{"id":3433,"date":"2021-12-22T16:44:18","date_gmt":"2021-12-22T19:44:18","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3433"},"modified":"2021-12-22T16:44:18","modified_gmt":"2021-12-22T19:44:18","slug":"para-um-comeco-de-conversa-sobre-as-loucuras-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/para-um-comeco-de-conversa-sobre-as-loucuras-de-amor\/","title":{"rendered":"Para um come\u00e7o de conversa&#8230; sobre as loucuras de amor"},"content":{"rendered":"<h6>Por Diego Cervelin<\/h6>\n<figure id=\"attachment_3434\" aria-describedby=\"caption-attachment-3434\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3434 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/mdu002_002-300x251.png\" alt=\"La Mer \u2013 Henry Moore\" width=\"300\" height=\"251\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3434\" class=\"wp-caption-text\">La Mer \u2013 Henry Moore<\/figcaption><\/figure>\n<p>Vou apresentar este texto em torno de alguns aspectos, algumas quest\u00f5es que foram surgindo no decorrer das reuni\u00f5es do nosso GT sobre \u201cAs loucuras de amor\u201d. Para isso, tamb\u00e9m vou me remeter \u00e0s observa\u00e7\u00f5es feitas pelo Oscar Ventura no texto \u201cO Amor. sempre Outro\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, que, em 2020, fez parte da <em>24<sup>a<\/sup> Jornada da EBP \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas<\/em>, em torno das muta\u00e7\u00f5es do la\u00e7o social e do novo nas parcerias. Ali\u00e1s, esse texto de Oscar Ventura j\u00e1 come\u00e7a com um t\u00edtulo bastante curioso: n\u00e3o s\u00f3 porque ele apresenta \u201camor\u201d e \u201coutro\u201d com mai\u00fascula, mas porque ele tamb\u00e9m n\u00e3o respeita as normas da pontua\u00e7\u00e3o, deixando \u201csempre\u201d em min\u00fascula. Esse t\u00edtulo assim t\u00e3o diferente me parece se concentrar de maneira bem especial sobre aquilo que nos toca nas experi\u00eancias de amor: as vicissitudes discursivas, ligadas ao grande Outro, aos arranjos e desarranjos entre falta e desejo; mas, al\u00e9m disso, as implica\u00e7\u00f5es no gozo e at\u00e9 mesmo naquele gozo \u2013 gozo do Um \u2013 que, inscrito numa dimens\u00e3o t\u00e3o basilar da vida pulsional, \u00e9 Outro inclusive ao significante, ressoando baixinho, mas com for\u00e7a suficiente para fazer ru\u00eddo entre os ditos e, assim, produzir equ\u00edvocos.<\/p>\n<p>Esse \u201csempre Outro\u201d, por si s\u00f3&#8230; j\u00e1 n\u00e3o nos permitiria considerar que, quando falamos de amor \u2013 mas de amor como um la\u00e7o entre falasseres \u2013 tamb\u00e9m nos colocamos em um terreno que nenhum ideal d\u00e1 conta de realizar e que n\u00e3o est\u00e1 totalmente definido pelas regras, nem pelas repeti\u00e7\u00f5es? Sem ser necessariamente transgressivo, esse terreno n\u00e3o poderia se mostrar f\u00e9rtil para aquilo que vem por conting\u00eancia? J\u00e1 temos not\u00edcias de que at\u00e9 mesmo uma das \u00faltimas inven\u00e7\u00f5es do mercado financeiro \u2013 e falo do <em>PIX <\/em>\u2013 deixou de ser apenas uma forma de envio r\u00e1pido de dinheiro para se transformar em meio de paquera. Bom, talvez isso n\u00e3o baste: pode ser que isso n\u00e3o ressoe no outro; pode ser que isso n\u00e3o engendre um querer saber sobre aquilo que, do encontro, se escreve. Mas, de repente, por que n\u00e3o tentar?<\/p>\n<p>Oscar Ventura pontua que, na repeti\u00e7\u00e3o, h\u00e1 \u201cuma tentativa, sempre falha, de outra coisa [de tal sorte que uma] experi\u00eancia anal\u00edtica n\u00e3o deixa de ser uma m\u00e1quina de explorar os limites da repeti\u00e7\u00e3o no que concerne ao amor\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Diante disso, Lacan foi al\u00e9m de Freud ao considerar um amor n\u00e3o mais condicionado pela l\u00f3gica da complementaridade que viceja na fantasia, mas que, como inven\u00e7\u00e3o e descompletando as significa\u00e7\u00f5es, poderia acolher algo do acontecimento de corpo sem ter que necessariamente anular as diferen\u00e7as entre gozo do outro e gozo do Um<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Diferente daquele amor condicionado pela fantasia, haveria um amor com condi\u00e7\u00f5es, portanto; um amor que \u201csabe quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e leva em conta as do outro\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Nesse ponto, Oscar Ventura acrescenta uma ressalva que me parece de maior import\u00e2ncia, ou seja, que \u201cn\u00e3o conv\u00e9m [&#8230;] escrever as inven\u00e7\u00f5es no campo do ideal [&#8230;] \u00e9 necess\u00e1ria uma disjun\u00e7\u00e3o entre inven\u00e7\u00e3o e ideal para dar um alcance poss\u00edvel a esse pequeno detalhe de cada um que possa oferecer-nos, afinal, a possibilidade de algo novo\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Isso, no entanto, nos coloca diante de uma dificuldade extra que talvez n\u00e3o esteja restrita ao horizonte do <em>novo amor<\/em> do final de an\u00e1lise, mas que tamb\u00e9m pode incidir sobre aquilo que \u00e9 <em>novo no amor<\/em> em nossos tempos. Nesse sentido, se, por um lado, j\u00e1 contamos com amostras bem palp\u00e1veis de que, no dom\u00ednio do discurso capitalista, h\u00e1 uma forclus\u00e3o do amor; por outro, podemos perceber que os ideais n\u00e3o s\u00f3 se multiplicam ao ponto de se transformarem em moeda falsa como eles tamb\u00e9m se revestem de uma carga que, \u00e0s vezes, se inscreve com for\u00e7a de imperativo insensato e obsceno. Ao mesmo tempo, na medida em que consideramos essa fragiliza\u00e7\u00e3o das antigas f\u00f3rmulas da narrativa amorosa, seja pela pluraliza\u00e7\u00e3o dos nomes-do-pai, seja pela ascens\u00e3o do objeto <em>a<\/em> ao z\u00eanite do social, tampouco parece vi\u00e1vel ou novidadeiro refugiar-se na nostalgia dos ideais de outros tempos e muito menos numa aposta do retorno deles, ainda mais porque isso, muito facilmente, se materializa como um recha\u00e7o violento \u2013 e em nada menos insensato e obsceno \u2013 daquilo que diz respeito ao n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p>Por outro lado, justamente quando as labaredas se espalham por todos os cantos, parecem se tornar cada vez mais importantes aqueles momentos em que algo do gozo do Um aponta para um imposs\u00edvel de dizer. Afinal, mesmo quando ele inquieta e estranha os sujeitos, mesmo quando ele irrompe e at\u00e9 transborda se atravessando na vida dos Uns e dos tantos outros, n\u00e3o resistiria exatamente a\u00ed nesse imposs\u00edvel uma capacidade de localiza\u00e7\u00e3o e inclusive de orienta\u00e7\u00e3o que nenhum ideal, novo ou velho, jamais ser\u00e1 capaz de descortinar? Ou melhor, sem solapar esse acontecimento na nega\u00e7\u00e3o do mal-estar ou no interesse pela sua decifra\u00e7\u00e3o final, n\u00e3o seria ainda mais importante dar-se conta de que esse gozo t\u00e3o singular pode adquirir um valor de uso que, at\u00e9 ent\u00e3o, havia sido totalmente ignorado? Em outras palavras, por mais prec\u00e1rio e basilar que isso seja, n\u00e3o se configuraria justamente a\u00ed um modo para \u2013 quem sabe \u2013, no meio das labaredas, n\u00e3o morrer demais? Ali\u00e1s, n\u00e3o morrer demais j\u00e1 faria muita diferen\u00e7a, especialmente se consideramos que, de acordo com Oscar Ventura, \u201cuma das formas poss\u00edveis de nomear o amor mais digno nesta \u00e9poca [&#8230;] \u00e9 aquele que possa sintomatizar-se de tal maneira que permita n\u00e3o fazer do gozo pura obscenidade\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> VENTURA, Oscar. O Amor. sempre Outro. In: ALVARENGA, Elisa; MAC\u00caDO, Luc\u00edola (Orgs). <em>Muta\u00e7\u00f5es do la\u00e7o social. O novo nas parcerias. <\/em>Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2021, pp. 47-66.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibidem, p. 49.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cf. Ibidem, pp. 62-63: \u201cQuando as identifica\u00e7\u00f5es alojadas no Outro se evaporam, constata-se um efeito que concerne a uma modifica\u00e7\u00e3o profunda do amor e do la\u00e7o social em geral. Torna-o mais frouxo sem d\u00favida, pois a satisfa\u00e7\u00e3o tem a possibilidade de n\u00e3o ficar fixada ao \u00f3dio. Quero dizer que o la\u00e7o social que se funda a partir da dilui\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es implica um reconhecimento radical da alteridade do Outro. O gozo do outro n\u00e3o \u00e9 o gozo do Um. E esta diferen\u00e7a permite tomar a dist\u00e2ncia suficiente do Outro para que a diferen\u00e7a opere como o registro fundamental em que o la\u00e7o social se sustenta. Podemos construir a partir daqui uma vers\u00e3o muito distinta do que \u00e9 o comum. O comum tem a possibilidade de organizar-se a partir de um comum de solid\u00f5es\u201d.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ibidem, p. 52.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibidem, pp. 54-55.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ibidem, pp. 52-53.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Diego Cervelin Vou apresentar este texto em torno de alguns aspectos, algumas quest\u00f5es que foram surgindo no decorrer das reuni\u00f5es do nosso GT sobre \u201cAs loucuras de amor\u201d. 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