{"id":3615,"date":"2022-06-27T10:55:34","date_gmt":"2022-06-27T13:55:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3615"},"modified":"2022-06-27T10:55:34","modified_gmt":"2022-06-27T13:55:34","slug":"o-inconsciente-territorial-de-grande-sertao-veredas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/o-inconsciente-territorial-de-grande-sertao-veredas\/","title":{"rendered":"O inconsciente territorial de Grande Sert\u00e3o Veredas"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Integrantes: <\/strong>Francine Murara, Gabriel Bueno, Mariana Dias, Oscar Reymundo (Mais-Um), Tatiane Fuggi.<\/h6>\n<h6><strong>Gabriel Bueno<\/strong><\/h6>\n<p>Seguindo a tradi\u00e7\u00e3o dos estudos psicanal\u00edticos de buscar na arte respiro e reflex\u00e3o para sua pr\u00e1xis, volto-me para o livro Grande Sert\u00e3o: Veredas. H\u00e1 ali algo que me inquieta, como um enigma, exposto aos olhos, mas incerto ao entendimento. No longo mon\u00f3logo que constitui a obra, algo parece que me acena e logo se oculta; algo se revela e volta a desaparecer. Em algum momento da leitura desta obra, n\u00e3o sei dizer como nem porqu\u00ea, pressenti que uma velha ideia borboleteava aquelas p\u00e1ginas, como um vaga-lume, piscando e sumindo na escurid\u00e3o. Essa ideia-conceito-apari\u00e7\u00e3o me remete ao fundamental conceito da psican\u00e1lise: o inconsciente.<\/p>\n<p>A obra cuja mat\u00e9ria prima \u00e9 exclusivamente fala da personagem, oferece ao leitor n\u00e3o s\u00f3 os relatos das aventuras cavaleirescas, mas tamb\u00e9m oferece um sujeito, j\u00e1 que este \u00e9 sua fala. Ao falar o sujeito se revela e se desdobra, \u00e0 revelia.\u00a0 A obra configura-se como a transcri\u00e7\u00e3o de um testemunho sobre a pr\u00f3pria exist\u00eancia. Na fala de Riobaldo se revela um significante que podemos supor um significante mestre, que organiza sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro, que o submete \u00e0 l\u00f3gica do inconsciente. Este significante seria \u201cO Sert\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das aventuras vividas, avento que o personagem est\u00e1 a descrever uma experi\u00eancia muito singular que toma certa forma na teoria psicanal\u00edtica. Fa\u00e7o a suposi\u00e7\u00e3o que a obra de Guimar\u00e3es Rosa descreve alguns fen\u00f4menos do inconsciente, presentificando-o nesta entidade topol\u00f3gica nomeada de \u201cO Sert\u00e3o\u201d \u2013 e expresso, metaforicamente, a partir das palavras do her\u00f3i sertanejo.<\/p>\n<p>Para apresentar minha interpreta\u00e7\u00e3o, come\u00e7o por uma cena cl\u00e1ssica da teoria exposta por Freud em seu artigo \u201cO Eu e o Isso\u201d, de 1923, onde Freud descreve o seguinte: \u201cAssim como o cavaleiro, se n\u00e3o deseja se separar do cavalo, \u00e9 obrigado de tempos em tempos a conduzi-lo aonde este quer ir, tamb\u00e9m o eu tem o h\u00e1bito de transformar em a\u00e7\u00e3o a vontade do isso, como se fosse sua pr\u00f3pria\u201d. Nesta passagem Freud nos conduz a compreender certo car\u00e1ter insubordin\u00e1vel do inconsciente ante aos quereres do Eu. H\u00e1 algo na din\u00e2mica inconsciente (no texto de Freud identificado topologicamente como o Isso) que sempre escapa a possibilidade de representa\u00e7\u00e3o. E, ainda assim, qualquer representa\u00e7\u00e3o que venha a ser poss\u00edvel, estar\u00e1 a montar sobre a for\u00e7a motriz das puls\u00f5es.<\/p>\n<p>Em Grande Sert\u00e3o: Veredas, numa das muitas passagens onde her\u00f3i sertanejo faz uma descri\u00e7\u00e3o da personalidade do Sert\u00e3o, em minha escuta ressoa \u00edntimas similaridades com as elucubra\u00e7\u00f5es de Freud acima citadas. Riobaldo descreve o Sert\u00e3o nos seguintes termos: \u201cMas o sert\u00e3o era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; n\u00e3o era para \u00e0 for\u00e7a se compor. Todos que malmontam no sert\u00e3o s\u00f3 alcan\u00e7am de reger em r\u00e9dea por uns trechos; que sorrateiro o sert\u00e3o vai virando tigre debaixo da sela (p. 270)\u201d. O Sert\u00e3o aqui aparece como for\u00e7a que governa, que n\u00e3o se deixa dobrar pela vontade dos que por seus caminhos se aventuram. Na obra, expresso de forma po\u00e9tica, podemos antever que h\u00e1 algo de uma experi\u00eancia \u2013 na qual estamos imersos \u2013 que nos escapa qualquer capacidade de regimento, de controle, de refinamento, de decis\u00e3o; o homem, no sert\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 senhor de sua pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>Outro aspecto da narrativa que me remete a compreender parte da obra de Guimar\u00e3es Rosa como uma f\u00e1bula da revela\u00e7\u00e3o do inconsciente \u2013 personalizado numa entidade territorial \u2013 se refere a onipresen\u00e7a invis\u00edvel do Outro, que se denuncia em breves lampejos, como rel\u00e2mpagos de uma tempestade em noite escura. Novamente, ao descrever de maneira anim\u00edstica o territ\u00f3rio que o encerra, Riobaldo profere as seguintes percep\u00e7\u00f5es: \u201cSert\u00e3o, \u2015 se diz \u2015, o senhor querendo procurar, nunca n\u00e3o encontra. De repente, por si, quando a gente n\u00e3o espera, o sert\u00e3o vem.\u201d (p. 275) \u201cO sert\u00e3o n\u00e3o chama ningu\u00e9m \u00e0s claras; mais, por\u00e9m, se esconde e acena. Mas o sert\u00e3o de repente se estremece, debaixo da gente&#8230;\u201d (p. 374).<\/p>\n<p>Lacan no semin\u00e1rio 11 faz alus\u00f5es de que o inconsciente s\u00f3 se evidencia em suas hi\u00e2ncias, nos vacilos do semblante de um Eu Ideal. Nas palavras do autor, \u201cela [a hi\u00e2ncia] se distingue do que h\u00e1 de determinante numa cadeia, dizendo melhor, da lei [&#8230;] [o ics] se situa nesse ponto em que, entre a causa e o que ela afeta, h\u00e1 sempre claudica\u00e7\u00e3o\u201d (p. 29). Assim, o trabalho anal\u00edtico n\u00e3o se trata de uma busca arqueol\u00f3gica por um inconsciente submerso nas profundezas do ser, mas talvez de um saber fazer com o presente-imprevis\u00edvel que ontologicamente nos ronda e nos subjetiva.<\/p>\n<p>Ainda no semin\u00e1rio 11, \u201co que se produz nessa hi\u00e2ncia, no sentido pleno de termo produzir-se, se apresenta como um achado. [&#8230;] a surpresa &#8211; aquilo pelo que o sujeito se sente ultrapassado [&#8230;] esse achado, uma vez que ele se apresenta, \u00e9 um reachado, e mais ainda, sempre est\u00e1 prestes a escapar de novo, instaurando a dimens\u00e3o da perda\u201d (p. 32). Aqui Lacan ressalta manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente que se evidenciam no seu car\u00e1ter de retorno e de inesperado, daquilo que irrompe com apar\u00eancia de novidade e nostalgia. J\u00e1 o personagem do nosso romance parece identificar no seu Outro et\u00e9reo-por\u00e9m-absoluto caracter\u00edsticas semelhantes e vem novamente a descrever o Sert\u00e3o a partir de caracteres que t\u00eam a sua similaridade com o texto de Lacan, definido assim: \u201cSert\u00e3o \u00e9 isto: o senhor empurra para tr\u00e1s, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sert\u00e3o \u00e9 quando menos se espera\u201d (p. 208)<\/p>\n<p>Por ora arrisco-me a sugerir \u2013 a partir desses poucos fragmentos \u2013 que a obra Grande Sert\u00e3o: Veredas pode tamb\u00e9m ser lida como uma f\u00e1bula que nos apresenta a cria\u00e7\u00e3o (ou achado) de Freud sob a encarna\u00e7\u00e3o desta entidade topol\u00f3gica nomeada de \u201cO Sert\u00e3o\u201d. Foi justamente nos mitos, nos contos de fadas, nas obras liter\u00e1rias que a psican\u00e1lise, encontrou um terreno f\u00e9rtil para fomentar elabora\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas daquilo que \u00e9 inapreens\u00edvel pela palavra. Portanto, a arte \u00e9, para cada um e \u00e0 sua maneira, uma via para a interpreta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Integrantes: Francine Murara, Gabriel Bueno, Mariana Dias, Oscar Reymundo (Mais-Um), Tatiane Fuggi. Gabriel Bueno Seguindo a tradi\u00e7\u00e3o dos estudos psicanal\u00edticos de buscar na arte respiro e reflex\u00e3o para sua pr\u00e1xis, volto-me para o livro Grande Sert\u00e3o: Veredas. H\u00e1 ali algo que me inquieta, como um enigma, exposto aos olhos, mas incerto ao entendimento. 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