{"id":3595,"date":"2022-06-27T10:46:05","date_gmt":"2022-06-27T13:46:05","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3595"},"modified":"2022-06-27T10:46:05","modified_gmt":"2022-06-27T13:46:05","slug":"desejo-do-analista-e-o-analista-que-deseja-entre-lacos-e-desen-lacos1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/desejo-do-analista-e-o-analista-que-deseja-entre-lacos-e-desen-lacos1\/","title":{"rendered":"Desejo do analista e o analista que deseja: entre-la\u00e7os e desen-la\u00e7os[1]"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Ver\u00f4nica Paola Montenegro<\/strong><\/h6>\n<p>Percorrer os caminhos que a quest\u00e3o do cartel provoca, me parece uma travessia sem igual, pois o trabalho de contornar o saber a partir da teoria n\u00e3o aponta a um esgotamento da quest\u00e3o, embora a neurose puxe para l\u00e1, e o produto do cartel \u00e9 a chave de ouro desse furo que insiste. Mergulhar na constru\u00e7\u00e3o deste resto foi a demonstra\u00e7\u00e3o viva do desafio que conseguir sustentar o furo do saber como causa pode vir a ser. Para fazer esta travessia, precisei encarar uma frase que n\u00e3o deixava de insistir: o desejo do analista n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que o analista desejar alguma coisa. Essa frase surge depois de ter ouvido, em diferentes espa\u00e7os, alguns equ\u00edvocos a respeito da confus\u00e3o que pode produzir a contra\u00e7\u00e3o \u201cdo\u201d analista, que parece referir-se a que o desejo \u00e9 do sujeito que ocupa o lugar de analista. O que tamb\u00e9m me fez pensar que o equ\u00edvoco poderia ter algum sustento, pois, se o desejo do analista \u201cn\u00e3o \u00e9 um desejo puro\u201d (LACAN, 2010, p. 284), poderia haver restos desse sujeito que se confundiriam na opera\u00e7\u00e3o que implica o desejo do analista.<\/p>\n<p>J\u00e1 advertia Lacan (1992) que o inconsciente n\u00e3o \u00e9 reduzido a zero, que o analista nunca \u00e9 completamente analista por estar atravessado pelos mecanismos imagin\u00e1rios que obstaculizam o deslocamento da palavra (2009), ou tamb\u00e9m que n\u00e3o se trata de o analista ocupar um lugar de ideal estoico, insens\u00edvel \u00e0s emo\u00e7\u00f5es, pois o analista se afeta (1992). A quest\u00e3o \u00e9: do que e por que se afeta, e o que far\u00e1 com essa afeta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Se o analista opera a partir daquilo que, como sujeito, \u00e9 afetado, haveria uma confus\u00e3o entre a posi\u00e7\u00e3o do analista e a do analisante. Uma advert\u00eancia que faz Miller (2012) \u00e9 que as duas posi\u00e7\u00f5es devem manter-se separadas, por um lado como sujeito analisante e, por outro, a sua posi\u00e7\u00e3o como analista, pois sen\u00e3o o desejo do analista viraria uma an\u00e1lise da contratransfer\u00eancia. Para trabalhar nas diferen\u00e7as dessas duas posi\u00e7\u00f5es, \u00e9 indispens\u00e1vel sustentar o trabalho do trip\u00e9 anal\u00edtico; isso, por\u00e9m, n\u00e3o simplifica a dificuldade do analista de separar o seu ser do seu sintoma. Ele n\u00e3o opera a partir dele, o que sup\u00f5e uma separa\u00e7\u00e3o da sua posi\u00e7\u00e3o de gozo, mas a complexidade dessa separa\u00e7\u00e3o demanda um \u201cesfor\u00e7o que jamais termina, implica um certo trabalho e vigil\u00e2ncia cont\u00ednua\u201d, diz Brousse (2001, p. 98).<\/p>\n<p>Leda Guimar\u00e3es (2002) explica a necessidade de se fazer uma distin\u00e7\u00e3o conceitual do desejo do analista, j\u00e1 que ele n\u00e3o possui uma defini\u00e7\u00e3o un\u00edvoca no ensino de Lacan. A diferen\u00e7a est\u00e1, por um lado, em tomar o desejo do analista como uma fun\u00e7\u00e3o diretiva da an\u00e1lise e, por outro, em pens\u00e1-lo como um desejo in\u00e9dito, que emerge, no final da sua an\u00e1lise, na passagem de analisante a analista.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o te\u00f3rica permite contornar uma quest\u00e3o que insiste: se o analista \u00e9 produto da sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, se o desejo como in\u00e9dito surgir\u00e1 no seu final, o que faz o praticante enquanto isso? Como sustentar o desejo do analista que opera na dire\u00e7\u00e3o das curas da sua cl\u00ednica? Como operar a partir do desejo do analista como fun\u00e7\u00e3o, enquanto se percorre o caminho at\u00e9 o desejo como in\u00e9dito?<\/p>\n<p>Na tentativa de contornar, mas sem responder, a pesquisa do cartel me permitiu pensar na possibilidade de que exista um movimento de entre-la\u00e7os e desen-la\u00e7os que se d\u00e1 no sustento da fun\u00e7\u00e3o, um movimento que vai entre o analista que deseja e o desejo do analista que opera, ou, dito de outro modo, entre o ser do analista e o des-ser do desejo do analista.<\/p>\n<p>Quanto ao movimento que se produz nesse espa\u00e7o de \u201centre\u201d, poder\u00edamos pensar que se trata de uma trama que se enla\u00e7a e se desenla\u00e7a \u00e0 fantasia do praticante. \u00c9 inevit\u00e1vel que, ao longo do percurso, algo dessa trama aperte e ent\u00e3o escape, mas a advert\u00eancia do praticante possibilita o uso disso que escapa para percorrer o trip\u00e9. Ent\u00e3o, o movimento contingente da trama fantasm\u00e1tica nesse espa\u00e7o de \u201centre\u201d, junto com a posi\u00e7\u00e3o que o praticante toma perante este, decantaria um lugar poss\u00edvel que se desenla\u00e7a da fantasia, suspendendo-a, e permitiria a opera\u00e7\u00e3o do desejo do analista enquanto fun\u00e7\u00e3o, enquanto vazio necess\u00e1rio, para que seja o analisante quem te\u00e7a nele a sua pr\u00f3pria trama.<\/p>\n<p>O desejo in\u00e9dito que emerge no final \u00e9 produzido por uma muta\u00e7\u00e3o subjetiva da posi\u00e7\u00e3o de gozo do praticante; desenla\u00e7ar essa trama de gozo exige um percurso, que ir\u00e1 desde a patologia neur\u00f3tica que est\u00e1 no fundamento do desejo de ser analista (a voca\u00e7\u00e3o de curar, de ajudar, de compreender) at\u00e9 o tra\u00e7o singular que suscitar\u00e1 a passagem de analisante a analista. Mas esse movimento de \u201cdesde\u201d a \u201cat\u00e9\u201d \u00e9 uma travessia de um vai e vem. O desejo do analista n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que o sujeito do analista desejar alguma coisa, do mesmo modo que \u201co desejo do analista n\u00e3o \u00e9 o desejo de ser analista\u201d, por\u00e9m \u201cde um ao outro h\u00e1 ruptura, enredo, zigue-zague\u201d (MILLER, 2012, s\/p) de entre-la\u00e7os e des-en-la\u00e7os, um movimento singular de de-forma\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 ao longo do percurso anal\u00edtico, na sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, mas tamb\u00e9m a cada sess\u00e3o da sua pr\u00e1tica, a cada escuta, com cada analisante.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Bibliograf\u00eda:<\/strong><\/h6>\n<h6>BROUSSE, M.-H. \u00bfC\u00f3mo opera el psicoan\u00e1lisis? Seminario internacional del campo freudiano, Guayaquil, jul. 2001.<\/h6>\n<h6>GUIMAR\u00c3ES, L. Um desejo in\u00e9dito. \u00bfOrnicar? digital, Paris, n. 208, 2002. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/wapol.org\/ornicar\/articles\/208gui.htm\/&gt;. Acesso em: 16 out. 21.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Livro 8: Transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Seminario 3: Las psicosis. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2009.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Seminario 11: Los cuatro conceptos fundamentales del psicoan\u00e1lisis. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Consideraciones sobre los fundamentos neur\u00f3ticos del deseo del analista. Freudiana, Barcelona, n. 63, 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/freudiana.com\/consideraciones-sobre-los-fundamentos-neuroticos-del-deseo-del-analista\/&gt;. Acesso em: 16 out. 2021.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. C\u00f3mo se deviene psicoanalista en el siglo XXI. Nueva escuela lacaniana de psicoan\u00e1lisis\/NEL-Bogot\u00e1, 13 out. 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/nelbogota.blogspot.com\/2012\/10\/jacques-alain-miller-les-entregue2-este_9599.html&gt;. Acesso em: 15 out. 2021.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Embora \u2018desenlace\u2019 tenha como primeira acep\u00e7\u00e3o \u2018desenla\u00e7amento\u2019 (ant\u00f4nimo de \u2018la\u00e7o\u2019), possui tamb\u00e9m o significado de \u2018conclus\u00e3o\u2019, \u2018desfecho\u2019; por isso, proponho o neologismo \u2018desen-la\u00e7os\u2019 para pensar uma trama que possui la\u00e7os mais ajustados quando a patologia neur\u00f3tica aperta, mas em que o movimento singular do percurso produziria desen-la\u00e7os, at\u00e9 restarem alguns la\u00e7os sintom\u00e1ticos incur\u00e1veis que sustentar\u00e3o o fundamento do desejo do analista.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ver\u00f4nica Paola Montenegro Percorrer os caminhos que a quest\u00e3o do cartel provoca, me parece uma travessia sem igual, pois o trabalho de contornar o saber a partir da teoria n\u00e3o aponta a um esgotamento da quest\u00e3o, embora a neurose puxe para l\u00e1, e o produto do cartel \u00e9 a chave de ouro desse furo que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3595","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-de-carteis-fev-22","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3595"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3595\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3595"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}