{"id":3988,"date":"2023-07-29T07:03:12","date_gmt":"2023-07-29T10:03:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3988"},"modified":"2023-07-29T07:03:12","modified_gmt":"2023-07-29T10:03:12","slug":"quando-a-bussola-ressoa-como-pergunta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/quando-a-bussola-ressoa-como-pergunta\/","title":{"rendered":"Quando a b\u00fassola ressoa como pergunta."},"content":{"rendered":"<h6>Por Licene Garcia<\/h6>\n<p><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/boletim03_005-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3989 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/boletim03_005-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/a><\/p>\n<p>O eixo III, intitulado \u201cQue b\u00fassola \u00e9 essa?\u201d sustentado pela escrita de Nohem\u00ed Brown (EBP\/AMP), pode ser lido como uma pergunta que nos orienta clinicamente quando tomamos como b\u00fassola o aforismo lacaniano: <em>\u201cTodo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>O texto em si condensa uma pergunta que nos anima, orienta e convoca ao trabalho. Seguidos por esta b\u00fassola, podemos tomar a escrita do eixo como uma lupa com a qual Nohem\u00ed nos traz pontos a se olhar mais de perto, com cuidado. Assim, com esta lupa em m\u00e3os, podemos nos servir de algumas consequ\u00eancias apontadas no texto, como uma orienta\u00e7\u00e3o em nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p><em>\u201cTodos delirantes\u201d <\/em>nos aponta que em rela\u00e7\u00e3o ao saber sobre o modo que o gozo que toca o corpo h\u00e1 para todo ser falante uma car\u00eancia. Algo que Lacan precisa com o termo <em>\u201cruptura do saber\u201d<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, enquanto aquilo que nos faz falar solitariamente. Cito Lacan: <em>\u201cessa solid\u00e3o, ela, de ruptura do saber, n\u00e3o somente ela se pode escrever, mas ela \u00e9 mesmo o que se escreve por excel\u00eancia, pois ela \u00e9 o que, de ruptura do ser, deixa tra\u00e7o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>. <\/em>Nesse sentido, retomamos a consequ\u00eancia extra\u00edda por Nohem\u00ed de que a constru\u00e7\u00e3o de um saber sempre tocar\u00e1 no mais singular, no modo que tal tra\u00e7o, enquanto marca de gozo, tem para cada um a estrutura de del\u00edrio.<em> \u201cNo inconsciente dos falantes n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de encontrar a f\u00f3rmula, por mais metaf\u00f3rica que seja, para saber qualquer coisa que diga respeito ao gozo do outro sexo.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<p>Seguindo Esthela Solano, n\u00e3o h\u00e1 chance de o <em>parl\u00eatre<\/em> sair dos efeitos de sentido com os quais ele constr\u00f3i o pr\u00f3prio mundo. Com o axioma <em>\u201cTodo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d<\/em> o que se faz \u00e9 interrogar o conceito ilus\u00f3rio de cura, de uma terap\u00eautica que condensaria um ideal de normalidade. Deste modo, uma cl\u00ednica que se orienta pelo real estaria ligada aos arranjos e desarranjos que o <em>parl\u00eatre <\/em>encontrou para manter enodados \u2013 real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio \u2013 fazendo de tal amarra\u00e7\u00e3o singular, um n\u00f3 que permite a cada um sustentar o la\u00e7o com a vida. Da\u00ed a import\u00e2ncia do que Nohem\u00ed aponta:<em> \u201cSe falamos de ensino, h\u00e1 algo que n\u00e3o pode ser ensinado, especialmente com rela\u00e7\u00e3o ao real\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Quando Lacan prop\u00f5e o termo <em>lal\u00edngua, <\/em>o que ele faz \u00e9 uma disjun\u00e7\u00e3o entre fala, estrutura da linguagem e comunica\u00e7\u00e3o. <em>Lal\u00edngua<\/em> seria a l\u00edngua pr\u00f3pria, origin\u00e1ria de cada um, carregando por isso uma rela\u00e7\u00e3o com o gozo.<\/p>\n<p>O ponto de partida para o axioma <em>\u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d<\/em> \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o do que h\u00e1. <em>\u201cH\u00e1 gozo\u201d.<\/em> Isto \u00e9 um fato. Dizer que h\u00e1 gozo, nos permite colocar o gozo onde ele est\u00e1, na experi\u00eancia de habitar um corpo vivo. O gozo \u00e9 no corpo e n\u00e3o fora dele.<\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1 psican\u00e1lise de um corpo vivo, um corpo que fala, ainda que, o que fa\u00e7a um corpo falar, seja o que Lacan qualifica como um mist\u00e9rio. Se h\u00e1 gozo, o que nos orienta na cl\u00ednica \u00e9 que o que h\u00e1, \u00e9 o real.<\/p>\n<p>Nas palavras de Nohem\u00ed Brown: <em>\u201c\u00e9 importante considerar as consequ\u00eancias dessa b\u00fassola.<\/em>\u00a0<em>Que b\u00fassola \u00e9 essa? Como nos orienta na escuta, na nossa pr\u00e1tica e poder formaliz\u00e1-la na constru\u00e7\u00e3o do caso. [&#8230;] \u00c9 disso que se trata uma b\u00fassola: como nos orientarmos no mar de conceitos e ditos do paciente.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Por isso, uma an\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 o que visa tomar a fala como modo de satisfa\u00e7\u00e3o que toca o corpo, para al\u00e9m da decifra\u00e7\u00e3o e equivoca\u00e7\u00e3o dos sentidos, uma an\u00e1lise conduzida ao real, aponta para o modo que o gozo toca o corpo do <em>parl\u00eatre.<\/em> O gozo enquanto gozo do Um, que n\u00e3o se dirige ao Outro, marca da experi\u00eancia solit\u00e1ria de satisfa\u00e7\u00e3o em habitar o corpo pr\u00f3prio.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, Jacques. Semin\u00e1rio, livro 20. <strong>Mais, ainda<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p. 163.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem 1.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> SOLANO-SUAREZ, Esthela. Delirios y despertares: Una lectura estructural del delirio.\u00a0<em>In: <strong>Virtualia<\/strong><\/em>, n.42, mai.2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.revistavirtualia.com\/articulos\/945\/locura-psicosis-delirio\/delirios-y-despertares<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Licene Garcia O eixo III, intitulado \u201cQue b\u00fassola \u00e9 essa?\u201d sustentado pela escrita de Nohem\u00ed Brown (EBP\/AMP), pode ser lido como uma pergunta que nos orienta clinicamente quando tomamos como b\u00fassola o aforismo lacaniano: \u201cTodo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d. 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