{"id":3605,"date":"2022-06-27T10:51:26","date_gmt":"2022-06-27T13:51:26","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3605"},"modified":"2022-06-27T10:51:26","modified_gmt":"2022-06-27T13:51:26","slug":"letra-interpretacao-posicao-do-analista-e-o-feminino1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/letra-interpretacao-posicao-do-analista-e-o-feminino1\/","title":{"rendered":"Letra, interpreta\u00e7\u00e3o, posi\u00e7\u00e3o do analista e o feminino[1]"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Maria Teresa Wendhausen (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>Pretendo neste trabalho pensar o tema da letra ligado \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Desta \u00faltimo venho me ocupando faz algum tempo. Dela pude, inicialmente, concluir que um dos seus aspectos fundamentais \u00e9 o de deter o deslizamento incessante do significante numa an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Em seguida me questionei se \u00e9 este aspecto que aproxima a posi\u00e7\u00e3o do analista do feminino, a partir do que nos traz Bassols. Ele vai nos dizer que a frase que mais conv\u00e9m ao analista na posi\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 aguardo mais n\u00e3o espero e que isto est\u00e1 na linha\u00a0de um S1 que n\u00e3o espera um S2, \u201c&#8230;o feminino \u00e9 mais da ordem do contingente, n\u00e3o \u00e9 nada necess\u00e1rio, \u00e9 da ordem do encontro furtuito&#8230;O feminino, como posi\u00e7\u00e3o mesma do analista, no que chamamos sua aten\u00e7\u00e3o flutuante \u2013 que \u00e9 uma maneira freudiana de dizer \u201caguardo mais n\u00e3o espero nada\u201d \u2013 em sua pr\u00f3pria autoriza\u00e7\u00e3o no desejo que o sustenta, \u00e9 desta ordem. N\u00e3o esperem nada, s\u00f3 aguardem-no. Saibam que s\u00f3 tem que chegar&#8230;entre centro e aus\u00eancia\u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>A meu ver, trata-se da interpreta\u00e7\u00e3o como ato, aquela que opera um corte entre S1 e S2, que aponta o litoral, a letra, o furo da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Neste momento procurarei responder a seguinte pergunta: qual a rela\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o com o saber ler e de que modo ela opera para que os significantes S1 isolados numa an\u00e1lise possam ser lidos como letra?<\/p>\n<p>Seynhaeve nos diz que \u201cuma an\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia de solid\u00e3o subjetiva. Ela pode ser levada suficientemente longe para que o analisante seja conduzido a transpor o passo que consiste em isolar radicalmente o Um em rela\u00e7\u00e3o ao Outro\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Coloca que vai tentar situar este momento de virada em sua pr\u00f3pria an\u00e1lise. Conta-nos que ele se deu numa das duas interpreta\u00e7\u00f5es que dela destacou durante seu ensino de AE.<\/p>\n<p>Como efeito da instala\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, a partir do que situa uma primeira interpreta\u00e7\u00e3o de seu analista, uma injun\u00e7\u00e3o: \u201cvoc\u00ea deve me falar de sua castra\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, teve um sonho: \u201cPerambulo pelo corredor do ref\u00fagio de la Sainte Famille , a maternidade onde minha m\u00e3e deu \u00e0 luz a todos os seus filhos. Esse corredor tem a forma da letra L. Sinto uma necessidade premente de urinar. Os banheiros ficam no \u00e2ngulo L. Penetro nos banheiros e me ponho a urinar. N\u00e3o posso parar, a privada transborda e acordo a ponto de urinar na cama\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Coloca que, assim sendo, o tratamento se apoiava imediatamente no significante mestre.<\/p>\n<p>Dando um salto para a frente, observa que teria podido associar livremente ainda por muito tempo.<\/p>\n<p>Situa uma segunda interpreta\u00e7\u00e3o de seu analista, uma nova injun\u00e7\u00e3o. Assinala que foi aquela que permitiu que a an\u00e1lise se detivesse \u201cvoc\u00ea gosta muito de suas fantasias\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Desta interpreta\u00e7\u00e3o diz que \u201cela cortou o \u00e9lan do sujeito na dire\u00e7\u00e3o do lugar do Outro, ou seja, na dire\u00e7\u00e3o da suposi\u00e7\u00e3o de saber e freou duradouramente seu movimento na dire\u00e7\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>E segue: \u201ctoda a associa\u00e7\u00e3o significante tomou para mim o valor de gozo da fala\u00e7\u00e3o (&#8230;) a interven\u00e7\u00e3o do analista deixou o sujeito abandonado ao significante mestre a partir do qual tinha iniciado sua an\u00e1lise: a letra L. Nela situo a borda do tratamento, o ponto de reviramento da puls\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Pergunta-se como o significante se conjuga ao gozo do corpo e como o sujeito incorpora os significantes de sua hist\u00f3ria para tratar o gozo do qual ele \u00e9 objeto.<\/p>\n<p>D\u00e1 de sua hist\u00f3ria as seguintes coordenadas:<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e e meu tio estavam apaixonados. Eles iam se casar. Por\u00e9m, no in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial, meu tio foi enviado \u00e0 linha de frente. Ele foi ferido mortalmente. Contudo, antes de morrer, enviou uma carta a seu irm\u00e3o Gaston. \u201cCaro Gaston, aqui tudo vai mal. Se eu morrer, ocupe-se dela\u201d. Essa injun\u00e7\u00e3o anterior ao meu nascimento dar\u00e1 lugar \u00e0 uni\u00e3o de meus pais. Assim, Gaston ir\u00e1 se tornar meu pai\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>E continua: \u201cOcupe-se dela\u201d \u00e9 uma injun\u00e7\u00e3o proferida \u00e0 beira da morte. Eu encarnei ent\u00e3o este L (a letra L ou seja, \u201celle\u201d que, na l\u00edngua francesa, metaforiza o feminino singular). L \u00e9 o S1 do qual me apoderei para fazer dele o significante-mestre que presidir\u00e1 meu destino e que me determinar\u00e1 como ser sexuado. Neste L mai\u00fasculo se encarna o ser sexuado que sou e se enla\u00e7a o gozo do corpo a um significante primeiro\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Voltando \u00e0 segunda interpreta\u00e7\u00e3o do analista, nos diz que \u201cesse momento de corte em que pude apreender a dimens\u00e3o m\u00edtica da minha hist\u00f3ria, do mito enquanto ele trata o real, em que pude apreender a natureza de semblante da cadeia significante, essa experi\u00eancia ir\u00e1 subverter o sujeito suposto saber. Isolar o Um do Outro fez aparecer que toda elucubra\u00e7\u00e3o de saber \u00e9, antes de tudo, produ\u00e7\u00e3o de gozo\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>Retomando a quest\u00e3o colocada acima, eu diria, como hip\u00f3tese, que o S1 desconectado do S2 ao confrontar o sujeito com o Outro que n\u00e3o existe ir\u00e1 permitir ler os significantes isolados de sua hist\u00f3ria como letra, isto \u00e9, \u201cencontro material de um significante com o corpo, quer dizer, ao puro choque da linguagem com o corpo\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Ler de outro modo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOLS, Miguel. O feminino entre centro e aus\u00eancia. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online n. 23, 2017.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.A. Ler um sintoma, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n.70, julho 20<\/h6>\n<h6>SEYNHAEVE, B. A fala freada. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online n. 2, 2010<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Autora: Maria Teresa Wendhausen &#8211; Mais-um\u00a0\u00a0 Cartel: Percurso da Letra<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> BASSOLS, Miguel. O feminino entre centro e aus\u00eancia. Op\u00e7\u00e3o online n.23, julho 2017, p.12<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> SEYNHAEVE, Bernard. A fala freada. Op\u00e7\u00e3o lacaniana online nova s\u00e9rie, ano 1, jul 2010, p.1.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Ibid., p.2<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Ibid., p.2<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Ibid., p.3<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Ibid., p.3<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Ibid., p.4<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u00a0 Ibid., p.1<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Ibid., p.2<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Ibid., p.5<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> MILLER, J.A. Ler um sintoma, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n. 70, julho 2015.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Teresa Wendhausen (EBP\/AMP) Pretendo neste trabalho pensar o tema da letra ligado \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Desta \u00faltimo venho me ocupando faz algum tempo. Dela pude, inicialmente, concluir que um dos seus aspectos fundamentais \u00e9 o de deter o deslizamento incessante do significante numa an\u00e1lise. 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