{"id":3942,"date":"2023-06-28T17:50:47","date_gmt":"2023-06-28T20:50:47","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3942"},"modified":"2023-06-28T17:50:47","modified_gmt":"2023-06-28T20:50:47","slug":"nota-sobre-as-proximas-estacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/nota-sobre-as-proximas-estacoes\/","title":{"rendered":"Nota sobre as pr\u00f3ximas esta\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3943\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/007-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<h6>Ana Sofia Guerra<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<blockquote><p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 que eu me desvie do drama social que domina nossa \u00e9poca. \u00c9 que o funcionamento de minha marionete evidenciar\u00e1 melhor para cada um o risco que o tenta, toda vez que se trata da liberdade.<br \/>\nPois o risco da loucura se mede pela pr\u00f3pria atra\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es em que o homem engaja, simultaneamente, sua verdade e seu ser. Assim, longe da loucura ser um fato contingente das fragilidades de seu organismo, ela \u00e9 virtualidade permanente de uma falha aberta em sua ess\u00eancia. Longe de ser a liberdade \u201cum insulto\u201d, ela \u00e9 sua mais fiel companheira, e acompanha seu movimento como uma sombra.<br \/>\nE o ser do homem n\u00e3o apenas n\u00e3o pode ser compreendido sem a loucura, como n\u00e3o seria o ser do homem se n\u00e3o trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.\u00a0 (Lacan, Jacques. Formula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica (1946). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. p. 177, 1998).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c0 luz de um entendimento quanto ao drama social que domina nossa \u00e9poca, Miller sugere que a atual reivindica\u00e7\u00e3o de igualdade universal dos seres falantes poder\u00e1 nos conduzir ao desaparecimento programado da cl\u00ednica. Como amostra, temos visto que, frente \u00e0s incessantes buscas por uma identidade que seja pr\u00f3pria, desconhece-se &#8220;que sou no outro&#8221; (Harari, 2023). Esse desconhecimento \u00e9 marca de um del\u00edrio que n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 loucura dita psic\u00f3tica, mas a todos:<\/p>\n<blockquote><p>O psic\u00f3tico \u00e9 um sujeito que verifica em seu sofrimento o estatuto de ser falado, estatuto que o neur\u00f3tico esquece ao identificar-se com o sujeito que fala; O neuro\u0301tico pensa que ele e\u0301 quem fala, esquece que e\u0301 falado, enquanto o psico\u0301tico o diz abertamente, sofre por ser falado pelo Outro. (Miller, Discurso de abertura do Servic\u0327o de Jacques Lacan, 1983)<\/p><\/blockquote>\n<p>Desconhecer que se \u00e9 falado \u00e9 desconhecer que n\u00e3o somos livres como pensamos.\u00a0 Desde Freud, a associa\u00e7\u00e3o livre faz emergir os limites de nossa liberdade, onde o que se revela \u00e9 o sem sentido da falha aberta, pr\u00f3pria do inconsciente, fissura fundamental onde algo escapa, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 significante capaz de nomear o que excede de todo gozo f\u00e1lico: &#8220;na loucura seja qual for sua natureza, conv\u00e9m reconhecermos de um lado, a liberdade negativa de uma palavra que renunciou a se fazer reconhecer&#8221; (Lacan, 1998, p.281).<\/p>\n<p>Em nossos tempos, pensar a loucura \u00e0 luz do \u00faltimo ensino \u00e9 diferenci\u00e1-la da psicose. Em um passado recente, nos pautamos pelo questionamento quanto ao excesso de patologias, que inclusive ia ao encontro do movimento pela despatologiza\u00e7\u00e3o. Hoje, somado a esse excesso presente entre os &#8220;dsmistas&#8221;, como nomeia Iordan Gurgel, acrescenta-se ainda um perigoso apagamento das defini\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas. A cada volume do DSM, incluem-se crit\u00e9rios que permitem apresentar indica\u00e7\u00f5es sobre qualquer indiv\u00edduo que ali as busque, enquanto que defini\u00e7\u00f5es que servem de baliza \u00e0 nossa cl\u00ednica, como a histeria, s\u00e3o eliminadas. Disso \u00e9 preciso apontar que o aforisma lacaniano &#8220;todo mundo \u00e9 louco&#8221;, n\u00e3o significa uma aposta \u00e0 pol\u00edtica dsmista, como se todos estiv\u00e9ssemos l\u00e1, e onde a\u00ed talvez caberia o dito de que &#8220;todo mundo \u00e9 normal&#8221;, que sugere Miller. O problema se encontra no fato de que, nesse feroz movimento, onde a cada atualiza\u00e7\u00e3o o DSM caminha rumo \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o identificat\u00f3ria h\u00e1, ao mesmo tempo, um achatamento da cl\u00ednica, e talvez a\u00ed a diferencia\u00e7\u00e3o entre loucura e psicose se perca.<\/p>\n<p>Conforme comenta Leonardo Scofield no argumento para a nossa Jornada, o empuxo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido com seus efeitos de domina\u00e7\u00e3o segue a todo vapor em nossos tempos. Temos visto que a pr\u00f3pria cl\u00ednica psiqui\u00e1trica, cada vez mais absorvida pelas generaliza\u00e7\u00e3o dos diagn\u00f3sticos, nivelados a partir dos psicof\u00e1rmacos, mostra os ind\u00edcios dessa crise. Visando sua humaniza\u00e7\u00e3o, uma corrente da psiquiatria tem buscado uma solu\u00e7\u00e3o por meio de um retorno a Jaspers que, a partir de um dualismo metodol\u00f3gico que busca abarcar as ci\u00eancias (<em>Naturwissenschaften<\/em>) e as humanidades, situa a perspectiva ps\u00edquica no campo da compreens\u00e3o, cujo limite seria \u201cas fronteiras do sentido\u201d (Aguiar, 2020, p.31).<\/p>\n<p>A aposta pela compreens\u00e3o, como tem pretendido a psiquiatria, pode proporcionar efeitos humanizantes, mas n\u00e3o salvar\u00e1 a cl\u00ednica de seu desaparecimento. Para Jaspers, a perspectiva da causalidade no campo ps\u00edquico, com o que escapa \u00e0 compreens\u00e3o, seria uma &#8220;blasf\u00eamia&#8221;, como aponta Fran\u00e7ois Leguil (1991). O t\u00edtulo de 1946, portanto, &#8220;Formula\u00e7\u00f5es sobre causalidade ps\u00edquica&#8221;, traz em si uma diverg\u00eancia inegoci\u00e1vel \u00e0 proposta pol\u00edtica da psiquiatria como solu\u00e7\u00e3o aos atuais impasses da cl\u00ednica. Quanto aos desafios para a psican\u00e1lise, temos visto que muitos trazem\/levam consigo um diagn\u00f3stico no bolso, ao mesmo tempo em que o processo despatologizante abre lugar &#8220;aos estilos de vida livremente escolhidos&#8221; (Miller, 22, p.9), afian\u00e7ados por princ\u00edpios jur\u00eddicos. Sobre as identidades, o del\u00edrio de que \u00e9 poss\u00edvel &#8220;ser \u2018eu mesmo\u2019 sem o outro&#8221; pode ver a travessia do narcisismo de uma an\u00e1lise como uma amea\u00e7a, conforme indica Angelina Harari (2023). Se a psican\u00e1lise se faz com psicanalistas, \u00e9 preciso que a cl\u00ednica psicanal\u00edtica siga viva. Miller nos incita a &#8220;diversificar&#8221; (2015, p.307) como um dos &#8220;caminhos para o futuro&#8221;. Como faz\u00ea-lo sem descarrilharmos?<\/p>\n<p>Miller aponta que \u201ccabe a n\u00f3s alinhar nossa pr\u00e1tica a essa nova era, sem nostalgia, sem amargura, sem esp\u00edrito de vingan\u00e7a\u201d. Aqui, recordamos do uso que Lacan faz da express\u00e3o de Joyce, <em>work in progress<\/em>, para pensar seu ensino. Um trabalho em que \u201cas conclus\u00f5es, por t\u00e3o firmadas que sejam, s\u00e3o sempre transit\u00f3rias&#8221; (Miller, 2015, p.332). Ler seu ensino sem cegueira, sem tentativas de adapta\u00e7\u00e3o. Como alinhar nossa pr\u00e1tica sem nos submetermos a essa nova era em que &#8220;os tempos correm&#8221; (Miller, 2015), e tampouco nos retermos a defini\u00e7\u00f5es irrevog\u00e1veis? De que forma podemos sustentar esses acentos singulares na constru\u00e7\u00e3o de nosso campo, tendo a liberdade como refer\u00eancia, sem cair no engodo desse significante como mais um imperativo em nossos tempos?<\/p>\n<p>O motor de nossa cl\u00ednica \u00e9 o gr\u00e3o de loucura de cada um, como cada um se vira com o que irrompe do real, sejam neur\u00f3ticos ou psic\u00f3ticos. \u00c9 esse nosso <em>leitmotiv<\/em>. Nossa louco-motiva. \u00c9 justamente isso que foge aos limites da compreens\u00e3o em seu ponto de liberdade, na medida em que recusa toda estrutura de domina\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o se deixa domesticar. Entretanto, \u00e9 preciso lembrar que um final de an\u00e1lise nada tem a ver com uma liberdade irrestrita. Trata-se, antes de &#8220;inventar algo e enla\u00e7ar-se ao Outro com seu pr\u00f3prio invento. N\u00e3o \u00e9 desenla\u00e7ado do Outro.&#8221; (Naparstek, 2017, p.7)<\/p>\n<p>Lacan, em Breve Discurso aos Psiquiatras, indica a dimens\u00e3o da loucura como o ponto de inc\u00f4modo dos psiquiatras, e que a falta desse inc\u00f4modo seria uma tentativa de prote\u00e7\u00e3o que geraria barreiras entre eles e o louco. Ele diz: &#8220;voc\u00eas t\u00eam diante dele (o louco) um sentimento muito particular que \u00e9 o que deveria, em n\u00f3s, constituir o progresso &#8211; progresso capital &#8211; que poderia resultar no fato de que algum psicanalisado se ocupe um dia verdadeiramente do louco&#8221; (Lacan, 1967, p.25). Nesse trilhar, a loucura como limite da liberdade pode tamb\u00e9m ser lida a partir da recusa ao estranho e insuport\u00e1vel. H\u00e1 um an\u00fancio, advertido, para as pr\u00f3ximas esta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o recuar, de modo a se ocupar verdadeiramente do louco.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>Aguiar, Adriano. Da psicopatologia de Jaspers \u00e0 biologia lacaniana. In: Teixeira, Antonio; Rosa, M\u00e1rcia. Psicopatologia Lacaniana. Ed. Aut\u00eantica. Vol. 2. pp.23-45. 2020.<\/h6>\n<h6>Harari, Angelina. O del\u00edrio de identidade nos in\u00edcios das an\u00e1lises. 2023, de <a href=\"https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/portfolio-items\/o-delirio-de-identidade-nos-inicios-das-analises\/?portfolioCats=149\">https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/portfolio-items\/o-delirio-de-identidade-nos-inicios-das-analises\/?portfolioCats=149<\/a>.<\/h6>\n<h6>Lacan, Jacques. (1946). Formula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. pp. 152-197. 1998.<\/h6>\n<h6>Lacan, Jacques. (1953). Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. pp.232-325. 1998.<\/h6>\n<h6>Lacan, Jacques. (1967). Breve Discurso aos Psiquiatras. N\u00e3o publicado.<\/h6>\n<h6>Leguil, Fran\u00e7ois. Lacan com e contra Jaspers. Cap\u00edtulos de Psican\u00e1lise. N. 15. Biblioteca Freudiana Brasileira. 1991.<\/h6>\n<h6>Miller, Jacques-Alain. Todo mundo \u00e9 louco \u2013 AMP 2024. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, n. 85, dez. pp. 8-19. 2022.<\/h6>\n<h6>Miller, Jacques-Alain. Todo el Mundo es Loco. Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2015.<\/h6>\n<h6>Naparstek, Fabian. La Libertad del Loco. 5a Jornada de Psicopatologi\u0301a. Universidad de Buenos Aires. 2017. N\u00e3o publicado.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Integrante da comiss\u00e3o &#8220;N\u00e3o procuro, eu acho&#8221;.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Sofia Guerra[1] Portanto, n\u00e3o \u00e9 que eu me desvie do drama social que domina nossa \u00e9poca. \u00c9 que o funcionamento de minha marionete evidenciar\u00e1 melhor para cada um o risco que o tenta, toda vez que se trata da liberdade. Pois o risco da loucura se mede pela pr\u00f3pria atra\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es em que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3942","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-de-linha","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3942"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3942\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3942"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}