{"id":4020,"date":"2022-06-27T10:43:28","date_gmt":"2022-06-27T13:43:28","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3591"},"modified":"2022-06-27T10:43:28","modified_gmt":"2022-06-27T13:43:28","slug":"o-que-um-analista-tem-que-saber-ouvir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/o-que-um-analista-tem-que-saber-ouvir\/","title":{"rendered":"O que um analista tem que saber-ouvir"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Artur Cipriani<\/strong><\/h6>\n<p><strong>Saber suposto e saber sabido<\/strong><\/p>\n<p>Certa feita, um professor de gradua\u00e7\u00e3o contou em aula a seguinte anedota: em determinada sess\u00e3o, certo paciente insistia que o analista lhe perguntasse: \u201cpode perguntar\u201d, dizia ele, e afirmava que o analista sabia as perguntas certas a lhe fazer. Em determinado momento, o analista pergunta: \u201cvoc\u00ea gosta de beterraba?\u201d. Seguiu-se a isso, se bem me lembro do conto, um sil\u00eancio do paciente, que pode ser interpretado como: estava pensando sobre o ato, pode ter entendido que o trabalho n\u00e3o se localizava exatamente a\u00ed, que n\u00e3o parte de um saber do analista. O professor (que era tamb\u00e9m o analista da hist\u00f3ria) falou ent\u00e3o sobre como era necess\u00e1rio, na primeira oportunidade, desmantelar o sujeito suposto saber para o analisante.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil, quase autom\u00e1tico, diria, lan\u00e7armos uma pergunta a fim de precisar o que se teria tentado transmitir a\u00ed, nessa aula: se isso vale, vale ent\u00e3o para qualquer analisante? N\u00e3o pode servir, em extens\u00e3o vari\u00e1vel, que o analista ocupe para o analisante o lugar do sujeito suposto saber, dadas as diferentes condi\u00e7\u00f5es de estrutura do sujeito, sua modalidade de gozo, o determinado momento da an\u00e1lise, enfim, a orienta\u00e7\u00e3o do tratamento? Lembro-me aqui da considera\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o analista ficar para o analisante como algu\u00e9m que n\u00e3o sabe nada, ainda que, bom, saiba de algumas coisas, mas isso fica entre n\u00f3s, pares.<\/p>\n<p>Que coisas s\u00e3o essas que o analista sabe, ou tem de saber? S\u00e3o oriundas de qual dos p\u00e9s do trip\u00e9 da forma\u00e7\u00e3o? Decerto dos tr\u00eas. Essa foi a pergunta que me levou a esse cartel, feito todo (menos o mais-um) de colegas que come\u00e7aram a clinicar h\u00e1 n\u00e3o muito, ou que est\u00e3o come\u00e7ando neste mesmo momento, ou que querem come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Essa pergunta se ligou a uma quest\u00e3o que, creio, ocorre-me desde mais ou menos o in\u00edcio de minha cl\u00ednica: o que tenho de saber quando estou prestes a receber o sujeito? E o que devo saber enquanto o ou\u00e7o? Efl\u00favios das advert\u00eancias de Freud quanto \u00e0s (excessivas) anota\u00e7\u00f5es durante a escuta me atravessaram, assim como uma aparente insist\u00eancia de minha analista de que se trata de ouvir, apenas ouvir o que o sujeito est\u00e1 dizendo \u2013 e, num momento seguinte, j\u00e1 pand\u00eamico, quando destacava a import\u00e2ncia da liga\u00e7\u00e3o de voz em detrimento das mensagens de texto: que se possa devolver algo a ele, mesmo se for o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Uma nota que se interp\u00f4s a essa fala da analista (a de \u201capenas ouvir\u201d) foi de que, antes de receber um paciente, se relia as \u00faltimas anota\u00e7\u00f5es das \u00faltimas consultas, saltavam-me aos olhos n\u00e3o poucos significantes, ditos prism\u00e1veis em diferentes significa\u00e7\u00f5es, alguns dirigidos ao analista, etc. A\u00ed, pensava: que bom que dei essa olhada!<\/p>\n<p>Levei a quest\u00e3o para supervis\u00e3o. Disse-se que a posi\u00e7\u00e3o de escriba em que por vezes me alocava poderia impedir de ouvir \u201cn\u00e3o o dito, mas o dizer\u201d, \u201cn\u00e3o o enunciado, mas a enuncia\u00e7\u00e3o\u201d. Sobretudo, o supervisor indicou: e se o trabalho se debru\u00e7asse sobre a constru\u00e7\u00e3o do caso? Foi a\u00ed, pois, que desloquei minha pergunta neste cartel de \u201co que um psicanalista tem que saber?\u201d para \u201co que um psicanalista tem que ouvir?\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O que um psicanalista tem que ouvir?<\/strong><\/p>\n<p>Significantes que se repetem, indicadores do gozo, pontos de refer\u00eancia de estrutura e modalidade; a fantasia, o sintoma, as posi\u00e7\u00f5es na transfer\u00eancia. Esses s\u00e3o pontos destacados por Berenguer em \u00bfC\u00f3mo se construye um caso?, registro de semin\u00e1rios cl\u00ednico\/te\u00f3ricos que ajudam a precisar esses elementos que merecem aten\u00e7\u00e3o ao longo de uma escuta que tamb\u00e9m n\u00e3o pode prescindir da advers\u00e3o contra o saber todo, a previsiblidade a partir do diagn\u00f3stico, a sujei\u00e7\u00e3o da escuta \u00e0s impress\u00f5es do eu do analista, enfim: elementos que podem obstruir a surpresa da experi\u00eancia de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Em certa confer\u00eancia, M-A. Vieira disse: a gente fica com os conceitos na cabe\u00e7a, ouvindo, e tentando elaborar alguma coisa. Em certo texto, escreveu Nasio: n\u00e3o concordo com a ideia de que o analista n\u00e3o fique com nada na cabe\u00e7a enquanto escuta; acho que devemos ter hip\u00f3teses. E JAM, citado em Berenguer (2018): \u201cAntes, sem d\u00favida, \u00e9 melhor que o analista seja amigo do conceito, que se cultive, que se tenha uma ideia disso cujo produto \u00e9 ele mesmo e sua pr\u00e1tica. (&#8230;) Disso se trata na forma\u00e7\u00e3o do analista, a qual inclui uma cl\u00e1usula final que \u00e9 esquecer o que se aprendeu e, com efeito, abrir-se ao outro \u2013 que chamamos paciente \u2013 como nunca visto, como in\u00e9dito\u201d.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m desses apontamentos, enuncio outro, \u00faltimo, que relaciono com o zen. Est\u00e1 em algo que este tem em comum com a psican\u00e1lise: uma orienta\u00e7\u00e3o no sentido de enxugamento, se n\u00e3o dissolu\u00e7\u00e3o, do Eu. Disse Fran\u00e7oise Dolto: \u201c(&#8230;) minha ideia era de que a cura anal\u00edtica de um m\u00e9dico s\u00f3 acabava quando ele jamais pensasse em si durante uma consulta. (&#8230;) quando vi que, realmente, come\u00e7ava a dar consultas \u00e0s 8:30h da manh\u00e3 e encerrava \u00e0s 13h sem ter pensado em mim nem mesmo por meio segundo, calculei que estava analisada. Verdade ou n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>DOLTO, Fran\u00e7oise. Auto-retrato de uma psicanalista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990, pp 99-100.<\/h6>\n<h6>BERENGUER, Enric. \u00bfC\u00f3mo se construye um caso?: Seminario te\u00f3rico y cl\u00ednico. : Ned Ediciones,<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artur Cipriani Saber suposto e saber sabido Certa feita, um professor de gradua\u00e7\u00e3o contou em aula a seguinte anedota: em determinada sess\u00e3o, certo paciente insistia que o analista lhe perguntasse: \u201cpode perguntar\u201d, dizia ele, e afirmava que o analista sabia as perguntas certas a lhe fazer. 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