{"id":3949,"date":"2023-06-28T17:55:12","date_gmt":"2023-06-28T20:55:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3949"},"modified":"2023-06-28T17:55:12","modified_gmt":"2023-06-28T20:55:12","slug":"comentarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/comentarios\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3950\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/005-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/>C\u00e9lia Ferreira Carta Winter (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Entre o \u201cN\u00e3o \u00e9 louco quem quer\u201d, escrito nas paredes do servi\u00e7o de plant\u00e3o de Saint Anne, e o \u201ctodo mundo \u00e9 louco, quer dizer, delirante\u201d, passaram-se alguns anos. Apesar de n\u00e3o se oporem, a consequ\u00eancia da passagem de uma afirma\u00e7\u00e3o \u00e0 outra \u00e9 radical.<\/p>\n<p>O fundamento freudiano de \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d \u00e9 o sonho e nos coloca frente a um Freud para quem o modelo do analisante era o neur\u00f3tico.<\/p>\n<p>Com Lacan, o &#8220;todos loucos, quer dizer, delirante\u201d, se d\u00e1 pelo fato de sermos seres falantes, o que determina uma inadequa\u00e7\u00e3o radical entre o real e o mental<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>O aforismo \u201ctodo mundo\u201d \u00e9 louco condensa, em seu enunciado, todo o \u00faltimo ensino de Lacan, o que nos adverte a caminhar com cuidado. O neur\u00f3tico traz, em si, o S<sub>2<\/sub>, que necessita, isto \u00e9, ele \u201csabe\u201d o que quer dizer. Essa \u00e9 nossa compreens\u00e3o precipitada. E Lacan nos convida a sermos um pouco mais psic\u00f3ticos<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, um pouco mais perplexos. Convida-nos a ler as coisas sem entend\u00ea-las e ajuda-nos com seu estilo que produz a perplexidade. Leonardo leva a s\u00e9rio essa advert\u00eancia, e vai tecendo devagar, interrogando o aforismo, para extrair da\u00ed o trabalho a ser feito.<\/p>\n<p>Logo de sa\u00edda, situa o dois trilhamentos: \u201co que nos faz loucos a todos \u00e9 a estrutura de linguagem, a estrutura de discurso\u201d. Os trilhos, como representado no cartaz de lan\u00e7amento da jornada, \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o muito feliz do mesmo e do diferente; qualquer desvio, e o caminho se faz outro. Todos loucos, pois somos parasitados pela linguagem. Parece-me que \u00e9 a essa condi\u00e7\u00e3o de parasita da linguagem que voc\u00ea se refere, mas gostaria que voc\u00ea falasse um pouco mais. Por onde Lacan articula a quest\u00e3o da causa em sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem e as consequ\u00eancias que podemos tirar destas interlocu\u00e7\u00f5es? Refere-se \u00e0 estrutura do Outro na teoria lacaniana, local onde a l\u00f3gica significante se ancora e d\u00e1 subs\u00eddios para entender o inconsciente a partir de uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com o saber e n\u00e3o mais a partir de uma t\u00f3pica, enquanto local das representa\u00e7\u00f5es, como se trata do inconsciente para Freud? Nesse sentido, no ensino de Lacan, n\u00e3o h\u00e1 linguagem que se totalize em um saber, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 Outro consistente, ou uma significa\u00e7\u00e3o \u00faltima? Essa aus\u00eancia de saber, nos levaria a 2\u00aa parte do sintagma, ou seja, delirantes?<\/p>\n<p>Nos <em>Escritos<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, em seu texto sobre a causalidade ps\u00edquica, Lacan j\u00e1 colocava que a loucura est\u00e1 nesse espa\u00e7o entre sentido e sem sentido. O del\u00edrio poderia ser pensado como o que acontece entre S<sub>1<\/sub> e S<sub>2<\/sub>? Uma inven\u00e7\u00e3o de saber (S<sub>2<\/sub>) que vem dar sentido ao S<sub>1<\/sub>? O que nos interroga: qual a diferen\u00e7a na psicose?<\/p>\n<p>Como proposto por Freud, o del\u00edrio \u00e9 uma das formas de se lidar com a perda da realidade. Perda da realidade cuja defesa \u00e9 a fantasia, na neurose, e o del\u00edrio, na psicose. Uma forma de costurar a trama do sentido esgar\u00e7ado pela perda da realidade. Essa quest\u00e3o do sentido voc\u00ea aborda pelo vi\u00e9s do empuxo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido com seus efeitos de domina\u00e7\u00e3o resultante da parceria do mercado e ci\u00eancia e, atualmente, com a tecnologia.<\/p>\n<p>Insisto na pergunta que voc\u00ea lan\u00e7a: resta a\u00ed espa\u00e7o para o singular, para o imposs\u00edvel ou est\u00e1 tudo dominado?<\/p>\n<p>Se nos efeitos do discurso capitalista, o tempo se acelera<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e a produ\u00e7\u00e3o se d\u00e1 na conex\u00e3o com o desejo \u2013 que se mobilize o id, que se engane o supereu para que se isole da culpa, que se criem semblantes imagin\u00e1rios para que se desorientem, que comprem o que n\u00e3o necessitem \u2013 o novo, frente a uma produ\u00e7\u00e3o caracterizada pela indiferencia\u00e7\u00e3o do objeto, na qual a quantifica\u00e7\u00e3o se adensa. Ao tomar o sujeito como uma mercadoria a mais, o discurso capitalista faz do &#8220;mais-de-gozar&#8221; apenas um valor a registrar ou deduzir do que se acumula.<\/p>\n<p>Temos que nos interrogar como isso tem se apresentado na cl\u00ednica, mas a indica\u00e7\u00e3o de Miller: Nos Tempos que Correm e na Terra desertificada \u00e9 \u201cn\u00e3o se deixar hipnotizar\u201d, pois o que se espera de n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 o diagn\u00f3stico, mas a a\u00e7\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o lacaniana no polo oposto ao discurso da quantifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deparamo-nos com uma cl\u00ednica em que a refer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais o primeiro ensino, na qual o diagn\u00f3stico estrutural dava uma orienta\u00e7\u00e3o: neurose ou psicose? Hoje, o que se busca, \u00e9 o que pode fazer n\u00f3, o que pode aparecer da loucura de cada um, diferente da loucura do para todos e da psicose.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, se tomamos o bin\u00f4mio neurose\/psicose n\u00e3o como uma oposi\u00e7\u00e3o, mas, como uma curva de Gauss<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, este deixa de ser um bin\u00f4mio para passar a se representar como um <em>continuum,<\/em> em que o extraordin\u00e1rio se situa nos extremos e o campo ordin\u00e1rio se expande ocupando a parte central. Isso aponta n\u00e3o s\u00f3 que a psicose desencadeada rareia nos consult\u00f3rios, mas que o mesmo acontece com a neurose, em sua apresenta\u00e7\u00e3o mais cl\u00e1ssica. A neurose parece ter se ordinarizado pelas mesmas raz\u00f5es que a psicose, ou seja, como consequ\u00eancia do discurso da ci\u00eancia e efeito de uma medicaliza\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>Cada vez mais o campo do ordin\u00e1rio cresce, e a exig\u00eancia diagn\u00f3stica muda de acento. \u201cDiante do louco, diante do delirante, n\u00e3o se esque\u00e7a que voc\u00ea \u00e9, ou foi, analisante, e, que tamb\u00e9m fala, ou falava, sobre o que n\u00e3o existe\u201d. Assim, Miller encerrava seu texto\u00a0<em>Iron\u00eda<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a><\/em>, em 1993. Nesse texto, ele prop\u00f4s opor \u00e0 cl\u00ednica diferencial entre neurose e psicose, uma \u201ccl\u00ednica universal do del\u00edrio\u201d. Delirante e analisante, ambos falam do que n\u00e3o existe. Ent\u00e3o de que loucura se trata?<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que gostaria de lan\u00e7ar \u00e9 como essa f\u00f3rmula da loucura para todos se apresenta no Outro Social? Se o Outro Social, ao autenticar as identifica\u00e7\u00f5es diversas, abre um leque em que a cren\u00e7a no tudo poss\u00edvel, concorreria para a ideia de despatologiza\u00e7\u00e3o? No outro extremo como pensar o DSM, e a descri\u00e7\u00e3o de cada tra\u00e7o, cada comportamento correspondendo a uma classifica\u00e7\u00e3o, um transtorno em um excesso classificat\u00f3rio? Valeria aqui a proposi\u00e7\u00e3o: se tudo \u00e9 patol\u00f3gico, nada \u00e9 patol\u00f3gico, ou o discurso da despatologiza\u00e7\u00e3o poderia produzir agrupamento por identifica\u00e7\u00e3o, o que resultaria em segrega\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Esse apagamento entre loucura e normalidade assinalado pelo aforismo lacaniano \u00e9 orientador e nos convoca ao trabalho. Ao falar da loucura, que nos concerne a todos, nos deixa quest\u00f5es de como manter viva a psican\u00e1lise, mantendo aberta a porta ao singular. Esse sintagma \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o de Lacan para lermos a cl\u00ednica de outra maneira. Como dar conta do tra\u00e7o diferencial da loucura de cada um? De que loucura se trata? Como distinguir dos chamados \u201cestilos de vida\u201d agrup\u00e1veis em sintomas singulares testemunhos do imposs\u00edvel, do real?<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual torna inv\u00e1lida qualquer no\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental e qualquer no\u00e7\u00e3o de terap\u00eautica como volta \u00e0 sa\u00fade mental. O desejo est\u00e1 do lado oposto de qualquer norma. Ele \u00e9, como tal, extra normativo.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> O discurso do mestre quer sempre a mesma coisa, o discurso do mestre quer o como todo mundo. Se o psicanalista banca alguma coisa, essa coisa \u00e9 o direito, \u00e9 a reivindica\u00e7\u00e3o, \u00e9 a rebeli\u00e3o do n\u00e3o como todo mundo. \u00c9 o direito a um desvio que n\u00e3o se mede por nenhuma norma. Um desvio vivido como tal, no dizer de Leonardo, no encontro de cada um com aquilo que lhe causa, que faz dele Um, para al\u00e9m da loucura que nos une.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/retorno-a-juncao\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, J.A in Op\u00e7\u00e3o Lacaniana On-line A inven\u00e7\u00e3o do del\u00edrio. p. 21.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, Jacques, Escritos I Jacques Lacan; tradu\u00e7\u00e3o Vera Ribeiro. &#8211; Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Todo mundo es loco. In: <em>Los tempos que corren<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2020. p. 26 -30.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> A igualdade cl\u00ednica fundamental. In: <em>Lacan XXI<\/em>, vol. 4, out. de 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Iron\u00eda. In:\u00a0<em>Consecuencias<\/em>, n\u00ba 7, nov. de 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. <em>Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan<\/em>: entre desejo e gozo. Trad. de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 19.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9lia Ferreira Carta Winter (EBP\/AMP) Entre o \u201cN\u00e3o \u00e9 louco quem quer\u201d, escrito nas paredes do servi\u00e7o de plant\u00e3o de Saint Anne, e o \u201ctodo mundo \u00e9 louco, quer dizer, delirante\u201d, passaram-se alguns anos. Apesar de n\u00e3o se oporem, a consequ\u00eancia da passagem de uma afirma\u00e7\u00e3o \u00e0 outra \u00e9 radical. 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