{"id":4621,"date":"2023-09-04T06:29:15","date_gmt":"2023-09-04T09:29:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4038"},"modified":"2023-09-04T06:29:15","modified_gmt":"2023-09-04T09:29:15","slug":"trilhos-de-uma-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/trilhos-de-uma-analise\/","title":{"rendered":"Trilhos de uma an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-4039\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/fora_de_linha_004_003-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/>Andrea Tochetto<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p>Algumas passagens na psican\u00e1lise s\u00e3o especiais para mim. Parto de um trecho do semin\u00e1rio 3 em que Lacan faz met\u00e1fora com a estrada. Diz que a estrada \u00e9 \u201cum significante que merece ser considerado como tal&#8221;<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, e para isso faz-se necess\u00e1rio pensar nessa met\u00e1fora n\u00e3o apenas como um meio para ir de um lugar ao outro, mas ainda seus entroncamentos, a possibilidade de ida e retorno, uma via de comunica\u00e7\u00e3o. A estrada principal, nos diz Lacan, \u201c\u00e9 um s\u00edtio em torno do qual n\u00e3o s\u00f3 aglomeram todas as esp\u00e9cies de habitantes, de est\u00e2ncias, mas tamb\u00e9m que polariza, enquanto significante, as significa\u00e7\u00f5es&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Acho particularmente simples e extraordin\u00e1rio metaforizar a estrada com o percurso do discurso de uma an\u00e1lise, a polariza\u00e7\u00e3o de significantes falados nos entroncamentos de um discurso, suas idas, voltas e retornos ou equ\u00edvocos de caminhada. Neste percurso n\u00e3o h\u00e1 vias r\u00e1pidas, uma vez que em cada esquina pode haver um novo encontro, que pode vir ou n\u00e3o a ser outro rumo, e como tal, n\u00e3o sabido, mas dito.<\/p>\n<p>Depois um &#8220;slogan&#8221; tamb\u00e9m de Lacan: \u201cque se diga fica esquecido por tr\u00e1s do que se diz em o que se ouve&#8221;<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Est\u00e1 no texto <em>O aturdito<\/em>, de 1972. E, assim como Lacan bem chamou o texto, \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o, porque \u201ca besteira tem l\u00e1 seus caminhos, que s\u00e3o impenetr\u00e1veis\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> e \u201cconcluamos que h\u00e1 mal-entendido\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Ali, articula o dizer, o semblante, a verdade e o real fazendo uso de toda sua topologia, interrogando a rela\u00e7\u00e3o do dizer com o dito.<\/p>\n<p>Para ser raso no entendimento desse aforismo lacaniano diria que um discurso n\u00e3o pode ser compreendido rapidamente, h\u00e1 um rastro que se extravia, uma hi\u00e2ncia entre a boca de que sai e ouvido da entrada. Ainda que boca e ouvido sejam \u00f3rg\u00e3os do mesmo corpo ou de corpos diferentes, e isso faz de cada ser falante um delirante de fala e audi\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0\u201cO aturdito\u201d traz mais para ser lido. H\u00e1 a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. O n\u00e3o todo, argumentado em seus impasses l\u00f3gicos pela topologia. \u201c\u00c9 tamb\u00e9m tra\u00e7ar o caminho pelo qual se encontra, em cada discurso, o real com que ele se enrosca, e despachar os mitos de que ele ordinariamente se supre<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u201d<\/p>\n<p>Leio nestes textos o discurso e os trilhos de uma an\u00e1lise. Sempre particular, n\u00e3o \u00fanica (o que colocaria o ser falante fora do conjunto), afinal de alguma forma fazemos s\u00e9rie. Uma aposta de linguagem, de encontro com algum saber, de costura, de encruzilhada, de trilho, de estrada!<\/p>\n<p>Quando no eixo 3 da apresenta\u00e7\u00e3o desta 4\u00b0 Jornada, Maria Teresa Wendhausen abre a quest\u00e3o da sobreviv\u00eancia da cl\u00ednica apresentada por Lacan, marcada por Miller, diante da patologiza\u00e7\u00e3o, aposto tamb\u00e9m no viver da Psican\u00e1lise e na sua pr\u00e1tica. \u00c9 ali, no discurso psicanal\u00edtico, lugar do dizer, enquanto dito da possibilidade da exist\u00eancia do real, que faz trope\u00e7ar, que reencontra um velho conhecido que repete, que retorna nas conting\u00eancias da vida, que esse sujeito, esse falasser, reescreve de forma singular a mesma tr\u00e1gica novela particular.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, lugar do discurso psicanal\u00edtico, ironicamente, \u00e9 lugar tamb\u00e9m do universal, mas n\u00e3o s\u00f3, uma vez que nas conting\u00eancias dos entroncamentos do discurso, na negocia\u00e7\u00e3o com seus objetos e seu gozo, discursa sobre sua hist\u00f3ria, contorna vazios, e desenha letras. Eis o encontro com o singular de cada sujeito falasser.<\/p>\n<p>Em minhas compara\u00e7\u00f5es, diria que assim como a estrada, com suas curvas e entroncamentos, retas ou atalhos, tamb\u00e9m as novelas particulares, em uma an\u00e1lise, o falasser vai acompanhado do analista, pois esse testemunha, decifrando hier\u00f3glifos, mas n\u00e3o todos. Nessa parceria, a presen\u00e7a do analista \u00e9 a testemunha daquilo que se diz e daquilo que cala, daquilo que trope\u00e7a, daquilo que n\u00e3o se pensou, mas saiu, daquilo que parece estranho, mas tamb\u00e9m familiar. E como Leguil diz: \u201co analista est\u00e1 presente na sess\u00e3o, no sentido de que ele est\u00e1 de fato ali\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> e \u00e9 dessa presen\u00e7a que o \u201csujeito pode prescindir ao perceber a fun\u00e7\u00e3o que teve para ele, para ela, esse encontro extraordin\u00e1rio com a experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Ainda, seguindo o Eixo apresentado por Maria Teresa, recorro \u00e0 fala de que no atual do tempo, cabe a posi\u00e7\u00e3o do analista estar condizente com o que se apresenta hoje na civiliza\u00e7\u00e3o, enquanto analista sinthoma, da cl\u00ednica borromeana, e mantenho o farol aceso em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o em torno do lugar do diagn\u00f3stico estrutural na cl\u00ednica borromeana, e responderia que \u201ca topologia n\u00e3o foi feita para nos guiar na estrutura. Ela \u00e9 a estrutura \u2013 como retroa\u00e7\u00e3o da ordem de cadeia em que consiste a linguagem&#8221;<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. Ou, por minhas met\u00e1foras, que os trilhos desse trem podem levar a muitos lugares, e que entendo que o diagn\u00f3stico estrutural seja \u00e0quela esta\u00e7\u00e3o de trem, pela qual passamos, que nos orienta o trajeto, mas a l\u00f3gica topol\u00f3gica borromeana \u00e9 o trilho triplo que sustenta o deslizar dos vag\u00f5es, estes sendo o dito da linguagem que n\u00e3o mais permitem esquecer seu dizer. Um percurso f\u00e9rreo, de quantas voltas forem necess\u00e1rias passar cortando o dentro e fora at\u00e9 que algo desembarque.<\/p>\n<p>O discurso psicanal\u00edtico, assim, n\u00e3o \u00e9 lugar para se frequentar em busca de entendimento, \u00e9 espa\u00e7o l\u00f3gico de uma experi\u00eancia a ser dita, afinal onde n\u00e3o se procura, acha.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, formada em Psicologia (PUC-PR), especialista em Sa\u00fade Mental e Psican\u00e1lise (PUC-PR). Participante da Se\u00e7\u00e3o Sul da EBP. Integrante das Comiss\u00f5es &#8220;N\u00e3o procuro, eu acho&#8221; e &#8220;Rol\u00ea alternativo&#8221; da 3<sup>a<\/sup> Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul da EBP.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 3<\/em>: as psicoses (1955-1956). 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 335.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Ibid, p. 336.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> LACAN, Jacques. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 448.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Ibid., p. 461.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Ibid., p. 462.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Ibid., p. 480.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> LEGUIL, Clotilde. <em>Presen\u00e7a do analista e experi\u00eancias do inconsciente<\/em>. p. 112.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Ibid., p. 127.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> LACAN, Jacques, <em>op. cit.<\/em>, p. 485.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andrea Tochetto[1] Algumas passagens na psican\u00e1lise s\u00e3o especiais para mim. Parto de um trecho do semin\u00e1rio 3 em que Lacan faz met\u00e1fora com a estrada. 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