{"id":3601,"date":"2022-06-27T10:49:32","date_gmt":"2022-06-27T13:49:32","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3601"},"modified":"2022-06-27T10:49:32","modified_gmt":"2022-06-27T13:49:32","slug":"a-presenca-do-analista-na-clinica-com-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/a-presenca-do-analista-na-clinica-com-criancas\/","title":{"rendered":"A presen\u00e7a do analista na cl\u00ednica com crian\u00e7as."},"content":{"rendered":"<h6><strong>In\u00eas Seabra Abreu Rocha (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia adotamos o modo de atendimento online tamb\u00e9m na cl\u00ednica psicanal\u00edtica com crian\u00e7as. Interrogamos acerca das quest\u00f5es trazidas por Lacan no Semin\u00e1rio 11, no cap\u00edtulo intitulado \u201cA presen\u00e7a do analista\u201d. Testemunhamos a partir da experi\u00eancia psicanal\u00edtica os modos de presen\u00e7a do analista e suas consequ\u00eancias no tratamento. Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse nos diz que tempo e espa\u00e7o s\u00e3o duas dimens\u00f5es transcendentais da sensibilidade, segundo Kant, que estar\u00e3o em quest\u00e3o no espa\u00e7o anal\u00edtico, mesmo no seu momento virtual. O tempo em jogo em uma an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 o tempo cronol\u00f3gico, regido pelo discurso capitalista \u201ctime is money\u201d, mas o tempo modalizado por Lacan como \u201ctempo l\u00f3gico\u201d: instante de olhar, tempo de compreender e momento de concluir. A l\u00f3gica do tempo perpassar\u00e1 a an\u00e1lise realizada tamb\u00e9m no modo online.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o-tempo, vivido no modo online, nos coloca diversos impasses, mesmo levando em conta que a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito passe por um recurso especular. \u201c\u00c9 verdade que o sujeito, representado por um significante para outro significante, n\u00e3o recusa o virtual. Pode-se at\u00e9 dizer que o sujeito mesmo \u00e9 s\u00f3 virtual.\u201d Brousse ressalta que embora o virtual modifique o modo operat\u00f3rio dos objetos, n\u00e3o anula em nada seu poder em tanto que organizador de uma modalidade de gozo: \u201co corpo falante, express\u00e3o explosiva, depende em parte do Real. \u00c9 o imposs\u00edvel do virtual\u201d.<\/p>\n<p>Assim, partimos deste ponto de imposs\u00edvel para dar lugar \u00e0 conting\u00eancia do encontro com o analista na cl\u00ednica com crian\u00e7as. A presen\u00e7a do analista nas diversas modalidades em que surge a transfer\u00eancia estar\u00e1 no cerne do tratamento anal\u00edtico. Para Lacan, (Semin\u00e1rio 11, pag.121) a presen\u00e7a do analista \u00e9 a pr\u00f3pria manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente que pode tamb\u00e9m se manifestar como uma recusa do inconsciente, dos efeitos da fala sobre o sujeito.<\/p>\n<p>Portanto, o analista se far\u00e1 presente como um lugar de endere\u00e7amento da fala do sujeito, no lugar de semblante do objeto a. No caso de Joana, a an\u00e1lise se inicia h\u00e1 dois anos no modo online, ela tinha ent\u00e3o quatro anos. A quest\u00e3o dos objetos na cl\u00ednica com crian\u00e7as nos interpela e, como nos trouxe Brousse, os objetos organizam uma modalidade de gozo, e tamb\u00e9m o analista como objeto, onde a presen\u00e7a do analista proporciona ao sujeito a emerg\u00eancia da fala e do inconsciente.<\/p>\n<p>Joana arruma seus objetos em uma mesinha e pe\u00e7o \u00e0 m\u00e3e que deixe o telefone fixado em um lugar frente a ela. Durante muitas sess\u00f5es, ela quis brincar de escolinha: \u201ceu sou a professora\u201d. Joana se assegura assim do seu saber, mas agora j\u00e1 est\u00e1 com seis anos e o problema mudou: ela n\u00e3o consegue aprender a ler. O sintoma que a trouxe ao tratamento foi falar embolado, n\u00e3o era poss\u00edvel compreend\u00ea-la. Uma interven\u00e7\u00e3o da analista marca um momento da an\u00e1lise: \u201cQuando voc\u00ea fala de forma compreens\u00edvel, voc\u00ea est\u00e1 pelo quarto andando e se mexendo, quando est\u00e1 aqui sentada fala palavras incompreens\u00edveis\u201d. Um corte entre o gesto e as palavras, Joana silencia e depois diz: \u201c- S\u00f3 voc\u00ea mesmo para dizer essas coisas\u201d. A presen\u00e7a do analista e sua interpreta\u00e7\u00e3o se suportam na transfer\u00eancia, onde o saber \u00e9 suposto quando o analista traumatiza o discurso comum. Ela passa a fazer as sess\u00f5es mais quieta, e por vezes desliga o v\u00eddeo e fica em sil\u00eancio. Ent\u00e3o quando desenha, pe\u00e7o a ela para escrever seu nome: ela j\u00e1 sabe.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o voc\u00ea sabe ler? Pergunta a analista.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea sabe que n\u00e3o sei ler! Ela grita como resposta.<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o sabe ler? Pergunta a analista.<\/p>\n<p>&#8211; Nada! Ela grita outra vez.<\/p>\n<p>A analista pontua que ela sabe ler seu nome, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u201cnada\u201d.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do sujeito com sua falta-a-ser surge no significante \u201cnada\u201d. Ela havia feito em outra sess\u00e3o um desenho onde mostrava seus pais carregando o beb\u00ea que nasceu e ela ao lado. Algo do saber escapa \u00e0 Joana, diante do enigma do desejo do Outro, do desejo da m\u00e3e, ela se recusa a decifrar os signos e letras que comp\u00f5em a linguagem, o c\u00f3digo, o tesouro dos significantes.<\/p>\n<p>Digo-lhe depois: \u201c- Nada? Voc\u00ea pode escrever N-A-D-A\u201d. Ela conhece as letras e acaba por escrever a palavra \u201cnada\u201d. Ent\u00e3o digo: \u201cagora voc\u00ea pode ler esta palavra\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o sei ler, voc\u00ea est\u00e1 insistindo. Ela retruca nervosa.<\/p>\n<p>&#8211; Ou voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 querendo ler? A analista indaga.<\/p>\n<p>Algo do saber da crian\u00e7a \u00e9 obstaculizado por seu pr\u00f3prio desejo: surge um sintoma que incomoda a m\u00e3e, que \u00e9 professora, retirando-a do cuidado do seu novo beb\u00ea. Joana pode ganhar a aten\u00e7\u00e3o da m\u00e3e n\u00e3o aprendendo a ler. Como nos trouxe Lacan, \u201ceu minto ou eu o engano\u201d, a presen\u00e7a do analista faz surgir o equ\u00edvoco que abre para o inconsciente, para o sujeito dividido por seu desejo. Nas pr\u00f3ximas sess\u00f5es, Joana est\u00e1 mais quieta e calada e ainda joga com o sumi\u00e7o de sua imagem na tela. Ao final, fotografa os desenhos e me envia quando a sess\u00e3o termina. Na outra sess\u00e3o conversamos sobre os desenhos: Joana agora aprende a ler sobre o seu sintoma.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6>Brousse, M-H. Cr\u00f4nica del malestar: extension del imp\u00e9rio de lo virtual, 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/www.hebdo-blog.fr\/chronique-du-malaise-lepoque-de-la-montee-des-egos-2\/\">https:\/\/www.hebdo-blog.fr\/chronique-du-malaise-lepoque-de-la-montee-des-egos-2\/<\/a><\/h6>\n<h6>Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 11 : Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/h6>\n<h6>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>In\u00eas Seabra Abreu Rocha (EBP\/AMP) Desde o in\u00edcio da pandemia adotamos o modo de atendimento online tamb\u00e9m na cl\u00ednica psicanal\u00edtica com crian\u00e7as. Interrogamos acerca das quest\u00f5es trazidas por Lacan no Semin\u00e1rio 11, no cap\u00edtulo intitulado \u201cA presen\u00e7a do analista\u201d. 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