{"id":3593,"date":"2022-06-27T10:44:59","date_gmt":"2022-06-27T13:44:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3593"},"modified":"2022-06-27T10:44:59","modified_gmt":"2022-06-27T13:44:59","slug":"cartel-um-analista-se-vira-com-o-que-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/cartel-um-analista-se-vira-com-o-que-2\/","title":{"rendered":"Notas sobre exterioridade \u00edntima e a posi\u00e7\u00e3o do analista"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Adriana Rodrigues (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>O in\u00edcio da pr\u00e1tica cl\u00ednica. Foi assim que recebi o instigante convite para participar como Mais Um desse cartel. Os debates estavam atravessados pelas quest\u00f5es sobre a autoriza\u00e7\u00e3o do analista, manejo da associa\u00e7\u00e3o livre, transfer\u00eancia, travessia da fantasia, tempo l\u00f3gico, a rela\u00e7\u00e3o com o saber-n\u00e3o saber, a escuta, a \u00e9tica em psican\u00e1lise, a posi\u00e7\u00e3o do analista. Tempo marcado pelo trabalho em torno do que seriam as particularidades do in\u00edcio da pr\u00e1tica cl\u00ednica. A virada veio quando uma das cartelizantes elaborou e verbalizou um impasse que era dela, mas que atravessava todo o cartel, com a seguinte frase: \u201ccada paciente novo \u00e9 um in\u00edcio de cl\u00ednica pra mim\u201d. A partir da\u00ed, de forma muito contingencial e sutil, passou-se para um segundo tempo e foi poss\u00edvel nomear o cartel com uma pergunta: \u201cum analista se vira com o qu\u00ea?\u201d. O verbo \u201cvirar\u201d, surgiu trazendo o sentido de \u201cmanejo\u201d, mas destacando tamb\u00e9m um ponto de virada localizado no desejo e possibilidade de assumir a fun\u00e7\u00e3o de praticante da psican\u00e1lise. A pergunta como t\u00edtulo \u2013 um tanto irreverente \u2013 condensou tamb\u00e9m um tra\u00e7o particular desse cartel: encontros marcados por perguntas cir\u00fargicas sobre os fundamentos da pr\u00e1tica cl\u00ednica, que me ficavam ecoando ao longo dos dias seguintes, abrindo \u201cburacos na cabe\u00e7a\u201d, citando Miller (1968) ao descrever sobre o efeito de forma\u00e7\u00e3o esperado e, em alguns momentos, produzido por um cartel.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos as leituras pelo texto inaugural do primeiro ensino de Lacan \u2013 Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem (LACAN, 1953). E ali fui capturada por um trecho de uma frase muito conhecida, justamente porque nela Lacan faz a famosa convoca\u00e7\u00e3o para que o analista esteja \u00e0 altura da subjetividade da sua \u00e9poca, e me tocou especificamente no seguinte ponto: &#8220;como poderia\u00a0fazer de seu ser\u00a0o\u00a0eixo de tantas vidas\u00a0quem nada soubesse da dial\u00e9tica que o compromete com essas\u00a0vidas\u00a0num movimento simb\u00f3lico. [?]&#8221; (p. 322). Na \u00e9poca eu estava \u00e0s voltas com uma pontua\u00e7\u00e3o feita em supervis\u00e3o sobre o analista na posi\u00e7\u00e3o de extimidade, e me interessou pesquisar o que Lacan quis dizer com \u201cseu ser\u201d, referindo-se ao analista. Evidentemente n\u00e3o se trata do ser como sujeito, mas enquanto fun\u00e7\u00e3o. Miller (2020) afirma que desde este primeiro texto at\u00e9 o final do primeiro ensino, Lacan trabalha com a perspectiva de que o desejo constitui, vai forjando, o ser do sujeito. Miller avan\u00e7a um pouco mais e prop\u00f5e a defini\u00e7\u00e3o de que\u00a0o ser, \u00e9 o desejo. Extraio da\u00ed o entendimento de que o ser do analista \u00e9 o desejo do analista.<\/p>\n<p>Sabemos que \u00e9 o desejo o que sustenta o trabalho cont\u00ednuo de forma\u00e7\u00e3o, como Lacan aponta no mesmo trecho: \u201ca obra do psicanalista [&#8230;] exige uma longa ascese subjetiva, e que jamais ser\u00e1 interrompida, n\u00e3o sendo o fim da pr\u00f3pria an\u00e1lise did\u00e1tica separ\u00e1vel do engajamento do sujeito em sua pr\u00e1tica\u201d. (LACAN, 1953, p. 322).<\/p>\n<p>Esse ponto do insepar\u00e1vel (para al\u00e9m de uma discuss\u00e3o com a IPA sobre a an\u00e1lise did\u00e1tica) aparece tamb\u00e9m na segunda parte da frase onde Lacan enfatiza a necessidade de um saber sobre a \u201cdial\u00e9tica que compromete [o analista] com essas\u00a0vidas\u00a0num movimento simb\u00f3lico\u201d, como condi\u00e7\u00e3o (insepar\u00e1vel) para se propor a operar desde este lugar. Argumento que faz lembrar Freud ao afirmar que \u201ca psicologia individual \u00e9 tamb\u00e9m, desde o in\u00edcio, psicologia social\u201d (1921, p. 14). Lacan convoca aqui o analista a sair do conforto do mais \u00edntimo, para o confronto, em certa medida, com o mais exterior, os outros discursos, as outras cenas que atravessam o sujeito, a fim de n\u00e3o ser arrastado pela espiral de sua \u00e9poca (LACAN, 1953). Assim, o desejo que sustenta a \u201cobra\u201d, no sentido laborioso do trabalho ininterrupto da forma\u00e7\u00e3o do analista, vai se tecendo na complexidade desses meandros \u2013 tanto na condi\u00e7\u00e3o de analisante, como de analista \u2013 tateando os extremos dum continuum, que Lacan nomeou extimidade.<\/p>\n<p>O neologismo foi criado a partir do jogo entre as palavras francesas \u201cintimit\u00e9\u201d e \u201cext\u00e9rieur\u201d, resultando na contra\u00e7\u00e3o \u201cextimit\u00e9\u201d \u2013 inicialmente para dizer do inconsciente em sua condi\u00e7\u00e3o de \u201cexterioridade \u00edntima\u201d (LACAN,1959-1960, p. 173). Mas para al\u00e9m de dizer do inconsciente, ou da condi\u00e7\u00e3o de analisante, o neologismo lacaniano localiza tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o do analista, que apesar de ocupar um suposto lugar de intimidade, fica fora da cena, embora n\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o a intimidade ou numa condi\u00e7\u00e3o de exterioridade pura. Segundo Miller, \u201co termo extimidade se constr\u00f3i sobre a intimidade. N\u00e3o \u00e9 seu contr\u00e1rio, porque o \u00eaxtimo \u00e9 precisamente o \u00edntimo, inclusive o mais \u00edntimo\u201d. (2010, p. 14). A complexa l\u00f3gica da extimidade permite ir al\u00e9m das formas bin\u00e1rias de pensamento para evidenciar nesse tr\u00e2nsito moebiano justamente o que vacila entre uma posi\u00e7\u00e3o e outra. Trata-se de localizar nisso que vacila, ou neste ponto de tens\u00e3o, uma aposta de que possa se produzir ali uma tor\u00e7\u00e3o. \u00c9 da posi\u00e7\u00e3o de extimidade que \u201cse vira\u201d um analista no consult\u00f3rio, num cartel ou na cidade?<\/p>\n<p>Nas minhas primeiras anota\u00e7\u00f5es sobre o que escutei nesse cartel escrevi: \u201cme parece que as quest\u00f5es se constituem numa perspectiva cl\u00ednico-pol\u00edtica\u201d. Agora, ao fim desse pequeno percurso, tiraria o h\u00edfen e abriria quest\u00f5es ou tens\u00f5es sobre essas diferen\u00e7as, sem demasiadas ideias de grandeza, como disse Miller: \u201cO ser do analista \u00e9 isto: um instrumento, nada mais que isso, \u00e9 algo que algu\u00e9m toma e se analisa com esse instrumento. E nossa arte \u00e9 saber nos prestarmos a isso, sem demasiadas ideias de grandeza\u201d. (MILLER, 2008, p. 79). Sem muitas idealiza\u00e7\u00f5es, mas sem perder de vista a perspectiva do novo como efeito de surpresa e de atualiza\u00e7\u00e3o do desejo do analista, afinal \u201ccada paciente novo \u00e9 um in\u00edcio de cl\u00ednica\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Psicologia de massas e an\u00e1lise do eu [1921]. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. [1953]. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>______. O semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise [1959-1960].\u00a0 Rio de Janeiro: Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>MILLER. Cinco varia\u00e7\u00f5es sobre o tema da elabora\u00e7\u00e3o provocada. In: Gimenez, Stella (org). O cartel: conceito e funcionamento na Escola de Lacan. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1986.<\/h6>\n<h6>______. Efeitos terap\u00eauticos r\u00e1pidos em Psican\u00e1lise: conversa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica com Jacques-Alain Miller em Barcelona. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2008.<\/h6>\n<h6>______. Exitimidad. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6>_______. O ser, \u00e9 o desejo. Texto de orienta\u00e7\u00e3o ao XII Congresso da AMP. 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=textos-de-orientacion&amp;file=el-tema\/textos-de-orientacion\/el-ser-es-el-deseo.html\">https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=textos-de-orientacion&amp;file=el-tema\/textos-de-orientacion\/el-ser-es-el-deseo.html<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriana Rodrigues (EBP\/AMP) O in\u00edcio da pr\u00e1tica cl\u00ednica. Foi assim que recebi o instigante convite para participar como Mais Um desse cartel. 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