{"id":3991,"date":"2023-07-29T07:04:56","date_gmt":"2023-07-29T10:04:56","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3991"},"modified":"2023-07-29T07:04:56","modified_gmt":"2023-07-29T10:04:56","slug":"que-bussola-e-essa-ressonancias-a-partir-do-argumento-de-nohemi-brown","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/que-bussola-e-essa-ressonancias-a-partir-do-argumento-de-nohemi-brown\/","title":{"rendered":"Que b\u00fassola \u00e9 essa? Resson\u00e2ncias a partir do argumento de Nohem\u00ed Brown"},"content":{"rendered":"<h6>Por Louise Lhullier (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/boletim03_004-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3992 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/boletim03_004-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cTodo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9, delirante\u201d.\u00a0 Nohem\u00ed destaca este aforisma lacaniano como b\u00fassola colocada por Jacques-Alain Miller para a pr\u00e1tica contempor\u00e2nea da psican\u00e1lise e para a leitura do \u00faltimo ensino de Lacan e extrai da\u00ed consequ\u00eancias. Entre elas, a extens\u00e3o da categoria \u201cloucura\u201d para todos os seres falantes, j\u00e1 que, tomando como norte o real, toda a produ\u00e7\u00e3o de saber sobre a sexualidade, sobre o gozo do corpo, \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um del\u00edrio, pois n\u00e3o h\u00e1 um programa natural que ordene a rela\u00e7\u00e3o sexual entre os humanos.\u00a0 Nessa perspectiva, inventar um saber a partir dessa falha \u00e9 delirar. Todos delirantes.<\/p>\n<p>Compartilho com Nohem\u00ed o interesse em manter a interroga\u00e7\u00e3o sobre essa b\u00fassola e suas consequ\u00eancias. Nesse sentido, trago para esta conversa tr\u00eas refer\u00eancias que me ocorreram a partir da leitura de seu texto.<\/p>\n<p>A primeira delas \u00e9 o texto de Miller A inven\u00e7\u00e3o do del\u00edrio [1995], onde apresenta<\/p>\n<p>\u201cuma forma de generalizar o conceito de del\u00edrio\u201d. Fica impl\u00edcito aqui que h\u00e1 mais de uma. Que forma \u00e9 essa? Cito Miller: \u201cNa medida em que o eu de cada um \u00e9 delirante, um del\u00edrio pode ser considerado uma acentua\u00e7\u00e3o do que cada um traz em si, e que \u00e9 poss\u00edvel escrever como: deliryo.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>No texto de Miller, podemos acompanhar a elabora\u00e7\u00e3o que o conduz a dizer, atrav\u00e9s do bin\u00f4mio S1-S2, que todo saber \u00e9 del\u00edrio e o que o del\u00edrio \u00e9 um saber. Ou, como escreveu Nohem\u00ed, \u201cO del\u00edrio \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o de saber\u201d. Uma inven\u00e7\u00e3o sob a forma de um discurso articulado.<\/p>\n<p>Segunda refer\u00eancia: <em>A loucura nossa de cada dia, <\/em>por Graciela Brodsky, que explicita sua inten\u00e7\u00e3o de distinguir entre loucura e psicose. Refere-se \u00e0 primeira nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote>[&#8230;] cada um de n\u00f3s, na intimidade de sua vida, mant\u00e9m sua maluquice pessoal, sua loucura pr\u00f3pria que o leva a fazer dieta o dia inteiro e a esvaziar a geladeira \u00e0 noite [&#8230;] a lavar as m\u00e3os quarenta vezes por dia por mais limpas que estejam [&#8230;] a desaparecer quando \u00e9 preciso estar presente, a n\u00e3o fazer um exame quando \u00e9 preciso faz\u00ea-lo.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Nesse texto, com base em abundantes refer\u00eancias, Brodsky se dedica a esclarecer por que podemos dizer que todo mundo delira, que todo mundo \u00e9 louco, com base em uma sele\u00e7\u00e3o de oito refer\u00eancias de Miller, que ela vai desenvolver uma a uma.<\/p>\n<p>Mas o que retenho aqui \u00e9 sua posi\u00e7\u00e3o decidida: a loucura que est\u00e1 para todo mundo n\u00e3o se confunde com a psicose, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. Creio ter lido esse posicionamento tamb\u00e9m no texto de Nohem\u00ed, onde n\u00e3o encontrei o significante psicose. Ali\u00e1s, essa tem sido tamb\u00e9m a minha posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, deparei-me com uma confer\u00eancia ministrada em 2021 na Universidade de Buenos Aires por Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, onde ela aborda o mal-estar inerente \u00e0 cultura, associado \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de seres falantes, que nos enlouquece. Isso \u00e9 algo que j\u00e1 nos \u00e9 familiar. A terceira e \u00faltima refer\u00eancia que trago aqui, ao contr\u00e1rio, veio acrescentar algo que me pareceu meio fora dos trilhos em rela\u00e7\u00e3o a outras leituras. Por isso mesmo proponho acrescent\u00e1-la a nossa pesquisa. Trata-se de uma hip\u00f3tese proposta por Brousse nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0[&#8230;] o fato &#8211; talvez v\u00e1 lhes parecer um pouco estranho, mas \u00e9 uma hip\u00f3tese razo\u00e1vel \u2013 de que o per\u00edodo atual \u00e9 um per\u00edodo no qual as psicoses, a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o ordin\u00e1rio, \u00e9 de todos. Na psican\u00e1lise, Jacques-Alain Miller havia introduzido e feito um semin\u00e1rio sobre o que ele chama a psicose ordin\u00e1ria, o que \u00e9 uma novidade. Se trata de uma organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica onde o universal, a afirma\u00e7\u00e3o universal \u201cTodos os [&#8230;] s\u00e3o [&#8230;]\u201d funciona, mas sem a exce\u00e7\u00e3o paterna. Quer dizer, sem o ao menos um que, como ponto de exce\u00e7\u00e3o, garanta o universal. Isto \u00e9, esse ponto exterior ao conjunto que permite que o conjunto funcione universalmente. Eu penso que, hoje em dia, a organiza\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica \u00e9 universal, se tornou universal para todos os seres falantes, porque precisamente o que caracteriza nossa \u00e9poca \u00e9 a queda \u2013 Lacan disse a evapora\u00e7\u00e3o &#8211; do Nome do Pai. E aqui n\u00e3o se trata do papai, qualquer que seja a acep\u00e7\u00e3o \u2013 o Papa cat\u00f3lico ou o pai de fam\u00edlia -, se trata do Nome, do valor do Nome, ou seja o valor do que representa algu\u00e9m na ordem simb\u00f3lica. Ent\u00e3o, lhes proponho sustentar que hoje em dia, com a fragmenta\u00e7\u00e3o, a evapora\u00e7\u00e3o, o fr\u00e1gil que se tornou a inst\u00e2ncia da autoridade simb\u00f3lica, o que acontece \u00e9 que todos estamos na ordem da psicose.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mais adiante em sua fala, ela reafirma:<\/p>\n<blockquote><p>Sustento que a psicose \u00e9 o regime ordin\u00e1rio do psiquismo hoje. Deixou de ser uma estrutura patol\u00f3gica que a meu ver \u2013 a partir de minha pr\u00e1tica anal\u00edtica -, a psicose no sentido estrutural antigo n\u00e3o \u00e9 nenhuma dificuldade no la\u00e7o social. Ocorre que pode ser um coringa (<em>joker<\/em>) como se v\u00ea muito bem, por exemplo, na patologia de alguns chefes de Estado atuais. <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Fica aqui a provoca\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 que o \u201cTodo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9, delirante\u201d, algo que vale para todos os seres falantes, que \u00e9 de estrutura, vai se equiparando, no mundo atual, a \u201cTodo mundo \u00e9 psic\u00f3tico\u201d, como um efeito da \u00e9poca sobre as subjetividades?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. La invenci\u00f3n del del\u00edrio (1995). In: Confer\u00eancias Porte\u00f1as. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2009, p. 285.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> BRODSKY, G.. A loucura nossa de cada dia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie.<\/em> Ano 4 \u2022 N\u00famero 12 \u2022 novembro 2013<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> V\u00eddeo de confer\u00eancia proferida em 26\/11\/2021 na UBA dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CuStd0MSh34\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CuStd0MSh34<\/a>.<\/h6>\n<h6>Texto dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/encuentrospsicoanalisisycultura.com\/template.php?file=actualidad\/21-12-13_el-malestar-en-la-cultura-en-el-siglo-xxi.html\">https:\/\/encuentrospsicoanalisisycultura.com\/template.php?file=actualidad\/21-12-13_el-malestar-en-la-cultura-en-el-siglo-xxi.html<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Louise Lhullier (EBP\/AMP) \u201cTodo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9, delirante\u201d.\u00a0 Nohem\u00ed destaca este aforisma lacaniano como b\u00fassola colocada por Jacques-Alain Miller para a pr\u00e1tica contempor\u00e2nea da psican\u00e1lise e para a leitura do \u00faltimo ensino de Lacan e extrai da\u00ed consequ\u00eancias. 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