{"id":3621,"date":"2022-06-27T10:58:34","date_gmt":"2022-06-27T13:58:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3621"},"modified":"2022-06-27T10:58:34","modified_gmt":"2022-06-27T13:58:34","slug":"entre-posicoes-e-semblantes-confusoes-e-infamiliaridades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/entre-posicoes-e-semblantes-confusoes-e-infamiliaridades\/","title":{"rendered":"Entre posi\u00e7\u00f5es e semblantes: confus\u00f5es e infamiliaridades"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Juliana Rego Silva<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><em>N\u00e3o existe Outro do Outro, <\/em><\/p>\n<p><em>n\u00e3o existe a verdade sobre a verdade. <\/em><\/p>\n<p>(Jacques Lacan)<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 17 de novembro de 2019 o fil\u00f3sofo Paul B. Preciado realizou uma interven\u00e7\u00e3o em sess\u00e3o plen\u00e1ria na 49\u00aa Jornada da Escola da Causa Freudiana cujo tema foi \u201cMulheres em Psican\u00e1lise\u201d. Seria simples e demasiado ing\u00eanuo interpretar os ecos dessa participa\u00e7\u00e3o como &#8220;bom ou ruim&#8221;, ser &#8220;a favor&#8221; ou &#8220;contra&#8221;. A complexidade em quest\u00e3o se d\u00e1 pela variedade de mal entendidos sustentados como certezas ilimitadas que colocam, a cada um de n\u00f3s, analistas, a responsabilidade da escolha te\u00f3rica, cl\u00ednica e pol\u00edtica do que fazer com isso. Ao ouvinte desavisado, valeria o esfor\u00e7o de retornar \u00e0 interven\u00e7\u00e3o com muita clareza sobre nossas bases te\u00f3ricas, esclarecendo assim, que a problem\u00e1tica da sexua\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 essencialista j\u00e1 desde Freud, ou seja, compreendemos que a sexualidade humana na\u0303o se restringe ao sexo anato\u0302mico, tampouco ao ge\u0302nero designado civilmente. Essa constata\u00e7\u00e3o, que produz esvaziamento em algumas das cr\u00edticas de Preciado, n\u00e3o anula a inquieta\u00e7\u00e3o de suas outras provoca\u00e7\u00f5es epist\u00eamicas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de sua fala Preciado faz analogia ao conto Relat\u00f3rio para a Academia, de Franz Kafka. Vejamos: \u201cComo o macaco Pedro Vermelho se dirigiu \u00e0 Academia de cient\u00edficos, me dirijo hoje a voc\u00eas, acad\u00eamicos de psican\u00e1lise, desde minha jaula de homem transexual\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>No conto, o personagem Pedro Vermelho \u00e9 um macaco que aprendeu a se comportar como um ser humano e apresenta para a Academia a hist\u00f3ria de como ele conseguiu sua transforma\u00e7\u00e3o. O macaco se dirige \u00e0s autoridades cient\u00edficas a partir de uma jaula &#8211; uma met\u00e1fora para a pr\u00f3pria subjetividade humana. Dentre as coisas que se pode ouvir ou interpretar, escolho pensar que quando Preciado faz uso dessa met\u00e1fora para se identificar e se dirigir aos psicanalistas, h\u00e1 a\u00ed uma oportunidade para revisitar nossos fundamentos cl\u00ednicos. De modo preliminar podemos dizer que, desde o Semin\u00e1rio 17 &#8211; o avesso da psican\u00e1lise, sabemos que o discurso da psican\u00e1lise \u00e9 substancialmente diferente do discurso universit\u00e1rio e que o agente, no discurso do analista, \u00e9 o desejo inconsciente, um questionamento dos significantes mestres. Ainda que possamos entender a jaula como o pr\u00f3prio campo da subjetividade, n\u00e3o fica claro se a met\u00e1fora poderia caber para se pensar o corpo, o semblante ou o discurso.<\/p>\n<p>Em geral se descobre, no decorrer de uma an\u00e1lise, como pode ser tentador ocupar essa posi\u00e7\u00e3o de supor um Outro n\u00e3o enjaulado pelo corpo, pelo semblante ou pelo discurso. Um Outro que pudesse gozar de uma liberdade em termos do saber fazer com o sexual e que pudesse viver, sem amarras e aprisionamento, a constru\u00e7\u00e3o livre de um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Trago aqui esse semin\u00e1rio, o 18, pois \u00e9 nele que Lacan se interroga sobre os limites do dito, sobre a articula\u00e7\u00e3o entre saber e verdade, escrito e linguagem, interrogando, de sa\u00edda, se haveria um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Ele sugere, ainda, que se h\u00e1 em Freud algo de revolucion\u00e1rio, foi na medida em que ele p\u00f4s em primeiro plano uma fun\u00e7\u00e3o, assim como Marx, de considerar um certo n\u00famero de fatos como sintomas. Lacan diz: a dimens\u00e3o do sintoma \u00e9 que isso fala. Fala inclusive com os que n\u00e3o sabem ouvir. E n\u00e3o diz tudo, nem mesmo aos que o sabem<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Qu\u00e3o sintom\u00e1tico de nossa \u00e9poca pode ter sido o convite \u00e0 Preciado para tal jornada, o tom e as tem\u00e1ticas de sua interven\u00e7\u00e3o e os efeitos decorrentes dela na comunidade anal\u00edtica?<\/p>\n<p>Estar\u00edamos certamente dessintonizados da subjetividade de nossa \u00e9poca se nos omitirmos de pensar que h\u00e1 a\u00ed tamb\u00e9m um esclarecimento pol\u00edtico necess\u00e1rio: cada &#8220;enjaulamento&#8221; \u00e9 certamente vivido de modo radicalmente diferente. Ou seja, \u00e9 certo que h\u00e1 de existir algo insustent\u00e1vel em cada estrutura que forje um saber sobre a sexualidade humana e \u00e9 esse insustent\u00e1vel que escapa justamente \u00e0 qualquer estrutura<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.\u00a0 Diante do aprisionamento dos discursos totalizantes como o da ci\u00eancia, da religi\u00e3o ou do capitalismo, constru\u00edmos inven\u00e7\u00f5es muito singulares de desprendimento e algumas possibilidades de inventar uma vida mais viv\u00edvel que se afaste necessariamente de uma perspectiva naturalizante.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que quanto ao sexual e a montagem de um corpo pr\u00f3prio, precisamos pensar na necessidade constante de produzir inven\u00e7\u00f5es, de certo modo, sempre prec\u00e1rias. Essa inven\u00e7\u00e3o, como diz Marcus Andr\u00e9 Vieira<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, \u00e9 um \u201csaber se virar\u201d e n\u00e3o um know-how. \u00c9 nessa posi\u00e7\u00e3o de precariedade que nos localizamos diante da sexual. Por\u00e9m no campo pol\u00edtico da vida, das rela\u00e7\u00f5es estruturais de poder, o significante da precariedade se apresenta de uma outra forma.<\/p>\n<p>Judith Butler, em Vida prec\u00e1ria: os poderes do luto e da viol\u00eancia<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, nos pergunta: ser\u00edamos inevitavelmente todos humanos, certo? Mas por que nosso luto e como\u00e7\u00e3o s\u00e3o direcionados para alguns? Quem conta como humano? Quem conta como uma vida viv\u00edvel? Vida prec\u00e1ria tamb\u00e9m \u00e9 o livro em que a autora desenvolve um questionamento sobre por que ao inv\u00e9s de repensarmos nossas pol\u00edticas de exist\u00eancia e o estado das coisas, no intuito de interrompermos as formas de viol\u00eancia, optamos, ao contr\u00e1rio, por reproduzir agressivamente a viol\u00eancia contra aqueles que chamamos de \u201coutros\u201d \u2013 os \u201cb\u00e1rbaros\u201d, os nossos \u201cinimigos\u201d, os nossos \u201cprisioneiros\u201d. \u00c9 aqui que a fil\u00f3sofa defende uma nova solidariedade contra a viol\u00eancia para enfrentar esta \u00e9poca marcada pelo conflito permanente.<\/p>\n<p>Pensar nas possibilidades e pot\u00eancias de produzir uma inven\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria para tornar a vida mais viv\u00edvel n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa do que pensar os processos de precariza\u00e7\u00e3o de determinados modos de exist\u00eancia. S\u00e3o id\u00e9ias distintas, n\u00e3o necessariamente conflitivas, mas que se situam em campos t\u00e3o d\u00edspares quanto familiares. Fiquemos com um belo conselho de Jean-Cleude Maleval<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, quando nos diz em sua resposta \u00e0 interven\u00e7\u00e3o que:<\/p>\n<p>Temos que ter cuidado para n\u00e3o deixar de ouvir a interven\u00e7\u00e3o de P. B. Preciado: ele veio lembrar a psican\u00e1lise da necessidade de evolu\u00e7\u00e3o permanente. Os modos de gozo s\u00e3o tribut\u00e1rios das mudan\u00e7as sociais. Tamb\u00e9m Lacan nunca para de apontar que &#8220;o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica&#8221; !<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> rsilva.juliana@gmail.com<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Paul B. Preciado em sua Interven\u00e7\u00e3o na 49\u00aa Jornada da Escola Da Causa Freudiana (17\/11\/19). Texo dispon\u00edvel em: http:\/\/lacanempdf.blogspot.com\/2019\/12\/paul-b-preciado-intervencao-na-49.html<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Lacan, J. (2009). O semin\u00e1rio. Livro 18. <em>De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Leguil, C. <em>O ser e o g\u00eanero: homem\/ mulher depois de Lacan<\/em> \u2013 Belo horizonte: EBP Editora, 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Marcus Andr\u00e9 Vieira. Com quantos elementos se faz uma inven\u00e7\u00e3o? Dispon\u00edvel em:https:\/\/ebp.org.br\/sul\/com-quantos-elementos-se-faz-uma-invencao%c2%a8\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> BUTLER, Judith. 2019. <em>Vida prec\u00e1ria<\/em>: <em>os poderes do luto e da viol\u00eancia<\/em> Trad. Andreas Lieber. Belo Horizonte: Aut\u00eantica.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> <a href=\"http:\/\/lacanempdf.blogspot.com\/2019\/12\/resposta-intervencao-de-paul-b-preciado.html\">Jean-Claude Maleval<\/a>. <a href=\"http:\/\/lacanempdf.blogspot.com\/2019\/12\/resposta-intervencao-de-paul-b-preciado.html\"><em>Resposta \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de Paul B. Preciado<\/em><\/a><a href=\"http:\/\/lacanempdf.blogspot.com\/2019\/12\/resposta-intervencao-de-paul-b-preciado.html\">.\u00a0 <\/a>Dispon\u00edvel em: http:\/\/lacanempdf.blogspot.com\/search?q=maleval<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliana Rego Silva[1] N\u00e3o existe Outro do Outro, n\u00e3o existe a verdade sobre a verdade. (Jacques Lacan) Em 17 de novembro de 2019 o fil\u00f3sofo Paul B. Preciado realizou uma interven\u00e7\u00e3o em sess\u00e3o plen\u00e1ria na 49\u00aa Jornada da Escola da Causa Freudiana cujo tema foi \u201cMulheres em Psican\u00e1lise\u201d. 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