{"id":3617,"date":"2022-06-27T10:56:39","date_gmt":"2022-06-27T13:56:39","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3617"},"modified":"2022-06-27T10:56:39","modified_gmt":"2022-06-27T13:56:39","slug":"silencio-e-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/silencio-e-gozo\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio e gozo"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Aline Gusberti<\/strong><\/h6>\n<p>Nosso tema de cartel permitiu uma aproxima\u00e7\u00e3o com o tema do Encontro Brasileiro do Campo Freudiano de 2021, intitulado: Feminino, Infamiliar, Dizer o indiz\u00edvel. Anal\u00edcea Calmon articulou os 3 adjetivos do t\u00edtulo, concluindo que o que h\u00e1 de infamiliar no feminino \u00e9 o gozo, que por sua vez \u00e9 indiz\u00edvel, um gozo que confronta o limite do simboliz\u00e1vel. O infamiliar refere-se ao gozo opaco, produto do trauma do encontro da linguagem com o corpo, n\u00e3o por estar recalcado, mas por ser intraduz\u00edvel em termos simb\u00f3licos, n\u00e3o h\u00e1 um saber que se estabele\u00e7a sobre essa marca, mas h\u00e1 a marca e o sentimento de que isso nos \u00e9 familiar em alguma medida.<\/p>\n<p>No testemunho de passe de Irene Kuperwajs, ela escreve: \u00c0 luz de minha experi\u00eancia anal\u00edtica me interrogo de que modo lal\u00edngua afetou meu corpo e de que maneira se teceu em minha neurose o n\u00f3 entre significante, objeto a como n\u00facleo elabor\u00e1vel do gozo e o imposs\u00edvel do gozo feminino. Um acontecimento de corpo precoce me acompanhou durante os primeiros meses de vida, o \u201cespasmodesolu\u00e7o\u201d escutado sempre em minha inf\u00e2ncia como uma hol\u00f3frase. O relato familiar tantas vezes repetido era de que retinha o ar, o grito e o pranto.\u00a0 O que foi lido ao final de analise como a \u201cinsond\u00e1vel decis\u00e3o do ser que fixa precocemente o gozo ao sil\u00eancio\u201d.<\/p>\n<p>Sua an\u00e1lise iniciou aos 26 anos, devido a uma inibi\u00e7\u00e3o para falar. Sofria por ser objeto do olhar quando se expunha, e tinha efeitos no corpo como taquicardia e emudecimento. Ao mesmo tempo, padecia de uma tortuosa rela\u00e7\u00e3o com o saber: estudava e tudo escapava. O saber ficava do lado do outro. O trabalho de constru\u00e7\u00e3o da fantasia ganhou precis\u00e3o: se oferecia ao Outro como um doce (S1), uma balinha a ser devorada e gozar do calar. Situava seu ser de mulher do lado do calar porque acreditava que as palavras eram mort\u00edferas. No final deste testemunho escreve que encontrou sua solu\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica \u2013 falar, com a voz solta e firme. \u201cO sil\u00eancio me habita de maneira viva, diferente do calar da fantasia\u201d. Em outro testemunho ela escreve que se abriu um novo uso do sil\u00eancio, no qual pode entrar e sair, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o poder dizer, mas saber calar. Pode falar, calar, e fazer falar.<\/p>\n<p>Minha tentativa a partir destes recortes \u00e9 articular o gozo insensato do supereu que manda de forma imperativa calar, do sil\u00eancio do que n\u00e3o se pode dizer porque \u00e9 imposs\u00edvel. Dois campos de sil\u00eancio que tendem a se mesclar nas defesas neur\u00f3ticas, transformando algumas experi\u00eancias, em especial as amorosas, em grandes tormentos.<\/p>\n<p>Lacan fez do gozo feminino uma generaliza\u00e7\u00e3o por sua natureza irrepresent\u00e1vel, indiz\u00edvel e ilimitada. Um gozo irredut\u00edvel que escapa e n\u00e3o todo entra na l\u00f3gica f\u00e1lica. Trata-se de uma experi\u00eancia onde cada um se entrega em seu ex\u00edlio do Outro sem soltar uma palavra, imposs\u00edvel de dizer, \u00e9 um acontecimento de corpo fora do sentido &#8211; corpo afetado pelo choque com a l\u00edngua que fez dele um aparelho de gozo. O empuxo ao ilimitado pode se revelar em solu\u00e7\u00f5es tir\u00e2nicas e cru\u00e9is, segundo o imperativo insaci\u00e1vel do supereu.<\/p>\n<p>O supereu \u00e9 um acontecimento de gozo, um empuxo ao al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. Sua express\u00e3o m\u00e1xima se revela pela ruptura de um equil\u00edbrio, no qual parte do eu se volta sobre si mesmo e que pode ser traduzido pelo imperativo que induz o sujeito ao excesso ou a uma censura. (Campos p. 260)<\/p>\n<p>Nomeado por Lacan de figura feroz, o supereu corresponde \u00e0s figuras da pr\u00e9-historia do sujeito e dos seus traumatismos primitivos. Ele apresenta uma faceta em sua funda\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 recoberta pela linguagem e outra situada e recoberta pelo simb\u00f3lico, elemento fronteiri\u00e7o entre real e simb\u00f3lico. Lacan prop\u00f5e o supereu como o que h\u00e1 de mais devastador, fascinante e primitivo na experi\u00eancia de vida do sujeito. A ideia de lei no supereu se reduz em seu todo a uma coisa que n\u00e3o se pode exprimir a n\u00e3o ser como \u201ctu deves\u201d, que chega ao sujeito como uma palavra desprovida de sentido. Lacan denomina o supereu de palavra reduzida ao seu caro\u00e7o, de palavra reduzida a seu n\u00f3, e tamb\u00e9m medula da palavra, o que nos traz a ideia de algo que carrega em si a pr\u00f3pria pot\u00eancia.<\/p>\n<p>O supereu \u00e9 um enunciado discordante, cego, repetitivo e ignorado na lei simb\u00f3lica. Se trata de um enunciado registrado e promovido ao primeiro plano do inconsciente por um evento traum\u00e1tico, sem tradu\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, que reduz a lei da linguagem a um car\u00e1ter inadmiss\u00edvel, que n\u00e3o se integra. Observa-se que num processo de an\u00e1lise, o supereu se expressa como inibi\u00e7\u00f5es, bloqueios, paradas na fala do sujeito. Assim, torna-se necess\u00e1rio aguardar um longo tempo para que o sujeito se desembarace das tramas do supereu.<\/p>\n<p>Nos testemunhos de passe de Irene aparece a voz como objeto na rela\u00e7\u00e3o com o gozo feminino (diz\u00edvel-indiz\u00edvel). Quando h\u00e1 sil\u00eancio o imposs\u00edvel de dizer se satisfaz substitutivamente como o objeto do fantasma.\u00a0 Ela faz todo um percurso para ver como o sil\u00eancio se articula ao fantasma. O sintoma da inibi\u00e7\u00e3o que a levou para a an\u00e1lise, na experi\u00eancia anal\u00edtica, \u00e9 depurado at\u00e9 constituir-se como sinthoma. Em outro testemunho, ela escreve: \u201cquando me separei do supereu, do gozo do supereu, que pude soltar a pr\u00f3pria voz\u201d. Separa ent\u00e3o, o calar do sil\u00eancio. O silencio muda de estatuto, o habita de forma mais viva.<\/p>\n<p>Com a escrita do testemunho diz \u201ccontinuo a escrever meu sil\u00eancio\u201d, faz uma borda ao indiz\u00edvel, para poder cernir algo do imposs\u00edvel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFERENCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>Antelo, Marcela e Gurgel, Iordan. O feminino infamiliar: dizer o indiz\u00edvel. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2021.<\/h6>\n<h6>Campos, Sergio de. Supereu\/Uerepus: das origens aos destinos. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanalise, 2015.<\/h6>\n<h6>Kuperwajs, Irene. \u201cSoltar a voz\u201d \u2013 Op\u00e7\u00e3o lacaniana 82, pag. 135. abril 2020<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/mesa-de-abertura-o-feminino-infamiliar-dizer-o-indizivel-analicea-calmon\/\">https:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/mesa-de-abertura-o-feminino-infamiliar-dizer-o-indizivel-analicea-calmon\/<\/a><\/h6>\n<h6>https:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/eixo-2-o-gozo-feminino-ou-o-gozo-como-tal\/<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aline Gusberti Nosso tema de cartel permitiu uma aproxima\u00e7\u00e3o com o tema do Encontro Brasileiro do Campo Freudiano de 2021, intitulado: Feminino, Infamiliar, Dizer o indiz\u00edvel. 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