{"id":4525,"date":"2023-09-25T15:11:53","date_gmt":"2023-09-25T18:11:53","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4525"},"modified":"2023-09-25T15:11:53","modified_gmt":"2023-09-25T18:11:53","slug":"escola-um-refugio-inquietante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/escola-um-refugio-inquietante\/","title":{"rendered":"Escola: um ref\u00fagio inquietante!"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4498\" aria-describedby=\"caption-attachment-4498\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4498\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/modos_de_usar_004_002-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/modos_de_usar_004_002-300x300.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/modos_de_usar_004_002-150x150.jpg 150w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/modos_de_usar_004_002.jpg 367w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4498\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Yayoi Kusama<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Celia Winter<\/h6>\n<p>Um ditado popular diz que \u201cem time que est\u00e1 ganhando n\u00e3o se mexe\u201d. Pensar a Se\u00e7\u00e3o Sul como um time me agrada, pelo que evoca: pessoas com conhecimentos e habilidades diferentes, que buscam um fim comum. Concebendo como fim comum justamente uma Se\u00e7\u00e3o Sul, a proposta n\u00e3o poderia ser outra, que n\u00e3o a de dar continuidade ao trabalho decidido e orientado da Diretoria anterior e seguir colocando o corpo, estreitando os la\u00e7os transferenciais, sustentados na concep\u00e7\u00e3o lacaniana do coletivo n\u00e3o-todo e da transfer\u00eancia de trabalho. Como proposto por Lacan, \u201cna solid\u00e3o de um sujeito que tem rela\u00e7\u00e3o com uma causa para defender e promover. Avan\u00e7ar e se apresentar n\u00e3o como um sujeito que se prop\u00f5e ele mesmo como Ideal, mas como um sujeito que tem rela\u00e7\u00e3o com um Ideal, como os outros que convida a se reunir em sua Escola\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.\u00a0 Orienta\u00e7\u00e3o que guiar\u00e1 nosso trabalho sustentado nos princ\u00edpios do Campo Freudiano em concord\u00e2ncia com a orienta\u00e7\u00e3o da EBP e da AMP.\u00a0 Lacan almejava que a Escola de Psican\u00e1lise, na dimens\u00e3o mais espec\u00edfica de uma Se\u00e7\u00e3o, fosse um lugar de \u201cref\u00fagio contra o mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Essa concep\u00e7\u00e3o de Lacan, mais do que nunca, se revela indispens\u00e1vel e convoca a todos \u00e0 responsabilidade de estar \u00e0 altura desse ref\u00fagio, na vertente de \u201cbase de opera\u00e7\u00e3o\u201d contra tal mal-estar. O desejo de Lacan, por uma Escola de Psican\u00e1lise, foi al\u00e9m de Freud, al\u00e9m do \u00c9dipo, al\u00e9m da estrutura do \u201ctodo\u201d, de um Pai que \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o.\u00a0Na Escola Lacaniana \u201cn\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00e3o, mas sim um conjunto, ou melhor, uma s\u00e9rie de exce\u00e7\u00f5es, de solid\u00f5es incompar\u00e1veis \u200b\u200bentre si\u201d e, como tal, a Escola \u00e9 \u201cn\u00e3o toda, no sentido de que \u00e9 logicamente inconsistente, e se apresenta sob a forma de uma s\u00e9rie na qual falta uma lei da forma\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Nessa visada, entre outras, a atualidade do tema: forma\u00e7\u00e3o do analista. Estar na universidade me proporciona circular entre jovens que nada querem saber da psican\u00e1lise, pois a consideram \u201cultrapassada\u201d e os que se dizem fascinados por essa teoria, que lhes toca de uma forma inusitada. Entre esses, a pergunta mais comum \u00e9: como tornar-se psicanalista? Qual curso fazer?<\/p>\n<p>Se a pergunta sobre qual curso fazer \u00e9, entre os psicanalistas, totalmente descabida, n\u00e3o \u00e9 o que acontece entre aqueles que se deixam tocar pela primeira vez, ao ouvirem sobre a psican\u00e1lise e afirmarem que n\u00e3o entenderam quase nada, mas algo de um desejo de saber se colocou. Uma boa parte dos que se aproximam da psican\u00e1lise vem atrav\u00e9s da universidade. O primeiro passo transferencial \u00e9 a passagem dessa transfer\u00eancia para a Escola. Escola, que para Lacan, passa a ser a garantia para que a psican\u00e1lise \u201c[&#8230;] volte a ser o que nunca deixou de ser &#8211; um ato ainda por vir<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Nesses \u201ctempos que correm\u201d, o voto de Miller em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise e ao lugar que ocupa no Mundo, est\u00e1 mais do que nunca atual: \u201ca ideia de ter peso, de penetrar e deixar uma marca, \u00e9 o que quero para o pensamento de Lacan<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. No contexto de uma predomin\u00e2ncia de pr\u00e1ticas avaliativas e de vigil\u00e2ncia que incidem nos diversos dom\u00ednios da vida contempor\u00e2nea, pensar a Escola, como ref\u00fagio, e a Psican\u00e1lise, como pulm\u00e3o artificial, como prop\u00f5e Lacan, nos convida como analistas a uma \u201ctomada de posi\u00e7\u00e3o\u201d, orientados pela responsabilidade da rela\u00e7\u00e3o singular com a psican\u00e1lise.\u00a0 Do discurso do mestre antigo, ao discurso do mestre moderno, universit\u00e1rio e capitalista, o saber obtido pelo c\u00e1lculo da utilidade e do valor passa a orientar as decis\u00f5es pol\u00edticas e individuais. Da batalha travada por Miller, em 1991, quando denuncia que n\u00e3o foi mais poss\u00edvel impedir a chegada da pol\u00edtica de avalia\u00e7\u00e3o e da demoli\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do ensino da Psican\u00e1lise no Departamento de Paris VIII<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>,\u00a0 at\u00e9 os tempos atuais, \u00e9 poss\u00edvel constatar o enunciado de Nietzsche \u2013 \u201co deserto cresce\u201d. O discurso da ci\u00eancia e o cognitivismo visando a homogeneiza\u00e7\u00e3o e o ideal de transpar\u00eancia, afian\u00e7ado pelo saber extra\u00eddo e decodificado pelos instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o. A psican\u00e1lise recolhe os efeitos desse la\u00e7o social contempor\u00e2neo, mas de forma distinta do discurso dominante, oferece outro destino ao \u00edntimo, ao que do gozo n\u00e3o pode ser contabilizado e homogeneizado. Cr\u00edticas como as de Natalia Pasternak s\u00e3o um exemplo dessa desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Minha aposta, juntamente com as colegas que comp\u00f5em comigo a Diretoria, e as equipes, pelas quais nosso trabalho ganha mais capilaridade e sustenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 de que o discurso anal\u00edtico tem uma fun\u00e7\u00e3o \u00edmpar para a abordagem e o enfrentamento ao mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o e, de forma diferente do discurso do mestre moderno, d\u00e1 lugar ao que do sintoma \u00e9 opaco, ao que do gozo n\u00e3o se pode contabilizar ou significantizar. Da\u00ed a import\u00e2ncia da nova pol\u00edtica para a juventude, no seio da EBP e do debate constante sobre a Forma\u00e7\u00e3o do Analista, mantendo aberto aos jovens que se aproximam esse espa\u00e7o de acolhida. Na contram\u00e3o do discurso utilit\u00e1rio e de seu ideal de transpar\u00eancia, a psican\u00e1lise se orienta pelo saber que n\u00e3o est\u00e1 explicitado e que n\u00e3o \u00e9 calcul\u00e1vel, mas que \u00e9 inconsciente e surge sob transfer\u00eancia. O saber do inconsciente n\u00e3o \u00e9 transparente, e a rela\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 imposs\u00edvel de ser contratualizada, a indica\u00e7\u00e3o de Miller, \u201cNos Tempos que Correm\u201d e na \u201cTerra desertificada\u201d, \u00e9 \u201cn\u00e3o se deixar hipnotizar\u201d pois o que se espera de n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 o diagn\u00f3stico, mas a a\u00e7\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o lacaniana no polo oposto ao discurso da quantifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>Lacan, J. Ato de funda\u00e7\u00e3o (1964). In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana on-line. No. 21<\/h6>\n<h6>Miller, J.A. Introdu\u00e7\u00e3o de Scilicet. In: <em>Outros escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>Miller, Jacques-Alain. El Otro de la vigilancia. In: <em>Todo el mundo es loco<\/em>. 1\u00aa Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana on-line. No. 21, 2016<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan, J. Ato de funda\u00e7\u00e3o (1964). In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 244.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., \u201cTeoria de Turim: sobre o sujeito da Escola\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, No. 21, 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Miller, J.A Introdu\u00e7\u00e3o de Scilicet. In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 293.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Miller, Jacques-Alain. El Otro de la vigilancia. In: <em>Todo el mundo es loco<\/em>. 1\u00aa Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2020, p. 87<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Idem, p. 95<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celia Winter Um ditado popular diz que \u201cem time que est\u00e1 ganhando n\u00e3o se mexe\u201d. Pensar a Se\u00e7\u00e3o Sul como um time me agrada, pelo que evoca: pessoas com conhecimentos e habilidades diferentes, que buscam um fim comum. 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