{"id":4623,"date":"2023-09-04T06:31:21","date_gmt":"2023-09-04T09:31:21","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4041"},"modified":"2023-09-04T06:31:21","modified_gmt":"2023-09-04T09:31:21","slug":"paradoxos-da-fragmentacao-identidades-totalizacao-e-despatologizacao-impasses-de-um-tempo-na-experiencia-clinica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/paradoxos-da-fragmentacao-identidades-totalizacao-e-despatologizacao-impasses-de-um-tempo-na-experiencia-clinica\/","title":{"rendered":"Paradoxos da fragmenta\u00e7\u00e3o: identidades, totaliza\u00e7\u00e3o e despatologiza\u00e7\u00e3o. Impasses de um tempo na experi\u00eancia cl\u00ednica."},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-4042\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/fora_de_linha_004_002-298x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"298\" height=\"300\" \/>Tain\u00e3 Pinheiro<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p>O contempor\u00e2neo parece estar marcado pela experi\u00eancia da fragmenta\u00e7\u00e3o. Uma das express\u00f5es mais eloquentes desse processo \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de grupos cada vez mais particulares, demarcando identidades espec\u00edficas que se organizam, no interior da sociedade, como comunidades cujos membros podem desenvolver, entre si, la\u00e7os fraternais. N\u00e3o foi e n\u00e3o \u00e9 sem enfrentamentos, tens\u00f5es e resist\u00eancias, que esses grupos se formaram para reivindicar direitos nem sempre reconhecidos, \u00e0s vezes sequer identificados por aqueles que n\u00e3o t\u00eam esse lugar-de-fala.<\/p>\n<p>A for\u00e7a dos grupos identit\u00e1rios passa, como alerta Jacques-Alain Miller em <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em>, por uma disputa pela despatologiza\u00e7\u00e3o, ou seja, aquilo que outrora fora visto como enfermidade e, portanto, como designante do lugar em uma hierarquia social baseada, entre outros, no bin\u00f4mio sa\u00fade-doen\u00e7a. Sendo assim, j\u00e1 n\u00e3o haveria defici\u00eancia auditiva, sen\u00e3o surdez como caracter\u00edstica e n\u00e3o como menoridade, tampouco, no exemplo trazido por Miller, esquizofrenia, mas grupos que ouvem vozes. Reconhecimento social \u00e9 o que se busca.<\/p>\n<p>Todo esse processo passa por forte disputa nos termos do reconhecimento jur\u00eddico e da amplia\u00e7\u00e3o da democracia, com a consequente expans\u00e3o de direitos. A lutas por mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o nos termos da retifica\u00e7\u00e3o de nomes e por a\u00e7\u00f5es afirmativas na Universidade e fora dela, s\u00e3o exemplos desse processo. Disputa-se, ademais, o vocabul\u00e1rio, o que pretende levar, tendencialmente, \u00e0 supress\u00e3o de palavras preconceituosas e discriminat\u00f3rias incrustradas na fala cotidiana; e a legisla\u00e7\u00e3o, de forma que se torne crime o n\u00e3o-reconhecimento das distintas identidades, especialmente quando se traduzem em palavras e a\u00e7\u00f5es violentas, mesmo que silenciosas.<\/p>\n<p>Nesse quadro, a cl\u00ednica se coloca frente a um impasse. A despatologiza\u00e7\u00e3o significa a suspens\u00e3o do p\u00e1thos, ou seja, com ela pode tamb\u00e9m enfraquecer-se a possibilidade de afetar e deixar-se afetar no trabalho cl\u00ednico, tornando-se ainda mais dif\u00edcil o acesso \u00e0s fendas do inconsciente. Se a cl\u00ednica se ocupa da singularidade do sujeito, ent\u00e3o \u00e9 porque o processo se d\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o entre analista e analisando, de maneira que o risco de petrifica\u00e7\u00e3o da identidade leva consigo o risco de sua impenetrabilidade.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica, ent\u00e3o, argumenta Miller, n\u00e3o tem mais lugar, mas tem. Talvez tanto lugar quanto a universalidade n\u00e3o tenha, mas tenha, desde que as identidades n\u00e3o sejam enrijecedoras ao ponto impedir possibilidades de troca, transfer\u00eancia e enla\u00e7amento com um outro que n\u00e3o seja somente o id\u00eantico a si mesmo; uma vez que, em alguma medida, se possa consentir com a alteridade, e desde que cada um possa deixar-se afetar por essa discreta fraternidade da qual falava Lacan, entre analista e analisando, ou como destacou Maria Teresa Wendahausen no texto <em>Salvar a Cl\u00ednica<\/em>:<\/p>\n<p>Aqui, talvez, possamos tomar o t\u00edtulo desta jornada, \u201cLouco-motiva: a cada um seu acento\u201d, desde esta posi\u00e7\u00e3o do analista, ou seja, desde esta posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o saber e da docilidade que ela implica, para que cada um dos que nos procuram possa encontrar o acento no trem dos \u201ctempos que correm\u201d<strong>. <\/strong><\/p>\n<p>A nega\u00e7\u00e3o de que a dimens\u00e3o patol\u00f3gica \u00e9 constitutiva de qualquer sujeito falante, e portanto faltante, parece carregar em si a pretens\u00e3o de um algo todo, de uma assepsia insustent\u00e1vel e qui\u00e7\u00e1 autorit\u00e1ria. Desastrosa quando levada a cabo. Sem p\u00e1thos, ap\u00e1tico. Sem p\u00e1thos n\u00e3o h\u00e1 afeta\u00e7\u00e3o, e sem ela, tampouco parece ser poss\u00edvel a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, Doutora em Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tain\u00e3 Pinheiro[1] O contempor\u00e2neo parece estar marcado pela experi\u00eancia da fragmenta\u00e7\u00e3o. Uma das express\u00f5es mais eloquentes desse processo \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de grupos cada vez mais particulares, demarcando identidades espec\u00edficas que se organizam, no interior da sociedade, como comunidades cujos membros podem desenvolver, entre si, la\u00e7os fraternais. 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