriere com seu m\u00e9dico, o professor Janet.<\/p>\n<p>Ambos sentiam efus\u00f5es diante da natureza, o tempo todo; o sol, os crep\u00fasculos, as florestas, as \u00e1rvores, as flores&#8230;\u00a0 A natureza humana lhes fica sem import\u00e2ncia, a natureza, o sublime, a pureza e a rela\u00e7\u00e3o com Deus eram a causa de tudo para eles.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o <em>s\u00e3o nem mais homem nem mulher, nem p\u00e1ssaro nem peixe, eles t\u00eam uma identidade fluida, que engloba todas as manifesta\u00e7\u00f5es da natureza<\/em>.<\/p>\n<p>Ramakrishna mantinha contatos f\u00edsicos com seus disc\u00edpulos, e dizia que n\u00e3o poderia ficar distante deles porque sofreria demais. Se encostava em alguma mulher, ele tinha urtic\u00e1ria e produzia erup\u00e7\u00f5es. Ela sofria dos mesmos sintomas psicossom\u00e1ticos.<\/p>\n<p>As Vis\u00f5es de Madeleine com dem\u00f4nios eram comuns e para Ramakrishna n\u00e3o eram t\u00e3o frequentes, ele n\u00e3o suportava os tais dem\u00f4nios e dizia que teriam que ir embora sob a forma de diarreia e lhes er\u00e3o absolutamente horripilantes. J\u00e1 Madeleine tinha que suport\u00e1-los j\u00e1 que n\u00e3o encontrou um meio de mand\u00e1-los embora.<\/p>\n<p>Ela conversava com os animais, falava com as moscas e com os animais, assim como Francisco de Assis fazia. Ramakrishna falava com as est\u00e1tuas dos deuses, as quais tinham apar\u00eancia de animais.<\/p>\n<p>A dan\u00e7a tamb\u00e9m lhes era comum apesar de Madeleine mencionar apenas uma \u201cdan\u00e7a espiritual\u201d e Ramakrishna dan\u00e7ar de verdade. Para a cultura de Madeleine os Santos n\u00e3o dan\u00e7am. Mas entre o povo de Ramakrishna os santos dan\u00e7am muito.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio os levava por mundos diferentes, Madeleine queria viajar em peregrina\u00e7\u00e3o a Roma, mas trancafiada, tida como louca, n\u00e3o lhe foi poss\u00edvel. Ele que gozava de liberdade foi em peregrina\u00e7\u00e3o aos lugares santos onde nasceu Krishna, a cidade de Mathura, e na cidade onde ele foi criado. Ele foi mesmo \u00e0s fontes da sua cultura, assim como Madeleine gostaria de ter feito e n\u00e3o pode.<\/p>\n<p>Ambos t\u00eam vis\u00f5es e s\u00e3o igualmente afetados por elas. O que ir\u00e1 diferenciar os dois, \u00e9 que Ramakrishna tem uma grande base cultural que lhe d\u00e1 algumas respostas para suportar esses momentos, j\u00e1 ela tem apenas o apoio de seu psiquiatra Janet, j\u00e1 que era vista como louca por todos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria contada por Catherine Cl\u00e9ment e Sadhir Kakar nos apresenta a g\u00eanese e o florescimento de del\u00edrios em dois sujeitos separados por culturas distantes uma da outra, e demonstra como a inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica n\u00e3o \u00e9 feita do nada, mas sim a partir de experi\u00eancias \u00fanicas de um fazer com o corpo e\u00a0 de sua disjun\u00e7\u00e3o do ser; atrav\u00e9s de restos, de materiais existentes, operando uma bricolagem na tentativa de se ligar ao corpo com os recursos que se tem como nos explicita Miller no texto <em>A inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica<\/em>. A plasticidade dos sintomas psic\u00f3ticos \u00e9 espantosamente descrita em minucias, assim como os rituais da cultura indiana.<\/p>\n<p>\u201c<em>Na Fran\u00e7a de 1886, Madeleine n\u00e3o tinha nenhuma chance de desenvolver livremente seu misticismo. Enjaulada, cercada de cuidados m\u00faltiplos, quase todos f\u00edsicos, e t\u00e3o bem que esse misticismo radical \u00e9 afinal &#8216;curado&#8217;, quer dizer, aniquilado pela institui\u00e7\u00e3o hospitalar.\u00a0 Mas na \u00cdndia, na mesma \u00e9poca, Ramakrishna encontra com incr\u00edvel rapidez o caminho do reconhecimento devido a um misticismo resplandecente. Que querem dizer estas palavras, o santo, a louca, j\u00e1 que esse homem e essa mulher s\u00e3o absolutamente parecidos?\u201d <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Madeleine e Ramakrishna viveram no s\u00e9culo XIX praticamente na mesma \u00e9poca, mas inseridos em culturas diferentes, uma se torna uma louca e o outro um Santo.<\/p>\n<p>Em Paris, Madeleine ap\u00f3s ser presa v\u00e1rias vezes e tendo sua ficha na pol\u00edcia por v\u00e1rios outros delitos, pelo motivo destes delitos se enquadrarem\u00a0 no fato de estarem perturbando a ordem p\u00fablica e de que um dos policiais ter escutado seu del\u00edrio, ela acaba sendo internada no Hospital Psiqui\u00e1trico Salp\u00eatri\u00e8re. O m\u00e9dico Pierre Janet, que havia estudado com Charcot e cuidou dela por longos 22 anos, mencionou o fato de ela ser uma m\u00edstica como foram outras mulheres na Idade M\u00e9dia como Santa Teresa D&#8217;\u00c1vila, consideradas santas pela igreja, at\u00e9 sugeriu\u00a0 que ela\u00a0 havia nascido no lugar e na \u00e9poca errados, mas, Janet quis cur\u00e1-la e readapt\u00e1-la ao mundo como uma pessoa normal, assim foi o final da vida de Madeleine \u201cnormal\u201d, mas infeliz sem seus acessos de \u00eaxtases. J\u00e1 na \u00cdndia temos Ramakrishna que mesmo tendo os mesmos &#8220;sintomas&#8221;, del\u00edrios e \u00eaxtases que Madeleine, por viver num pa\u00eds com uma cultura muito diferente, e o Outro Social\u00a0 autenticar seu del\u00edrio, ele vira um santo, um guru.<\/p>\n<p><strong>Algumas Considera\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas <\/strong><\/p>\n<p>No que nos interessa essa fina literatura al\u00e9m do romance que os autores imprimem \u00e0s experi\u00eancias delirantes m\u00edsticas baseadas em personagens reais e com descri\u00e7\u00f5es minuciosas dos arquivos registrados de in\u00fameras sess\u00f5es de uma paciente internada por muitos anos em um renomado hospital psiqui\u00e1trico de Paris e dos registros sobre um Guru indiano do s\u00e9culo XVIII. Bom h\u00e1 muito para se comentar, este livro abre portas para muitas reflex\u00f5es acerca da loucura de todos n\u00f3s e da loucura de cada um, atrav\u00e9s de coment\u00e1rios e elabora\u00e7\u00f5es precisas dos autores, dos impasses entre sa\u00fade mental e psican\u00e1lise, da loucura dos tratamentos psiqui\u00e1tricos&#8230; Eles escrevem sobre a g\u00eanese dos del\u00edrios m\u00edsticos, relacionada \u00e0 quest\u00e3o do ser e do corpo como disjuntos, do falasser, da inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica e da tens\u00e3o do discurso do mestre ou dos discursos do mestre, e o discurso anal\u00edtico. Tocam na quest\u00e3o do universal, do particular e do singular na trama das err\u00e2ncias subjetivas.<\/p>\n<p>O livro comentado nos relan\u00e7a ao trabalho sobre os avan\u00e7os do ensino de Lacan at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do conceito de Sinthome. Conceito que demonstra a exist\u00eancia de uma foraclus\u00e3o que \u00e9 real para todos &#8211; a foraclus\u00e3o generalizada, estrutural para o ser humano, de onde se origina a ideia da inven\u00e7\u00e3o para um saber fazer com o singular. O dito de Lacan &#8220;Todo mundo delira&#8221; seria dizer Somos todos loucos, psic\u00f3ticos? N\u00e3o, n\u00e3o parece tratar-se disso&#8230;<\/p>\n<p>Lacan tamb\u00e9m nos faz entender que <em>n\u00e3o \u00e9 louco quem quer<\/em> e sabemos que a psicose, a neurose e a pervers\u00e3o como variedade do tipo cl\u00ednico existem e nos \u00e9, muitas vezes, orientadora em nossa cl\u00ednica. O sujeito psic\u00f3tico \u00e9 aquele a quem falta um significante primordial que fica foraclu\u00eddo, o significante privilegiado do Nome-do-pai, e portanto, a metaforiza\u00e7\u00e3o do desejo da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ada. Essas estruturas no primeiro ensino de Lacan est\u00e3o demarcadas em rela\u00e7\u00e3o ao \u00c9dipo, Nome-do-pai em Lacan, que conjuga a passagem pelo \u00c9dipo e pela Castra\u00e7\u00e3o que resulta no nome que vem dar sentido ao x enigm\u00e1tico do desejo da m\u00e3e por uma substitui\u00e7\u00e3o significante \u2013 a met\u00e1fora paterna que traz certa normaliza\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es para o sujeito no campo da linguagem. Isto seria uma figura\u00e7\u00e3o universal de uma \u00e9poca em que vigorava uma estrutura simb\u00f3lica na qual a tradi\u00e7\u00e3o funcionava como estrutura que regia a entrada do Sujeito na Cultura, pelo menos nas culturas ocidentais, e permitia ou permite a regula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Ao avan\u00e7armos no ensino de Lacan a partir do estudo da psicose, com o conceito de Sinthoma, em seu semin\u00e1rio 23 entendemos que esta fun\u00e7\u00e3o, a do nome do pai, n\u00e3o necessariamente o do pai do \u00c9dipo, da\u00ed a pluraliza\u00e7\u00e3o dos Nomes-do-Pai. Atrav\u00e9s da teoria dos \u201cn\u00f3s\u201d, Lacan demonstra que a cada um \u00e9 poss\u00edvel amarrar os tr\u00eas registros fundantes da subjetividade humana: o simb\u00f3lico, o imagin\u00e1rio e real originalmente desatrelados. \u00c9 assim que foi se demarcando a quest\u00e3o do real e da foraclus\u00e3o generalizada, porque h\u00e1 um, h\u00e1 um gozo que n\u00e3o \u00e9 simboliz\u00e1vel e que determina que a foraclus\u00e3o generalizada \u00e9 estrutural do ser humano. H\u00e1 um gozo inassimil\u00e1vel, que n\u00e3o se pode nomear e nem se constituir em um saber, em um S2, e fazer parte de um discurso ou da fala do Sujeito, da\u00ed a necessidade da inven\u00e7\u00e3o e de uma constru\u00e7\u00e3o em torno de um resto que \u00e9 causa para o ser humano, mas que \u00e9 \u00fanico para cada um.<\/p>\n<p>Sendo assim, a pergunta \u00e9: Qual o destino que o falasser pode dar a isso sem os outros, mas no la\u00e7o com o outro.\u00a0 A no\u00e7\u00e3o de lal\u00edngua, nos faz apreender que na cl\u00ednica \u00e9 necess\u00e1rio sabermos o uso que cada um faz do Um de sua l\u00edngua.<\/p>\n<p>Trata-se de uma generaliza\u00e7\u00e3o da foraclus\u00e3o como estrutura. Nesse sentido, Lacan prop\u00f5e o conceito de lal\u00edngua, ou al\u00edngua enquanto um simb\u00f3lico n\u00e3o referido ao Outro, mas ao Um, o que implica na palavra como ve\u00edculo de gozo e n\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o, porquanto n\u00e3o est\u00e1 endere\u00e7ada ao Outro. Essa refer\u00eancia ao Um traz impl\u00edcita uma mudan\u00e7a na opera\u00e7\u00e3o de estrutura\u00e7\u00e3o do ser falante, pois prop\u00f5e o gozo e al\u00edngua como anteriores ao Outro e \u00e0 linguagem, um vazio central onde Lacan marca uma exig\u00eancia de gozo.\u00a0 Este furo no lugar do Outro como foraclus\u00e3o generalizada deve ser diferenciada da foraclus\u00e3o psic\u00f3tica.<\/p>\n<p><em>\u00a0A circuncis\u00e3o \u00e9 um rito. Se ela n\u00e3o existisse e algu\u00e9m chegasse dizendo: \u201cCortei meu prep\u00facio\u201d, isso seria uma inven\u00e7\u00e3o, e talvez bem psic\u00f3tica.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>O que Lacan e a experi\u00eancia nos convida a dizer \u00e9 que o corpo do ser falante \u00e9 assombrado por um problema fora do corpo. \u00c9 preciso que esse termo seja bem entendido. Isso n\u00e3o quer dizer que ele se p\u00f5e a passear no espa\u00e7o infinito. O \u00f3rg\u00e3o fora do corpo qualifica alguma coisa que escapa, mas permanece ligado. Certamente por isso \u00e9 poss\u00edvel como fora do corpo, e n\u00e3o fora de outra coisa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual ele estaria longe.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a>\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>O \u00f3rg\u00e3o &#8211; linguagem do sujeito faz um falasser, ou seja lhe atribui um ser, mas ao mesmo tempo lhe confere tamb\u00e9m um ter, seu ter essencial que \u00e9 um corpo. <\/em><\/p>\n<p><em>O dito esquizofr\u00eanico, Lacan o considera como caracterizado pelo fato de que, para ele, o problema do uso dos \u00f3rg\u00e3os \u00e9 especialmente agudo e que ele deve ter recursos sem o socorro dos discursos estabelecidos, ou seja ele \u00e9 obrigada a inventar seus socorros, seus recursos para poder usar seu corpo e seus \u00f3rg\u00e3os.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m no livro que estamos comentando uma constante interpela\u00e7\u00e3o sobre a loucura, sobre a psiquiatria e a quest\u00e3o da \u201csa\u00fade mental\u201d, se \u00e9 que ela, a sa\u00fade mental, existe&#8230; Colocando em pauta as t\u00eanues fronteiras que separam a loucura da dita \u201cnormalidade\u201d preconizada pelas psicologias e tamb\u00e9m pela psiquiatria. Encontramos, a t\u00edtulo de exemplo, j\u00e1 no cap\u00edtulo primeiro do livro, no subt\u00edtulo <em>O azar de Madeleine o Bode<\/em>, o seguinte trecho:<\/p>\n<p><em>O esp\u00edrito hesita longamente antes de admitir o r\u00f3tulo da psiquiatria: vejamos, este homem sente-se perseguido, e se o fosse realmente? Nada implica verdadeiramente a ades\u00e3o, exceto o compromisso tem\u00edvel que o esp\u00edrito \u00e9 obrigado a fazer com o real: louco este homem o \u00e9 indubitavelmente desde o instante em que perturba a ordem p\u00fablica, seus vizinhos, sua fam\u00edlia e sociedade. A este crit\u00e9rio, e somente a ele, reconhece-se a loucura. Foi exatamente assim que Madaleine encontrou a dela: dormindo sobre um banco p\u00fablico. E foi por ter se atrapalhado no comissariado de pol\u00edcia que ela terminou num hospital, depois de um desvio na pris\u00e3o, onde poderia ter permanecido por mais tempo ainda, quem sabe. O del\u00edrio de Madaleine tal como apresentado por Janet com honestidade irretoc\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 contest\u00e1vel nem por um instante; Que comporte sua carga de verdade social n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pouco. Segundo nossos crit\u00e9rios, Madaleine pertencia \u00e0 categoria dos doentes mentais, \u00e9 certo<\/em>.<\/p>\n<p><em>Mas n\u00e3o saber\u00edamos esquivar a quest\u00e3o da santidade Camponesa italiana no Messogiorno, Madaleine teria sido objeto de peregrina\u00e7\u00f5es, mesmo ainda hoje neste final de s\u00e9culo XX, burguesa de prov\u00edncia errante em Paris, ela n\u00e3o escapa \u00e0 Salp\u00eatri\u00e8re.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>Lacan abordou a m\u00edstica de uma nova maneira retomando a quest\u00e3o no Semin\u00e1rio 20, <em>Mais, ainda<\/em>, se referiu \u00e0 ela como \u201c<em>algo de s\u00e9rio, sobre o qual nos informam algumas pessoas, e mais frequentemente mulheres, ou bem gente dotada como S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/em>\u201d, e toma tamb\u00e9m o gozo de Santa Tereza D&#8217;\u00e1vila como partida para falar do Outro Gozo que n\u00e3o \u00e9 aquele das bordas pulsionais do corpo, ligado ao falo. Para Lacan, esses sujeitos \u201cexperimentam a ideia de que deve haver um gozo que esteja mais al\u00e9m\u201d; ele conclui: \u201c\u00c9 isto que chamamos os m\u00edsticos\u201d.<\/p>\n<p>Este romance documental tamb\u00e9m nos remete diretamente ao texto de Miller \u201cA Psican\u00e1lise e a Ordem p\u00fablica\u201d, na revista Curinga n\u00b0 13, que com fina ironia escancara a cis\u00e3o entre a abordagem da loucura na Sa\u00fade Mental na psiquiatria e na psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ora se o que especifica o ser humano \u00e9 a linguagem, \u00e9 habitar a linguagem; e a linguagem \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o, \u00f3rg\u00e3o porque t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o, uma fun\u00e7\u00e3o que \u00e9 determinante. Isto \u00e9: ela determina o \u201cser\u201d, mesmo antes que ela o encontre, assim como nos ensina Lacan, e, ainda mais, \u00e9 s\u00f3 ela que pode ligar, de alguma maneira, o \u201cser\u201d ao seu corpo. Sendo que esse \u00f3rg\u00e3o, a linguagem, n\u00e3o o \u00e9 sem os demais \u00f3rg\u00e3os. Como poderia, ent\u00e3o, esta tese de Lacan se encontrar com a defini\u00e7\u00e3o de \u201cSa\u00fade\u201d para a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) definida como o sil\u00eancio dos \u00f3rg\u00e3os, sendo que ao contr\u00e1rio disso para a psican\u00e1lise \u00e9 no encontro com a linguagem que algo n\u00e3o cessar\u00e1 de n\u00e3o se inscrever causando barulho no \u00f3rg\u00e3o da linguagem, e nos corpos.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> CL\u00c9MENT, Catherine: KAKAR, Sudhir; tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar; <em>Madeleine sob tortura;<\/em> In:\u00a0 A Louca e o Santo;\u00a0 p. 70 &#8211; Rio de Janeiro,\u00a0 Editora: Relume- Dumar\u00e1, 1997.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> CL\u00c9MENT, Catherine: KAKAR,Sudhir; tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar<em>; Ramakrishna\u00a0 e a experi\u00eancia m\u00edstica; In:\u00a0 A Louca e o Santo;\u00a0 p.113. Rio de Janeiro,\u00a0 Editora: Relume Dumar\u00e1, 1997.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> CL\u00c9MENT, Catherine: KAKAR, Sudhir; tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar<em>; Bode e Cisne<\/em>, In:\u00a0 A Louca e o Santo, p.15 &#8211; Rio de Janeiro, Editora: Relume Dumar\u00e1, 1997.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J. A Inven\u00e7\u00e3o Psic\u00f3tica, In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n\u00ba 36, p.8 ; Maio 2003, Edi\u00e7\u00e3o Eolia.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, J. A Inven\u00e7\u00e3o Psic\u00f3tica, In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n\u00ba 36, p.11; maio 2003, Edi\u00e7\u00e3o Eolia.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> CL\u00c9MENT, Catherine: KAKAR,Sudhir; tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar; O azar de Madaleine, In: O bode A Louca e o Santo;\u00a0 p.95. Rio de Janeiro,\u00a0 Editora: Relume Dumar\u00e1, 1997.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teresa Pavone (EBP\/AMP) Inicialmente agrade\u00e7o ao Leonardo pelo convite para estar na \u00faltima preparat\u00f3ria para nossa IV Jornada da EBP- Se\u00e7\u00e3o Sul, que est\u00e1 pr\u00f3xima de acontecer nos dias 13 e 14 de outubro. 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