{"id":4656,"date":"2023-10-11T09:02:39","date_gmt":"2023-10-11T12:02:39","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4656"},"modified":"2023-10-11T09:04:12","modified_gmt":"2023-10-11T12:04:12","slug":"principios-diante-da-causa-sobre-a-entrevista-de-lacan-com-a-mademoiselle-b","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/principios-diante-da-causa-sobre-a-entrevista-de-lacan-com-a-mademoiselle-b\/","title":{"rendered":"Princ\u00edpios diante da causa:  sobre a entrevista de Lacan com a Mademoiselle B."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-4668 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/004-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/004-225x300.jpg 225w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/004-768x1024.jpg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/004.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<h6>Diego Cervelin<br \/>\nLicene Garcia<br \/>\nPsicanalistas. Participantes das atividades da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul<\/h6>\n<p>H\u00e1 momentos em que as indica\u00e7\u00f5es de acolher e aguardar podem surgir como encaminhamentos cruciais em uma experi\u00eancia anal\u00edtica. Longe de isso implicar uma posi\u00e7\u00e3o meramente passiva, trata-se, antes, de colocar em ato um saber que n\u00e3o se desfaz do furo em torno do qual uma exist\u00eancia se constitui. Algo disso acontece no caso de Mademoiselle B., uma jovem internada em uma institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica e entrevistada por Lacan em 1976<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Entre perguntas diretas e respostas entrecortadas ou quase evasivas, podemos acompanhar Lacan procurando recolher, ponto por ponto, aquilo que haveria de mais singular no relato da Mademoiselle B. Seus questionamentos procuram circunscrever o n\u00facleo do mal-estar, os personagens mais marcantes, os afetos, os significantes que se destacam e como eles se destacam na trama.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Mademoiselle B. permite perceber que h\u00e1 vezes em que as respostas valem menos por aquilo que elas poderiam corresponder e mais pela manifesta\u00e7\u00e3o da err\u00e2ncia da letra \u2013 letra mobilizada e recolocada em ato na fala. Assim, \u00e9 poss\u00edvel perceber que, em sua vida, circula uma demanda por um lugar para si \u2013 um lugar grande, diz ela; um lugar que teima em n\u00e3o se concretizar, apresentando-se inclusive no seu oposto de abje\u00e7\u00e3o. Essa condi\u00e7\u00e3o parece come\u00e7ar na medida em que ela assume a posi\u00e7\u00e3o da substituta transit\u00f3ria da m\u00e3e (quando ela se ausenta para os partos dos irm\u00e3os) e implica uma sucess\u00e3o de empregos de curta dura\u00e7\u00e3o, os quais tamb\u00e9m envolvem o cuidado dos filhos de outras m\u00e3es. Nem mesmo o encontro amoroso e o nascimento de um filho (do qual se encontra separada) conseguem formular alguma borda em sua viv\u00eancia.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, internando-se \u00e0s vezes voluntariamente nas institui\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas, Mademoiselle B. diz flutuar e querer viver suspensa como um vestido. Na discuss\u00e3o do caso, essa fala adquire um car\u00e1ter orientador. Lacan n\u00e3o deixa de destacar que Mademoiselle B. padece da \u201cdoen\u00e7a de ter uma mentalidade\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Contudo, o mais determinante parece estar precisamente no modo como essa doen\u00e7a se apresenta: \u201csem se cristalizar em uma doen\u00e7a bem caracterizada\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Ou melhor, \u201ca doen\u00e7a mental&#8230; sim, \u00e9 bem dif\u00edcil pensar os limites [dela] [&#8230;] Ela n\u00e3o tem a menor ideia do corpo que ela tem para colocar dentro deste vestido. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para habitar a vestimenta. Ela \u00e9 este pano. Ela ilustra o que eu chamo de semblante. Ela \u00e9 isto. H\u00e1 uma vestimenta e ningu\u00e9m para se colocar ali dentro. Ela n\u00e3o tem rela\u00e7\u00f5es existentes, a ideia de rela\u00e7\u00f5es entre um certo n\u00famero de pessoas, apenas com vestimentas, \u00e9 tudo o que existe para ela\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Essa exist\u00eancia \u2013 ainda \u2013 sem corpo redundaria, segundo Laurence Bataille (presente na discuss\u00e3o), numa procura incessante pela doen\u00e7a mental mais definida. Diante disso, Lacan sugere que essa doen\u00e7a n\u00e3o lhe seja dada e oferece outra orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica: Mademoiselle B. quer ser valorizada; ent\u00e3o, se poss\u00edvel, que a valorizem.<\/p>\n<p>Mademoiselle B. recoloca os princ\u00edpios diante da causa que nos orienta em nossa pr\u00e1tica: \u00e9 preciso que n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que todo <em>falasser<\/em> inventa algo para fazer frente ao que sempre insiste em retornar, o real. \u201cDevemos sempre nos perguntar o que \u00e9 um n\u00f3 e por que foi desatado [&#8230;] Nossa cl\u00ednica \u00e9 feita daquilo que n\u00e3o est\u00e1 circunscrito pelo simb\u00f3lico, pois o simb\u00f3lico n\u00e3o capta tudo o que \u00e9 real, e \u00e9 disso que cuidamos\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. O caso de Mademoiselle B. In: <em>Boletim<\/em>, ano IV, n. 9, Porto Alegre: APPOA, nov. 1993, pp. 03-31.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem, p. 30.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. <em>Op. cit.<\/em>, p. 30.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <em>Ibidem<\/em>. Justamente diante desse arranjo presente no caso Mademoiselle B., no qual n\u00e3o h\u00e1 corpo para ser vestido, Elisa Alvarenga \u2013 em 19 de setembro deste ano, no coment\u00e1rio ao <em>Semin\u00e1rio de Estudos lacanianos sobre a psicose<\/em>, mantido por S\u00e9rgio de Campos, em Belo Horizonte \u2013 destacou que o registro real se encontra separado dos dois outros registros, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Extra\u00eddo do Semin\u00e1rio: \u201cNossa loucura di\u00e1ria\u201d realizado em 23 de outubro de 2010 no \u00e2mbito do Centro de Estudos e Pesquisas em Psican\u00e1lise Lacaniana do Chile\u00a0<strong>.\u00a0<\/strong><em>O Semin\u00e1rio foi publicado no livro La locura nuestra de cada d\u00eda<\/em>, de Graciela Brodsky, Pomaire, Caracas, 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.revistavirtualia.com\/articulos\/944\/locura-psicosis-delirio\/la-locura-nuestra-de-cada-dia<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Cervelin Licene Garcia Psicanalistas. Participantes das atividades da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul H\u00e1 momentos em que as indica\u00e7\u00f5es de acolher e aguardar podem surgir como encaminhamentos cruciais em uma experi\u00eancia anal\u00edtica. 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