{"id":3714,"date":"2022-09-23T09:29:40","date_gmt":"2022-09-23T12:29:40","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3714"},"modified":"2022-09-23T09:29:40","modified_gmt":"2022-09-23T12:29:40","slug":"escansao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/escansao-2\/","title":{"rendered":"Escans\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6>Juan Cruz Galigniana<br \/>\nParticipante da Comiss\u00e3o de Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/h6>\n<blockquote><p><em>\u201cO psicanalista s\u00f3 consegue acertar o alvo se ele estiver \u00e0 altura da interpreta\u00e7\u00e3o operada pelo inconsciente, j\u00e1 estruturado como linguagem. Ainda \u00e9 preciso n\u00e3o reduzir essa linguagem \u00e0 concep\u00e7\u00e3o que a lingu\u00edstica pode ter dela, de uma liga\u00e7\u00e3o entre significante e significado. \u00c9 preciso dar todo o seu lugar \u00e0 barra que separa as duas dimens\u00f5es e permite a topologia da po\u00e9tica. A fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica revela que a linguagem n\u00e3o \u00e9 significado, e evidencia a mat\u00e9ria que, no som, excede o sentido\u201d <\/em>(\u00c9ric Laurent)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Em um tempo em que as modalidades de escuta se multiplicam e intensificam as tentativas de constranger o discurso psicanal\u00edtico a uma l\u00f3gica toda e \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o do saber, Laurent aborda as singularidades atuais da escuta psicanal\u00edtica. Ele delineia um pouco da trajet\u00f3ria percorrida pela no\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o do primeiro ao \u00faltimo ensino, da interpreta\u00e7\u00e3o tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o assem\u00e2ntica e o escrito.<\/p>\n<p>Sabemos que j\u00e1 antes do \u00faltimo ensino, Lacan vai al\u00e9m do tern\u00e1rio edipiano, substituindo-o pelo tern\u00e1rio do Real, do Simb\u00f3lico e do Imagin\u00e1rio. Mas a opera\u00e7\u00e3o deste novo tern\u00e1rio e, sobretudo, o estatuto do real mudam no transcorrer de seu ensino: de um real que se confunde com o sentido a<em> \u201cum real que se decanta ao ser exclu\u00eddo do sentido\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>. Nesta passagem que vai da satisfa\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica \u00e0 resson\u00e2ncia do corpo, do sujeito ao falasser, nos encontramos com esse novo tern\u00e1rio n\u00e3o sem um quarto elemento, uma vez que o <em>sinthoma<\/em> entra na concep\u00e7\u00e3o do n\u00f3 borromeano como \u201co la\u00e7o enigm\u00e1tico entre imagin\u00e1rio, simb\u00f3lico e real ou supondo a ex-sist\u00eancia do sintoma\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas em que consiste esse <em>\u201cdar todo lugar \u00e0 barra\u201d? <\/em>\u00c9 poss\u00edvel pensar que a opera\u00e7\u00e3o com essa barra seria algo do que muda ao longo do ensino lacaniano? Talvez possamos entender que, em um primeiro momento, a interpreta\u00e7\u00e3o se orientaria por certa permeabilidade da barra, atrav\u00e9s da qual as cadeias significantes podem realizar enganchamentos com o campo do significado e produzir efeitos de saber e de sentido. J\u00e1 no \u00faltimo ensino, certa impermeabilidade tomaria conta dela, estabelecendo uma separa\u00e7\u00e3o radical entre significante e significado. Assim, ganharia a cena o esfor\u00e7o po\u00e9tico de se ler e de se fazer soar, pelo dizer e n\u00e3o pela fala, as resson\u00e2ncias do que estava escrito, as maneiras em que a l\u00edngua incide sobre o corpo.<\/p>\n<p>Veio-me \u00e0 lembran\u00e7a a palavra <em>tessitura, <\/em>adotada do italiano pela l\u00edngua portuguesa. Essa origem d\u00e1 lugar \u00e0 curiosa grafia que marca o corpo da palavra com \u201css\u201d e n\u00e3o com a letra \u201cc\u201d. \u00a0Etimologicamente, tessitura refere-se \u00e0 <em>contextura<\/em> de um tecido ou de uma obra liter\u00e1ria. Mas tamb\u00e9m se utiliza no \u00e2mbito musical para definir o intervalo de notas entre as quais algu\u00e9m pode cantar sem for\u00e7ar demasiadamente a voz. Refere-se tamb\u00e9m \u00e0 s\u00e9rie de notas que se repetem dando estrutura \u00e0 composi\u00e7\u00e3o musical. Quem sabe a escuta anal\u00edtica possa ser tamb\u00e9m pensada como o ato de se ler a <em>tessitura<\/em> da voz, dos sons, quando desta escapa um fiapo, uma <em>equi(e)voca\u00e7\u00e3o,<\/em> algo que pode nos remeter tanto \u00e0 trama significante do que se fala, quanto \u00e0s diversas <em>diz-mens\u00f5es <\/em>da letra. Restaria como quest\u00e3o, para <em>acertar o alvo, <\/em>o tempo, o momento, a escolha da interpreta\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LAURENT, \u00c9. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o: da escuta ao escrito\u201d, Correio 87, S\u00e3o Paulo, EBP, abril de 2022, p. 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 23: O sinthome, 1975-1976, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2007, p. 62.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 21.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juan Cruz Galigniana Participante da Comiss\u00e3o de Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas \u201cO psicanalista s\u00f3 consegue acertar o alvo se ele estiver \u00e0 altura da interpreta\u00e7\u00e3o operada pelo inconsciente, j\u00e1 estruturado como linguagem. 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