{"id":3759,"date":"2022-10-17T06:58:03","date_gmt":"2022-10-17T09:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3759"},"modified":"2022-10-17T06:58:03","modified_gmt":"2022-10-17T09:58:03","slug":"som-e-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/som-e-silencio\/","title":{"rendered":"Som e sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<h6>Marcia Stival<br \/>\nMembro EBP\/AMP<\/h6>\n<p>O interesse pela complexidade do universo sonoro me leva da m\u00fasica dodecaf\u00f4nica aos fundamentos da m\u00fasica destacados pelo som, ru\u00eddo e sil\u00eancio.\u00a0 Ou seja, de um sistema que apresenta inova\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o das notas musicais (dodecafonismo) para a m\u00fasica de John Cage, que envolve a improvisa\u00e7\u00e3o e o acaso. Uma base para lan\u00e7ar quest\u00f5es que instiguem a pensar sobre a escuta e interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edticas.<\/p>\n<p>\u201cNa m\u00fasica, a liberdade de representa\u00e7\u00e3o j\u00e1 sublinhada por Schopenhauer, o afasta cada vez mais de modelos discursivos e narrativos. A m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 descritiva &#8230; [e] a revolu\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX \u00e9 a da emancipa\u00e7\u00e3o da harmonia e da tonalidade.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> As dimens\u00f5es que o campo musical abre com o dodecafonismo tinham em sua base produ\u00e7\u00f5es sem um centro tonal<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Um dos maiores compositores do s\u00e9culo XX, pioneiro da \u201cm\u00fasica aleat\u00f3ria\u201d, foi John Cage. Numa confer\u00eancia que realizou em 1957, Cage destacou que m\u00fasica \u00e9 \u00a0&#8220;um jogo sem prop\u00f3sito, que \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o da vida \u2013 n\u00e3o uma tentativa de trazer a ordem no caos nem sugerir aperfei\u00e7oamentos na cria\u00e7\u00e3o, mas simplesmente um jeito de acordar para a pr\u00f3pria vida que estamos vivendo&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Tendo como base a arte de Cage, \u201cacordar\u201d comportaria tocar o corpo a partir do suporte material da linguagem, reduzido a alguns elementos sonoros? <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Cage destaca que \u201co sil\u00eancio absoluto n\u00e3o existe\u201d, uma vez que sempre haver\u00e1 um ru\u00eddo, uma manifesta\u00e7\u00e3o sonora. \u00c9 com essa premissa que a composi\u00e7\u00e3o <em>Quarteto de Cordas em Quatro Partes<\/em> aponta para a po\u00e9tica do sil\u00eancio, na qual ele se utiliza dos clusters<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Cage come\u00e7ou a us\u00e1-los executando as mesmas notas num mesmo instrumento. Isso ocorria sempre que uma nota da melodia surgia em determinada oitava. Segundo Pritchett (2014), \u201cnas sequ\u00eancias incomuns criadas atrav\u00e9s das vozes est\u00e1ticas nas combina\u00e7\u00f5es dos agregados (clusters), ao tratar os materiais em uma esp\u00e9cie de modelo sistematizado, Cage descobria uma \u2018n\u00e3o-expressividade\u2019, pelo menos no que diz respeito \u00e0 harmonia.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Assim, a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria deste compositor ganhava um novo direcionamento. O sil\u00eancio marcado na obra <em>Sonatas e Interl\u00fadios <\/em>favorecia um efeito de tranquilidade, segundo Cage. No entanto, o sil\u00eancio apresentado na composi\u00e7\u00e3o <em>Quarteto de Cordas em Quatro Partes <\/em>silenciava a harmonia sem tratar-se de um sil\u00eancio f\u00edsico. Como Cage chegou a dizer a seus pais, \u201csem na verdade usar o sil\u00eancio, eu gostaria de elogi\u00e1-lo.\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Se \u201cas resson\u00e2ncias&#8230; [advindas] da obra de arte&#8230; s\u00e3o necess\u00e1rias para o entendimento da nossa experi\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, conduzo-me a refletir que pela via do que se repete, mas n\u00e3o se articula com a harmonia presente; o artista toca com o som o que silencia simbolicamente. Ent\u00e3o, seria poss\u00edvel localizar no que se apresenta e n\u00e3o faz cadeia um material para a escuta? Ou seja, \u00e9 poss\u00edvel acusar recebimento do que silencia apesar de ser emitida pela voz, tal como palavras que tocam o corpo, se houver uma interpreta\u00e7\u00e3o? No que isto pode contribuir para refletirmos sobre a escuta anal\u00edtica?<\/p>\n<p>Mantenho em aberto essas quest\u00f5es, na inten\u00e7\u00e3o de que repercutam como um convite para a pr\u00f3xima preparat\u00f3ria da Jornada da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> COTTET, S. <em>Musique contemporaine: La fuite du son <\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cNotas individuais atuam como elemento mel\u00f3dico capaz de expressar uma tonalidade, adquirindo deste modo sua fun\u00e7\u00e3o tonal. Os acordes por sua vez, expressam sua fun\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da sua fundamental. Ambos elementos, notas individuais e acordes, s\u00e3o inclu\u00eddos na no\u00e7\u00e3o de regi\u00e3o tonal que considera segmentos escalares para estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre duas ou mais tonalidades.\u201d DUDEQUE, NORTON <em>SCHOENBERG E A FUN\u00c7\u00c3O TONAL <\/em>In:http:\/\/www.rem.ufpr.br\/_REM\/REMv2.1\/vol2.1\/Schoenberg\/Schoenberg%20e%20a%20Funcao.html#2b<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> CAGE, J. Wikipedia<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Clusters: <em>clusters <\/em>(cachos de sons), agregados sonoros produzidos no piano, que Cage herda do contato com Henry Cowell. Esses clusters geralmente envolvem o toque simult\u00e2neo de teclas brancas ou pretas vizinhas. In: Wikipedia https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cluster_(m%C3%BAsica)#:~:text=Um%20cluster%20um%20agrupamento%20de,e%20s%C3%A3o%20separados%20por%20semitons.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> PRITICHETT, JAMES. <em>Opening the doors into emptiness: the musical-spiritual journey of John Cage.<\/em> 2014. Dispon\u00edvel em: . Acesso em: 18 ago. 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> PRITICHETT, JAMES. <em>Opening the doors into emptiness: the musical-spiritual journey of John Cage.<\/em> 2014. Dispon\u00edvel em: . Acesso em: 18 ago. 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> LACAN, J. <em>A coisa freudiana<\/em> In: Escritos Rio de Janeiro: Zahar E., 1998, p.435.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcia Stival Membro EBP\/AMP O interesse pela complexidade do universo sonoro me leva da m\u00fasica dodecaf\u00f4nica aos fundamentos da m\u00fasica destacados pelo som, ru\u00eddo e sil\u00eancio.\u00a0 Ou seja, de um sistema que apresenta inova\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o das notas musicais (dodecafonismo) para a m\u00fasica de John Cage, que envolve a improvisa\u00e7\u00e3o e o acaso. 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