{"id":3599,"date":"2022-06-27T10:48:34","date_gmt":"2022-06-27T13:48:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3599"},"modified":"2022-06-27T10:48:34","modified_gmt":"2022-06-27T13:48:34","slug":"do-indizivel-ao-visivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/do-indizivel-ao-visivel\/","title":{"rendered":"Do indiz\u00edvel ao vis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Integrantes: <\/strong>Artur Cipriani; Cinthia Busato; Cleyton Andrade (Mais-Um); Fl\u00e1vio Desgranges e Mar\u00eda Mercedes Rodriguez.<\/h6>\n<h6><strong>C\u00ednthia Busato (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>Come\u00e7o apresentando uma sequ\u00eancia em 3 tempos:<\/p>\n<p>Primeiro tempo:\u00a0a cena vista em um filme, uma mulher arrancando o pr\u00f3prio olho em frente ao espelho,\u00a0 me jogou numa ang\u00fastia avassaladora, fico com essa marca do horror e durante muitos anos n\u00e3o consigo nem pensar\u00a0 em rever o filme.<\/p>\n<p>Segundo tempo: depois de v\u00e1rios anos consigo assistir novamente e essa ang\u00fastia n\u00e3o se apresenta.\u00a0Esse segundo tempo\u00a0n\u00e3o lembro com clareza, muitas vezes duvido se assisti novamente ou n\u00e3o.\u00a0\u00c9 um tempo obscuro<\/p>\n<p>Terceiro tempo: v\u00e1rios anos depois inicio este cartel onde nos propusemos a pensar que filme nos tocou de forma angustiante\u00a0ou de algo do\u00a0infamiliar\u00a0visto na tela. Imediatamente me vem a cena que vi ,\u00a0o primeiro tempo. Minha surpresa foi verificar que essa cena n\u00e3o estava no filme,\u00a0n\u00e3o existia.\u00a0\u00a0Um instante de vacila\u00e7\u00e3o da realidade, uma perda r\u00e1pida de refer\u00eancia me confunde,\u00a0\u201cvi ou n\u00e3o vi?\u201d\u00a0.\u00a0Da\u00ed para\u00a0a fala\u00a0\u201d Artur, me ajuda a procurar, deve ser outra edi\u00e7\u00e3o a que vi!\u201d\u00a0foi um pulo. De fato era outra edi\u00e7\u00e3o, mas realizada\u00a0inconscientemente.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 20, Lacan apresenta a ang\u00fastia como o que surge entre o imagin\u00e1rio e o real sem a intermedia\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico. \u00c9 por isso que podemos apreender a ang\u00fastia como o afeto que n\u00e3o engana<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Ela \u00e9 vivenciada sem os emaranhados dos significantes.e, nesse caso, nos desvela um olhar selvagem, um transbordamento do pulsional.<\/p>\n<p>Esse ponto selvagem \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o do sentido\u00a0 esteve sempre presente nas pesquisas\u00a0 de Freud<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> foi o que ele pode ouvir\u00a0 das primeiras hist\u00e9ricas e foi por n\u00e3o tomar como mentira suas palavras\u00a0 pode perceber que essas tem por fun\u00e7\u00e3o velar um opaco dentro da narrativa hist\u00f3rica de cada um. Assim a fantasia ocupa o lugar do fato e o efeito a posteriori remodela as lembran\u00e7as, conferindo-lhes uma significa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o possu\u00edam. As lembran\u00e7as n\u00e3o emergem prontas, elas s\u00e3o formadas, constru\u00eddas a partir de tra\u00e7os mn\u00eamicos.<\/p>\n<p>Para Freud a percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos apresenta objetos que em seguida ser\u00e3o nomeados pelas palavras. A percep\u00e7\u00e3o nos oferece imagens elementares: visuais, t\u00e1teis, ac\u00fasticas que v\u00e3o formar o que ele chamou de associa\u00e7\u00f5es de objeto. Essas associa\u00e7\u00f5es de objeto n\u00e3o formam ainda um objeto, isto \u00e9, algo com uma unidade e um significado, elas constituem um disperso sens\u00edvel a partir do qual o objeto ser\u00e1 constitu\u00eddo. Essa \u00e9 uma linguagem assimb\u00f3lica e est\u00e1 invariavelmente aberta \u00e0 novas associa\u00e7\u00f5es. \u00c9 a palavra que confere \u00e0s imagens sensoriais dispersas uma unidade e um significado, \u00e9 ela que transforma as associa\u00e7\u00f5es de objeto em representa\u00e7\u00e3o-objeto.<\/p>\n<p>Freud parte do pressuposto de que quando uma percep\u00e7\u00e3o afeta o corpo do sujeito, esta \u00e9 apreendida por ele atrav\u00e9s de sensa\u00e7\u00f5es, que com o encontro com o Outro, fundam um processo de inscri\u00e7\u00e3o rudimentar, ainda n\u00e3o ligada ao signo lingu\u00edstico, mas aberta \u00e0 ele. Esses elementos\u00a0 irrepresent\u00e1veis, as impress\u00f5es dos signos de percep\u00e7\u00e3o, na carta 52<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>aparecem como a mat\u00e9ria prima do aparato ps\u00edquico. O corpo antecede o desejo da m\u00e3e, \u00e9 um corpo opaco \u00e0s significa\u00e7\u00f5es, portanto, fica como um furo em torno do qual se articula o sentido e as marcas de gozo.<\/p>\n<p>No texto \u201cA negativa\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>,\u00a0 a Austossung\u00a0 \u00e9 apresentada como o ponto de partida da configura\u00e7\u00e3o do ser. \u201cA partir do princ\u00edpio do prazer, o que \u00e9 expulso por ser desagrad\u00e1vel estabelece-se de forma radical no dito do sujeito \u201cisso n\u00e3o sou eu\u201d. Por outro lado, o que se apresenta como experi\u00eancia prazerosa \u00e9 introjetado como sendo ele. O elemento expulso foi experimentado pelo ser vivente e o marcou como modo de satisfa\u00e7\u00e3o sem compromisso com o prazer, uma excita\u00e7\u00e3o ligada ao horror. \u201c\u00c9, portanto, o gozo que se apresenta como paradoxal, que diz respeito ao sujeito e foi por ele radicalmente rejeitado\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>R\u00f4mulo esclarece nesse mesmo texto que essa opera\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito se d\u00e1 miticamente sem a interfer\u00eancia do simb\u00f3lico. Trata-se da participa\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e do real na constitui\u00e7\u00e3o de um corpo que goza, subtra\u00eddo do alcance do simb\u00f3lico. Como tal, permanece no real porque o imagin\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 capaz de estabiliz\u00e1-lo. A imagem forjada no primeiro tempo, que aparece como t\u00e3o desestruturadora e angustiante, sem palavras poss\u00edveis para dizer, n\u00e3o pode ser pensada como esse imagin\u00e1rio que toca o real? Uma imagem que vela\/desvela esse corpo anterior ao processo de simboliza\u00e7\u00e3o que via desejo da m\u00e3e e nome do pai vamos construindo na vida? Entre a primeira cena e a terceira, um processo de an\u00e1lise tratou esse indiz\u00edvel ligado ao objeto olhar e no lugar da ang\u00fastia pode aparecer o riso, outro indiz\u00edvel, mas agora sem horror e no la\u00e7o.<\/p>\n<p>As imagens tocam um olhar que \u00e9 corpo, tocam o corpo sem imagem, o real que faz fissura na realidade, essa que \u00e9 nosso olhar domesticado. Assim como o furo do ato falho aparece ligado ao sentido, ser\u00e1 que podemos pensar em imagens que podem se apresentar da mesma forma?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Ferreira, Romulo. O \u00f3dio estruturante, em https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-1\/)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Freud, S. Sobre a concep\u00e7\u00e3o das afasias, um estudo cr\u00edtico; Ed Aut\u00eantica, 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Freud, Carta 52<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Freud, A negativa, Obras completas, VolXIX. Imago, FREUD, S. \u201cA Negativa\u201d. In: Obras Completas, Imago, Rio de Janeiro, 1976, p. 297.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Ferreira, R\u00f4mulo, idem<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Integrantes: Artur Cipriani; Cinthia Busato; Cleyton Andrade (Mais-Um); Fl\u00e1vio Desgranges e Mar\u00eda Mercedes Rodriguez. C\u00ednthia Busato (EBP\/AMP) Come\u00e7o apresentando uma sequ\u00eancia em 3 tempos: Primeiro tempo:\u00a0a cena vista em um filme, uma mulher arrancando o pr\u00f3prio olho em frente ao espelho,\u00a0 me jogou numa ang\u00fastia avassaladora, fico com essa marca do horror e durante muitos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3599","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-de-carteis-fev-22","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3599\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3599"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}