{"id":4519,"date":"2023-09-25T15:08:59","date_gmt":"2023-09-25T18:08:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=4519"},"modified":"2023-09-25T15:08:59","modified_gmt":"2023-09-25T18:08:59","slug":"autismo-e-posicao-do-sujeito-diante-da-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/autismo-e-posicao-do-sujeito-diante-da-linguagem\/","title":{"rendered":"Autismo e posi\u00e7\u00e3o do sujeito diante da linguagem"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4501\" aria-describedby=\"caption-attachment-4501\" style=\"width: 212px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4501\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/modos_de_usar_004_005-212x300.jpg\" alt=\"\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/modos_de_usar_004_005-212x300.jpg 212w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/modos_de_usar_004_005.jpg 269w\" sizes=\"auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4501\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Yayoi Kusama<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Diego Cervelin[1]<\/h6>\n<p>Neste ano, as <em>Noites de Biblioteca<\/em> da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise recome\u00e7aram na data de 29 de mar\u00e7o. Na primeira delas, Patricio \u00c1lvarez Bay\u00f3n, AME, membro da EOL e da AMP, retomou alguns aspectos centrais do livro <em>El autismo, entre lalengua y la letra<\/em>, publicado pela Grama Ediciones, em 2020.<\/p>\n<p>Com sua transmiss\u00e3o generosa em torno do autismo, conjugando bom-humor e aten\u00e7\u00e3o aos detalhes, Bay\u00f3n tamb\u00e9m abriu espa\u00e7o para destacar aquilo que est\u00e1 em jogo na an\u00e1lise do sujeito assolado pelo gozo, algo que depende das conting\u00eancias do encontro com um dizer. Ou melhor, um dizer que ressoa, desdobrando-se como significa\u00e7\u00e3o recalcada, forclu\u00edda ou denegada (tal qual ocorre, respectivamente, na neurose, na psicose e na pervers\u00e3o), ou ent\u00e3o enquanto murm\u00fario incessante de lal\u00edngua (mais ou menos como acontece no autismo, quando h\u00e1 um congelamento diante da linguagem, fazendo com que se permane\u00e7a em posi\u00e7\u00e3o de estrangeiridade).<\/p>\n<p>Em sua apresenta\u00e7\u00e3o, Bay\u00f3n percorreu os tr\u00eas momentos em que Lacan manifestou alguma refer\u00eancia mais direta aos sujeitos autistas. Ou seja, no <em>Semin\u00e1rio 1<\/em>, em 1953, quando, no coment\u00e1rio ao caso de Roberto, Lacan dava destaque ao \u201cestado nodal da palavra\u201d[2]; na \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d, de 1968, quando ele retomava as diferen\u00e7as entre <em>taceo <\/em>(calar) e <em>silet<\/em> (silenciar), falando do \u201cmutismo [que] solta uma fala mais primordial do que qualquer <em>mom-mom<\/em>\u201d[3]; e em \u201cA terceira\u201d, de 1974, quando ele se perguntava sobre \u201ccomo pode lal\u00edngua precipitar-se na letra\u201d[4].<\/p>\n<p>Essas tr\u00eas ocasi\u00f5es, de acordo com o convidado, demonstrariam um interesse especialmente atento \u00e0s posi\u00e7\u00f5es que os sujeitos poderiam assumir diante da linguagem, dando lugar ao singular da experi\u00eancia em vez de simplesmente determin\u00e1-lo pela estrutura na qual cada um poderia ou n\u00e3o se inscrever. Para falar com outras palavras, n\u00e3o seria essa uma boa maneira de testemunhar \u2013 em um s\u00f3 tempo \u2013 a \u00e9tica da psican\u00e1lise e a procura por um discurso que n\u00e3o fosse do semblante?<\/p>\n<p>Assim, partindo das primeiras formula\u00e7\u00f5es daquilo que viria como S<sub>1<\/sub>, lal\u00edngua e escrita selvagem do sintoma, Bay\u00f3n destaca alguns pontos de orienta\u00e7\u00e3o para ler apesar daquele acidente que, manifestando-se como forclus\u00e3o do furo[5], n\u00e3o permite ao sujeito autista fazer da linguagem uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre lal\u00edngua. Trata-se, portanto, de uma abordagem que, por um lado, n\u00e3o se pauta pelos crit\u00e9rios fenom\u00eanicos utilizados na psiquiatria e que, por outro, tampouco se limita aos par\u00e2metros da tr\u00edade estrutural caracter\u00edstica do primeiro ensino. Diferentemente disso, aposta-se antes em um estudo detalhado, por exemplo, dos conceitos de lal\u00edngua, letra, furo e borda a fim de perceber como os encaminhamentos da cl\u00ednica podem conferir dignidade \u00e0s supl\u00eancias elaboradas por cada sujeito autista diante da itera\u00e7\u00e3o da letra[6].<\/p>\n<p>Por fim, vale lembrar que essa conversa permanece dispon\u00edvel no canal da EBP \u2013Se\u00e7\u00e3o Sul no <em>YouTube<\/em>: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=E8mO6Mi3Or8&amp;t=3661s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=E8mO6Mi3Or8&amp;t=3661s<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>[1] Analista praticante. Integrante da Equipe da Diretoria de Biblioteca da EBP \u2013 Se\u00e7\u00e3o Sul.<\/h6>\n<h6>[2] Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 1 \u2013 os escritos t\u00e9cnicos de Freud [1953-1954].<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 1986, p. 125.<\/h6>\n<h6>[3] Lacan, J. Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses na crian\u00e7a [1968]. In: ___. <em>Outros escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 365.<\/h6>\n<h6>[4] Lacan, J. A terceira [1974]. In: <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana \u2013 Revista brasileira internacional de psican\u00e1lise<\/em>, n. 62, dez. 2011, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, p. 25.<\/h6>\n<h6>[5] Nesse ponto, baseando-se nos estudos de Eric Laurent a respeito do autismo, as observa\u00e7\u00f5es propostas por Bay\u00f3n se mostram especialmente pungentes. Ele retoma algumas passagens da discuss\u00e3o entre Derrida e Lacan em torno da no\u00e7\u00e3o de letra, para destacar que, na psican\u00e1lise, ela n\u00e3o pode ser compreendida exatamente enquanto impress\u00e3o. Em vez disso, a letra implica uma primeira marca de gozo que se manifesta de maneira muito peculiar, ou melhor, como um S<sub>1<\/sub> que se extrai do murm\u00fario de lal\u00edngua, do enxame significante, troumatizando \u2013 por assim dizer \u2013 um sujeito. Trata-se, nesse sentido, de um certo apagamento que se constitui como as bordas de um furo. No <em>apr\u00e8s-coup<\/em>, ele permite que se te\u00e7am as combina\u00e7\u00f5es significantes \u2013 isto \u00e9, as elucubra\u00e7\u00f5es de saber sobre lal\u00edngua.<\/h6>\n<h6>[6] Ou seja, na medida em que h\u00e1 forclus\u00e3o do furo, tampouco orientar-se pela no\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o, t\u00e3o marcante na cl\u00ednica das neuroses (na qual as repeti\u00e7\u00f5es sempre comportam algum grau de diferen\u00e7a e enigma). No caso do autismo, trata-se de uma itera\u00e7\u00e3o sem diferen\u00e7a que se materializa de forma exemplar no interesse espec\u00edfico do sujeito autista. Atrav\u00e9s de um trabalho cl\u00ednico pode-se apostar em algum modo de usar as imagens, padr\u00f5es ou palavras que iteram para elaborar uma esp\u00e9cie de tradu\u00e7\u00e3o \u2013 ou melhor, uma supl\u00eancia para n\u00e3o permanecer de todo estrangeiro diante da linguagem.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Cervelin[1] Neste ano, as Noites de Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise recome\u00e7aram na data de 29 de mar\u00e7o. 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