{"id":3611,"date":"2022-06-27T10:54:06","date_gmt":"2022-06-27T13:54:06","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3611"},"modified":"2022-06-27T10:54:06","modified_gmt":"2022-06-27T13:54:06","slug":"cidade-corpo-corpos-na-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/cidade-corpo-corpos-na-cidade\/","title":{"rendered":"Cidade-corpo: Corpos na cidade"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Tatiane Fuggi<\/strong><\/h6>\n<blockquote>[&#8230;] os homens n\u00e3o s\u00e3o criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no m\u00e1ximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa cota de agressividade. Em resultado disso, o seu pr\u00f3ximo \u00e9, para ele, n\u00e3o apenas um ajudante em potencial ou um objeto sexual, mas tamb\u00e9m algu\u00e9m que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensa\u00e7\u00e3o, utiliz\u00e1-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilh\u00e1-lo, causar-lhe sofrimento, tortur\u00e1-lo e mat\u00e1-lo. Homo homini lupus. (Freud, 1930, p.116)<\/p><\/blockquote>\n<p>Florian\u00f3polis n\u00e3o \u00e9 uma ilha. O peda\u00e7o de terra cercado de mar chama-se: Ilha de Santa Catarina e neste contorno t\u00e3o singular, um desenho pode ser admirado. Este fragmento de terra que se solta do resto-continente, intriga com suas belezas, segredos, folclores, seres fant\u00e1sticos e bruxas que de uma maneira ou de outra, fazem parte da hist\u00f3ria, mem\u00f3ria e paisagem urbano-cultural deste lugar. Inseridos nesse espa\u00e7o, est\u00e3o os corpos dos viventes, cada um \u00e0 sua maneira. A cidade tamb\u00e9m \u00e9 um corpo vivo. Suas ruas e vielas, morros e praias comp\u00f5e a paisagem mesclada, antes predominantemente, dos \u00edndios Carij\u00f3s da na\u00e7\u00e3o Tupi-Guarani mas tamb\u00e9m pertenceu, segundo registros arqueol\u00f3gicos, a na\u00e7\u00e3o \u00edndigena J\u00ea (que deu origem aos Xokleng e Kaingang) h\u00e1 pelo menos 5.000 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Foi a partir da admira\u00e7\u00e3o e escolha decidida em viver neste espa\u00e7o amalgamado entre urbanismo e natureza, atrav\u00e9s de uma observa\u00e7\u00e3o detalhista da p\u00f3lis, que este trabalho tomou corpo. Dentro deste contexto, uma quest\u00e3o suscitava a todo instante enquanto percorria cotidianamente as ruas de outras cidades mas principalmente desta: \u201co que esta frase quer dizer nesta parede?\u201d<\/p>\n<p>Em seus muros e arquitetura, residem a hist\u00f3ria, urbanidade e desigualdades cravados na carne de Florian\u00f3polis. Frases, palavras, signos, desenhos e cores v\u00e3o compondo as linhas de express\u00e3o desta velha senhora resistente ao tempo.\u00a0 A demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio cidade, revela para al\u00e9m do processo de gentrifica\u00e7\u00e3o (enobrecimento de \u00e1rea urbana), mostra tamb\u00e9m o movimento de exclus\u00e3o de corpos que, propositalmente s\u00e3o tidos como invis\u00edveis, indesej\u00e1veis. Nesta perspectiva de cidade-tela, podemos ver seus generosos espa\u00e7os em branco servindo de corpo-tela, marcando a exist\u00eancia destas vidas e o pertencimento na cidade. Den\u00fancias, declara\u00e7\u00f5es de amor, cal\u00fanias, gritos, c\u00f3lera, ironias e toda sorte de afetos est\u00e3o registrados em suas paredes.<\/p>\n<p>Sendo assim, podemos pensar que por fora da l\u00f3gica de consumo, os escritos urbanos diferenciariam-se dos \u201coutdoors\u201d em um detalhe importante, apesar de tamb\u00e9m serem palavras no corpo da cidade. Estes escritos n\u00e3o passariam pelas m\u00e3os das empresas de marketing, nem tampouco, est\u00e3o \u00e0 servi\u00e7o do capital e da l\u00f3gica neoliberal. As marcas de pertencimento na cidade est\u00e3o diretamente ligadas com aquilo que os cidad\u00e3os n\u00e3o querem saber, n\u00e3o querem se implicar.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o h\u00e1, de fato, segrega\u00e7\u00e3o mais radical do que a que se funda na nega\u00e7\u00e3o da fala do sujeito. Quando se nega a algu\u00e9m o direito \u00e0 fala, lhe \u00e9 negado o mais fundamental, o reconhecimento simb\u00f3lico de seu ser em rela\u00e7\u00e3o ao outros. O sujeito que n\u00e3o pode ter acesso ao v\u00ednculo simb\u00f3lico da fala, seja pela palavra dita, pela escrita ou significada por outros meios, \u00e9 ent\u00e3o um sujeito exclu\u00eddo do v\u00ednculo social. Por isso a rela\u00e7\u00e3o entre os transtornos de linguagem e os fen\u00f4menos de segrega\u00e7\u00e3o nos parece evidente. (Bassols, 2018, p.1).<\/p><\/blockquote>\n<p>Aquilo que n\u00e3o \u00e9 simboliz\u00e1vel nas entranhas das ruas, retorna no real da cidade-corpo. Nosso olhar faz ent\u00e3o, o papel de fixar o escrito da cidade como inscritura urbana que cont\u00e9m a palavra, a imagem (da cidade), podendo ser comparadas as marcas de gozo no corpo do sujeito. Um escrito-inscritura que se diferencia da dimens\u00e3o de significante puro e recortado. H\u00e1 um contexto que enla\u00e7a: significante, escrito, muro, cidade que resulta em inscritura. Uma marca talhada tempor\u00e1ria ou n\u00e3o no real do corpo da cidade. Uma escrita do real. Trago algumas frases pertencentes ao territ\u00f3rio da ilha: \u201cFora Bolsonaro\u201d, \u201cResist\u00eancia sapat\u00e3o\u201d, \u201cNunca foi mimimi. Meu pai morreu\u201d, \u201ceu n\u00e3o sou os outros\u201d, \u201cvandalismo \u00e9 n\u00e3o falar de amor\u201d, \u201ccidade \u00e0 venda\u201d \u201ceu sei l\u00e1 o que eu quero\u201d, \u201cfuckn\u00f3polis\u201d, \u201ctua m\u00e3e n\u00e3o te bateu o suficiente\u201d \u201cmo\u00e7a, voc\u00ea \u00e9 linda\u201d \u201cCura h\u00e9tero j\u00e1\u201d, \u201cse a arquitetura n\u00e3o subsiste, a arte resiste\u201d<\/p>\n<p>Habitar, transitar, conviver a cidade em sua mais complexa fluidez \u00e9 pensar as subjetividades presentes nestes territ\u00f3rios e ler o que escapa aos corpos enquanto fora da l\u00f3gica do auto-empreendedorismo e da felicidade instagram\u00e1vel. Heidegger, na confer\u00eancia de 1951, vai dizer no texto \u201cConstruir, habitar e pensar\u201d, que o acesso a ess\u00eancia do habitar vem da linguagem. Pensar a cidade como territ\u00f3rio que faz marca, a partir de uma perten\u00e7a, do tr\u00e2nsito. Habitar significa pertencer.<\/p>\n<p>Pensar as inscrituras urbanas como produ\u00e7\u00e3o social fazendo eco, \u00e9 ler a cidade sob outra perspectiva. H\u00e1 algo que grita e perturba a ordem urbana, para al\u00e9m dos fulgurantes paradouros em voga na ilha. E deste \u201cru\u00eddo\u201d incomodo, pouco se escapa.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n<p>Bassols, Miquel. (2018).O b\u00e1rbaro. Transtornos de linguagem e segrega\u00e7\u00e3o. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online.<\/p>\n<p>Freud, S. (1930) \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, vol. XXI.<\/p>\n<p>Heidegger, M. (2002). Construir, habitar e pensar. Ensaios e Confer\u00eancias. Vozes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tatiane Fuggi [&#8230;] os homens n\u00e3o s\u00e3o criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no m\u00e1ximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa cota de agressividade. 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