{"id":3763,"date":"2022-10-17T06:59:28","date_gmt":"2022-10-17T09:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3763"},"modified":"2022-10-17T06:59:28","modified_gmt":"2022-10-17T09:59:28","slug":"super-visao-ou-super-audicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/super-visao-ou-super-audicao\/","title":{"rendered":"Super-vis\u00e3o ou super-audi\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<h6>Laureci Nunes<br \/>\nMembro da EBP\/AMP<\/h6>\n<p>Na leitura do rec\u00e9m-lan\u00e7ado livro de Esthella Solano, <em>Tr\u00eas segundos com Lacan<\/em>, uma passagem em especial me saltou aos olhos: quando ela traz a sua experi\u00eancia com Lacan, j\u00e1 n\u00e3o como seu analista, mas como aquele com quem ela esperava supervisionar a sua pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de que o convite ao controle tenha partido dele, a surpresa maior, e inicial, de Esthela deveu-se ao fato de que ele lhe apontou o div\u00e3 ao receb\u00ea-la para esse encontro.<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante segui-la nesse percurso, a partir das dedu\u00e7\u00f5es que ela extrai desse trabalho, que verifica estar em conson\u00e2ncia com a posi\u00e7\u00e3o dele como analista. Tamb\u00e9m no controle, Lacan s\u00f3 fazia valer a dimens\u00e3o do ato. Sem lugar para elucubra\u00e7\u00f5es de saber, considera\u00e7\u00f5es diagn\u00f3sticas ou deslizamentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de significantiza\u00e7\u00e3o. Dele, ela nunca recebeu coment\u00e1rios ou recomenda\u00e7\u00f5es. Tratava de fazer surgir o que ressonava do significante nesses encontros, qualificados por ela como deslumbrantes e instant\u00e2neos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>No estrito rigor materialista\u00a0 (<em>mot-erialiste<\/em>), \u201co controle se tornava uma <em>superaudi\u00e7\u00e3o<\/em> \u00a0pondo o acento sobre o que ouvimos como significante, isolado pelo corte, com o fim de faz\u00ea-lo ressoar como disjunto e sem ter rela\u00e7\u00e3o alguma com o que significa\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>O termo <em>superaudi\u00e7\u00e3o<\/em>, foi usado por Lacan em 1973, na confer\u00eancia na Universidade de Columbia. Nela, discorrendo sobre a <em>dit-mension, \u201c<\/em>endere\u00e7o onde repousa o dito\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><em>, <\/em>Lacan, num certo sentido, zomba do termo supervis\u00e3o, dizendo tratar-se na <em>super-audition<\/em> o que ele realizava na pr\u00e1tica do controle. Apontando que se o discurso anal\u00edtico existe \u00e9 porque \u00e9 o analisante quem o tem, ele constr\u00f3i um caminho passando sobre a quest\u00e3o da verdade em psican\u00e1lise, o lugar do pai, do corpo e\u00a0 sobre o estilo do analista em oposi\u00e7\u00e3o a concep\u00e7\u00e3o de mundo e prop\u00f5e substituir o termo inconsciente por ser falante. E, ao assinalar que, na falta de instinto, nossa rea\u00e7\u00e3o \u00e9 veiculada pelos significantes, acrescenta que eles se prestam ao equ\u00edvoco e que \u201ca interpreta\u00e7\u00e3o do analista deve sempre levar \u00a0em conta o fato de que, no que \u00e9 dito, h\u00e1 o sonoro, e que esse sonoro deve ressoar com o que est\u00e1 envolvido no inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Conversando com colegas franceses sei somente agora que o modo como Lacan praticava o controle com Esthella Solano n\u00e3o era um caso isolado, ele assim agia sempre que se tratava de seus pacientes. Na an\u00e1lise, n\u00e3o se trata de um di\u00e1logo e nem se caminha na rigorosa dire\u00e7\u00e3o do tratamento refor\u00e7ando o sentido, dando asas ao inconsciente int\u00e9rprete; o analista entra como parceiro na leitura em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 letra, ao modo singular de gozo. Uma demanda de an\u00e1lise n\u00e3o se sustenta se estiver baseada no querer ser analista, mas sim quando se est\u00e1 decidido a \u00a0tratar o sintoma<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Ambos, an\u00e1lise e\u00a0 controle, est\u00e3o intrinsicamente ligados \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do analista, ainda que o controle n\u00e3o seja uma an\u00e1lise continuada por outros meios<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Esses dois dispositivos dependem do trabalho sobre a fantasia fundamental, a puls\u00e3o e tamb\u00e9m do modo <em>sinthom\u00e1tico<\/em><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> de praticar a psican\u00e1lise. Na contribui\u00e7\u00e3o aportada por Cottet, h\u00e1 um hiato entre ambos, sendo a an\u00e1lise \u201co lugar onde se revela o real do analista a advir \u00a0(<em>en devenir<\/em>) e o controle [&#8230;] o lugar onde se avalia a oportunidade de seu ato\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Assim, para ele, a an\u00e1lise pessoal faz surgir o desejo do analista o controle contribui para a sua matura\u00e7\u00e3o, na opera\u00e7\u00e3o que Cottet prop\u00f5e chamar de \u201c retifica\u00e7\u00e3o do eixo da escuta\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Das suas diversas experi\u00eancias de controle de Esthela, antes e depois de Lacan, ela enfatiza que n\u00e3o h\u00e1 <em>standard<\/em>; h\u00e1 o m\u00faltiplo, n\u00e3o s\u00f3 pelas diferen\u00e7as de estilos dos analistas controladores, mas tamb\u00e9m pela temporalidade l\u00f3gica do praticante<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Ela conclui que \u201co controle \u00e9 o lugar onde se amarram o sujeito suposto saber ler e o sujeito suposto poder aprender a ler\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> e, apoiada em Lacan no Semin\u00e1rio 25, se pergunta: se o controle \u201cseria tamb\u00e9m o lugar onde se p\u00f5e a prova que um analista depende da leitura que ele faz de seu analisante\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> E. Solano, \u00a0\u201cVolver\u00e1 para um control?\u201d. Tres segundos com Lacan. Barcelona. Gredos. p. 42.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibidem, p. 43.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> J. Lacan, \u201c Conf\u00e9rences et entretetiens dans les universit\u00e9s nord-am\u00e9ricaines\u201d, Scilicet 6-7, Paris, Seuil, 1976, p. 42 \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> J. Lacan. Scilicet 6-7, p. 50.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Segunda li\u00e7\u00e3o aprendida por Esthela na primeira entrevista com Lacan.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> S. Cottet. <em>Autonom\u00eda del control<\/em>. La pr\u00e1tica anal\u00edtica. Buenos Aires, Paid\u00f3s. 2003, p. 189.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> E. Solano. Idem, p. 44.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> S. Cottet. Idem, p. 189.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ibidem, p. 184.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> E. Solano. Idem, p. 44.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ibidem, p. 43.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ibidem, p. 43.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laureci Nunes Membro da EBP\/AMP Na leitura do rec\u00e9m-lan\u00e7ado livro de Esthella Solano, Tr\u00eas segundos com Lacan, uma passagem em especial me saltou aos olhos: quando ela traz a sua experi\u00eancia com Lacan, j\u00e1 n\u00e3o como seu analista, mas como aquele com quem ela esperava supervisionar a sua pr\u00e1tica cl\u00ednica. 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