{"id":3619,"date":"2022-06-27T10:57:23","date_gmt":"2022-06-27T13:57:23","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3619"},"modified":"2022-06-27T10:57:23","modified_gmt":"2022-06-27T13:57:23","slug":"sobre-o-feminino-mais-ainda-no-continente-escuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/sobre-o-feminino-mais-ainda-no-continente-escuro\/","title":{"rendered":"Sobre o feminino: mais ainda no continente escuro"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Paula Lermen<\/strong><\/h6>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 mulher sen\u00e3o exclu\u00edda pela natureza das coisas, que \u00e9 a natureza das palavras\u201d, afirma Lacan na li\u00e7\u00e3o de 20 de fevereiro de 1973 (2018, p. 79). Ressoa ainda a\u00ed o eco da reflex\u00e3o de Simone de Beauvoir em seu Segundo Sexo, na qual o masculino universal aparece como uma pol\u00edtica de recha\u00e7o e apagamento de metade da popula\u00e7\u00e3o humana.\u00a0\u00a0 \u201cA\u201d mulher \u00e9 aquilo que a linguagem (A) exclui, nos diz Lacan no semin\u00e1rio em que busca dar consist\u00eancia l\u00f3gica a algo que no s\u00e9culo XX emergiu como um discurso de den\u00fancia.<\/p>\n<p>Essa exclus\u00e3o seria fundante da cultura, do pacto que firmamos ao ceder gozo e consentir entrar na linguagem. Se os significantes que produzem sujeitos circulam em torno do real do sexo, Lacan prop\u00f5e que o ser falante entra na linguagem ao consentir em se posicionar em uma partilha dos sexos e a grande nega\u00e7\u00e3o que caracteriza seu ensino &#8211; a premissa de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d &#8211; ilumina toda sua tentativa de sistematiza\u00e7\u00e3o dessas posi\u00e7\u00f5es. O mito de origem do universal masculino \u00e9 o que Freud nos conta em Totem e Tabu: os irm\u00e3os matam o pai da horda, detentor de todas as f\u00eameas, e erguem um totem em seu nome. Em nome do Pai.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que vivemos no tempo em que vacila o pai como poder simb\u00f3lico organizador da vida. Vacila o totem, vacila o tabu: os irm\u00e3os &#8211; e principalmente as irm\u00e3s &#8211; questionam o pacto civilizat\u00f3rio. Vacila a cena ed\u00edpica como m\u00e1quina de sentido sexual e a\u00ed estamos diante do Um-sozinho de que nos fala Lacan em seu \u00faltimo ensino.<\/p>\n<p>Vivemos a emerg\u00eancia de um novo discurso do mestre. Enquanto inven\u00e7\u00f5es cient\u00edficas como a reprodu\u00e7\u00e3o in vitro e os testes de DNA deslocam para o real algo que se garantia pelo simb\u00f3lico, o antigo discurso do mestre &#8211; o nome do pai &#8211; se sustenta na l\u00f3gica religiosa, uma vez que \u201cn\u00e3o h\u00e1 pai sem essa posi\u00e7\u00e3o de Deus\u201d (BROUSSE, 2019, p. 23). No \u201cdiscurso do capitalista\u201d (LACAN, 1972), formalizado como uma tor\u00e7\u00e3o da parte esquerda da f\u00f3rmula do discurso do mestre, o sujeito dividido (S barrado) est\u00e1 no lugar do agente movimentador do discurso, por\u00e9m desaparece a seta que se direcionaria ao saber (S2) no campo do Outro. O avesso do discurso do capitalista \u00e9 a psican\u00e1lise: \u201chomens e mulheres, para um analista de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, s\u00e3o semblantes e n\u00e3o tem outro ser que n\u00e3o de linguagem, ou seja, de falta a ser. Um d\u00e9ficit de ser, eis o q caracteriza o ser sexuado (BROUSSE, 2019, p. 94-5).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um sozinho, feminino<\/strong><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 pr\u00f3prio da peculiaridade da psican\u00e1lise, ent\u00e3o, que ela n\u00e3o se ponha a descrever o que \u00e9 uma mulher \u2013 uma tarefa quase imposs\u00edvel para ela -, mas investigue como uma mulher vem a ser, como se desenvolve a partir de uma crian\u00e7a inatamente bissexual\u201d (FREUD, 2010, p. 269). Em termos lacanianos, seria investigar, entre outras coisas, o que tornaria poss\u00edvel a um ser falante endere\u00e7ar-se tamb\u00e9m a um gozo fora da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia de 1933 sobre a feminilidade, Freud j\u00e1 havia podido formular que o que caracterizaria a feminilidade seria o q ele chama de \u201cliga\u00e7\u00e3o pr\u00e9-ed\u00edpica com a m\u00e3e\u201d (p. 273). As marcas deixadas no corpo nessa fase m\u00edtica de comunh\u00e3o com a m\u00e3e seriam assim os pontos de fixa\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o. Lendo essa confer\u00eancia a partir de Lacan, podemos pensar no tempo de lal\u00edngua, tempo em que a l\u00edngua lambe o corpo, escrevendo letras, cavando sulcos, deixando rastros, sem dentro nem fora: articula\u00e7\u00e3o de afetos que \u201cv\u00e3o muito mais longe do que aquilo que o ser falante suporta de saber\u201d (LACAN, 2018, p. 149). O pequeno ser que ser\u00e1 falante, mas ainda n\u00e3o \u00e9, suporta em seu corpo um gozo real, opaco, do qual n\u00e3o \u00e9 nem objeto nem sujeito.<\/p>\n<p>Com Miller, encontramos o dizer enigm\u00e1tico de Lacan de que \u201cuno lo sabe, uno mismo\u201d, como uma refer\u00eancia ao inconsciente real (MILLER, 2014, p. 15). Que na l\u00edngua castelhana, assim como na portuguesa, essa express\u00e3o toma a forma masculina nos remete ao universal masculino plasmado na linguagem. Mas esse que sabe n\u00e3o \u00e9 o sujeito do desejo, sujeito esse situado na posi\u00e7\u00e3o masculina pela f\u00f3rmula do semin\u00e1rio 20, sempre endere\u00e7ado a algum objeto que vele o pequeno a. Esse que sabe parece mais com o feminino neutro de que nos fala Bassol (2017): o ser falante em seu gozo a-sexual, aqu\u00e9m e al\u00e9m da linguagem. Lacan escreve sobre esse gozo localizando-o como caracter\u00edstico daqueles sujeitos que se inscrevem sob a bandeira do feminino, definindo-o pelo indiz\u00edvel que se formaliza no endere\u00e7amento ao S(A\/)<\/p>\n<p>\u00c9 um imenso desafio falar disso, ou seja, abordar o feminino na estrutura\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria do significante, que \u00e9 o discurso estabelecido como o \u201cdel\u00edrio normal\u201d do neur\u00f3tico (MILLER, 2003, p. 15).\u00a0 Trope\u00e7amos nas palavras, e nos trope\u00e7os inventamos novos discursos, novos semblantes, novos corpos&#8230; enquanto isso n\u00e3o cessa de tentar inscrever-se.<\/p>\n<p>No exerc\u00edcio da psican\u00e1lise, ficamos sabendo um pouco do que os sujeitos que escutamos sabem. O sujeito \u00e9 efeito do significante &#8211; e do discurso. Mas n\u00e3o todo. \u00c9 efeito tamb\u00e9m da falta de significante que faz marchar a bateria, e a\u00ed o real nos atinge como causa: o indiz\u00edvel \u00e9 causa do desejo de dizer.<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOL, M. O feminino, entre centro e aus\u00eancia. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 23, 2017.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, M-H. Mulheres e discursos. Rio de janeiro: Contracapa, 2019.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1933). A feminilidade. In: Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias e outros textos (19930-1936). S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73). O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Rio de janeiro: Zahar, 2018.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1972). Conf\u00e9rence \u00e0 l&#8217;universit\u00e9 de Milan. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/espace.freud.pagesperso-orange.fr\/topos\/psycha\/psysem\/italie.htm\">http:\/\/espace.freud.pagesperso-orange.fr\/topos\/psycha\/psysem\/italie.htm<\/a>&gt;. Acesso em: 02 de abril de 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. El ultimissimo Lacan. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. A inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana, n 36. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2003.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula Lermen \u201cN\u00e3o h\u00e1 mulher sen\u00e3o exclu\u00edda pela natureza das coisas, que \u00e9 a natureza das palavras\u201d, afirma Lacan na li\u00e7\u00e3o de 20 de fevereiro de 1973 (2018, p. 79). 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