{"id":3704,"date":"2022-08-19T11:17:54","date_gmt":"2022-08-19T14:17:54","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3704"},"modified":"2022-08-19T11:17:54","modified_gmt":"2022-08-19T14:17:54","slug":"escuta-ressonancia-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/escuta-ressonancia-leitura\/","title":{"rendered":"Escuta, resson\u00e2ncia, leitura"},"content":{"rendered":"<h6>Eneida Medeiros Santos<br \/>\nMembro EBP\/AMP<\/h6>\n<p>No Discurso de Roma de 1953<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>,\u00a0 Lacan faz cr\u00edticas contundentes a certos usos, na condu\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise, das fun\u00e7\u00f5es da fala. O psicanalista pode tornar-se mestre\/senhor de tudo o que se passa nessa experi\u00eancia se ignora que o valor da experi\u00eancia da fala vai muito al\u00e9m de que qualquer efeito de inten\u00e7\u00e3o do sujeito, se ignora que o sujeito \u00e9 mais falado do que falante. Ser falado assemelha-se muito com a aliena\u00e7\u00e3o na loucura, o que levou Lacan, tomando Pascal de empr\u00e9stimo, a nos dizer: \u201cos homens s\u00e3o t\u00e3o necessariamente loucos que seria enlouquecer por uma outra forma de loucura n\u00e3o ser louco\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>. Assim, a primeira coisa que cai, quando se inicia uma an\u00e1lise, \u00e9 a cren\u00e7a de que \u201ceu falo\u201d, irrompendo da\u00ed o sou falado.<\/p>\n<p>Na Dire\u00e7\u00e3o do Tratamento<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a> de 1958, Lacan aborda a fala como condi\u00e7\u00e3o da escuta anal\u00edtica. \u00c9 a fala que guia o tratamento e que atesta os seus poderes. Na an\u00e1lise, o sujeito \u00e9 livre para se experimentar nisso, liberdade que ele pouco tolera e a presen\u00e7a do analista s\u00f3 se faz notar mais adiante, quando surge o momento em que esse mesmo sujeito se cala.<\/p>\n<p>Nesses textos iniciais do ensino de Lacan, encontramos elos com seus textos finais, quando, guiado por Joyce, ele vai falar das falas impostas. \u201cComo \u00e9 que todos n\u00f3s n\u00e3o sentimos que as falas das quais dependemos s\u00e3o, de algum modo, impostas?\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. A loucura ultrapassa em muito a ideia de normalidade e \u201ca quest\u00e3o \u00e9 antes saber por que um homem dito normal n\u00e3o percebe que a fala \u00e9 um parasita [\u2026]\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 Joyce quem vai lhe mostrar n\u00e3o se tratar de se livrar do parasitismo da fala, ao contr\u00e1rio, trata-se de faz\u00ea-la ressoar, de captar como faz Joyce em <em>Um<\/em> <em>retrato do artista quando jovem<\/em>, em <em>Ulysses<\/em> e em <em>Finnegans Wake<\/em>. Essa fala, ao ser quebrada, desmantelada, acaba por ser escrita, impondo uma tal decomposi\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem destruindo sua identidade fonat\u00f3ria<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>.<\/p>\n<p>Desse modo, a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise atesta que a fala sempre esbarra em um limite. H\u00e1 algo inoperante nela, uma fratura mostrando que entramos no territ\u00f3rio da escrita. Um equ\u00edvoco, a troca de uma letra, a forma de <em>r\u00e9bus<\/em> dos sonhos, remetem-nos \u00e0 escrita. Para poder capt\u00e1-los percorremos o caminho que vai da escuta da fala \u00e0 leitura da letra. Cada vez\u00a0que se recorta, que se pontua o detalhe mais \u00ednfimo de uma fala, com valor de significante, produz-se uma escritura e ela se oferece, ent\u00e3o, \u00e0 leitura.<\/p>\n<p>A escuta anal\u00edtica \u00e9 o que vai sustentar a interpreta\u00e7\u00e3o do analista. \u00c9ric Laurent destaca tr\u00eas regimes de interpreta\u00e7\u00e3o: aquela que aponta ao sentido, ou \u00e0 multiplicidade de sentidos, sem estar aberto \u00e0 dimens\u00e3o de todos os sentidos; a interpreta\u00e7\u00e3o apontando para o objeto a, que circula nas entrelinhas do sentido; e a interpreta\u00e7\u00e3o que aponta para a resson\u00e2ncia, para algo que ressoa no espa\u00e7o entre o sentido, o que ressoa no fora-do-sentido<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>.<\/p>\n<p>Voltando ao Discurso de Roma, ao esmiu\u00e7ar as rela\u00e7\u00f5es da fala com a linguagem, Lacan destaca a import\u00e2ncia da redund\u00e2ncia para a psican\u00e1lise. Diz ele que as pesquisas das telecomunica\u00e7\u00f5es (as de sua \u00e9poca \u00e9 claro, e o que dir\u00edamos hoje sobre os algoritmos de linguagem na internet?), o estudo das possibilidades de fazer diversas conversas viajarem por um \u00fanico fio telef\u00f4nico, constataram que uma parte importante do meio fon\u00e9tico \u00e9 sup\u00e9rflua para que se realize a comunica\u00e7\u00e3o efetivamente buscada. Quer dizer, elimina-se o que se repete. Ao contr\u00e1rio, ele continua, a redund\u00e2ncia, a insist\u00eancia in\u00fatil e o excesso s\u00e3o aquilo que, precisamente na fala, fazem as vezes de resson\u00e2ncia. Escutar as resson\u00e2ncias da fala, aquilo que se repete desde o in\u00edcio, implica em captar os momentos fulgurantes da presen\u00e7a do real, momento em que a l\u00f3gica do inconsciente se reduz \u00e0 letra a ser lida.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> LACAN, Jacques. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In: <em>Escritos<\/em>. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Ibid, p. 284.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> LACAN, Jacques. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In: <em>Escritos<\/em>. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: o sinthoma (1975-1976). Trad. de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 92.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Ibid, p. 92.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Ibid, p. 93.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> LAURENT, \u00c9ric. \u00bfQu\u00e9 es un psicoan\u00e1lisis orientado hacia lo real? In: <em>Resonancias<\/em>: revista de psicoan\u00e1lisis del Nuevo Cuyo. Buenos Aires: Grama Ediciones, p. 15.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eneida Medeiros Santos Membro EBP\/AMP No Discurso de Roma de 1953[i],\u00a0 Lacan faz cr\u00edticas contundentes a certos usos, na condu\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise, das fun\u00e7\u00f5es da fala. 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