{"id":3755,"date":"2022-10-17T06:56:14","date_gmt":"2022-10-17T09:56:14","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3755"},"modified":"2022-10-17T06:56:14","modified_gmt":"2022-10-17T09:56:14","slug":"lugar-da-escuta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/lugar-da-escuta\/","title":{"rendered":"Lugar da escuta"},"content":{"rendered":"<h6><em>Alexandre Nodari<br \/>\n<\/em><em>Professor de Literatura Brasileira (UFSC)<\/em><\/h6>\n<ol>\n<li>Em 1982, Anthony Seeger registra uma perora\u00e7\u00e3o de Petxi, especialista ritual k\u0129s\u00eadj\u00ea, um discurso que, apesar de repetir, numa t\u00e9cnica orat\u00f3ria, a palavra\u00a0<em>kap\u1ebdr\u1ebd,\u00a0<\/em>\u201cfala\u201d, \u201cfalar\u201d, \u00e9 uma exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 escuta, baseada em sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e em seu pr\u00f3prio exerc\u00edcio da audi\u00e7\u00e3o. Nascido\u00a0<em>outro<\/em>, \u201cem uma aldeia de \u00edndios Wauja no Alto Xingu\u201d, mas tendo sido raptado, com sua m\u00e3e, e adotado desde pequeno pelos K\u0129s\u00eadj\u00ea, Petxi ali se refere \u201c\u00e0 casa-dos-homens, no p\u00e1tio, onde os jovens iniciados moravam at\u00e9 ter filhos, casar e ir morar na casa de suas esposas\u201d, de \u201cforma incomum\u201d (t\u00e3o incomum para Seeger a ponto de ele fazer essa glosa citada), como o \u201clugar da escuta\u201d:<\/li>\n<\/ol>\n<blockquote><p>Crian\u00e7as, vou falar a voc\u00eas. Ou\u00e7am a minha fala. Talvez voc\u00eas ou\u00e7am a minha fala. Nossos pais, nossos av\u00f3s \u2013 n\u00e3o os meus, pois n\u00e3o nasci k\u0129s\u00eadj\u00ea e tenho vergonha de falar na sua l\u00edngua \u2013 sempre falaram com seus filhos. A sua m\u00e3e, a nossa m\u00e3e, o irm\u00e3o da sua m\u00e3e, o seu pai falavam com voc\u00eas e voc\u00eas os ouviam falar. Voc\u00eas os ouviam falar. Voc\u00eas ouviam a fala deles e se comportavam direito. Voc\u00eas obedeciam \u00e0 fala deles e se comportavam direito. Nossos doadores de nomes sempre fizeram assim. Falavam com seus filhos e moravam juntos. Falavam com seus netos. Estes n\u00e3o se zangavam, apenas ouviam a fala deles.<br \/>\nOs rapazes que moravam na casa-dos-homens. Os filhos, netos, iam ao lugar da escuta.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel afirmar se a estranheza da express\u00e3o, que, em sua tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas, soa quase como a defini\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica, prov\u00e9m de um modo ritual de adensar a linguagem (para fazer uso da defini\u00e7\u00e3o de poesia de Jerome Rothenberg), comum a diversas artes verbais amer\u00edndias, mas n\u00e3o s\u00f3 a elas (j\u00e1 a\u00a0<em>Po\u00e9tica\u00a0<\/em>aristot\u00e9lica recomendava o uso de estrangeirismos, barbarismos, met\u00e1foras, etc., para tornar a linguagem \u201celevada\u201d), se antes tem como fonte a condi\u00e7\u00e3o estrangeira de Petxi, a qual ele remete e que talvez estivesse conscientemente querendo ressaltar, ou ainda se o estranhamento n\u00e3o deriva do antrop\u00f3logo, hip\u00f3tese menos prov\u00e1vel, embora prop\u00edcia para um exerc\u00edcio especulativo. Seja como for, o \u201clugar da escuta\u201d, express\u00e3o que \u00e9 uma fala-sobre-a-escuta (inserida numa fala sobre a escuta), estranha aos nossos ouvidos (e mesmo aos dos nativos, levando em considera\u00e7\u00e3o tanto a observa\u00e7\u00e3o de Seeger quanto ao seu car\u00e1ter incomum, quanto o conte\u00fado da perora\u00e7\u00e3o de Petxi, cr\u00edtico \u00e0 falta do exerc\u00edcio da escuta na casa-dos-homens pelos mais jovens), por isso mesmo, ativa nossa audi\u00e7\u00e3o. Ela nos leva a especular que talvez seja s\u00f3 nessa posi\u00e7\u00e3o estrangeira (interna ou externa) que possa constituir um\u00a0<em>lugar da escuta<\/em>.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>\u201cLugar de escuta\u201d \u00e9 uma express\u00e3o que tem sido proposta em v\u00e1rias frentes numa resson\u00e2ncia-dissonante (ou disso-resson\u00e2ncia) com a no\u00e7\u00e3o de \u201clugar de fala\u201d. Todavia, nosso interesse nela \u00e9 outro, at\u00e9 porque a express\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 outra: lugar\u00a0<em>da\u00a0<\/em>escuta, e n\u00e3o lugar\u00a0<em>de\u00a0<\/em>escuta. A diferen\u00e7a \u00e9 m\u00ednima, e pode muito bem ser um desvio tradut\u00f3rio, afinal, no \u201coriginal\u201d,\u00a0<em>Why Suy\u00e1 Sing<\/em>, a express\u00e3o em ingl\u00eas que traduz o termo k\u0129s\u00eadj\u00ea \u00e9 \u201c<em>listening place<\/em>\u201d, que seria \u201cmelhor\u201d vertido por \u201clugar\u00a0<em>de\u00a0<\/em>escuta\u201d. Mas, a nosso ver, esse desvio apresenta mais uma camada de estranhamento, agora em nossa pr\u00f3pria l\u00edngua, ou melhor dizendo, traduz o estranhamento do original (k\u0129s\u00eadj\u00ea) para a nossa pr\u00f3pria l\u00edngua. Pois se lugar\u00a0<em>de\u00a0<\/em>escuta designa a posi\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>sujeito<\/em>(aquele que ouve, que est\u00e1 disposto a ouvir), o lugar\u00a0<em>da\u00a0<\/em>escuta \u00e9 um\u00a0<em>lugar\u00a0<\/em>em que a escuta tem lugar, o lugar dela \u2013 ou seja, o lugar\u00a0<em>da\u00a0<\/em>escuta seria a condi\u00e7\u00e3o de todo lugar\u00a0<em>de\u00a0<\/em>escuta. O desvio tradut\u00f3rio, assim, ademais, clarificaria o sentido do pr\u00f3prio original, afinal, a casa-dos-homens \u00e9 um<strong>\u00a0lugar<\/strong>\u00a0<em>da\u00a0<\/em>escuta que possibilita o lugar\u00a0<em>de\u00a0<\/em>escuta.<\/li>\n<li>Um bom exemplo do lugar da escuta \u00e9 a \u201ctradu\u00e7\u00e3o total\u201d feita por Rothenberg da d\u00e9cima-terceira das\u00a0<em>Horse-songs<\/em>, as\u00a0<em>Can\u00e7\u00f5es-cavalos<\/em>, de Frank Mitchell. \u00c9 dif\u00edcil descrever aqui o procedimento, e mesmo a descri\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio tradutor, em <em>Etnopoesia do mil\u00eanio <\/em>(no cap. \u201cTradu\u00e7\u00e3o total: uma experi\u00eancia na apresenta\u00e7\u00e3o de poesia amer\u00edndia\u201d), n\u00e3o d\u00e1 conta da experi\u00eancia de escut\u00e1-lo em ato (recomendo ao leitor que assista uma vocaliza\u00e7\u00e3o recente de sua tradu\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1Wk1XoFYDe4\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1Wk1XoFYDe4<\/a>), pois se trata justamente de uma trans-posi\u00e7\u00e3o do lugar em que tem lugar a escuta. Em primeiro lugar, Rothenberg incorpora em sua tradu\u00e7\u00e3o o que os nativos costumam chamar de \u201cpalavras de m\u00fasica\u201d, aqueles termos destitu\u00eddos de sentido sem\u00e2ntico, mas que <em>fazem <\/em>sentido em outro sentido (nos sentidos outros que o intelectual), ou, para fazer uso de uma express\u00e3o de M\u00e1rio de Andrade, ele traduz (mantendo-a) a \u201cindestina\u00e7\u00e3o inteclectual do seu som\u201d. Al\u00e9m disso, incorpora tamb\u00e9m o ru\u00eddo ambiente, e ainda, na medida em que se tratava de uma can\u00e7\u00e3o ritual e coletiva, a sobreposi\u00e7\u00e3o de vozes dos outros cantores &#8211; baseada numa extrapola\u00e7\u00e3o especulativa do tradutor, j\u00e1 que sua base \u00e9 a vers\u00e3o gravada apenas por Mitchell (uma reprodu\u00e7\u00e3o). O resultado \u00e9 uma bela, embora confusa, massa sonora, que beira a\u00a0<em>lalangue<\/em>de que falava Lacan, e uma cr\u00edtica, altamente sedutora de ser feita a um primeiro contato, seria apontar a sua incompreensibilidade referencial-sem\u00e2ntica. Contudo, tal cr\u00edtica partiria do princ\u00edpio de que ele estava traduzindo a fala (do cantor) e n\u00e3o a escuta (dele mesmo), ou seja, que ele estava traduzindo um lugar de fala (de um \u201ceu\u201d) e n\u00e3o um lugar de escuta (de um \u201ctu\u201d ou \u201cele\u201d). A magistralidade formal do gesto de Rothenberg, a meu ver, est\u00e1 em traduzir n\u00e3o a partir da posi\u00e7\u00e3o do enunciador nativo, e nem mesmo do audit\u00f3rio\/ouvinte nativo, mas sim do ouvinte <em>estrangeiro<\/em>. Ele n\u00e3o omite a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o de estrangeiro, o pr\u00f3prio lugar de escuta, antes, busca traduzir essa estrangeiridade<em>para a pr\u00f3pria l\u00edngua<\/em>: ele transporta (trans-p\u00f5e) esse lugar de escuta estrangeiro para o ingl\u00eas, sua l\u00edngua nativa. N\u00e3o se trata de reproduzir o lugar de fala, ou mesmo de escuta, do outro, mas de transpor um lugar de escuta, o seu pr\u00f3prio lugar de escuta numa l\u00edngua estrangeira, para dentro da sua pr\u00f3pria l\u00edngua nativa. A l\u00edngua nativa se torna estrangeira, e o espa\u00e7o do poema (a tradu\u00e7\u00e3o\/performance do canto) se torna, assim, um lugar\u00a0<em>da\u00a0<\/em>escuta, que demanda que seus leitores ocupem um lugar (estrangeiro)\u00a0<em>de\u00a0<\/em>escuta, dando lugar \u00e0 indestina\u00e7\u00e3o do sentido ou sentido \u00e0 indestina\u00e7\u00e3o, fazendo, em suma, da indestina\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio sentido.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Nodari Professor de Literatura Brasileira (UFSC) Em 1982, Anthony Seeger registra uma perora\u00e7\u00e3o de Petxi, especialista ritual k\u0129s\u00eadj\u00ea, um discurso que, apesar de repetir, numa t\u00e9cnica orat\u00f3ria, a palavra\u00a0kap\u1ebdr\u1ebd,\u00a0\u201cfala\u201d, \u201cfalar\u201d, \u00e9 uma exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 escuta, baseada em sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e em seu pr\u00f3prio exerc\u00edcio da audi\u00e7\u00e3o. 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