{"id":4625,"date":"2023-09-04T06:37:27","date_gmt":"2023-09-04T09:37:27","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4048"},"modified":"2023-09-04T06:37:27","modified_gmt":"2023-09-04T09:37:27","slug":"duas-locomotivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/duas-locomotivas\/","title":{"rendered":"Duas locomotivas"},"content":{"rendered":"<h6>Ra\u00fal Antelo<\/h6>\n<figure id=\"attachment_4051\" aria-describedby=\"caption-attachment-4051\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4051\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/fora_de_linha_004_antelo_001-300x243.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"243\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4051\" class=\"wp-caption-text\">\u00c9douard Manet, Le Chemin de fer, 1873, \u00d3leo sobre tela, 93,3 \u00d7 111,5 cm<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Em di\u00e1logo com Bianca Tomaselli<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPara haver paradigma \u00e9 preciso haver a singularidade de\u00a0<em>um<\/em>\u00a0caso apreendido como incompar\u00e1vel. Em seguida, engancham-se vag\u00f5es a essa locomotiva que parte sozinha, tal como o gato de Kipling\u201d<a name=\"_ftnref1\"><\/a><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de <em>paradigma<\/em>, no <em>Lexicon<\/em> <em>T<\/em><em>echnologiae Latinorum Rhetoricae<\/em> (1778), de Johann Christian Gottlieb\u00a0Ernesti, \u00e9 de \u201cinductio oratoria, quae fit exemplis, etiam <em>\u03ad\u03c0\u03b1\u03b3\u03c9\u03b3\u03ae<\/em> dicta et contraria\u201d. A indu\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo pelo qual se conhece o universal a partir de casos particulares. Mas o paradigma, como sin\u00f4nimo de <em>exemplum<\/em>, remete, no entanto, \u00e0 singularidade. N\u00e3o se apoia no movimento dial\u00e9tico, mas no anal\u00f3gico. E isto nos permite, ainda que minimamente, um pequeno foco na locomotiva.<\/p>\n<p>Em<em> O amor louco <\/em>(1937), Andr\u00e9 Breton lamenta n\u00e3o poder reproduzir uma fotografia de uma locomotiva abandonada na floresta. Mas, pela refer\u00eancia, ela ilustraria, pouco depois, um texto de Benjamin P\u00e9ret, \u201cLa Nature D\u00e9vore le Progr\u00e8s et le D\u00e9passe\u201d, a natureza devora o progresso e o ultrapassa, numa revista dirigida por Breton. Vou me deter, portanto, em duas locomotivas<em>, A estrada de ferro <\/em>(1873) de Eduard Manet e essa fotografia an\u00f4nima da revista<em> Minotaure. <\/em>Quais as rela\u00e7\u00f5es entre a locomotiva e o tempo? Entre a acelera\u00e7\u00e3o e a sensibilidade?<\/p>\n<p>Vejamos a primeira. Manet toma a estrada de ferro como t\u00edtulo de sua tela de 1873, mas, radicalizando o gesto de Turner, em <em>Chuva, Vapor e Velocidade. A Grande Ferrovia Ocidental<\/em>, o que nela vemos, a rigor, \u00e9 uma mulher ruiva, sentada do lado de fora da grade da esta\u00e7\u00e3o de Saint-Lazare, o local mais movimentado de Paris, \u00e0 \u00e9poca. Ela se recorta no meio de nuvens de vapor, exaladas pela locomotiva, quase oculta, e nela logo reconhecemos Victorine Meurent, a modelo ruiva de que tamb\u00e9m se servira para a <em>Olympia<\/em>, a tela que deslancha a arte moderna em 1863. Vestido azul marinho, pele muito clara, olhar perdido \u00e0 nossa frente. \u00c0 direita, uma crian\u00e7a de costas, olha a esta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das grades. Os olhares dessas duas enigm\u00e1ticas figuras s\u00e3o antit\u00e9ticos. Como o <em>Anjo da Hist\u00f3ria<\/em> de Klee. Verso e reverso, passado e futuro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4050\" aria-describedby=\"caption-attachment-4050\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4050\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/fora_de_linha_004_antelo_002-300x203.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"203\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4050\" class=\"wp-caption-text\">\u00c9douard Manet, Olympia, 1863, \u00d3leo sobre tela, 130.5 cm \u00d7 190 cm<\/figcaption><\/figure>\n<p>Gostaria, ainda, de destacar que a mo\u00e7a que nos contempla tem uma fita preta no pesco\u00e7o, tal como a Olympia. Michel Leiris dedicou a esse ap\u00eandice um belo livro em que nos mostra que <em>Olympia <\/em>\u00e9 uma garota simples de seu tempo, como provam o buqu\u00ea trazido pela criada negra e os enfeites usados \u2013 a fina fita preta no pesco\u00e7o, o la\u00e7o cor de rosa no cabelo, os brincos, a pulseira e os chinelos \u2013, que a subtraem da dimens\u00e3o do \u201cnu integral\u201d, tornando-a ainda mais excitante, porque deslocada ou misturada. A oculta\u00e7\u00e3o do sexo parece encontrar um substituto em tr\u00eas elementos do quadro: o aspecto atraente do buqu\u00ea de flores, a cor preta do felino e o ornamento do cabelo, que evoca o sexo invis\u00edvel. <em>Olympia <\/em>\u00e9 um bibel\u00f4 gracioso, uma garota-boneca sempre dispon\u00edvel<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Uma m\u00e1quina. Locomotiva. E mais um detalhe nada desprez\u00edvel: a mo\u00e7a da esta\u00e7\u00e3o de trem e mesmo Olympia, com suas fitas no pesco\u00e7o, parecem duas figuras ac\u00e9falas. S\u00e3o Medusas. Bataille complementara essa leitura ao afirmar que esse quadro \u00e9 o primeiro quadro moderno porque inova ao abolir o assunto.<\/p>\n<p>Detenho-me agora na segunda imagem. \u00c9 uma fotografia, an\u00f4nima, de uma locomotiva coberta pela floresta. Ela ilustra uma mat\u00e9ria do poeta surrealista Benjamin P\u00e9ret. Transcrevo-a.<\/p>\n<p>\u201cO sol do meio-dia esfola vivos os espectros que n\u00e3o conseguiram se esconder a tempo. Seus ossos virados em violinos dilacerar\u00e3o os ouvidos dos aventureiros desgarrados nas florestas imitando uma corte de impe\u00adrador da decad\u00eancia romana.<\/p>\n<p>L\u00ednguas de fogo, clar\u00f5es de seios, cintila\u00e7\u00f5es de azul celeste atravessam a penumbra frutada de vampiros. Mal se pisa no ch\u00e3o. O ch\u00e3o parece um c\u00e9rebro que\u00adrendo se dar ares de esponja.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio pesa nos ouvidos como uma pepita de ouro na m\u00e3o, mas o ouro \u00e9 mais mole que uma laranja. Por\u00e9m, o homem est\u00e1 por ali. Abriu um corredor em meio ao verde e, ao longo de todo esse corredor, desen\u00adrolou um fio telegr\u00e1fico. Mas logo a floresta se cansou de dedilhar a corda que nunca produzia mais que uma voz de homem, e as plantas, mil plantas mais zelosas, mais ardentes umas que as outras, se apressaram a sufo\u00adcar essa voz debaixo de seu beijo; depois o sil\u00eancio vol\u00adtou a cair sobre a floresta como um paraquedas salvador.<\/p>\n<p>Ali, mais que em qualquer outra parte, a morte n\u00e3o passa de uma maneira de ser tempor\u00e1ria da vida, es\u00adcondendo um lado de seu prisma para que a luz se concentre, mais brilhante, nas outras faces.<\/p>\n<p>Os cr\u00e2nios de ruminantes abrigam, nas grandes \u00e1r\u00advores amea\u00e7adas por mil cip\u00f3s, ninhadas de p\u00e1ssaros que refletem o sol em suas asas, as folhas em sua gar\u00adganta. E manchas de c\u00e9u azul palpitam sobre carni\u00e7as que se metamorfoseiam em amontoados de borboletas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-4049\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/fora_de_linha_004_antelo_003-300x219.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"219\" \/>A vida luta com todas suas for\u00e7as, com todas suas horas marcadas, no quadrante da \u00e1gua, por nuvens de mosquitos. A vida ama e mata, acaricia apaixonada\u00admente com m\u00e3o assassina aquilo que adora. Sementes, germinando como martelos-pil\u00f5es, pregam implacavel\u00admente ao ch\u00e3o as formigas que as engoliram e a quem decerto devem sua terr\u00edvel pot\u00eancia de germina\u00e7\u00e3o. O sangue chama as flores que solu\u00e7am, e as flores matam melhor que uma pistola. Matam a pistola.<\/p>\n<p>Ali onde a g\u00eanese ainda n\u00e3o disse sua \u00faltima pala\u00advra, ali onde a terra s\u00f3 se separa da \u00e1gua para engen\u00addrar fogo no ar, sobre a terra ou na \u00e1gua, mas, sobre\u00adtudo, ali onde terra e \u00e1gua, aterradas pelo fogo celeste, fazem amor noite e dia, na Am\u00e9rica equatorial o fuzil desaninha o p\u00e1ssaro, mas n\u00e3o o mata, e a cobra esma\u00adga o fuzil como um coelho.<\/p>\n<p>A floresta recuou diante do machado e da dinamite, mas entre duas passagens de trem se lan\u00e7ou sobre a via f\u00e9rrea dirigindo ao maquinista gestos provocativos e olhadelas sedutoras. Uma vez, duas, ele resistir\u00e1 \u00e0 ten\u00adta\u00e7\u00e3o que o perseguir\u00e1 ao longo de todo percurso, de uma travessa verdejante a um sinal dissimulado por um enxame de abelhas, mas um dia ouvir\u00e1 o chamado da feiticeira que ter\u00e1 o olhar de uma mulher amada. A m\u00e1quina se deter\u00e1 para um enlace que queria pas\u00adsageiro, mas que se prolongar\u00e1 ao infinito, ao sabor do desejo perpetuamente renovado da sedutora. Embora muda, a sereia sabe como ningu\u00e9m arrastar irremedia\u00advelmente sua v\u00edtima para abismos sem retorno.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed come\u00e7a a lenta absor\u00e7\u00e3o: biela por biela, pino a pino, a locomotiva entra no leito da floresta e, de vol\u00fapia em vol\u00fapia, submerge, freme, geme como uma leoa no cio. Fumega orqu\u00eddeas, sua caldeira abri\u00adga os jogos de crocodilos sa\u00eddos dos ovos na v\u00e9spera, enquanto no apito moram legi\u00f5es de colibris que lhe d\u00e3o uma vida quim\u00e9rica e provis\u00f3ria pois muito em breve a flama da floresta, ap\u00f3s ter demoradamente lambido sua presa, a engolir\u00e1 como uma ostra.<\/p>\n<p>Ao longe, lentos arranha-c\u00e9us de \u00e1rvores se edifica\u00adr\u00e3o para significar um desafio imposs\u00edvel de superar<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Ora, essa ideia, antropof\u00e1gica, de que \u201cLa Nature D\u00e9vore le Progr\u00e8s et le D\u00e9passe\u00a0\u00bb, nos apresenta o fracasso de uma locomotiva entendida como motor de uma concep\u00e7\u00e3o de tempo linear e ascendente. Alguns fil\u00f3sofos do per\u00edodo j\u00e1 questionavam essa unidirecionalidade hist\u00f3rica, mostrando os movimentos desencontrados, quando n\u00e3o paradoxais, do moderno. Assim, Walter Benjamin, por exemplo, publica, no <em>Frankfurter Zeitung<\/em>, na Alemanha, em 1931, \u201cO car\u00e1ter destrutivo\u201d, onde lemos axiomas como estes:<\/p>\n<p>O car\u00e1cter destrutivo s\u00f3 conhece um lema: criar espa\u00e7o; apenas uma atividade: despejar. A sua necessidade de ar fresco e espa\u00e7o livre \u00e9 mais forte que todo \u00f3dio. (&#8230;)<\/p>\n<p>O car\u00e1ter destrutivo n\u00e3o idealiza imagens. Tem pouca necessidade delas, e esta seria a mais insignificante: saber o que vai substituir a coisa destru\u00edda. Para come\u00e7ar, no m\u00ednimo por um instante: o espa\u00e7o vazio, o lugar onde se achava o objeto, onde vivia a v\u00edtima. Com certeza haver\u00e1 algu\u00e9m que precise dele sem ocup\u00e1-lo. (&#8230;)<\/p>\n<p>O car\u00e1ter destrutivo n\u00e3o v\u00ea nada de duradouro. Mas eis precisamente porque v\u00ea caminhos por toda parte. Onde outros esbarram em muros e montanhas, tamb\u00e9m a\u00ed ele v\u00ea um caminho. J\u00e1 que o v\u00ea por toda parte, tem de destru\u00ed-lo tamb\u00e9m por toda parte. Nem sempre com brutalidade, \u00e0s vezes com refinamento. J\u00e1 que v\u00ea caminhos por toda parte, est\u00e1 sempre na encruzilhada. Nenhum momento \u00e9 capaz de saber o que o pr\u00f3ximo traz. O que existe ele converte em ru\u00ednas. N\u00e3o por causa das ru\u00ednas, mas por causa do caminho que passa atrav\u00e9s delas<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Mais ainda. Benjamin afirma (Tese XV de seu escrito derradeiro, \u201cTeses sobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d) que a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 a da a\u00e7\u00e3o heroica, mas a da ina\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do freio de emerg\u00eancia que interrompe a locomotiva no seu curso catastr\u00f3fico: a consci\u00eancia de fazer explodir o <em>continuum<\/em> da hist\u00f3ria \u00e9 pr\u00f3pria das classes revolucion\u00e1rias, no momento da a\u00e7\u00e3o. Ora, o desejo tem como suporte o fantasma. Esse objeto subjetivo coordena o desejo e, por assim dizer, fixa o sujeito a ele. E, por estar sempre desde j\u00e1 perdido, ele n\u00e3o \u00e9 bem objeto do desejo, mas sempre objeto <em>causa<\/em> do desejo. Da\u00ed ser o real imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas, permitam-me, para concluir, voltar ao texto de P\u00e9ret. Abre-se com uma refer\u00eancia expl\u00edcita ao \u201cdem\u00f4nio do meio dia\u201d, a hora da sombra pontual, uma ideia de Roger Caillois, algu\u00e9m muito pr\u00f3ximo de Lacan: \u201cle soleil de midi \u00e9corche vif les spectres qui n\u00b4ont pas su se cacher \u00e0 temps\u201d, ou seja, o sol do meio-dia dilacera vivos os espectros que n\u00e3o conseguiram se esconder a tempo. Ora, essa fraternidade dilacerante entre opostos, luz e sombra, como as duas figuras informes de\u00a0<em>L\u00b4impossible<\/em>, a escultura de Maria Martins, perturba, portanto, a contempla\u00e7\u00e3o equidistante e aut\u00f4noma, desuniversaliza, em suma, o que foi pensado para todos e se apresenta, no entanto, como aquilo que \u00e9 pr\u00f3prio de cada um: o singular.<\/p>\n<p>Dois anos depois de Manet, Walt Whitman dedica um poema \u00e0 locomotiva, \u00ab\u00a0To a locomotive in winter\u00a0\u00bb (1876), e a chama \u201cType of the modern\u2014emblem of motion and power\u2014pulse of the continent\u201d. For\u00e7a, dinamismo, algo que rasga o tempo. \u00c9 assim que se pensou tamb\u00e9m a obra de arte moderna. Lembremos o manifesto da poesia pau brasil (mar. 1924), de Oswald de Andrade: \u201cUma sugest\u00e3o de Blaise Cendrars: \u2013 Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos far\u00e1 partir na dire\u00e7\u00e3o oposta ao vosso destino\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro atributo dessa a\u00e7\u00e3o seria a <em>inova\u00e7\u00e3o<\/em>. O segundo, definido por seus leitores e receptores, \u00e9 a <em>unicidade<\/em> dessa obra, seu car\u00e1ter incompar\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 outra como ela. Esse car\u00e1ter \u00fanico \u00e9 o que podemos chamar de <em>singularidade<\/em>, um atributo que se correlaciona com outros, tais como alteridade ou heterogeneidade. Portanto, a singularidade nunca \u00e9 pura; ela \u00e9 constitutivamente impura, fruto de cont\u00e1gio, interc\u00e2mbio, acidentes, reinterpreta\u00e7\u00f5es, desvios, re-contextualiza\u00e7\u00f5es. Baste pensar no desejo de Breton e no texto de P\u00e9ret, hoje reinterpretados por uma fotografia digital de Isabel Skinner.<\/p>\n<p>A singularidade n\u00e3o \u00e9 objeto de imita\u00e7\u00e3o, pois desconhece a semelhan\u00e7a. N\u00e3o se lhe aplica a mimese, regra de ouro para medir a arte, dos gregos at\u00e9 o s\u00e9culo XX. Ela \u00e9, ao contr\u00e1rio, completamente imit\u00e1vel, pelo simples fato de ser paradigm\u00e1tica, isto \u00e9, exemplar. A singularidade n\u00e3o se confunde com autonomia, particularidade, identidade, conting\u00eancia ou especificidade. E, finalmente, diria que a singularidade n\u00e3o \u00e9 um atributo, ou seja, uma ess\u00eancia, uma forma, mas um <em>ato<\/em>, algo que se performa, donde a quest\u00e3o do ato, de escolha de linguagem, \u00e9 insepar\u00e1vel da sua recep\u00e7\u00e3o e de sua avalia\u00e7\u00e3o. A locomotiva est\u00e1 situada. <em>Logos<\/em> motiva.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER, Jacques-Alain &#8211; <em>Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan<\/em>: entre desejo e gozo. Trad. de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro, Zahar, 2011, p. 92-93.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LEIRIS, Michel &#8211; <em>Le ruban au cou d\u2019Olympia<\/em>. Paris, Gallimard, 2006, p. 150.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> P\u00c8RET, Benjamin &#8211; \u201cA natureza devora o progresso e o ultrapassa\u201d. <em>Minotaure<\/em>, Paris, n\u00b0 10, troisi\u00e8me s\u00e9rie, qua\u00adtri\u00e8me ann\u00e9e, inverno 1937, p. 20-21. Tradu\u00e7\u00e3o de Fernando Scheibe.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> BENJAMIN, Walter \u2013 \u201cO car\u00e1ter destrutivo\u201d in <em>Rua de m\u00e3o \u00fanica.<\/em> Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho e J. Carlos Martins Barbosa. S\u00e3o Paulo, Brasiliense, 1987, p.236-7.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ra\u00fal Antelo Em di\u00e1logo com Bianca Tomaselli \u201cPara haver paradigma \u00e9 preciso haver a singularidade de\u00a0um\u00a0caso apreendido como incompar\u00e1vel. Em seguida, engancham-se vag\u00f5es a essa locomotiva que parte sozinha, tal como o gato de Kipling\u201d[1]. A defini\u00e7\u00e3o de paradigma, no Lexicon Technologiae Latinorum Rhetoricae (1778), de Johann Christian Gottlieb\u00a0Ernesti, \u00e9 de \u201cinductio oratoria, quae fit&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-de-linha","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4625\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4625"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}