{"id":3757,"date":"2022-10-17T06:57:25","date_gmt":"2022-10-17T09:57:25","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3757"},"modified":"2022-10-17T06:57:25","modified_gmt":"2022-10-17T09:57:25","slug":"autoria-de-ouvido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/autoria-de-ouvido\/","title":{"rendered":"Autoria de ouvido"},"content":{"rendered":"<h6>Gustavo Ramos da Silva<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p>Na <em>Metamorfose<\/em> de Franz Kafka, Gregor Samsa, ap\u00f3s acordar e se dar conta de que perdeu a forma humana e virou um inseto em cima de sua cama, al\u00e9m de perder a forma, perde tamb\u00e9m a fala humana com a \u201c[&#8230;] assun\u00e7\u00e3o da indecifr\u00e1vel voz de um animal\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Desse ponto de vista, se o que lemos a partir de ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais oriundo de uma voz humana, como qualificar essa leitura? Isso me remonta ao \u00faltimo romance de Clarice Lispector, <em>A Paix\u00e3o Segundo GH<\/em>, quando a narradora em primeira pessoa perde sua montagem humana ao entrar no quarto da ex-empregada. Qual seria o estatuto dessa fala e dessa escuta advinda dessa fala?<\/p>\n<p>No livro <em>Escrever de ouvido<\/em>, Mar\u00edlia Librandi consegue cernir um pouco mais esse ponto ao postular a exist\u00eancia de uma escuta na escrita, fato esse que promoveria uma ressignifica\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio conceito de autoria. Um texto escrito ancorado na escuta, afirma ela, \u00e9 um texto que recebe ao inv\u00e9s de um texto que produz, \u00e9 mais um texto receptor do que produtor. Por conseguinte, um autor orientado pela escuta, atua menos como sujeito do que como objeto de recep\u00e7\u00e3o, como uma esp\u00e9cie de antena<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um ponto muito importante tamb\u00e9m na psican\u00e1lise, pois ressoa o Lacan de <em>Joyce, o sintoma<\/em>, ao apregoar: \u201cAchamos que dizemos o que queremos, mas \u00e9 o que quiseram os outros, mais particularmente nossa fam\u00edlia, que nos fala. Escutem esse n\u00f3s como um objeto direto.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Haveria a\u00ed um eco da antena receptora e n\u00e3o produtora. Lacan vai escutar o linguista \u00c9mile Benveniste ao afirmar que o sujeito recebe do Outro sua pr\u00f3pria mensagem, por\u00e9m de forma invertida. No pr\u00f3prio <em>Est\u00e1dio do Espelho<\/em>, n\u00f3s j\u00e1 conseguimos localizar essa desconex\u00e3o primordial ao se ver na l\u00e2mina refletora os lados invertidos, esquerdo para direito e vice-versa. Se \u00e9 desse Outro que recebemos a interpreta\u00e7\u00e3o, dependendo de como \u00e9 ouvida essa invers\u00e3o, marcas podem permanecer na escrita posterior sobre essa escuta. Como nos diz \u00c9ric Marty, em uma leitura de Judith Butler, a frase \u201cTu \u00e9s um ladr\u00e3o\u201d retorna espelhada como \u201cEu\u201d [<em>Je<\/em>], afinal de contas o Tu se torna Eu.<\/p>\n<p>J\u00e1 o fil\u00f3sofo Jean-Luc Nancy no livro <em>\u00c0 l\u2019\u00e9coute<\/em> distingue <em>entendre<\/em> (ouvir) e <em>\u00e9couter<\/em> (escutar). O ouvir significa entender o significado da mensagem, entender o que est\u00e1 sendo dito por meio do intelecto. J\u00e1 a escuta denota uma concentra\u00e7\u00e3o intensa e espec\u00edfica naquilo que \u00e9 recebido em termos de resson\u00e2ncia corporal, e que se preste aten\u00e7\u00e3o sobretudo \u00e0 entoa\u00e7\u00e3o, aos timbres, aos ru\u00eddos e aos sil\u00eancios.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> A escuta estaria antes da linguagem articulada e com o que vem depois, afirma Librandi, o que bem poderia ser uma poss\u00edvel defini\u00e7\u00e3o de lal\u00edngua. \u00c9 essa escrita do gozo sobre o corpo a que conservaria a estrutura invertida da mensagem, segundo \u00c9ric Laurent<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, denominando-a de interpreta\u00e7\u00e3o como acontecimento de corpo, justamente o que se perde tanto em Kafka quanto em Clarice, a referida montagem humana.<\/p>\n<p>Sob esse prisma, o conceito de infamiliar pode entrar em cena, na medida em que quando estamos fora de um lugar, de um territ\u00f3rio, que reconhecemos sua singularidade e nos tornamos estrangeiros. O perspectivismo amer\u00edndio vai al\u00e9m ao colocar inclusive o estar fora do corpo como uma possibilidade, antinarc\u00edsica \u00e9 claro, de se habitar um outro ponto de vista.<\/p>\n<p>Com isso, podemos postular uma autoria de ouvido na esteira do que Librandi escreve sobre o sacrif\u00edcio da voz dar origem a uma escuta des(autoral). Imagino a autoria de ouvido na boutade de Oswald de Andrade quando este escreve \u201ca gente escreve o que ouve &#8211; nunca o que houve\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> j\u00e1 nos colocando que \u00e9 preciso da leitura junto ao ouvido, afinal de contas a letra \u201ch\u201d que n\u00e3o \u00e9 nem consoante nem vogal, e n\u00e3o apresenta sonoridade. Apesar disso, promove uma pequena-grande diferen\u00e7a quando se faz presente e ausente, o que nos encaminha para a import\u00e2ncia da escrita de ouvido para diferenciarmos a escrita como inven\u00e7\u00e3o da escrita da Hist\u00f3ria, do que houve.<\/p>\n<p>Podemos terminar como come\u00e7amos, com a passagem que serve de pontap\u00e9 para Mar\u00edlia Librandi escrever seu livro: \u201cE a pergunta \u00e9: como escrevo? Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi ingl\u00eas e franc\u00eas de ouvido.\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> N\u00e3o estar\u00edamos a\u00ed diante de uma autoria de ouvido?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ANDRADE, Oswald de. <em>Est\u00e9tica e pol\u00edtica<\/em>. BOAVENTURA, Maria Eugenia (Org.). 2. ed. ver. e ampl. S\u00e3o Paulo: Globo, 2011<\/h6>\n<h6>KAFKA, Franz. <em>Metamorfose<\/em>. Trad. de Modesto Carone. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1997.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: o sinthoma (1975-1976). Trad. de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LIBRANDI, Mar\u00edlia. <em>Escrever de ouvido<\/em>: Clarice Lispector e os romances da escuta. Trad. de Jamille Pinheiro Dias e Sheyla Miranda. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2020.<\/h6>\n<h6>LISPECTOR, Clarice. <em>A hora da estrela<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.<\/h6>\n<h6>_______. <em>A paix\u00e3o segundo GH<\/em>: romance. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.<\/h6>\n<h6>NANCY, Jean-Luc Nancy. <em>\u00c0 escuta<\/em>. Trad. de Fernanda Bernardo. Belo Horizonte: Edi\u00e7\u00f5es Ch\u00e3o da Feira, 2014.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista. Participante da Comiss\u00e3o de Refer\u00eancias da 3<sup>a<\/sup> Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul da EBP. Integrante da Comiss\u00e3o de Cart\u00e9is da EBP. Doutor em Literatura (UFSC).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LIBRANDI, Mar\u00edlia. <em>Escrever de ouvido<\/em>: Clarice Lispector e os romances da escuta. Trad. de Jamille Pinheiro Dias e Sheyla Miranda. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2020. p. 218.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibid, p. 72.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: o sinthoma (1975-1976). Trad. de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. p. 158.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> NANCY, Jean-Luc. <em>\u00c0 escuta<\/em>. Trad. de Fernanda Bernardo. Belo Horizonte: Edi\u00e7\u00f5es Ch\u00e3o da Feira, 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LAURENT, \u00c9ric. La interpretaci\u00f3n acontecimiento. Trad. de Tom\u00e1s Verger. In: <em>Revista Virtualia<\/em>, n. 37, out. 2019. p. 4.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> ANDRADE, Oswald de. Objeto e fim da presente obra. In: <em>Est\u00e9tica e pol\u00edtica<\/em>. BOAVENTURA, Maria Eugenia (Org.). 2. ed. revis. e ampl. S\u00e3o Paulo: Globo, 2011. p. 62.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LISPECTOR, Clarice. <em>A hora da estrela<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 18.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Ramos da Silva[1] Na Metamorfose de Franz Kafka, Gregor Samsa, ap\u00f3s acordar e se dar conta de que perdeu a forma humana e virou um inseto em cima de sua cama, al\u00e9m de perder a forma, perde tamb\u00e9m a fala humana com a \u201c[&#8230;] assun\u00e7\u00e3o da indecifr\u00e1vel voz de um animal\u201d[2]. 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