{"id":3607,"date":"2022-06-27T10:52:16","date_gmt":"2022-06-27T13:52:16","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3607"},"modified":"2022-06-27T10:52:16","modified_gmt":"2022-06-27T13:52:16","slug":"acontecimento-litoral-e-a-interpretacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/acontecimento-litoral-e-a-interpretacao\/","title":{"rendered":"Acontecimento litoral e a interpreta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Leonardo Fernandes Mendon\u00e7a<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h6>\n<p>\u201cos psicanalistas fazem parte do conceito do inconsciente, posto que constituem seu destinat\u00e1rio\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Um rasgo, um furo e um n\u00e3o saber me rodeia como um fantasma que sussurra no meu ouvido que os conceitos e a articula\u00e7\u00e3o cl\u00ednica dos temas: interpreta\u00e7\u00e3o e letra s\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o para que algo parecido com uma an\u00e1lise e um analista possa ocasionalmente fazer-se presente na minha cl\u00ednica. Ocasionalmente, como um acontecimento. Dando ouvidos ao sussurro adentrei na caminhada deste cartel e descobri que acontecimento diz tanto da letra como da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas vezes escutei e li que, para que haja uma an\u00e1lise e a opera\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o, existe a condi\u00e7\u00e3o de um acontecimento chamado transfer\u00eancia, ou seja, tomar o analista no lugar de suposto saber, mas n\u00e3o da pessoa do analista, do \u201cele sabe\u201d. Mas da cren\u00e7a no saber do inconsciente, de que h\u00e1 algo escrito, que pode ser decifrado, traduzido pela interpreta\u00e7\u00e3o do analista e at\u00e9 mesmo pelo analisante, que diga alguma verdade sobre os sofrimentos do sujeito.<\/p>\n<p>Apesar da import\u00e2ncia dessa cren\u00e7a no inconsciente \u00e9 preciso estar advertido que quando se trata da letra e do gozo atrelado a ela, \u00e9 preciso cair a interpreta\u00e7\u00e3o como tradu\u00e7\u00e3o, para que a interpreta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica (assem\u00e2ntica, apof\u00e2ntica) possa fazer-se presente. Eric Laurent assinala que o \u201cpsicanalista s\u00f3 pode acertar na mosca se ele se mantiver \u00e0 altura da interpreta\u00e7\u00e3o que opera o inconsciente, j\u00e1 estruturado como uma linguagem. \u00c9 preciso dar todo o lugar \u00e0 barra que separa as duas dimens\u00f5es e permite a topologia da po\u00e9tica. A fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica revela que a linguagem n\u00e3o \u00e9 significa\u00e7\u00e3o, mas resson\u00e2ncia, e destaca a mat\u00e9ria que, no som, ultrapassa o sentido.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Miller desenvolve em Ler um Sintoma, que \u201centre as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente est\u00e1 o sintoma. Porque colocamos o sintoma entre estas forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, sen\u00e3o porque o sintoma freudiano tamb\u00e9m \u00e9 verdade. Damos-lhe um sentido de verdade, o interpretamos. Mas, ele se distingue de todas as outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente por sua perman\u00eancia.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Me parece oportuno destacar o sentido e a perman\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 pela via do sentido que a interpreta\u00e7\u00e3o freudiana \u2013 que ainda se faz presente nas an\u00e1lises atuais \u2013 joga sua partida. Momento importante em que o analisante pela via da transfer\u00eancia passa a acreditar no inconsciente, e que existe uma verdade que pode ser traduzida, e interpretada, que est\u00e1 escondida, que permeia ocultamente os atos falhos, os sonhos, e que h\u00e1 algo a ser interpretado em seu sintoma. Certa vez, ainda nas entrevistas preliminares, uma paciente comenta: \u201c\u00e9 t\u00e3o bom vir aqui e falar, pois assim eu me escuto e percebo algumas coisas\u201d. Sabendo sem saber no \u201cme escuto\u201d j\u00e1 estava uma certa alfabetiza\u00e7\u00e3o dos meandros da leitura e escrita da perspectiva psicanal\u00edtica, ou seja, de uma outra dimens\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o, de uma interpreta\u00e7\u00e3o que caminha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 letra.<\/p>\n<p>Podemos tomar por uma licen\u00e7a po\u00e9tica a perman\u00eancia, pela repeti\u00e7\u00e3o e dentro de repeti\u00e7\u00e3o deixarmos subjacente o termo fixa\u00e7\u00e3o. Me explico. Aprendemos em Lacan que o inconsciente \u00e9 estruturado como linguagem, e consequentemente suas manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o na ordem do simb\u00f3lico, do significante. A dimens\u00e3o do sintoma que \u201cquer dizer algo\u201d, interpret\u00e1vel, pelo sentido (S1 \u2013 S2) encontra seu limite do interpret\u00e1vel, do associ\u00e1vel. Mesmo pela opera\u00e7\u00e3o do trabalho anal\u00edtico existe algo do sintoma que n\u00e3o cede, que permanece, que insiste em se repetir. A esses pontos dos sintomas que ainda persistem Freud chamou de restos sintom\u00e1ticos. Para Lacan, ele se chocou com o real do sintoma. E \u00e9 justamente o real do sintoma que se relaciona com a sua perman\u00eancia, repeti\u00e7\u00e3o, fixa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Patr\u00edcio nos explica em seu livro El autismo, entre lalengua y la letra &#8211; fazendo referencia \u00e0 Lacan &#8211; quanto a fun\u00e7\u00e3o do sintoma, que em sua forma matem\u00e1tica seria f(x), sendo x, o que do inconsciente pode se traduzir em uma letra. Do enxame de S1, \u201cun S1 se recorta [&#8230;] escribi\u00e9ndose salvajemente como s\u00edntoma, como aqu\u00e9l destinado a repetirse [\u2026] Ese Uno que se escribe de modo salvaje adquire la funci\u00f3n de letra\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>O Um da letra localiza o gozo. Localiza\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pelo que chamaremos de modo de gozo, ou seja, o ponto respons\u00e1vel pela repeti\u00e7\u00e3o do sintoma, que muitas vezes \u00e9 chamado de letra do sintoma. \u00c9 da ordem de um acontecimento. Dito de outra forma, \u201co gozo do sintoma testemunha que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, da incid\u00eancia do significante no corpo.<\/p>\n<p>Para operar ao n\u00edvel da letra \u00e9 o \u201cfuncionamento mesmo da interpreta\u00e7\u00e3o que muda e passa da escuta do sentido \u00e0 leitura do fora de sentido\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Uma leitura que orienta, \u201caponta para a materialidade da escritura, quer dizer, a letra enquanto que ela produz o acontecimento de gozo que determina a forma\u00e7\u00e3o dos sintomas.\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>BAY\u00d3N, Patricio \u00c1lvarez. El autismo, entre lalengua y la letra. 1\u00aa Ed., &#8211; Olivos: Grama Ediciones, 2020.<\/h6>\n<h6>LAURENT. \u00c9ric. A interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento. In. Curinga n50, EBPMG, Jul\/dez 2020<\/h6>\n<h6>MILLER, J.A. Ler um sintoma. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ler-um-sintoma\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Texto fruto do momento de concluir do Cartel \u2013 Percurso da Letra, tendo com Mais-um Maria Teresa Wendhausen.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>LAURENT. \u00c9ric. A interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento. In. Curinga n50, EBPMG, Jul\/dez 2020, p.169.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>Ibid.,p.169<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>MILLER, J.A. Ler um sintoma. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ler-um-sintoma\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>BAY\u00d3N, Patricio \u00c1lvarez. El autismo, entre lalengua y la letra. 1\u00aa Ed., &#8211; Olivos: Grama Ediciones, 2020, p.84<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>MILLER, J.A. Ler um sintoma. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ler-um-sintoma\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><em>Ibid<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><em>Ibid.<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Fernandes Mendon\u00e7a[1] \u201cos psicanalistas fazem parte do conceito do inconsciente, posto que constituem seu destinat\u00e1rio\u201d[2] Um rasgo, um furo e um n\u00e3o saber me rodeia como um fantasma que sussurra no meu ouvido que os conceitos e a articula\u00e7\u00e3o cl\u00ednica dos temas: interpreta\u00e7\u00e3o e letra s\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o para que algo parecido&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3607","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-de-carteis-fev-22","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3607"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3607\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3607"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}