{"id":3609,"date":"2022-06-27T10:53:08","date_gmt":"2022-06-27T13:53:08","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3609"},"modified":"2022-06-27T10:53:08","modified_gmt":"2022-06-27T13:53:08","slug":"o-psicanalista-no-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/o-psicanalista-no-social\/","title":{"rendered":"O Psicanalista no Social"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Oscar Reymundo (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>No trabalho no cartel, na fun\u00e7\u00e3o do mais-um, \u00e0 medida que as elabora\u00e7\u00f5es de cada cartelizante avan\u00e7ava, eu ia definindo uma quest\u00e3o que, embora n\u00e3o fosse nova, desta vez se colocou de modo diferente.<\/p>\n<p>De um lado, e desde suas origens, a psican\u00e1lise guarda uma estreita rela\u00e7\u00e3o com a cultura a partir dos desafios que essa lhe apresenta e p\u00f5e os analistas a produzir novas perguntas e respostas e, de outro lado, a psican\u00e1lise n\u00e3o se sustenta no \u201chiperur\u00e2nio plat\u00f4nico\u201d, esse c\u00e9u onde todas as ideias est\u00e3o reunidas. A psican\u00e1lise \u00e9 sustentada por psicanalistas, tanto dentro como fora dos consult\u00f3rios. Sustentada por psicanalistas quer dizer que o que se sustenta, a cada vez, \u00e9 a \u00e9tica do discurso psicanal\u00edtico, ent\u00e3o, um modo de abordar a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do Psicanalista no Social \u00e9 pelo vi\u00e9s de um la\u00e7o que adquire vida quando encarnado num ato anal\u00edtico sustentado pela presen\u00e7a de um psicanalista. Um analista \u00e9 produto da experi\u00eancia da pr\u00f3pria an\u00e1lise, i.e., da experi\u00eancia de vazio que significa uma an\u00e1lise a partir da separa\u00e7\u00e3o de algumas identifica\u00e7\u00f5es e ins\u00edgnias<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Essa \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o pelo real e, neste caso, se trata de sustentar o vazio como orienta\u00e7\u00e3o para a inser\u00e7\u00e3o do psicanalista no Social.<\/p>\n<p>Em \u201cPerspectiva de pol\u00edtica lacaniana\u201d, Miller assinala o ato pol\u00edtico que significa saber falar a l\u00edngua do Outro, e diz que &#8211; a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 minha &#8211; \u201cFalar a l\u00edngua do Outro, est\u00e1 certo, mas para lhe fazer escutar algo do que n\u00e3o quer escutar.\u201d2 <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Cabe acrescentar que n\u00e3o se trata de interven\u00e7\u00f5es selvagens que produziriam surdez, mas de pontua\u00e7\u00f5es que surpreendam e convoquem o querer saber.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria an\u00e1lise um analista faz essa experi\u00eancia \u00e9tica de decidir continuar sua an\u00e1lise sabendo que escutar o que n\u00e3o quer escutar nas suas pr\u00f3prias palavras, \u00e9 o que permite essa an\u00e1lise avan\u00e7ar. Dif\u00edcil e singular experi\u00eancia que abre a possibilidade de produ\u00e7\u00e3o de um novo saber sobre como se arranjar com o imposs\u00edvel, com esse real, com outros. Ato pol\u00edtico que n\u00e3o se restringe ao consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>Uma psic\u00f3loga, que supervisionava comigo, me convidou para ter uma conversa com suas colegas de trabalho. Tratava-se de uma fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica dif\u00edcil de sustentar defronte \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o que apresentavam v\u00e1rias das mulheres que, pedindo ajuda, frequentavam a institui\u00e7\u00e3o. Os significantes \u201cimpot\u00eancia\u201d e \u201cfracasso\u201d se impunham para nomear o mal-estar presente no trabalho das profissionais, e muitas vezes a ang\u00fastia experimentada perante a insist\u00eancia do que se repetia nas usu\u00e1rias, dava lugar a conclus\u00f5es precipitadas que produziam a desist\u00eancia das mulheres que pediam ajuda. Foi necess\u00e1rio sustentar uma s\u00e9rie de encontros para que um la\u00e7o transferencial se instalasse e, assim, se tornar suport\u00e1vel o real que a psican\u00e1lise podia situar. Seguindo E Laurent<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, n\u00e3o se trata do analista levar e impor a desidentifica\u00e7\u00e3o em toda parte, em particular, neste caso, n\u00e3o se tratava de uma opera\u00e7\u00e3o selvagem de desidentifica\u00e7\u00e3o com a posi\u00e7\u00e3o do mestre no la\u00e7o social, mas se tratava do analista situar as formas de segrega\u00e7\u00e3o que, em nome de qualquer universal, seja humanista ou anti-humanista, desconsidera o particular de cada caso. De fato, o S1, \u201cempoderamento das mulheres\u201d, segregava a possibilidade de algo escutar da posi\u00e7\u00e3o de gozo de cada uma das mulheres que, reiteradamente, pediam ajuda.<\/p>\n<p>A oportunidade de dar um lugar, nas profissionais, para o des-ser<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, surgiu de uma das psic\u00f3logas quem questionou a ideia do empoderamento como orienta\u00e7\u00e3o do trabalho na institui\u00e7\u00e3o. Assim, \u201cser mulheres empoderadas\u201d, imperativo que operava, com diferente intensidades no grupo, foi perdendo consist\u00eancia e um furo no saber foi tomando lugar. Cabe acrescentar que consentir com o questionamento do S1 do empoderamento n\u00e3o foi unanime no grupo, e mesmo que o objetivo do trabalho anal\u00edtico n\u00e3o fosse o consenso, n\u00e3o foi poss\u00edvel sustentar a conversa\u00e7\u00e3o com todas as profissionais que iniciaram o trabalho. Foi desse jeito que surgiu o real que assinala o imposs\u00edvel do \u201cpara todos\u201d homogeneizante pr\u00f3prio das psicologias das massas, um real que orienta o analista para n\u00e3o se extraviar no campo das identifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><sup>1<\/sup> Mitre, J. <em>El analista y lo Social<\/em>, Olivos, Grama Ediciones, 2018, p 35.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><\/a><sup>2<\/sup> Miller, J-A, \u201cPerspectivas de pol\u00edtica lacaniana\u201d, in <em>Freudiana <\/em>n\u00ba 55. Barcelona, RBA Libros, S.A, p\u00e1g 89.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Laurent, E. \u201cEl analista ciudadano\u201d, in <em>A sociedade do sintoma, a psican\u00e1lise, hoje<\/em>. Rio de Janeiro. Contra Capa Livraria, 2007, p. 142.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Miller, J-A. \u201cUm esfuerzo de poesia\u201d, <em>Colof\u00f3n <\/em>25, Bolet\u00edn de la Federaci\u00f3n Internacional de Bibliotecas del Campo Freudiano, 2005, p.9.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oscar Reymundo (EBP\/AMP) No trabalho no cartel, na fun\u00e7\u00e3o do mais-um, \u00e0 medida que as elabora\u00e7\u00f5es de cada cartelizante avan\u00e7ava, eu ia definindo uma quest\u00e3o que, embora n\u00e3o fosse nova, desta vez se colocou de modo diferente. 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