{"id":3796,"date":"2022-10-28T16:55:44","date_gmt":"2022-10-28T19:55:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3796"},"modified":"2022-10-28T16:55:44","modified_gmt":"2022-10-28T19:55:44","slug":"o-passe-e-a-autoficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/o-passe-e-a-autoficcao\/","title":{"rendered":"O passe e a autofic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6>Gustavo Ramos da Silva<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<figure id=\"attachment_3797\" aria-describedby=\"caption-attachment-3797\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3797 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/boletim003_006-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3797\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Marinela Goulart<\/figcaption><\/figure>\n<p>J\u00e9sus Santiago (AME EBP\/AMP) participou, no dia 22 de junho, da Noite de Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Na ocasi\u00e3o denominou sua fala de \u201cA escrita real no passe n\u00e3o \u00e9 autofic\u00e7\u00e3o\u201d e nela faz um longo percurso em torno do passe e da leitura feita por Jacques-Alain Miller no seu \u00faltimo livro <em>Comment finissent les analyses<\/em>.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do passe revela o desacordo de Lacan em torno da quest\u00e3o do final de an\u00e1lise e a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica ap\u00f3s a morte de Freud. Nesse ponto, a rela\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 verdade, de um lado, e da experi\u00eancia do real, de outro, coloca-nos diante do desenrolar de um tratamento em uma an\u00e1lise. Essa disjun\u00e7\u00e3o entre verdade e real se justificaria, haja vista que a primeira se baseia na procura ou busca e o segundo se presentifica no encontro contingente.<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio 18<\/em>, Lacan vai nos fornecer uma formula\u00e7\u00e3o mais acabada do real, sem mais os instrumentos da lingu\u00edstica, deixando o real de ser submetido ao algoritmo significante\/significado, passando a ser do registro do semblante. J\u00e9sus nos lembra que isso s\u00f3 p\u00f4de acontecer por conta da inoper\u00e2ncia da a\u00e7\u00e3o significante sobre o real.<\/p>\n<p>Tal constata\u00e7\u00e3o nos remete \u00e0 passagem de Miller em <em>Ler um sintoma<\/em> quando ele fala da escuta do sentido \u00e0 leitura do fora de sentido, do tern\u00e1rio ed\u00edpico ao tern\u00e1rio moebiano dos n\u00f3s. Tal travessia pode ser lida tamb\u00e9m em chave da experi\u00eancia do real ao localizarmos um deslocamento da import\u00e2ncia do oral, o que se fala, para o escrito, o que se escreve. Nesse ponto, o foco do trabalho anal\u00edtico, para J\u00e9sus, deixa de ser simplesmente o que se fala e o que se ouve para o que se escreve e o que se l\u00ea.<\/p>\n<p>A\u00ed entramos em cheio na seara do testemunho de final de an\u00e1lise, afinal de contas do que estamos falando quando ouvimos um passe? Haveria uma correspond\u00eancia entre o que l\u00e1 est\u00e1 e a verifica\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria do falasser? J\u00e9sus afirma que n\u00e3o haveria uma correspond\u00eancia estrita entre os dados e os fatos da hist\u00f3ria do sujeito e a verdade da solu\u00e7\u00e3o encontrada por esse mesmo sujeito. \u201cEm outros termos, a verdade do final de an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 dedut\u00edvel dos fatos proeminentes da biografia de um sujeito.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Aqui j\u00e1 entramos na conversa\u00e7\u00e3o ocorrida ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o de J\u00e9sus Santiago quando ele retoma uma passagem do \u00faltimo livro de Miller na qual ele afirma que quando a experi\u00eancia do real n\u00e3o prevalece, o testemunho de passe tende a convergir para a autofic\u00e7\u00e3o e esta \u00e9 um g\u00eanero liter\u00e1rio que ganhou preval\u00eancia nos \u00faltimos anos devido, \u00e9 claro, \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o em car\u00e1ter global da vida de cada um pelas redes sociais. Qual seria, ent\u00e3o, o \u201cg\u00eanero\u201d quando ganha preval\u00eancia a experi\u00eancia do real? J\u00e9sus postula uma esp\u00e9cie de \u201cg\u00eanero witz\u201d, ou seja, o g\u00eanero a que pertenceria o passe seria o Witz. Miller \u00e9 pontual no seu livro: corre-se um risco ao cairmos na autofic\u00e7\u00e3o, pois isso pode ser uma regress\u00e3o ao est\u00e1dio do espelho, e o AE pode estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o especular com a sua fic\u00e7\u00e3o e demonstrar uma impot\u00eancia em se desapegar de sua hist\u00f3ria que j\u00e1 se tornou passado, mas um passado n\u00e3o biograf\u00e1vel. Miller pontua ent\u00e3o que \u201c[&#8230;] o AE se contentava muitas vezes em repetir seu primeiro testemunho, mastigando indefinidamente seu tratamento e seu passe, regurgitando um saber que poderia se tornar uma autofic\u00e7\u00e3o: regress\u00e3o ao est\u00e1dio do espelho\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, o que pode ser interpretado com o fato de que a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 capaz de desfazer a opacidade do real.<\/p>\n<p>Talvez seja importante fazermos uma contextualiza\u00e7\u00e3o desse termo na literatura e o que disso toca na psican\u00e1lise nesse contexto. Foi o escritor franc\u00eas Serge Doubrovsky quem cunhou pela primeira vez o termo \u201cautofic\u00e7\u00e3o\u201d em seu livro <em>Fils<\/em> de 1977, no qual nos deparamos com uma personagem principal com o mesmo nome do autor do livro. O cr\u00edtico Philippe Lejeune prop\u00f5e uma conflu\u00eancia entre autofic\u00e7\u00e3o e autobiografia no seu livro <em>O pacto autobiogr\u00e1fico: de Rousseau \u00e0 Internet <\/em>e l\u00e1 afirma ser \u201c[&#8230;] uma narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, quando focaliza sua hist\u00f3ria individual, em particular a hist\u00f3ria de sua personalidade.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Lejeune postula cinco atos para a autofic\u00e7\u00e3o: o primeiro seria em 1973 com o termo \u201cpacto autobiogr\u00e1fico\u201d; o segundo, em 1977, com Doubrovsky; o terceiro, em 1984, com o verbete, escrito por Jacques Lecarme, para a Universalis, mostrando que a \u201ccasa n\u00e3o estava vazia\u201d, principalmente ap\u00f3s os te\u00f3ricos da d\u00e9cada de 1970, como Roland Barthes, Patrick Modiano, Philippe Sollers etc.; o quarto, de 1989, \u00e9 a tese de Vincent Colonna, orientada por G\u00e9rard Genette, com t\u00edtulo <em>L\u2019autofiction. Essair sur la fictionalisation de soi em litt\u00e9rature<\/em>, na qual encontramos a defini\u00e7\u00e3o de que uma autofic\u00e7\u00e3o \u00e9 uma obra liter\u00e1ria atrav\u00e9s da qual um escritor inventa para si uma personalidade e uma exist\u00eancia, embora conserve sua identidade real, ou seja, seu nome verdadeiro; e o quinto e \u00faltimo ato, de 1991, quando Doubrovsky organiza o col\u00f3quio <em>Autofictions &amp; cie<\/em>., ainda sob os efeitos de duas recentes publica\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a: <em>Fiction et diction<\/em>, de Genette, e <em>Temps et r\u00e9cit<\/em>, de Paul Ricoeur.<\/p>\n<p>O risco que se corre, segundo Miller, em se desapegar de sua hist\u00f3ria passada vai de encontro ao que o pr\u00f3prio Miller escreve em <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>: \u201cUma psican\u00e1lise \u00e9 sem d\u00favida uma experi\u00eancia que consiste em construir uma fic\u00e7\u00e3o [&#8230;], mas, ao mesmo tempo, \u00e9 uma experi\u00eancia que consiste em se desfazer dessa fic\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Ao se desfazer dessa fic\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, da autofic\u00e7\u00e3o, o AE encontra como solu\u00e7\u00e3o final a escrita real, o que s\u00f3 vai ser verificado no caso a caso.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Analista praticante. Integrante de Comiss\u00e3o do Boletim Modos de Usar da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> SANTIAGO, J\u00e9sus. A escrita real no passe n\u00e3o \u00e9 autofic\u00e7\u00e3o. In: <em>Blog do Passe EBP<\/em>, p. 12. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Preliminaire. In: <em>Comment finissent les analyses<\/em>: paradoxes de la passe. Paris: Navarin \u00e9diteur, 2022. p. 14. Tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LEJEUNE, Philippe. <em>O pacto autobiogr\u00e1fico<\/em>: de Rousseau \u00e0 internet. 2. ed. Trad. de Jovita Maria Gergheim Noronha e Maria In\u00eas Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. p. 16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. El passe del <em>parl\u00eatre<\/em>. In: <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>. Trad. de Silvia Baudini. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014. p. 135.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Ramos da Silva[1] J\u00e9sus Santiago (AME EBP\/AMP) participou, no dia 22 de junho, da Noite de Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Na ocasi\u00e3o denominou sua fala de \u201cA escrita real no passe n\u00e3o \u00e9 autofic\u00e7\u00e3o\u201d e nela faz um longo percurso em torno do passe e da leitura feita por&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3796","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-modos-de-usar","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3796"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3796\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3796"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}