{"id":3597,"date":"2022-06-27T10:47:02","date_gmt":"2022-06-27T13:47:02","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3597"},"modified":"2022-06-27T10:47:02","modified_gmt":"2022-06-27T13:47:02","slug":"a-transferencia-ata-o-amor-ao-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/a-transferencia-ata-o-amor-ao-real\/","title":{"rendered":"\u00a0A transfer\u00eancia ata o amor ao real"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Integrantes: <\/strong>Eneida Medeiros Santos (Mais-Um); Rafaela Maester e Ver\u00f4nica Montenegro.<\/h6>\n<h6><strong>Eneida Medeiros Santos (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>O amor est\u00e1 ligado ao saber. Dirige-se ao Outro, interrogando-o sobre o que ele pode nos dar e o que ele tem para nos responder. Para Freud, a transfer\u00eancia anal\u00edtica, que se manifesta pelas vias do amor, \u00e9 um fato, que coloca em funcionamento todo o dispositivo do significante e cria uma trama ficcional na an\u00e1lise, produzindo efeitos de verdade e de desejo no sujeito. \u00c9 por meio dessa fic\u00e7\u00e3o que supomos saber ao analista, e portanto, o amamos. O saber, ent\u00e3o, encontra-se, na an\u00e1lise, velado pelo amor.<\/p>\n<p>Se o advento de novos tipos de la\u00e7os, novas subjetividades, colocam em xeque as ideias de saber, verdade e desejo, porque seguimos apostando no la\u00e7o de amor transferencial? O amor de transfer\u00eancia pode ser uma ferramenta que orienta o analista no real sem lei de nossa \u00e9poca? Da mesma forma, quando em uma an\u00e1lise, o amor transferencial cede espa\u00e7o \u00e0 transfer\u00eancia negativa, produzindo uma dessuposi\u00e7\u00e3o de saber do analisante ao analista, esse amor pode ser reeditado, e por qu\u00ea?<\/p>\n<p>S\u00e3o quest\u00f5es que me colocaram a trabalho nesse cartel, cujas respostas foram surgindo deixando-me guiar pelos textos de Lacan, desde o trabalho que ele faz em torno do \u201cBanquete\u201d de Plat\u00e3o (1). O que primeiramente surgiu como pergunta, passou a ser o eixo da pesquisa: a transfer\u00eancia \u00e9 uma forma de atar o amor ao real. J. A. Miller, em seu texto \u201cCST\u201d (2) diz que no come\u00e7o de uma an\u00e1lise est\u00e1 a transfer\u00eancia, n\u00e3o a demanda de an\u00e1lise. Est\u00e1 a pr\u00e9-interpreta\u00e7\u00e3o que o analisante d\u00e1 de seu sintoma e o chamado ao SsS que possa dar conta do sem sentido que se produziu pelo encontro com o real para este sujeito. De in\u00edcio h\u00e1, portanto, o amor.<\/p>\n<p>Se no \u201cBanquete\u201d, Lacan introduz a quest\u00e3o do amor de transfer\u00eancia como um fen\u00f4meno inconsciente que aponta para a busca do objeto do desejo no objeto amado, instaurando a falta que \u00e9 pr\u00f3pria do desejo e a significa\u00e7\u00e3o do amor, a\u00ed mesmo Lacan j\u00e1 assinala que no fen\u00f4meno amoroso, cada passo que se d\u00e1 esbarra-se na discord\u00e2ncia, refletindo a\u00ed uma topologia fundamental do amor. O pr\u00f3prio Banquete j\u00e1 exibia os embara\u00e7os e dificuldades presentes quando cada comensal tentava sustentar a ideia do amor.<\/p>\n<p>O amor \u00e9 um ponto de suspens\u00e3o da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. A partir daquilo que n\u00e3o para de n\u00e3o se inscrever, o fen\u00f4meno amoroso faz parar. Esse encontro contingencial, que sabemos ser sempre faltoso, \u00e9 reeditado na an\u00e1lise e sua repeti\u00e7\u00e3o aponta para uma face outra da transfer\u00eancia, enraizada no significante da transfer\u00eancia, os modos de gozo do sujeito.<\/p>\n<p>Assim, para buscar o amor nos fen\u00f4menos transferenciais \u00e9 preciso adentrar nos paradoxos do gozo. \u00c9 preciso n\u00e3o situ\u00e1-lo na defini\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e narc\u00edsica do amor e t\u00e3o pouco na identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, como mera reedi\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o significante, pois ambos fracassam em resolver o problema do gozo. Interpretar a transfer\u00eancia imagin\u00e1ria, como um obst\u00e1culo \u00e9 um \u201cerro de rota\u201d na cl\u00ednica anal\u00edtica, que pouco ou nada contribui para a dire\u00e7\u00e3o do tratamento.<\/p>\n<p>O campo da transfer\u00eancia que nos interessa pode ser adentrado se distinguimos no amor duas facetas da remiss\u00e3o ao Outro, uma simb\u00f3lica\/imagin\u00e1ria, como falamos acima e a outra real, representada pela barradura do Outro. \u00c9 o Outro que indica os caminhos do gozo para um sujeito, pois, por meio da barra que recai sobre ele, o objeto a, que particulariza o gozo de cada um, surge e vem com isso preencher essa falta. \u00c9 portanto a inven\u00e7\u00e3o de cada um, que \u00e9 feita no n\u00edvel do objeto a, que confere ao amor transferencial o estatuto de novo do amor, aparecendo a\u00ed como uma solu\u00e7\u00e3o para o vazio do Outro e para o real da n\u00e3o exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>\u201cCada vez que tem propriamente amor, podemos buscar a presen\u00e7a, a inst\u00e2ncia do Outro barrado (A\/), ou seja, privado do que d\u00e1\u201d(3) Isso situa, segundo Miller,\u00a0 o amor lacaniano, em contraposi\u00e7\u00e3o ao amor freudiano, do lado da inven\u00e7\u00e3o. \u201c[\u2026] A boa nova lacaniana \u00e9 que existem novos amores poss\u00edveis\u201d (4). O amor como inven\u00e7\u00e3o \u00e9 portanto uma quest\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica, um modo de dirigir-se ao objeto a partir do Outro do significante, num esfor\u00e7o de dar um nome pr\u00f3prio a esse a. Numa an\u00e1lise, \u00e9 preciso procurar \u201cpor onde vai o gozo, por onde ele vai na ordem social, no v\u00ednculo social que, em nome do amor, em nome do interesse da humanidade ou da na\u00e7\u00e3o ou da seita, comanda o sacrif\u00edcio do gozo pulsional, aonde vai o mais-de-gozar, o qual \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o pol\u00edtica\u201d e \u00e9tica.(5)<\/p>\n<p>Ser\u00e1 assim que o amor de transfer\u00eancia pode ser uma ferramenta que orienta o analista no real sem lei de nossa \u00e9poca? Ser\u00e1 assim tamb\u00e9m que ele pode ser reeditado na an\u00e1lise, via ato do analista, transformando-se numa potente ferramenta que faz frente \u00e0 rotina do significante? Se no final da an\u00e1lise se descobre que o Outro \u00e9 barrado, quer dizer, que n\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro, isso significa inventar uma forma de amor que v\u00e1 al\u00e9m da repeti\u00e7\u00e3o, preservando a conting\u00eancia do encontro do o objeto a no campo de um Outro que se sabe barrado.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>Lacan, Jacques. Semin\u00e1rio 8. A transfer\u00eancia.<\/h6>\n<h6>Miller, Jacques Alain. Confer\u00eancias porte\u00f1as. Tomo 2. p. 24.<\/h6>\n<h6>Idem pag. 26<\/h6>\n<h6>Idem p\u00e1g. 27<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Integrantes: Eneida Medeiros Santos (Mais-Um); Rafaela Maester e Ver\u00f4nica Montenegro. Eneida Medeiros Santos (EBP\/AMP) O amor est\u00e1 ligado ao saber. Dirige-se ao Outro, interrogando-o sobre o que ele pode nos dar e o que ele tem para nos responder. 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