{"id":3603,"date":"2022-06-27T10:50:21","date_gmt":"2022-06-27T13:50:21","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3603"},"modified":"2022-06-27T10:50:21","modified_gmt":"2022-06-27T13:50:21","slug":"percursos-da-letra-na-ficcao-neurotica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/percursos-da-letra-na-ficcao-neurotica\/","title":{"rendered":"Percursos da letra na fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Gracy Amandio Pedro<\/strong><\/h6>\n<p>Ao longo deste Cartel, nas ricas discuss\u00f5es sobre a letra fui causada pelo desejo de saber sobre o trajeto da letra na fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica. Desenvolvi ent\u00e3o algumas hip\u00f3teses em torno deste percurso.<\/p>\n<p>Tomo aqui a palavra fic\u00e7\u00e3o, pois, Lacan em <em>Passagem ao ato e acting out<\/em>, cita a palavra fic\u00e7\u00e3o em dois momentos: \u201ca cena do Outro, onde o homem como sujeito tem de se constituir, tem de assumir um lugar como portador da fala, s\u00f3 pode port\u00e1-la numa estrutura que, por mais ver\u00eddica que se afirme, \u00e9 uma estrutura de fic\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Freud se recusa a ver na verdade, que \u00e9 a sua paix\u00e3o, a estrutura de fic\u00e7\u00e3o como algo que est\u00e1 em sua origem.\u201d<\/p>\n<p>A partir da leitura deste texto, entendo que o que Lacan aponta como verdade n\u00e3o me parece ser a <em>\u201cverdade verdadeira\u201d<\/em> que Freud associava ao inconsciente. Lacan quer dizer que a verdade do sujeito \u00e9 ao mesmo tempo a mentira sintom\u00e1tica formada pelo inconsciente, ou seja, uma fic\u00e7\u00e3o. O inconsciente como uma verdade est\u00e1 estruturado por uma fic\u00e7\u00e3o, assim como a fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica \u00e9 formada a partir de resqu\u00edcios do inconsciente.<\/p>\n<p>Ainda que a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja um conceito psicanal\u00edtico, a no\u00e7\u00e3o de que a neurose \u00e9 uma esp\u00e9cie de fic\u00e7\u00e3o, j\u00e1 estava em Freud, em 1899, no texto <em>Lembran\u00e7as encobridoras<\/em>, quando ele explica que as constru\u00e7\u00f5es inconscientes que uma pessoa produz em torno de suas lembran\u00e7as s\u00e3o como trabalhos de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como uma estrutura simb\u00f3lica a fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica, formada pelo inconsciente, \u00e9 representada por um sistema de significantes. Das poss\u00edveis formas de ler a letra na fic\u00e7\u00e3o uma delas \u00e9 em sua dimens\u00e3o de significante. Lacan refere em \u201c<em>O semin\u00e1rio sobre a carta roubada<\/em>\u201d, que uma das utilidades da letra\/carta \u00e9 a de transmitir uma mensagem. Nesse caso, a letra estaria relacionada ao significante \u00e0 medida que, associada a outros significantes, produziria um efeito de sentido, uma mensagem. Na fic\u00e7\u00e3o essa fun\u00e7\u00e3o pode se evidenciar quando a letra como significante transmite uma mensagem do inconsciente pass\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o pela via do sentido. Ou seja, a letra aqui pode servir para revelar uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente que de alguma forma explique a forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A letra como significante e associada \u00e0 estrutura simb\u00f3lica do sujeito, tamb\u00e9m diz sobre a posi\u00e7\u00e3o que o sujeito assume em uma fic\u00e7\u00e3o, como a Rainha no conto de Poe, que a partir da presen\u00e7a da carta, passa a assumir um pacto simb\u00f3lico, mesmo que n\u00e3o queira, como desenvolveu Lacan em <em>\u201cO semin\u00e1rio sobre a carta&#8230;\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os efeitos da letra na fic\u00e7\u00e3o v\u00e3o para al\u00e9m de sua fun\u00e7\u00e3o mensageira e Lacan evidencia outro aspecto da letra tamb\u00e9m em <em>\u201cO semin\u00e1rio sobre a carta&#8230;\u201d.<\/em> A letra na fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica possui, por outro lado, dimens\u00e3o material, assim como a carta no conto de Poe que por sua materialidade pode ser manipulada e utilizada revelando a sua dimens\u00e3o de objeto. A letra em sua materialidade diz do \u201cresto\u201d, o \u201cdejeto\u201d que est\u00e1 em quest\u00e3o na mentira sintom\u00e1tica do paciente.<\/p>\n<p>Nessa fun\u00e7\u00e3o, pouco importa o significado da letra, j\u00e1 que a presen\u00e7a de sua materialidade pode causar um efeito por si s\u00f3 na fic\u00e7\u00e3o. Esta particularidade da letra evidencia a condi\u00e7\u00e3o em que o sujeito se encontra diante de sua inven\u00e7\u00e3o onde, por um lado, a letra possibilita que ele d\u00ea um sentido para a sua narrativa, mas, por outro, tamb\u00e9m faz com que se depare com a impossibilidade da associa\u00e7\u00e3o significante a partir do seu car\u00e1ter de objeto.<\/p>\n<p>Lacan em <em>Lituraterra<\/em> vai al\u00e9m e associa a materialidade da letra ao gozo. O <em>restinho<\/em> que se presentifica na fic\u00e7\u00e3o pela letra, acolhe gozo. Esse <em>restinho<\/em> Lacan menciona no <em>Passagem ao ato&#8230;<\/em>, \u00e9 o que, segundo ele, faz a mentira sintom\u00e1tica. A letra presentifica a\u00ed esse resqu\u00edcio de gozo que envolve o sujeito numa posi\u00e7\u00e3o que ocupa na fic\u00e7\u00e3o, inconscientemente. A forma da fic\u00e7\u00e3o, o sentido pelo qual a fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica tenta operar se produz em torno do gozo que se presentificar\u00e1 com a letra. Assim, para fic\u00e7\u00e3o, a letra n\u00e3o serve apenas como forma de possibilitar um sentido, mas ela tamb\u00e9m possui car\u00e1ter de gozo que se presentifica de forma literal e material.<\/p>\n<p>Ram Mandil em <em>A letter, a litter<\/em>, refere que Lacan faz em <em>Lituraterra<\/em> um corte entre a no\u00e7\u00e3o de significante e letra. Isso possibilita compreender que \u00e9 a letra em sua materialidade o que vai permitir localizar o gozo do sujeito, no real, e n\u00e3o o significante, que est\u00e1 associado ao simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Ainda em <em>Lituraterra<\/em>, Lacan possibilita articular a letra nesse litoral entre dois territ\u00f3rios distintos, o do simb\u00f3lico e do gozo. Ram em <em>A letter, a litter<\/em> conclui que nesses dois campos n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o haver uma descontinuidade. Nesse sentido, a letra tamb\u00e9m vai operar como borda do furo do saber.<\/p>\n<p>Enfim, a fun\u00e7\u00e3o da letra como borda do furo no saber me faz concluir que para capturar o gozo que a letra revela \u00e0 fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica, \u00e9 preciso fazer desestruturar a cena do Outro, invocando o fracasso da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como o que se dissolveu da fic\u00e7\u00e3o, a letra que decanta o gozo n\u00e3o apenas possibilita que o sujeito esteja admitido do seu modo de gozar, mas tamb\u00e9m possibilita um <em>saber fazer <\/em>com o gozo, um tecer de uma narrativa pr\u00f3pria, n\u00e3o alienada ao Outro.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. Lembran\u00e7as encobridoras. Volume III Primeiras Publica\u00e7\u00f5es Psicanal\u00edticas, 1893\/1899.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. O semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d. Escritos, 1901\/1981.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. Lituraterra. Outros Escritos, 1901\/1981.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. Passagem ao ato e acting out. O Semin\u00e1rio livro 10 A ang\u00fastia, 1962\/1963.<\/h6>\n<h6>MANDIL, Ram. A letter, a litter. Os Efeitos da Letra Lacan leitor de Joyce, 2003.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gracy Amandio Pedro Ao longo deste Cartel, nas ricas discuss\u00f5es sobre a letra fui causada pelo desejo de saber sobre o trajeto da letra na fic\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica. Desenvolvi ent\u00e3o algumas hip\u00f3teses em torno deste percurso. 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