{"id":3613,"date":"2022-06-27T10:54:52","date_gmt":"2022-06-27T13:54:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3613"},"modified":"2022-06-27T10:54:52","modified_gmt":"2022-06-27T13:54:52","slug":"cartel-psicanalise-e-cultura-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/cartel-psicanalise-e-cultura-3\/","title":{"rendered":"Mulheres-or\u00e1culo"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Mariana Dias<\/strong><\/h6>\n<p>\u201cEu me assusto e olho para ela. Parece p\u00e1lida e inchada. [&#8230;] Levo-a at\u00e9 a janela e examino sua garganta. Ela resiste um pouco, semelhante \u00e0s mulheres que usam uma dentadura artificial. [&#8230;] Ent\u00e3o ela abre a boca adequadamente, e \u00e0 direita descubro uma grande mancha branca; em outro lugar vejo, em estranhas forma\u00e7\u00f5es crespas, que evidentemente tinham como modelo os ossos turbinados do nariz, extensas crostas cinzentas esbranqui\u00e7adas.\u201d\u00b9<\/p>\n<p>E assim come\u00e7a a psican\u00e1lise, n\u00e3o sem este belo e paradigm\u00e1tico sonho. Pedindo licen\u00e7a po\u00e9tica \u00e0 Virginia Woolf, \u00e9 despertado por ele que Freud acender\u00e1 uma tocha em um aposento vasto onde ningu\u00e9m jamais esteve\u00b2. Continuar dormindo mesmo no ponto m\u00e1ximo da ang\u00fastia foi um caminho sem volta. Quando examina a garganta de Irma, que na transcri\u00e7\u00e3o de sua an\u00e1lise descreve como cavidade oral, d\u00e1 de cara com o horr\u00edvel do buraco.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante curioso como Freud vai somando outros significantes ligeiramente distintos \u00e0 cadeia associativa. De Hals, garganta, vai para cavidade oral, Mundh\u00f6hle, aglutina\u00e7\u00e3o de dois outros significantes, onde Mund quer dizer boca e H\u00f6hle caverna. Qualquer alus\u00e3o ao \u00f3rg\u00e3o sexual feminino fica, logo, terminantemente autorizada, pois o inconsciente n\u00e3o dorme em servi\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cChamo rapidamente o dr. M\u201d\u00b3. \u201cAgora meu amigo Otto tamb\u00e9m est\u00e1 ao lado dela, e meu amigo Leopold a auscultava atrav\u00e9s do corpete\u201d\u2074. Vemos como o corpo cl\u00ednico vai entrando em cena, enquanto Freud vai graciosamente saindo \u00e0 francesa, fragmentando sua figura nos m\u00e9dicos substitutos e fazendo aparecer a\u00ed o sujeito dividido.<\/p>\n<p>Por um lado, queria se livrar da culpa pelo fracasso no tratamento concedido \u00e0 Irma. Coisa que faz dizendo que se as dores insistiam era exclusivamente culpa dela. Em troca, o ganho secund\u00e1rio de preservar a reputa\u00e7\u00e3o do estimado Fliess, seu Outro do saber e amparo fundamental para aplacar um pouco da solid\u00e3o, verdadeira destinat\u00e1ria das cartas que Freud ent\u00e3o escrevia.<\/p>\n<p>Mas o enigm\u00e1tico n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed. O ponto de interroga\u00e7\u00e3o, Freud p\u00f5e no que, num esfor\u00e7o de poesia, nomeia \u201cumbigo do sonho\u201d. Em suas palavras, \u201ccada sonho tem pelo menos um ponto em que ele \u00e9 insond\u00e1vel, um umbigo, [&#8230;] com o qual ele se vincula ao desconhecido\u201d\u2075. Uma linda met\u00e1fora para falar de origem, e que joga luz na hip\u00f3tese, a\u00ed embrion\u00e1ria e discretamente posta na nota de rodap\u00e9, de um extravio da origem. \u00c9 que o umbigo cedo ou tarde cai do corpo do beb\u00ea. Esta \u00e9 a zona onde Freud se encontra em uma exclus\u00e3o interna a seu objeto.<\/p>\n<p>S\u00f3 um pouco mais tarde \u00e9 que Emmy von N. aparece para ensin\u00e1-lo seu devido lugar e que se tratava bem mais de deixar o rio seguir seu curso. Por ora, a boca de Irma era um t\u00famulo; sequer abria e nada revelava. Era tamb\u00e9m o enigma do desejo da mulher hist\u00e9rica que estava em causa.<\/p>\n<p>Atualizando o or\u00e1culo de Delfos, Irma n\u00e3o revela nem oculta, faz signo\u2076. A verdade, \u00e9 que nem ela e nenhuma entre todas as outras pacientes de Freud lhe escondia nada que n\u00e3o estivesse, tamb\u00e9m, intimamente escondido delas. Ent\u00e3o, que havia de t\u00e3o horr\u00edvel naquela cavidade que queria se dizer caverna?<\/p>\n<p>Talvez se possa ler algo num deslizamento que leva do \u201ccavernoso\u201d, que referencia o \u00f3rg\u00e3o sexual feminino, aos m\u00e9dicos que querem saber sobre a sexualidade feminina. Eis que Freud nos chama para dar uma olhada. Se publicou este sonho foi porque era endere\u00e7ado \u00e0queles que se sentissem convocados a se inserir no conjunto que est\u00e1 ali sugerido a n\u00edvel significante. \u00c9 a enuncia\u00e7\u00e3o de um \u201cNas\u00e7am, psicanalistas, deste ventre! E me ajudem nesta empreitada de saber o que querem as mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Ante a falta do significante para escrever a mulher no inconsciente, o psicanalista brota ali para fazer uma esp\u00e9cie de supl\u00eancia, segurar as pontas diante do buraco em que Freud se meteu. Este buraco, que Lacan chamar\u00e1 de real, \u00e9 a mancha branca. Porque indescrit\u00edvel, porque n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. O diabo mora mesmo nos detalhes&#8230; E n\u00e3o seria detalhe um dos nomes do n\u00e3o-todo?<\/p>\n<p>\u201cDe imediato, tamb\u00e9m sei qual a origem da infec\u00e7\u00e3o. Recentemente [&#8230;] Otto lhe aplicou uma inje\u00e7\u00e3o com um preparado de propil, propileno\u2026 \u00e1cido propi\u00f4nico\u2026 TRIMETILAMINA\u201d\u2077. \u00c9 a voz de ningu\u00e9m, voz que se ouve no que se diz, voz oracular como a que enuncia \u201csa Turos\u201d, com a diferen\u00e7a de que onde Aristrando acredita ver um sinal do destino, a interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica escuta um desejo.<\/p>\n<p>Sem d\u00favidas, a cl\u00ednica psicanal\u00edtica se deve ao enigma do feminino. E talvez Freud amasse demais seu enigma para perd\u00ea-lo. Para ele, a mulher restar\u00e1 como o continente negro da psican\u00e1lise. Um dark continent, exatamente em ingl\u00eas, salta aos olhos &#8211; fazendo furo, n\u00e3o-todeando o texto escrito em alem\u00e3o\u2078 -, para designar uma l\u00edngua estrangeira: a da oculta\u00e7\u00e3o, do sil\u00eancio, da desapari\u00e7\u00e3o, dos esquecimentos, da solid\u00e3o\u2079. Signos (\u00d8) de um modo de gozar feminino, onde a mulher \u00e9 Outra para si mesma. Trimetilamina foi a solu\u00e7\u00e3o freudiana. As cartas estavam na mesa: \u201cDecifra-me ou te devoro\u201d10.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Notas:<\/strong><\/h6>\n<h6>\u00b9 Freud, S. (2019). Obras completas, volume 4: a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, p. 139.<\/h6>\n<h6>\u00b2 Woolf, V. (2014). Um teto todo seu. S\u00e3o Paulo: Tordesilhas, p. 121-122.<\/h6>\n<h6>\u00b3 Freud, S. (2019). Obras completas, volume 4: a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Loc. Cit.<\/h6>\n<h6>\u2074 Ibidem.<\/h6>\n<h6>\u2075 Ibid., p. 143.<\/h6>\n<h6>\u2076 Miller, J-A. (2016). Un esfuerzo de poes\u00eda. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Paid\u00f3s, p. 23.<\/h6>\n<h6>\u2077 Freud, S. (2019). Obras completas, volume 4: a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Loc. Cit.<\/h6>\n<h6>\u2078 Freud. S. (1890-1939). \u201cDie Frage der Laienanalyse\u201d. In: Gesammelte Werke, p. 1995. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"http:\/\/staferla.free.fr\/Freud\/FREUD%20Gesammelte%20Werke.pdf\">http:\/\/staferla.free.fr\/Freud\/FREUD%20Gesammelte%20Werke.pdf<\/a> &gt;. Recuperado em 05\/01\/2022.<\/h6>\n<h6>\u2079 Brousse, M-H. (2020). Lo femenino. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Tres Haches, p. 12.<\/h6>\n<h6>10 Enuncia\u00e7\u00e3o do enigma da Esfinge.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariana Dias \u201cEu me assusto e olho para ela. Parece p\u00e1lida e inchada. [&#8230;] Levo-a at\u00e9 a janela e examino sua garganta. Ela resiste um pouco, semelhante \u00e0s mulheres que usam uma dentadura artificial. 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